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A eminência parda

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  “Éminence Grise” (1873), de Jean-Léon Gérôme.   A eminência parda é o capuchinho que segue indiferente aos cortesãos que à sua passagem se curvam. Trata-se de François Leclerc du Tremblay, o importante conselheiro do Cardeal Richelieu. N’Os Três Mosqueteiros (1844), Alexandre Dumas pai descreve assim o temor provocado por Tremblay: mais son nom à lui n’était jamais prononcé que tout bas, tant était grande la terreur qu’inspirait l’éminence grise, comme on appelait le familier du cardinal.   “Eminência parda” tornou-se sinónimo de alguém que se move nos bastidores, de poucas e graves palavras. No fundo, um conselheiro de grande influência na sombra do poder visível. 

Como sobreviver à confusão das narrativas

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(também publicado no Substack ) Quantas vezes já nos aconteceu pegar no telemóvel para fazer uma tarefa e, distraídos por outras notificações, esquecemo-nos daquilo que íamos fazer? Passado um pouco, guardamos o telemóvel sem lembrar o propósito original de o ter ido buscar. O permanente estado de distracção faz parte do nosso dia-a-dia. A informação não é um bem escasso: há muita, cada vez mais, e pode ser detida por muita gente ao mesmo tempo. O que é um bem escasso – e por isso tem valor económico – é a nossa atenção. E o valor económico deste bem escasso não corresponde necessariamente ao valor moral que tem a boa informação. Aliás, a boa informação tende a ocupar um espaço cada vez mais reduzido da nossa atenção. Este é um dos dramas do nosso tempo: a tabloidização das notícias compensa, os escândalos dão mais cliques do que os acordos, o insulto vale mais do que o elogio, e os produtos que consumimos nas redes geram em nós sentimentos de revolta, de ira e de injustiça.   ...

Obrigado, Ciganos!

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(também publicado no  Ingovernáveis ) “Então vais escrever um artigo a defender os ciganos? Não te metas nisso!” Pessoas próximas avisam-me, mesmo sabendo que um aviso destes costuma ser incentivo para eu avançar. Mostrei a alguém só este título, de resposta recebi uma exclamação: “que exagero!”. Avanço com ainda mais motivação, mas aviso desde já que o texto não vai ser curto. Dado o assunto em causa, sou apenas forçado a fazer um pequeno preâmbulo, e aproveito esta publicação para não ter de o fazer mais vezes. Preâmbulo: a lei é igual para todos, todos somos iguais diante da lei e a lei deve ser aplicada indiscriminadamente. “Ah, mas há problemas na comunidade cigana” – certo, mas há problemas em todas as comunidades, incluindo Portugal enquanto comunidade. Quem já estudou ou trabalhou na Europa Central e do Norte sabe como podem ser vistos os portugueses – e por vezes basta apenas lá passar de visita. Não é só o então presidente do Eurogrupo Dijsselbloem a dizer que os portugue...

Uma História de Espanha - Arturo Pérez-Reverte

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(originalmente publicado no Ingovernáveis )   Autor: Arturo Pérez-Reverte Livro: Una Historia de España Editora: Alfaguara, ano de 2019, 246 páginas (há uma edição portuguesa da  ASA , de 2020)     Arturo Pérez-Reverte (Cartagena, 1951) é membro da Real Academia Española mas também um dos mais lidos e populares autores espanhóis. Escreveu “Las aventuras del capitán Alatriste”, célebres enredos de capa e espada que se passam no século XVII e deram origem ao filme “Alatriste” (2006) com o fantástico Viggo Mortensen no papel de herói. Antes do sucesso literário, Pérez-Reverte viu e viveu muito como correspondente de guerra durante 21 anos (1973-1994) no Chipre, no Líbano, na Eritreia, no Saara, nas Falkland, em El Salvador, na Nicarágua, no Chade, na Líbia, no Sudão, em Moçambique, em Angola, no Golfo Pérsico, na Croácia e na Bósnia.   Não é o primeiro escritor a quem a guerra deu um olhar privilegiado sobre a condição humana – vêm-nos logo à memória ...

Margaret Thatcher e o apartheid

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(publicado originalmente no Ingovernáveis )   “The Crown” foi a série que me fez abrir a Netflix pela primeira vez. Escrita e produzida por Peter Morgan, já vai na 4ª temporada e 40 episódios que acompanham a vida da Rainha Isabel II do Reino Unido desde a sua coroação até 1990. Muitas conversas e acontecimentos são romanceados para efeitos narrativos, mas é uma série bem feita que nos faz rever personagens que marcaram a História, desde Winston Churchill a Margaret Thatcher, Chefes de Estado estrangeiros e vários elementos da Família Real. Destaque positivo para o guarda-roupa, os cenários e os diálogos. A 4ª temporada era por mim esperada, pois há anos que me interesso pela pessoa fascinante de  Margaret Thatcher  e fui comparando os episódios onde aparece com os acontecimentos descritos por Charles Moore na longa biografia oficial (3 volumes:  I ,  II  e  III ) que publicou sobre a Dama de Ferro. Foi a Senhora Thatcher quem lhe pediu para ser o seu ...

Partido Republicano - ser ou não ser?

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 (publicado originalmente no Ingovernáveis ) Eco e Narciso (1903) - John William Waterhouse Eco e Narciso Na mitologia grega, Eco era uma linda ninfa que gostava de caçar e de passear pelos bosques. Eco era também conversadora e fazia questão ter sempre a última palavra. Um dia, a deusa Hera suspeitou que o seu marido Zeus se andava a divertir com as ninfas e foi à sua procura no Monte Olimpo. Pelo caminho, Hera encontrou Eco que a tentou distrair com a sua conversa. Quando percebeu que Eco estava a tentar proteger Zeus com o seu discurso, Hera ficou furiosa e condenou-a ao silêncio, não lhe deixando começar mais nenhuma conversa e permitindo-lhe apenas repetir as últimas palavras que terceiros eventualmente lhe dirigissem. Eco sofria pelo discurso que perdera, mas um dia viu um rapaz chamado Narciso a caçar e imediatamente ficou encantada com a sua beleza. Queria falar-lhe, mas não conseguia. Cansado, Narciso aproximou-se dum lago para beber água e recuperar forças mas, olhando o ...

conto - um pinheiro de Natal

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(originalmente publicado no  Jacaré ) Era uma vez, nuns terrenos de areia quase à beira do Tejo, um enorme pinheiro de raízes fundas e braços estendidos ao céu. Era a árvore mais vistosa de todo o Ribatejo e sonhava um dia poder alegrar o Natal de alguma família cristã. Ah, como desejava guardar aos pés os presentes de laçarotes encarnados e fingir que eram os seus sapatos de festa… e queria tanto que o vestissem de fitas e bolas brilhantes, que o trajassem de luzes como aos toureiros e que lhe colocassem à cabeça uma bela estrela tal como aos bolos especiais se põe uma cereja! Um dia de Outono, húmido e frio como pertence à estação, o pinheiro contemplava a grande planície e olhava altivo para os pimentos do campo e para o arroz da lezíria. «Pobres vegetais», pensava o pinheiro para com as suas pinhas, «que estão destinados a um fim tão corriqueiro como a alimentação dos homens em dias sem história». O pinheiro aspirava a mais. Mas, enquanto se entretinha com as certezas da sua no...

Phyllis Schlafly e JK Rowling: destemidas não autorizadas

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(originalmente publicado no Jacaré )   J.K. Rowling lê um qualquer artigo e interroga-se no seu  twitter  acerca dos termos usados:  ‘People who menstruate.’ I’m sure there used to be a word for those people. Someone help me out. Wumben? Wimpund? Woomud? Perante a audácia de sugerir o uso da palavra “mulheres”, logo lhe caiu em cima o pesado lobby dos novos costumes. A autora dos livros da saga “Harry Potter” e de “Monstros Fantásticos e Onde Encontrá-los” foi prontamente  criticada  por Daniel Radcliffe, Emma Watson e Eddie Redmayne, actores que deram corpo no cinema aos heróis principais desses livros. Então ela não sabe que dizer a palavra “mulheres” em vez de “pessoas que menstruam” é prejudicial e “apaga a identidade e a dignidade das pessoas transgénero”, indo contra os conselhos médicos para quem é mais propenso a depressões e pensamentos suicidas? “ Não é ódio dizer a verdade ”!, desculpa-se por fim J.K. Rowling. Mas para esta gente, J.K. já não tem...

uma tocha mantida acesa

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 (originalmente publicado no Jacaré ) “A Torch Kept Lit – Great Lives of the Twentieth Century” é o livro de 2016 editado pelo jornalista James Rosen que reúne postumamente alguns dos melhores obituários escritos por William F. Buckley Jr ( WFB ). Formado em Yale, WFB trabalhou brevemente na CIA, foi candidato a Mayor de Nova Iorque pelo Conservative Party of New York State que ajudou a fundar e é considerado por muitos como o arquitecto do conservadorismo americano do século XX, um conservadorismo que se pode dizer liberal na economia e tradicional nos costumes, e cujo expoente máximo foi a presidência republicana de Ronald Reagan. Católico, patriota mas cosmopolita, practicante de vela e de ski, junto à sua mulher  Patricia  e do seu filho  Christopher  presente nos círculos da alta sociedade nova-iorquina e de Gstaad, WFB era um gentleman, culto e interessado em boas ideias, com genuíno gosto pelo debate, onde fazia uso do seu vastíssimo vocabulário. William ...