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sexta-feira, 16 de janeiro de 2026

Presidenciais 2026 - a campanha e os candidatos

(também publicado no Jacaré)

 

Divido os onze candidatos em três categorias: os democratas, os autoritários e os outros.

Os autoritários: António Filipe (PCP), André Ventura (Chega), Catarina Martins (BE), Jorge Pinto (L) e André Pestana (ex-PCP, ex-BE, ex-MAS) não são exactamente democratas. As ideologias que os inspiram são irreconciliáveis com a separação de poderes, a liberdade de expressão e outros aspectos fundamentais do Estado de Direito Democrático. Se algum destes candidatos se visse no poder, nenhum de nós poderia prever a data e a forma das próximas eleições.

Os democratas: Henrique Gouveia e Melo (Almirante) tinha porte presidencial e uma imagem de competência, no entanto depreciou a sua reputação ao embarcar numa campanha negativa com truques e insinuações. Luís Marques Mendes (PSD) seria o que tem mais experiência governativa e quem conhece melhor as exigências do cargo presidencial, porém o conselho que prestou a empresas nos últimos anos não teve bom acolhimento popular e a sua campanha perdeu gás. João Cotrim de Figueiredo (IL) fez uma campanha inteligente nas redes e foi crescendo nas intenções de voto, mas quando a sua integridade moral foi posta em causa cometeu vários erros e não aguentou o stress test. António José Seguro (PS) tem sido uma presença simpática, mas que ideias tem? Não retive uma.

Outras candidaturas: Humberto Correia é algarvio e, vestido de D. Afonso Henriques, corre o país a falar de habitação, emigração e pobreza. Manuel João Vieira, artista plástico e músico dos velhos Ena Pá 2000, anda por Campo de Ourique e pelos meios de comunicação social com a sua intervenção artística: uma sátira à política em geral e às promessas populistas muito em particular. Quando um candidato promete uma coisa, Vieira cobre a promessa e aumenta-a para o dobro. Dá para sorrir e também para pensar.

A campanha eleitoral é um campo de batalha de onde ninguém sai ileso. Quem ataca perde pontos e mais pontos perde quem é atacado; perde interesse quem é vago e perde apoios quem vinca uma posição. Todos perdem, e o perdedor que menos perder fica Presidente. No fim de contas, ganhamos nós e a democracia que nos permite escolher alguém para representar o país. Aí, será tempo de descomprimir, restaurar fracturas deixadas pela tensão das discussões e então voltar às nossas vidas.

quarta-feira, 17 de setembro de 2014

notas sobre a campanha na Escócia

Amanhã, os Escoceses vão poder decidir sobre a sua independência ou permanência no Reino Unido. Os Ingleses, que tem uma tradição democrática muito mais enraízada do que por exemplo os Espanhóis (não se lhes fale dum referendo semelhante para Catalães ou Bascos), assim o permitiram. Queriam arrumar o assunto e dá-lo por encerrado para os próximos 300 anos. Mas, ao invés de termos uma campanha descansada para os unionistas - como Londres erradamente previa no início -, vemos em vez disso as sondagens disputadas taco a taco.

Bandeira Escocesa com a cruz de Santo André, padroeiro da Escócia
O que é que aconteceu de especial para que as intenções de voto fossem afunilando tanto nas últimas semanas? A principal razão é que os independentistas liderados pelo First Minister Escocês Alex Salmond (do Scottish National Party) fizeram uma excelente campanha, sem espinhas nem erros comprometedores, apelando ao coração dos Escoceses, ao destino da sua Nação, ao sentimento identitário e de pertença. Por parte dos unionistas, a campanha tem sido desastrosa: em vez de apelarem ao coração, apelaram a razões do bolso e da carteira; em vez de se orgulharem do Reino Unido que têm, tentaram induzir medo aos eleitores, enumerando as consequências negativas de a Escócia sair da União. Foi uma campanha atípica, onde os que querem sair fizeram uma campanha de tom positivo, e os que querem ficar fizeram-na pela negativa.

Os unionistas e os Ingleses que os apoiam começaram a campanha a invocar o suposto descalabro económico dos Escoceses caso saiam da União. Se escolhessem sair, não poderiam usar a mesma moeda, as pessoas iriam tirar o seu dinheiro da Escócia, os bancos iriam fechar, a bolsa iria cair a pique, os negócios iriam acabar e o desemprego iria subir. Depois, como viram que este discurso não colava, passaram ao Plano B: prometer mais autonomia aos Escoceses caso aceitassem ficar, mais serviços sociais, maior investimento público, melhores condições fiscais. Vendo isto, os independentistas resumiram a campanha dos unionistas de forma muito sucinta e inteligente: «Primeiro quiseram meter-nos medo, agora querem-nos subornar. A única forma de termos o nosso destino nas nossas mãos é votar sim à independência».

"This is a panicky measure made because the Yes side is winning. They’re trying to bribe us, but it won’t work as they have no credibility left." Alex Salmond, First Minister Escocês

Há ainda mais um factor a ter em conta, que se chama União Europeia. David Cameron tentou evitar a nomeação do super-federalista Jean-Claude Juncker para sucessor de Durão Barroso na Presidência da Comissão Europeia. O episódio não foi agradável, com acusações de parte a parte, mas não evitou a nomeação do Luxemburguês para o cargo. Juncker, que não é de se ficar, quis aplicar uma pequena vingança a Cameron, dando um empurrão à causa independentista na Escócia. Disse Juncker que a Escócia seria bem-vinda na União Europeia caso se separassem do Reino Unido. Entendendo que tais declarações poderiam abrir um precedente para a Catalunha, Madrid não gostou. De qualquer forma, vimos uma vez mais a repulsiva ingerência de Bruxelas nos assuntos internos de um Estado-Membro da UE.


Desde os anos 90 que os jornais, comentadores e políticos aproveitam o mantra da campanha de Bill Clinton em 1992 que dizia «é a economia, estúpido!» Confesso que não gosto disto por duas grandes razões: primeiro porque usa uma linguagem feia e agressiva; e depois porque desde então a política practicamente desapareceu, foi capturada pela economia e pelas financas, e deixou de ter margem de manobra para servir o Bem Comum. Obviamente que qualquer política responsável não gasta mais do que aquilo que tem e precisa de contas certas, nem eu sugeriria outra coisa… mas esta obessessão com o dinheiro acabou por desvirtuar a política, por fazer mal à própria economia, até aos bancos… e às pessoas em geral. O resultado está à vista.

Voltando ao Reino Unido, só nas últimas duas semanas é que os líderes dos 3 maiores partidos (Conservadores, Trabalhistas e Liberais) decidiram fazer campanha com mais afinco, por vezes juntos, e implorando aos Escoceses que fiquem na União. Parece que estas acções estancaram a subida dos independentistas nas intenções de voto, mas pode ter sido tarde demais para reverter a situação. Ganhe quem ganhar, as sondagens indicam que a diferença será mínima.
  
Árvore genealógica da Família Duck, pelo grande Don Rosa
Por isso, não deixa de ser curioso, até irónico, que sejam os Escoceses a mostrarem-nos que há coisas mais importantes que o dinheiro, logo eles que tinham a fama de serem tão somíticos. Até o Tio Patinhas obedecia ao esteriótipo, ele que era de linhagem Escocesa, da família McDuck ou, à Portuguesa, McPato. O bem-estar material das pessoas é um objectivo político importante, mas não é tudo na politica. Também o Reino do Butão já se apercebeu disso, desvalorizou o PIB e inaugurou um novo instrumento político: a felicidade interna bruta, que combina outros elementos para além dos económicos. Sobre o argumento económico nesta campanha, escreveu esta semana com humor o publicitário Rory Sutherland, que na revista Spectator dizia:


Não estou a torcer por nenhum dos lados, isto é mais sério do que um jogo de futebol e temos de nos adaptar às situações. Que ganhem aqueles que tiverem de ganhar. Nao tenho preferências porque simpatizo com Escoceses e Ingleses, e entendo os pontos de vista duns e doutros. Mas seja qual for o resultado, a partir de dia 18 teremos uma Grã-Bretanha muito diferente da de hoje. Entretanto, em Espanha, a chaleira já apita com a pressão para um referendo na Catalunha.

quinta-feira, 9 de junho de 2011

a brasileira da campanha do PSD



Alessandra Augusta é esta mulher que vemos na fotografia. É brasileira e foi contratada pelo PSD para fazer esta última campanha eleitoral. Antes disso, tinha feito algumas eleições locais no Brasil. Alessandra foi atacada por todos os lados, mas continuou discretamente o seu trabalho. Alguns dos ataques até vieram de dentro, de consultores nitidamente aborrecidos por não estarem no seu lugar. Coisa feia, e o algodão não engana.

Hoje, a responsável pelo marketing da campanha do PSD vem dar uma entrevista ao jornal Sol, de onde tiro apenas esta sua resposta:

Tentou modelar Passos Coelho?

Não. O que se fez foi potenciar o que ele tinha de bom. O mais interessante desta campanha é que o ‘não-marketing’ foi o grande marketing. Não trabalhámos Passos Coelho e deixámo-lo o mais natural possível. Porque é um candidato consistente, ainda que pouco conhecido. Mas, ao mesmo tempo, tínhamos outros dois candidatos, Sócrates e Portas, que eram excessivamente marketing. Eram sound-bytes demais. Essa autenticidade de Passos Coelho foi uma mais-valia. É uma circunstância positiva: tínhamos um candidato com conteúdo, com histórico, que sabia como falar com as pessoas, principalmente na rua, com um discurso próprio e formatado. Foi muito mais ele a contribuir para que nós só déssemos forma às coisas do que o marketing a interferir directamente. Se Passos Coelho tivesse um perfil mais artificial não teria avançado tão rapidamente.


A entrevista completa pode ser lida aqui. Quero apenas deixar um contraste entre o que Alessandra disse hoje (dia 9 de Junho) e o que "A Conspiração das Teorias" foi avançando ao longo da campanha.
  • No dia 15 de Maio escrevi:

    "Passos Coelho também tem feito vários erros de comunicação e imagem. Mas estes erros não o têm afectado tanto como a Sócrates. A diferença entre Passos Coelho e Sócrates, neste aspecto, é que Passos Coelho tem errado dentro da sua genuinidade, o que a gente desculpa e até compreende. Já Sócrates parte numa situação mais delicada, pois representa neste momento um personagem que não é ele próprio e, sempre que erra, essa incoerência salta à vista. A grande comodidade de Passos Coelho em relação a Sócrates e a Portas é que a personagem que encarna ainda não saiu de dentro de si. E para se aguentar assim, Passos Coelho terá de cultivar a humildade.
    "


  • No dia 3 de Junho escrevi nos comentários que se seguiram ao postal:

    "Claro que houve erros, há sempre, mas não houve erros grosseiros. Por outro lado, também não podemos dizer que a campanha do PSD tenha tido grandes rasgos de criatividade. Não arriscaram, jogaram pelo seguro e tentaram manter a autenticidade do candidato: muito dialogante e explicativo."

    e

    "As qualidades pessoais de Passos Coelho (mais que as propostas políticas) permitiram-lhe ser a solução do "bom senso" para os problemas que os portugueses atravessam. A realidade e o bom senso em contraste com os líderes dos partidos que podem disputar eleitorado com ele. Tanto Sócrates como Portas representam personagens que já há muito descolaram da realidade.
    "


  • E no dia 6 de Junho escrevi:

    "Pedro Passos Coelho conquistou o voto pela personalidade simpática e autêntica, e por isso confiável."

Lendo o que está para trás vejo que este postal corre o risco de ser entendido como um auto-elogio, o que não quero de maneira alguma. Não é isso que está em questão. O que quero dizer é que não há campanhas perfeitas, mas esta campanha do PSD foi bem dirigida. Foi uma campanha muito conservadora e sem grandes rasgos de criatividade, mas também sem grandes erros.

Outra coisa que quero deixar clara é que não concordo com a utilização da palavra "marketing" em campanhas eleitorais. Não gosto. Trata os políticos como se fossem produtos, as pessoas como se fossem consumidores, e os votos como se fossem o dinheiro que paga o consumo. Prefiro usar um termo mais humano e abrangente: comunicação. Mas isto é apenas um à-parte.

No fim de contas, Alessandra mais que cumpriu com os objectivos da campanha. Atribui com humildade o mérito da vitória a quem de direito, que é Passos Coelho. Calou os seus críticos. E volta para casa com uma grande vitória eleitoral no seu curriculum.

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segunda-feira, 6 de junho de 2011

vencedores, derrotados, surpresas e expectativas


Vencedores:

- Pedro Passos Coelho: Conquistou o voto pela personalidade simpática e autêntica, e por isso confiável. Tem alguma credibilidade mas também suscita algumas dúvidas pela novidade de certas ideias que traz pela primeira vez à política portuguesa. A sua margem de manobra está condicionada pelo cumprimento do acordo com a ajuda internacional e pela crise económica em que vivemos. Mas todo o vencedor tem direito a um "estado de graça", por mais curto que seja.

- PPD/PSD: Teve 38,6% dos votos e elegeu 105 a 108 deputados (falta atribuir os 4 deputados dos emigrantes, e o PSD conseguirá 2 ou 3 deles). Esteve perto da maioria absoluta, que se consegue com 116 dos 230 deputados da Assembleia da República. Será inequivocamente o partido líder do novo Governo.

- CDS/PP: Obteve a melhor votação dos últimos 28 anos, teve 11,7% dos votos e 24 deputados, tantos quanto a CDU mais o BE juntos. Terá 3 ou 4 ministros no novo Governo. Ganhou em tudo menos nas expectativas ainda maiores que ajudou a criar. Paulo Portas é um resistente, lidera o CDS desde 1998 (à excepção do período 2005/06). Terá o objectivo pessoal de ser Ministro dos Negócios Estrangeiros.

- CDU: Os únicos à esquerda que consolidaram os resultados de 2009. A CDU perdeu 5.322 votos, mas subiu ligeiramente a percentagem (graças à abstenção) e conseguiu mais um deputado (16). Ultrapassou também o BE e voltou a ser a 4ª maior força política em Portugal.


Derrotados:

- José Sócrates: Sai de cena pela porta pequena. Despedido pelos eleitores, rejeitado pelo partido e abandonado pelos amigos. A queda foi grande e com estrondo. Demorará tempo a recompor-se e durante a quarentena ninguém se chegará perto. Quando ganhou, todos estavam lá. Agora que perdeu, ninguém quer aparecer com ele na fotografia.

- PS: Teve o pior resultado eleitoral dos últimos 24 anos. Terá apenas 73 a 75 deputados, conforme ganhe mais 1 ou 2 lugares através do voto emigrante. Não soube renovar as ideias, nem as propostas, nem os candidatos, e fez um uso muito criticável da campanha negra. O partido não soube transmitir confiança nem renovação. O desgaste socialista é visível. Será interessante ver como o PS tentará renascer das cinzas e fazer as pazes com o país.

- BE: Perdeu metade dos deputados (de 16 para 8) e volta a ser a 5ª maior força política do país, com 5,2% dos votos. O BE perdeu a frescura, tornou-se previsível e deixou de ser ouvido. Costumava ter também a campanha mais criativa e fora do normal, mas não o foi nestas eleições. Há a sensação que a sua missão histórica foi cumprida, pois infelizmente conseguiu a liberalização do aborto, o casamento para homossexuais, o divórcio expresso, entre outras erosões que provocou na sociedade. Foi o partido que nos últimos anos governou em Portugal no campo dos valores (forçando o PS a ir atrás), e o resultado é a crise de valores que existe e que só não é mais notada por causa da crise económica. O BE continua com "causas fracturantes" para dar e vender, mas os eleitores foram sensatos em pôr-lhe um grande travão nestas suas batalhas.

- Empresas de Sondagens: Andaram todas muito longe da realidade, desde o insistente "empate técnico" anunciado, até às patéticas explicações que foram dando ao longo da campanha. Os métodos não foram claros, e quando foram mostravam falhas grandes. Por exemplo, as sondagens telefónicas que faziam ligando para telefones fixos, quando mais de 40% dos portugueses já não têm telefone fixo. E os portugueses que têm telefone fixo têm características especiais que enviesam a amostra. Lembro aqui o que escrevi sobre como "a melhor sondagem é a que não se publica". Mas nas próximas eleições lá estarão as televisões a dar novamente todo o crédito às sondagens. Podem errar muito, manipular, mas enfim... é o que há.


Surpresas:

- Discurso de Pedro Passos Coelho: sem grandes triunfalismos, prometeu trabalho e acabou cantando o Hino Nacional antes de responder às perguntas dos jornalistas. Tem de se esforçar mais para não ser tão aborrecido no discurso.

- Discurso de José Sócrates: assumiu e aceitou a derrota, retira-se da política partidária activa. Teve um impressionante bom perder, e agradeceu a todos os que o apoiaram, apesar de na sala estarem poucas dessas pessoas. Foi um bom discurso, emotivo, que perdeu muito em ser lido no teleponto. Não se fala dos filhos e de sentimentos como o seu amor a Portugal a ler o que diz o teleponto.

- Elevada abstenção: 42,1% é uma taxa elevadíssima de abstenção dada a encruzilhada muito grande em que Portugal estava e está. Significa que 4 em cada 10 eleitores preferiu não exercer o seu direito de voto e escolher o melhor possível para nos governar. É triste e sintomático. Também é verdade que as campanhas não falaram muito para os novos eleitores e para os habituais abstencionistas. Mas este dado merece uma maior reflexão.

- PAN: Um partido novo e desconhecido que teve uma boa primeira votação graças ao nome "Partido pelos Animais e pela Natureza" e terá capitalizado o descontentamento de certas pessoas desencantadas com o BE, apesar do PAN estar bastante mais ao centro. Não deixa de ser preocupante que o partido se defina por ser pelos animais, e não pelas pessoas.

- MEP: Apesar de ter conseguido uma boa presença na internet e uma grande exposição na TV, os resultados ficaram muito aquém do esperado graças ao voto útil no PSD e no CDS.


Onde "A Conspiração das Teorias" acertou:

- PSD com cerca de 37%: teve 38,6%. As previsões públicas ultrapassavam os 40%.

- CDS um pouco acima dos 10%: teve 11,7%. As previsões públicas andavam pelos 14%.

- CDU um pouco abaixo dos 10%: teve 7,9%.

- BE muito abaixo dos 10%: teve 5,2%.


Onde "A Conspiração das Teorias" errou:

- PS estaria perto dos 32%: teve 28,1%.

- MEP ultrapassaria o PCTP/MRPP: não só não o fez, como ainda ficou atrás do PAN e do MPT.


Expectativas:

- Que o PSD e o CDS se entendam rapidamente para formar um Governo equilibrado e pronto para trabalhar no duro e dar resposta às necessidades do país.

- Que o PSD cumpra o seu programa de fazer "mais e melhor com menos", de cortar as gorduras do Estado, de libertar certos sectores da economia da asfixia estatal e torná-la mais competitiva, de não se esquecer de quem mais precisa.

- Que Paulo Portas e o CDS saibam ser, desta vez, um factor de estabilidade e não o contrário. Que dêem também profundidade de valores ao liberalismo do PSD, dentro da linha que se espera dum partido como o CDS.

- PS deve virar à esquerda e fazer a sua oposição na rua, através de manifestações e greves contra as medidas de austeridade do novo Governo e contra o acordo com a troika que eles próprios assinaram. Oxalá não seja assim, mas é o mais natural de acontecer para um partido reduzido a 73-75 deputados (talvez ganhe mais 1 ou 2 na contagem dos votos emigrantes), com presença nos sindicatos da UGT e com a oportunidade de surfar uma crescente onda de descontentamento social.

- A situação não está fácil e o estado de graça de Passos Coelho e do PSD deve durar menos que o costume. É importante que Passos Coelho concilie a sua capacidade de diálogo com mais convicção e liderança, que ponha ordem na casa e saiba formar um Governo bom e coeso, senão corre o risco de - como diz um amigo meu - se tornar "o António Guterres do PSD". Ou seja, uma boa pessoa mal rodeada.

- Finalmente, espera-se do próximo Ministro das Finanças que seja competente, mas que para além disso saiba inspirar confiança e fomentar valores, como na sua altura fez Ernâni Lopes.


Cumprir os compromissos assumidos. Mas principalmente pensar estrategicamente no futuro de Portugal a médio e longo prazo, com educação, com trabalho e com valores.

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sexta-feira, 3 de junho de 2011

os erros da máquina de campanha mais elogiada


A campanha do PS foi mal conduzida a vários níveis. Foi mal conduzida porque a única coisa de que se falou a respeito do PS nesta campanha, foi de como a sua máquina de propaganda era boa e profissional. Não se falou de propostas do PS para o futuro do país porque elas não existem. E apostou-se na capacidade de resistência de José Sócrates, quando há muitos meses ele já estava manifestamente gasto e sem qualquer capital político. Os pozinhos de perlimpimpim não aguentam a exposição 24h/dia durante uma campanha inteira, e nunca desta maneira.

Foi toda uma sucessão de erros da campanha do PS, que se dedicou unicamente a falar de Pedro Passos Coelho e do PSD, fazendo uso de uma agressiva campanha negra. A emoção que o PS mais explorou em campanha foi o medo, e até essa escolha foi ineficaz, pois o maior medo dos eleitores é que José Sócrates continue a governar.

O povo sabe desculpar erros, mas ninguém gosta de mentirosos compulsivos. Em 2009 as pessoas deram o benefício da dúvida a Sócrates, e com isso mais uma oportunidade de se redimir. O lema de Manuela Ferreira Leite e do PSD em 2009 era "Política de Verdade". Foi uma escolha precoce. Mas a ideia hoje reinante é que a falta de sinceridade de Sócrates é incorrigível. Pergunto-me se o lema "Política de Verdade", dois anos depois, não teria tido muito mais sucesso. Apesar disso, considero o "Mudar" melhor, porque implica acção e esperança. Não fizeram mal em pedi-lo emprestado a Obama.

José Sócrates vai perder as eleições no Domingo. O Governo socialista trouxe-nos a este precipício, o seu líder não tem mais credibilidade, e faltam ideias para o futuro do País.

E quando os homens dos bastidores de uma campanha são notícia, mesmo que aparentemente positiva, isso é mau sinal. Estes têm de ser discretos e deixar o palco para os candidatos brilharem. Se Sócrates não servia (e não serve, está gasto), então deviam ter dado visibilidade aos candidatos a deputados de cada círculo.

A campanha do PS, que a par do CDS/PP foi a mais elogiada pelo profissionalismo, pecou por vaidade e por falta de visão, e foi de longe a campanha que fez os erros mais grosseiros. Desde o princípio que observo isto e não vi ninguém dizê-lo. Digo-o somente agora - a escassos minutos do dia de reflexão começar - porque não queria de maneira alguma contribuir (por mais modestamente que fosse) para a perpetuação socialista no Governo de Portugal.

Dito isto, penso que o PSD vai ganhar com cerca de 37%. O PS ficará perto dos 32%. O CDS um pouco acima dos 10%. A CDU um pouco abaixo. O BE bastante abaixo. E dos partidos mais pequenos, pode haver ainda duas surpresas.

O MEP pode eleger Rui Marques por Lisboa, depois de ter conseguido (por decisão do tribunal) marcar presença no horário nobre dos 4 canais de televisão de sinal aberto, nos últimos 2 dias de campanha, quando os indecisos ainda eram entre 15 e 20%. Mesmo que não eleja o deputado, provavelmente ultrapassará o PCTP/MRPP como 6º partido mais votado, ou o maior dos mais pequenos. Trouxe frescura à campanha através de acções criativas como os comícios mais pequenos do mundo e uma boa presença na Internet. A mensagem é de esperança, palavra que integra o próprio acrónimo MEP.

A segunda surpresa pode ser José Manuel Coelho, candidato do PTP pelo círculo da Madeira. Para ser eleito basta-lhe capitalizar o descontentamento da oposição na Madeira, tirando votos ao PS e CDU, e ter metade da votação que conseguiu na Madeira nas presidenciais de há apenas 5 meses atrás.

Mas acabo como comecei, com a campanha socialista. Depois de uma campanha tão negra e cheia de mentiras e insinuações, depois de tanta emoção falsa e energias negativas, depois de tanto blame game... que estratégia adoptará o PS a partir da próxima 2ª feira para se reconciliar com os portugueses?

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Adenda:
  • vale a pena ler aqui os interessantes comentários a este post.
  • o consultor Renato Póvoas também escreve sobre a possibilidade de o MEP eleger Rui Marques e a curiosidade acerca do impacto dos seus debates na TV, no seu blog Relações Públicas Sem Croquete.
  • e como há imagens que valem mais que mil palavras, recomendo este cartoon do grande blog do cartoonista Henrique Monteiro, HenriCartoon.

sexta-feira, 27 de maio de 2011

mudar de condutor



Traduzido dos EUA 1952 para Portugal 2011:

- Os socialistas fizeram erros, mas as intenções deles não são boas?
- Bem, se o condutor da carrinha da sua escola vai contra um camião, bate num candeeiro da rua e despenha-se numa valeta... a questão não é se as suas intenções são boas. Temos de arranjar é um novo condutor.

domingo, 22 de maio de 2011

grandes fotografias políticas (III)



Dia 20 de Abril de 2007. Era o último dia da campanha eleitoral para eleger o novo Presidente da República Francesa. O conservador Nicolas Sarkozy e a socialista Ségolène Royal eram os favoritos para passar à segunda volta, e disputar a sucessão do presidente Jacques Chirac. Na altura, ambos estão próximos nas sondagens.

Lembra-se onde é que Ségolène Royal passou o seu último dia de campanha? Eu não. Provavelmente fez umas arruadas, esteve num jantar com muitos militantes e alguns VIP's, e encerrou a campanha com o típico comício cheio de discursos inflamados e gente com bandeirinhas. O costume. Mas Nicolas Sarkozy não fez nada disso. Antes escolheu ir aos pântanos da Camarga, no sul de França, tirar umas fotografias montado num cavalo branco. Algumas destas fotografias percorreram mundo e são memoráveis.

Contrastando com a feminilidade e beleza de Ségolène, Sarkozy quer mostrar-se viril, montando o cavalo branco entre os touros. Mas temos mais. Temos uma clara referência a Napoleão Bonaparte, cuja figura é lembrada nesta célebre pintura de Jacques-Louis David: Napoleão cruzando os Alpes, também vestido de encarnado e montando um cavalo branco. Nicolas Sarkozy, com esta fotografia, conseguiu convencer os franceses que seria o próximo presidente de todos eles, e o único capaz de devolver ao país a grandeza de outros tempos. Sarkozy não só falou sobre a sua mensagem; Sarkozy vestiu a sua mensagem e tornou-se ele próprio a mensagem. Depois de passarem à segunda volta, Ségolène Royal teve 46,9% dos votos e Nicolas Sarkozy alcançou o Eliseu com 53,1%.

Quando os políticos são a mensagem que querem transmitir, então acontecem grandes fotografias políticas como esta.

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domingo, 15 de maio de 2011

as mangas arregaçadas de Sócrates


Sei que este postal não versa sobre conteúdos e propostas (o que mais importa para os eleitores), mas apenas sobre a imagem e as aparências que permitem a um candidato entregar melhor ou pior a sua mensagem ao público assistente. Comparemos José Sócrates e Barack Obama quando chegam a um comício.


Barack Obama é naturalmente simpático, comunica bem e sem esforço. Sobe ao palco. Saúda o público. Despe o casaco. Arregaça as mangas da camisa. Sorri. Começa a falar. Diz primeiro como está contente por estar ali. Namora a plateia. A seguir conta uma piada. E depois de ganhar a simpatia do público, coloca a sua mensagem através de uma retórica brilhante, baseada principalmente no relato de histórias - storytelling. Faz pausas onde os aplausos imprimem mais ritmo e dinâmica ao seu discurso. Termina a sua exposição pedindo ao público qualquer coisa, seja dinheiro para a campanha, seja o voto, seja uma acção de apoio. Despede-se demoradamente e deixa-se tocar por todos quantos puderem alcançá-lo com a mão entre os seguranças. Todos ganham o que queriam. Missão cumprida.


José Sócrates é um razoável comunicador porque interioriza o que lhe ensinam sobre comunicação, mas não se pode dizer que este lhe seja um talento inato e natural. Sobe ao palco. Despe o casaco. As mangas já estavam arregaçadas dentro do casaco. E fica o discurso estragado. Ninguém mais dirá que aquele homem e aquele discurso são naturais. E lembramos logo o seu tragicómico episódio "Oh Luís, vê lá como é que fico. Assim fica melhor, ou fica melhor assim?". Game over.

As mangas de camisa arregaçadas mostram vontade de trabalhar, empenho e compromisso. Porém, estes gestos só são levados a sério quando nos parecem gestos naturais e fluidos. A credibilidade e a autenticidade são aspectos chave para que um candidato consiga passar a sua mensagem. É verdade que as imagens valem mais que mil palavras, e precisamente por isso é que é importante fazer as coisas bem feitas e sem erros de palmatória.


Finalmente, Passos Coelho também tem feito vários erros de comunicação e imagem. Mas estes erros não o têm afectado tanto como a Sócrates. A diferença entre Passos Coelho e Sócrates, neste aspecto, é que Passos Coelho tem errado dentro da sua genuinidade, o que a gente desculpa e até compreende. Já Sócrates parte numa situação mais delicada, pois representa neste momento um personagem que não é ele próprio e, sempre que erra, essa incoerência salta à vista. A grande comodidade de Passos Coelho em relação a Sócrates e a Portas é que a personagem que encarna ainda não saiu de dentro de si. E para se aguentar assim, Passos Coelho terá de cultivar a humildade.

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terça-feira, 25 de janeiro de 2011

25 anos de Sevo e o programa ABC contra a sida no Uganda


Yoweri Kaguta Museveni, 67 anos, é o Presidente do Uganda desde há exactamente 25 anos. No poder, cedo abandonou devaneios marxistas e optou por uma linha mais liberal da economia, pondo em marcha importantes ajustamentos estruturais, dando crédito às propostas do Banco Mundial e do Fundo Monetário Internacional.

Trouxe estabilidade económica e política ao país e teve a coragem de combater o flagelo da sida através do programa ABC, um programa apoiado e promovido pela Igreja Católica e por outras igrejas cristãs. ABC significa "Abstein, Be faithful, use Condoms", e esta é a ordem estratégica das prioridades: abstinência sexual até ao casamento; fidelidade ao cônjuge no casamento; e, em caso de desvios (vários parceiros sexuais, etc.), o uso do preservativo. Esta política ABC teve excelentes resultados no Uganda, e só não é mais difundida porque há demasiados interesses económicos que actuam na obscuridade, como é o caso da indústria contraceptiva.

A indústria contraceptiva está por detrás das mais ruidosas campanhas de luta contra a sida, financiando-as e lucrando com elas, nomeadamente em África, mas também aqui e no resto do mundo. Mas se olharmos para o impacto desta política ABC, não restam dúvidas de que esta é uma óptima estratégia de prevenção e combate da sida: de 15% de infectados com sida no Uganda em 1990, para 5% em 2001.

Yoweri "Sevo" Museveni ganhou as eleições ugandesas de 1996, 2001 e 2006. Museveni fez profundas reformas democráticas no regime, que foram aplaudidas a nível internacional. No entanto, há ainda muito para fazer, por exemplo facilitar a formação de novos partidos no país.

Dia 18 de Fevereiro são as eleições presidenciais no Uganda, "Sevo" Museveni volta a ser candidato, e este é o rap dirigido aos eleitores mais jovens:


Do you want another rap? Yes Sevo!

sexta-feira, 21 de janeiro de 2011

Presidenciais: as sondagens, os candidatos e o sistema


Último dia de campanha eleitoral. As últimas sondagens dão Cavaco Silva a ganhar à primeira volta, com 54 a 64% dos votos. Mas mais para os 54 que para os 64. Manuel Alegre tem entre 15 e 25% das intenções de voto. Fernando Nobre, entre 9 e 13%. Francisco Lopes teria 3 a 8% dos votos. Defensor Moura, 1 a 2,6%. José Manuel Coelho, de 0,9 a 2,7%.

Estas sondagens que misturo (Marktest, Intercampus, Eurosondagem, CESOP/Católica, e Aximage) apresentam, como vemos, números mínimos e máximos muito distantes entre si (de 10%, no caso dos dois primeiros candidatos). O semanário Sol resolveu esta questão fazendo uma média das sondagens, e que põe na capa do jornal de hoje.


Duas coisas óbvias, para arrumar este assunto das sondagens: alguma estará mais acertada que as outras, mas ainda não sabemos qual. E o truque do Sol, já denunciado no blog Margens de Erro (onde encontramos todas as sondagens comentadas), também não merece muita credibilidade, pois faz uma média de amostras desiguais, recolhidas em datas diferentes, e de formas distintas. Tal como é fácil ouvir a qualquer político dizer, estas sondagens valem o que valem. E a "sondagem" do Sol não vale o que valem as outras.

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Vamos aos candidatos. O que é vitória e o que é derrota para cada um:

Cavaco Silva - Ganhar é sempre uma vitória. Mas Cavaco precisa de superar os votos que teve em 2006. Resultados abaixo dos 55% terão sabor amargo, e ser forçado a uma segunda volta é humilhação.

Manuel Alegre - Vitória para Alegre será, pelo menos, forçar Cavaco a uma segunda volta. Aí, tudo pode acontecer, pois muita abstenção se irá manifestar - tanto à esquerda como à direita. Derrota, para este candidato apoiado pelo PS e BE, será ter menos que o milhão de votos que teve em 2006 como independente.

Fernando Nobre - Chegar ao 2º lugar e ter o milhão de votos que Alegre teve em 2006 é muito difícil, mas ficar com o 3º lugar já é vitória. Derrota será ficar atrás do candidato comunista Francisco Lopes.

Francisco Lopes - Uma boa vitória é ficar em 3º lugar, ou ter mais de 8% dos votos. Mas a sua candidatura, pela mobilização e pelo tempo de antena que teve, falando para a base de apoio comunista, já cumpriu com o seu objectivo, independentemente do resultado.

Defensor Moura - Ajudar Manuel Alegre era a sua missão partidária, relançar a sua candidatura à Câmara Municipal de Viana do Castelo era a sua missão pessoal. Introduziu a campanha negra na corrida, com o caso BPN contra Cavaco. O caso BPN fez muito ruído, mas duvido que vá produzir resultados práticos na votação. Mas não há dúvida que afecta a imagem e reputação de Cavaco Silva, principalmente do ponto de vista histórico. A partir daqui, não haverá biografia política de Cavaco que não vá referir a nebulosa feita à volta do BPN. Mesmo que fique em 6º lugar, Defensor Moura já conseguiu os seus objectivos.

José Manuel Coelho - Já ganhou, a vários os níveis. Só o facto de ter reunido as assinaturas suficientes para ser candidato, é uma grande vitória. Mas deixo esta análise para o próximo post. É um assunto que tem pano para mangas.

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Sou católico, um monárquico diferente do monarquismo mainstream, e nas últimas eleições apelei ao voto nulo. No entanto, como católico em primeiro lugar, tinha alguma expectativa de que Cavaco fosse coerente com os seus valores e convicções. Foi pelos valores e convicções de Cavaco que os eleitores votaram nele em 2006. Votaram também nele pela sua condição de economista e perito em contas públicas. Cavaco defraudou expectativas no campo dos valores, e pouco se fez valer da sua visão de economista.

A culpa é de Cavaco? É de quem o elegeu? Sim, e também. Mas o que permite tudo isto é o sistema eleitoral que temos. É um sistema em que o Presidente da República é eleito por cinco anos e se pode recandidatar para um outro mandato de mais cinco anos. Isto implica que, para quem quer ficar 10 anos em Belém, o primeiro mandato é exercido com a reeleição sempre em vista. A reeleição torna-se a máxima prioridade na acção política de qualquer Presidente no seu primeiro mandato.

Os últimos Presidentes da República que tivemos sacrificaram tudo à prioridade da reeleição. Tudo. Desde a sua forma natural de agir, às suas convicções e, até, ao superior interesse nacional. Tudo em segundo e terceiro plano. E revelaram só no segundo mandato qual a sua verdadeira forma de agir, as suas convicções, e a sua visão do que é o superior interesse nacional. Por estas razões se diz que houve dois Presidentes Eanes, dois Soares e dois Sampaios. Soares e Sampaio foram especialmente ausentes nos respectivos primeiros mandatos, para não comprometerem os segundos mandatos, onde foram fortemente interventivos. Sampaio inclusivamente se deu ao luxo de dissolver a Assembleia da República sem sequer se dignar a dar uma qualquer explicação.

Temos, portanto, um sistema que potencia os vícios do Presidente da República no exercício do seu primeiro mandato presidencial. Para combater esta bipolaridade política que se impõe aos consecutivos Presidentes da República do nosso País, há duas soluções: a primeira, naturalmente, é a monarquia. A segunda possível reforma, e certamente mais exequível de acontecer nos dias de hoje, é impedir que o Presidente da República se possa recandidatar, aumentando a duração do mandato para, por exemplo, 7 ou 8 anos, como compensação e garantia de alguma estabilidade na chefia de Estado. Desta forma, elegeríamos um Presidente da República que iria actuar mais de acordo com os seus valores e convicções, afinal, a razão pela qual foi eleito, de acordo com o superior interesse nacional. O fantasma da reeleição estaria vencido e as prioridades do Presidente voltariam a ser as certas. A política sairia credibilizada. As pessoas podiam contar mais com aqueles que escolheram.

Cavaco Silva será um Presidente diferente no segundo mandato, tal como Soares e Sampaio, ou até Eanes. Vai ser mais interventivo, sem dúvida, e com um exercício mais católico, espera-se. Mas eu não quero que ele ganhe à primeira volta. Não, isso seria demasiado fácil. Cavaco tem de suar, tem de ser forçado a uma segunda volta para nos dirigir palavras mais humildes. Precisa de pedir desculpas aos católicos que o elegeram pelas leis aberrantes que promulgou. E precisa de prometer que tudo isso não se vai repetir no segundo mandato. Aí, e só aí, até eu votarei nele.

Mas, pelos vistos, a segunda volta é apenas uma miragem. Cavaco deve ganhar à primeira volta, como diz até a sua pior sondagem.

domingo, 31 de outubro de 2010

como contar a história do candidato




Eu venho de uma longa linhagem de lenhadores - começa o vídeo enquanto o candidato sobe para o tronco de uma árvore já sem ramos e começa a balançar o machado. - Sempre fui rápido a tirar um grande pedaço de madeira, e estou preparado para cortar a despesa excessiva que há em Washington. - E Sean Duffy conclui: - "I'll bring the axe to Washington", Vou trazer o machado para Washington. (NY Times)

Sean Duffy é o candidato republicano ao Congresso pelo 7º distrito do Estado do Wisconsin. O Wisconsin tinha uma tradição republicana enraizada, mas nos últimos 18 anos votou maioritariamente democrata. Sean Duffy pode ajudar o Partido Republicano (GOP) a recuperar o Wisconsin, tal como se prevê nas próximas eleições.

Duas características das campanhas eleitorais é que deve apresentar a história do candidato de forma coerente, por um lado, e conectar emocionalmente com os valores do eleitorado, pelo mesmo lado. Só assim é que se ganha a atenção das pessoas, e a partir daí podem-se apresentar as propostas políticas, que então talvez sejam ouvidas.

Este candidato conseguiu apresentar a sua história - é lenhador a advogado, filho de lenhadores, e orgulha-se das suas origens. Ele veste uma camisa de flanela aos quadrados e usa o machado, incorporando completamente o seu personagem, o que lhe dá autenticidade e credibilidade. Só usa o fato e a gravata quando é preciso, e não quer parecer ser aquilo que não é.

Conectou emocionalmente com os valores culturais e políticos do eleitorado - o Wisconsin é terra de lenhadores como ele, profissão respeitável e cheia de influência no vocabulário do dia-a-dia e nos jogos tradicionais. Para além disso, o Wisconsin era como vimos um bastião republicano à espera de ser novamente seduzido pelos republicanos da terra. Sean Duffy é católico e uma das figuras que representa o movimento dos católicos americanos mais jovens que se deslocaram cerca de 15% da esquerda para a direita desde a eleição de Obama até hoje, quando os republicanos levam perto de 6% de vantagem entre os crentes desta religião.

Finalmente, Duffy apresentou propostas e apostou na Internet para espalhar melhor a sua mensagem através de vídeos originais. Até à semana passada, ele tinha 6 vezes mais vídeos no seu canal de Youtube que a candidata democrata, Julie Lassa, talvez adormecida pelos 18 anos de poder do seu partido. Os eleitores gostam que os políticos façam tudo o que puderem pelo seu voto, e por isso a dinâmica numa campanha é crucial. "I'll bring the axe to Washington" é um bom slogan porque faz 3 em 1: fala da história do candidato, conecta com os valores do eleitorado, e dá uma direcção política à mensagem. Este slogan é um grande sound bite, porque tem bom som e morde, isto é, a sua representatividade, originalidade e música faz com que estas palavras sejam repetidas pelas pessoas na rua e em suas casa. Um óptimo indicador que a campanha está a correr bem é quando as pessoas usam as nossas palavras e as tornam suas também. Melhor ainda é quando o adversário não consegue competir com a efectividade das nossas palavras. Por isso é que este é mais que um simples slogan de candidatura; tornou-se o mantra de toda a campanha.

Podemos acompanhar a recta final da campanha de Sean Duffy através de várias plataformas da Internet: no site oficial, no dos voluntários da sua campanha, no facebook, twitter, Youtube... e todos estes canais são apenas o mínimo que qualquer campanha eleitoral moderna deve contemplar na sua estratégia. Sim, estratégia. Porque sem uma estratégia fundamentada, nada feito. Mas disso falaremos melhor depois, noutro postal.

sexta-feira, 15 de outubro de 2010

grandes fotografias políticas (I)

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David Cameron, Primeiro-Ministro britânico, a começar o dia com uma tosta enquanto lê as notícias matinais no seu iPad. Simplicidade no compromisso. Começar o dia alimentando o corpo e a mente. O domínio tecnológico e o glamour do poder, para inglês ver. A grande força desta fotografia (além da evidente qualidade no aproveitamento da luz), é que mostra um político apaixonado pelo seu trabalho.
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É difícil eu gostar de uma fotografia de um político a jogar golfe, por exemplo, como as equipas de comunicação de Obama ou Bush insistiam em tirar. Porquê? Porque essas imagens podem ser usadas pelos adversários contra eles: "está fora da realidade"; "anda praticando desportos de gente rica, esquecendo-se da gente pobre"; "nem sequer sabe pegar no taco, tal como não soube pegar no País", etc., e por aí fora. Claro que o cenário seria pior ainda se o golfista fosse Sócrates ou Zapatero, pois nos Estados Unidos o golfe é um desporto nacional e na Europa continental o golfe é uma prática bastante mais elitista.
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Este retrato de David Cameron não tem pontos negativos nem ambíguos por onde os adversários possam pegar, apenas mostra um Primeiro-Ministro trabalhando com gosto à mesa do pequeno-almoço. Porque acima de tudo, ele foi eleito é para trabalhar. Ou pelo menos, é essa a cultura do seu país.
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is it still a simple ad?

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Excelente anúncio do novo Mercedes SLS AMG, uma obra de arte, cheio de suspense, técnicos, banda sonora, paisagens e pormenores de tecnologia e design espectaculares. Quem guia é Schumacher, mas acabamos por ser nós a guiar. É que o mais impressionante é o pós-anúncio, com os botões interactivos nos sucessivos vídeos do Youtube, que nos levam afazer escolhas (e escolher é poder) e a tomar a experiência como própria. Muito bem filmado e concebido. Rendo-me. Comunicação de luxo.
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sábado, 17 de julho de 2010

o segundo spot de Dale Peterson

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O segundo spot de Dale Peterson é uma excelente sequela do primeiro, o que é sempre difícil. Dale explica como começou com 5% de intenções de voto nas sondagens e chegou aos 28% da votação republicana. Agora, o nosso Dale Peterson apoia John McMillan, o nomeado republicano para a Comissão de Agricultura do Alabama. "John is a good man, I like John" é um belo exemplo de palavras simples que funcionam.
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sexta-feira, 16 de julho de 2010

o candidato representativo e o candidato aspiracional

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Há momentos em que os eleitores procuram candidatos mais inteligentes, mais cultos ou com um historial de outros atributos (coragem, bravura, beleza, etc.) que fazem deles heróis. No fundo, alguém como aquilo que o eleitor comum aspira vir a ser. Noutros momentos, os eleitores votam em pessoas normais, como eles, que os possam representar verdadeiramente nos seus valores e maneira de ser. É o caso de Dale Peterson, candidato à Comissão de Agricultura do Estado do Alabama, nos Estados Unidos da América. Dale Peterson representa muito bem os valores do seu eleitorado do Alabama, apresenta-se como um deles. Não foi eleito, mas conseguiu subir dos 5% de intenções de voto que as sondagens lhe davam, para 28% na votação final. Não ganhou as eleições, mas a sua campanha foi um sucesso. O candidato não só representou os valores tradicionais do homem republicano médio do Alabama, como soube personificar o herói cowboy do faroeste. Resumindo, Dale Peterson soube ser representativo e aspiracional. Eis o seu spot de campanha:
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Por mais que nos impressione, este vídeo funcionou no Alabama. A arma, a linguagem directa e popular, o tom paternal com que fala, o cavalo, a indumentária, a música, os símbolos americanos, tudo contribuiu para que a mensagem passasse. Funcionou, tal como a imagem de Hugo Chávez funciona para muitos venezuelanos, ou a de Alberto João Jardim funciona para os madeirenses (e alguns continentais). Mais, assim se explica porque George W. Bush ganhou a candidatos que tinham fama de serem mais inteligentes que ele, como Al Gore em 2000 ou John Kerry em 2004. É que George W. Bush soube representar melhor os valores do americano médio. No fim do mandato a sua popularidade caiu a pique, porque os americanos médios começaram a pensar que até eles governariam melhor que George W. Bush. É o risco destes candidatos, que se tornam demasiado "representativos" - e estamos sempre a falar da imagem projectada na opinião pública. É que os tempos mudam e há momentos em que precisamos mais de heróis. Obama, que veio depois de Bush, é um candidato claramente aspiracional e que personifica o sonho americano. O risco e também a beleza da democracia é que, dar o poder de eleição ao povo, permite que tudo isto possa acontecer.
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quarta-feira, 14 de julho de 2010

a emoção nas campanhas políticas

A política atingiu níveis de confiança tão baixos, que apenas apresentar as propostas e o programa já não chega. As pessoas não lêem programas eleitorais, e muito poucas sabem dizer claramente quais as propostas de cada partido ou candidato. Agora, os políticos têm de chamar primeiro a atenção dos eleitores, convencê-los que vale a pena serem ouvidos. Precisam de se mostrar mais humanos e de conquistar o eleitorado pela emoção. Os políticos vêm-se obrigados a seduzir para serem ouvidos, e depois então a apresentar as propostas. Chegar ao eleitor primeiro pelo coração, e depois pela razão. Chegar ao coração dos eleitores através de uma ligação emotiva que aparentemente nada tem que ver com a política. Mas tem. Foi o que a CiU, partido nacionalista conservador catalão, tentou neste spot. A mensagem é de esperança num novo começo.

sábado, 21 de novembro de 2009

change we can believe in?

Barack Obama. 132 fotos. O mesmo sorriso. A mesma pose. O mesmo traje.

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quinta-feira, 26 de março de 2009

castidade, a proposta que combate a SIDA

A propósito das sábias mas "politicamente incorrectas" declarações do Papa acerca dos preservativos e da abstinência, traz-se à Conspiração este belíssimo exemplar de comunicação que é um vídeo da campanha moçambicana de prevenção contra o vírus SIDA/AIDS/HIV. É na castidade e na lealdade que está a resposta que combate a promiscuidade sexual, que é a base do vertiginoso aumento do contágio de SIDA em África e, cada vez mais, na Europa. Não conheço uma campanha publicitária de preservativos (Control, Durex, etc.) que desincentive esta mesma promiscuidade sexual. Zero. Nenhuma! Antes pelo contrário, incentivam e contribuem na medida do possível para o crescimento deste lucrativo pântano onde chafurdam.

segunda-feira, 2 de março de 2009