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terça-feira, 26 de maio de 2026

Montgomery à conversa com o retrato de Rommel

Field Marshal Bernard Law Montgomery

Durante os treze dias da Batalha de El Alamein (Egipto) em Outubro/Novembro de 1942, o comandante britânico dos Aliados Bernard Montgomery pendurou na sua caravana uma fotografia do seu arquirrival Erwin Rommel, comandante alemão do Eixo e também conhecido por “A Raposa do Deserto”. Em entrevista a Cliff Michelmore da BBC (1968), a explicação de Montgomery foi a seguinte:

Eu gosto de pôr na minha caravana uma imagem do meu oponente da altura. Eu costumava olhar para ela e dizer para comigo mesmo, «que tipo é este? Se eu fizer isto, como irá ele provavelmente reagir?» E, curiosamente, ajudou. Acho que algumas pessoas me pensavam louco. Mas sabe, fui tantas vezes considerado maluco que agora acho-o um elogio. Rommel era bastante diferente daquilo que as pessoas julgam. Ele era um general do tipo Prince Rupert.

Isto significa que, para Montgomery, Rommel era um bom comandante da frente de batalha que preferia estar com os soldados que o seguiam, mas que não compreendia tão bem a importância da administração e da articulação da frente de batalha com as linhas logísticas atrás de si.

A vitória dos Aliados na Segunda Batalha de El Alamein foi um ponto de inflexão da Segunda Guerra Mundial. Churchill reconheceu-o poucos dias depois, no dia 10 de Novembro: “os Alemães receberam de volta a mesma medida de fogo e aço que tantas vezes infligiram a outros. Ora, isto não é o fim. Nem sequer é o princípio do fim. Mas é, talvez, o fim do princípio.

terça-feira, 3 de junho de 2025

A esperança em The Great Dictator


    Continua a mexer connosco The Great Dictator, um clássico de Charlie Chaplin estreado em 1940, um ano após o início da Segunda Guerra Mundial. Este fim-de-semana o filme foi projectado no auditório do Teatro Camões com música tocada ao vivo pela Orquestra Sinfónica Portuguesa do Teatro Nacional de São Carlos e conduzida pelo maestro Timothy Brock.

    Já não terá sido fácil um actor ajustar o ritmo dos seus movimentos à música da banda sonora do filme, mesmo se composta por si. Empresa mais difícil é uma grande orquestra acertar a música com o ritmo dos movimentos de Charlot. O maestro e a orquestra transmitiram as emoções certas em cada nota da banda sonora, na alegria da Dança Húngara n.º 5 de Brahms na cena do barbeiro com o cliente, ou no encantamento delicado do Prelúdio de Lohengrin de Wagner, na cena da dança do globo terrestre e na do discurso final.

    Como acontece em outros filmes, Charlie Chaplin fez quase tudo: produziu, realizou, actuou e, à excepção das mencionadas obras de Brahms e Wagner, compôs com Meredith Wilson a banda sonora. A história começa na Primeira Guerra Mundial, onde Charlie Chaplin representa um barbeiro alemão e judeu, que se fez herói ao combater pelo seu país e ao salvar a vida de Schultz, um comandante piloto que se torna importante no novo regime. Charlie Chaplin interpreta este barbeiro judeu do gueto e também o ditador antissemita em ascensão, fisicamente confundível com o barbeiro. Na narrativa, Adolf Hitler é chamado de Adenoid Hynkel, Goebbels de Garbitsch, Göring de Herring, Benito Mussolini de Benzino Napaloni, a Alemanha de Tomainia, a Itália de Bacteria e a Áustria de Osterlich. São evidentes as parecenças, mas este uso de nomes imaginários ajuda-nos mais facilmente a encontrar hoje outras ligações para cada personagem e acontecimentos.

    Após um terrível discurso do ditador às massas, Hynkel pergunta a Garbitsch o que achou do discurso. Ele responde que foi muito bom, embora a referência aos judeus pudesse ter sido mais violenta. Com frieza e o olhar vazio, o Ministro da Propaganda acrescenta que a violência contra os judeus seria útil para excitar a ira das pessoas de forma a esquecerem a sua própria fome. Aqui está, o fenómeno do bode expiatório bem explicado em tão breves palavras!

    Nos momentos do filme em que o barbeiro interpretado por Chaplin está mais abatido e desanimado, o tema musical é “Zigeuner”, que em alemão significa “cigano”. Ele mesmo com família cigana, Charlie Chaplin identifica-se com a perseguição dos judeus naqueles anos 30 e 40. Sem ainda conhecer todos os horrores do nazismo, este corajoso retrato do Grande Ditador é certeiro na denúncia do pensamento político que irá gerar mais anos de guerra total, toda a sua destruição, os vários milhões de mortos, o genocídio dos judeus entre nós chamado de Holocausto e o genocídio menos conhecido dos ciganos, o Porajmos.

    Em tão desolador contexto, este é um filme de esperança. Prova disso é outro tema musical de superior beleza intitulado “Hope Springs Eternal”. A obra tem vários momentos de ternura, mostra o humor físico de Charlot, reflecte sobre a ambição humana e a graça do absurdo, e tem as situações de injustiça e crueldade que são autênticos murros no nosso estômago. Existe um ténue fio condutor: o amor frágil e belo entre Hannah e o Barbeiro. No entanto, todas estas cenas vão somando uma tensão crescente que só podia pontificar no grande discurso final do Barbeiro. O Barbeiro toma acidentalmente o lugar do Ditador e mostra que a democracia nos oferece sempre a hipótese de uma alternativa: ainda podemos ser livres, humanos e decentes.

quinta-feira, 23 de dezembro de 2021

um mundo sem misericórdia

(publicado originalmente no Observador e também no Ingovernáveis)


 por Alejandro Navas, Professor de Sociologia da Universidad de Navarra

(Nota do tradutor: o processo da lei da eutanásia em Espanha acompanha no tempo e na forma o processo da lei da eutanásia em Portugal. A argumentação de Alejandro Navas é muito pertinente e aplica-se perfeitamente ao nosso caso.)



A propósito de Heinrich Böll e o processo da lei da eutanásia em Espanha

Voltamos a debater a eutanásia, no seguimento da tramitação do correspondente projecto de lei por parte do Governo Espanhol. Os argumentos são conhecidos. Voltou-se a sublinhar que essa práctica contradiz o ethos médico, tal como se formula desde Hipócrates: antes de tudo, não fazer dano. Consequentemente, curar, aliviar e consolar. Há razões de ciência e consciência para nos opormos à pretensão de converter o médico em carniceiro. Se nunca esta praxis se justificou, o recente desenvolvimento da medicina paliativa torna-a ainda mais rejeitável: a suposta “procura social” que invoca o Governo para justificar a lei, expressa no fundo a necessidade de cuidados paliativos. Onde estes se aplicam, ninguém quer a eutanásia.

Com este texto, proponho-me abordar algum aspecto menos presente no debate actual, partindo das palavras do escritor alemão Heinrich Böll.

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Heinrich Böll e o seu diagnóstico

Nascido em 1917 em Colónia, Heinrich Böll é um dos maiores expoentes da narrativa alemã do pós-guerra. A sua família – pai trabalhador com mulher e oito filhos – arruinou-se durante a grande depressão dos anos vinte e trinta, o que marcou a sua infância e adolescência. A essa experiência inicial sobre a dureza da vida somar-se-iam a Segunda Guerra Mundial e os anos que lhe seguiram: foi soldado e prisioneiro de campo de concentração.

Böll tornou-se porta-voz autorizado das vítimas do desastre: converteu-as em protagonistas da sua obra narrativa e ajudou-as como activista social. Assim encarnou como poucos o tipo de intelectual de esquerda, comprometido com os mais vulneráveis e desfavorecidos. Essa opção pela denúncia crítica plasma-se de modo eminente na sua novela “Retrato de grupo com senhora” (1971), decisiva para conceder-lhe o Prémio Nobel da Literatura em 1972. Antes, já tinha recebido em 1967 o prémio Georg Büchner reconhecendo a sua trajectória.

Com o passar do tempo, foi ampliando o raio do seu activismo, tanto pelo compromisso dos seus temas (energia nuclear, meio ambiente, subdesenvolvimento do terceiro mundo) como pelo âmbito geográfico em que actuou (viajou a países como a Bolívia e o Equador para ajudar no terreno). Não é coincidência que tenha presidido nos anos setenta ao Pen Club International.

A sua obra desfrutou de êxito popular. Da sua novela mais difundida, “A honra perdida de Katharina Blum” (1974), venderam-se três milhões de exemplares. Böll não conta hoje com muitos leitores, nota-se que a sua literatura está muito marcada por um determinado ambiente social e que o mundo mudou muito desde então, mas a sua memória permanece viva através de instituições diversas. Por exemplo, o nome da fundação política vinculada ao partido dos Verdes na Alemanha. A cidade de Colónia criou em 1985 o prémio literário Heinrich Böll e numerosos colégios, ruas e edifícios públicos têm o seu nome.

Böll foi educado no catolicismo, mas o seu talento fustigador e denunciador também se dirigiu contra a Igreja, que abandonou oficialmente nos anos setenta (na Alemanha existe um imposto religioso específico: deixar de pagá-lo implica o abandono expresso da instituição, registado de modo oficial). Essa rejeição não o impediu de ponderar a relevância da fé cristã na sociedade. Em 1957 escrevia: “Prefiro o pior dos mundos cristãos ao melhor mundo pagão. Num mundo cristão há sítio para os que se veriam deslocados em qualquer mundo pagão: aleijados e doentes, velhos e débeis. Aqueles que o mundo pagão considera inúteis e sem valor, encontram no mundo cristão algo mais que espaço físico: experimentam amor. Recomendo aos meus contemporâneos imaginar como seria um mundo sem Cristo”.

 

Demografia, economia e saúde

O cenário demográfico do Ocidente adquire hoje um carácter inédito: os maiores de 65 anos superam em número os menores de 15. Isto nunca tinha ocorrido anteriormente. Trata-se de uma consequência da prosperidade económica e do progresso médico. A mortalidade infantil desapareceu na práctica, a esperança de vida prolonga-se de modo contínuo e derrotámos as chicotadas clássicas da humanidade (fome, peste, cólera). No entanto, a melhora objectiva da nossa saúde pode conviver com uma penetrante sensação de vulnerabilidade: nunca tanta gente se sentiu tão doente e nunca se gastou tanto em saúde. Mas grande parte das patologias que nos afligem estão ligadas a estilos de vida insanos: sobrepeso e obesidade, adições – tabaco, álcool, substâncias de drogo-dependências –, doenças sexualmente transmissíveis, stress, depressão, ansiedade, etc.

O Estado social e de bem-estar compromete-se a garantir a saúde e a cuidar dos seus cidadãos desde o berço até à sepultura. Essa promessa, contida no relatório Beveridge dos anos quarenta, tornou-se insustentável. O gasto médico e farmacêutico cresce sem parar, a saúde converteu-se no primeiro gasto nos orçamentos de Estado. Se a isto somarmos o pagamento das pensões – por não falar dos subsídios de desemprego –, a bancarrota das finanças públicas só se poderá evitar endividando as gerações futuras. Os ocidentais deixam de trabalhar relativamente cedo e têm pela frente uns vinte anos de vida como reformados. Durante grande parte desse tempo vamos desfrutar de umas condições de vida bastante saudáveis, que nos permitirão continuar activos de diferentes maneiras: fazer de avós, viajar, cultivar gostos. Finalmente, ficaremos doentes e é justamente nesse trecho final da vida que daremos lugar a um considerável gasto sanitário. Se a vida se encurtasse apenas alguns anos, a poupança económica seria fabulosa.

 

Brutalidade neopagã e mensagem cristã

Não surpreende que neste inquietante contexto económico e sanitário reapareçam a eutanásia e algumas condutas da antiguidade clássica. Devemos muito à Grécia e a Roma, mas aqueles mundos eram cruéis e sem misericórdia: exposição de recém-nascidos, desprezo pelos débeis – pobres, viúvas, órfãos, anciãos –, escravatura. O cristianismo melhorou a situação dos desfavorecidos, e aí está justamente uma das razões do seu êxito e da sua rápida difusão. Quando se produzia alguma epidemia e os sãos – médicos incluídos – fugiam das cidades, abandonando os infectados à sua sorte, os cristãos cuidavam dos seus doentes e também dos pagãos: não havia limites para o exercício da sua caridade. Esse ethos levou gente como Basílio o Grande a fundar em 369, nos arredores de Cesareia, o primeiro hospital de que se tem notícia histórica: Basileias. Tratava-se duma autêntica cidade, que acolhia tanto doentes como pobres. São Basílio passou à História como um grande teólogo, mas também tinha estudado medicina em Atenas e entregou-se ao cuidado dos mais desprezados, aqueles que o mundo descartava e punha de lado. Ele mesmo recebia em pessoa os leprosos, dando-lhes um beijo de boas vindas e oferecendo-lhes todo o tipo de cuidados. O caso de Basílio não foi, antes pelo contrário, um caso isolado: apenas o trouxe à colação a título de exemplo. Até ao dia de hoje, a caritas é um elemento essencial da mensagem cristã de serviço (diakonia), junto da proclamação da palavra e da liturgia (kerigma e liturgia).

Não é imprescindível invocar uma fé em Jesus Cristo para se defender a vida humana frágil ou terminal. Há uma ética e uma boa práctica médica inspiradas em razões de simples humanidade. Contudo, é ao mesmo tempo claro que a pertença comum à espécie Homo sapiens sapiens não basta para excluir cálculos utilitaristas. O que nos impedirá de eliminar idosos improdutivos ou jovens e crianças com deficiência? A fraternidade humana universal tem sentido se se baseia numa filiação partilhada. A dignidade humana só pode aspirar a um valor absoluto se o Homem é imagem ou reflexo do Absoluto, filho de Deus.

No nosso mundo observam-se tendências contraditórias, paradoxos autênticos. Enquanto soa o alarme do abandono e mortalidade dos idosos às mãos do Covid-19, o Governo tramita por via da urgência – sem debate social – a lei da eutanásia. Estava chamada a ser a primeira lei do Governo Sánchez (como se explica essa pressa?). A pandemia trocou-lhes os planos e parece que o Governo quer recuperar a todo o custo o tempo perdido. O neopaganismo convive com (os últimos?) rastos de cultura cristã numa surpreendente mistura. Queremos ir realmente nessa direcção? Seria bom escutar o conselho de Heinrich Böll e tentar imaginar como acabaria por ser o mundo sem Deus.


Alejandro Navas, Professor de Sociologia da Universidad de Navarra

(traduzido por António Vieira da Cruz)

terça-feira, 23 de janeiro de 2018

O vau



(Originalmente publicado no "Jacaré parado vira mala" no dia 22 de Janeiro de 2018)

Há uns meses que o meu carro de família é um Ford. Gosto dos EUA, tenho os automóveis americanos em boa conta, e a caligrafia no logotipo da Ford transporta-me para tempos mais antigos em que Henry Ford fundou a sua empresa e introduziu novas prácticas industriais que fizeram escola até hoje. E já que ando num Ford, pensei que devia ir à procura do significado deste apelido. Claro que fui deixando essa tarefa para mais tarde, mas o nome saltava-me à vista de vez em quando. Com o mesmo apelido, apareceram-me outros notáveis como o 38º Presidente dos EUA Gerald Ford, os realizadores John Ford e Francis Ford Coppola, o actor Harrison Ford e outros. E com um nome mais composto, o elemento “ford” também aparecia em Robert Redford ou no nosso Marquês de Campo Maior, também conhecido por William Carr, Visconde de Beresford.

Dinsford - "Os 101 Dálmatas"

Vendo os antigos desenhos animados dos 101 Dálmatas, a certa altura a acção passa por uma aldeia fictícia chamada Dinsford, e foi aí que despertei para os “fords” enquanto toponímia. É claro que há vários sítios: Dunsford, Beresford, Bedford, Redford… e outros mais conhecidos como Stratford-upon-Avon (a terra de Shakespeare), e lugares universitários como Stanford (Califórnia, EUA) e Oxford (Inglaterra). Oxford é o vau (ford) onde passavam os bois (ox). Já Cambridge, a universidade britânica que rivaliza com Oxford há mais de 800 anos, não tem vau mas uma ponte (bridge) para atravessar o rio Cam. Ambas têm uma relação profunda com a água, como se vê na corrida anual de barcos a remo que disputam entre si na categoria “Eights”.

Mas o que quer dizer ford? Ford é um vau, que segundo o Lello Universal (Lello & Irmãos) se define da seguinte maneira:

Vau, s. m. (lat. vadu). Sítio de um curso de água onde se pode passar a pé ou a cavalo: “Passar um rio a vau”. Baixio, parcel. Ensejo, oportunidade: “Ter vau para falar a alguém”. “Madeira a vau”, madeira em jangada. Pl. Naút. Traves em que assenta a coberta dos navios. Paus cruzados nas gáveas.

"Le Gué" - Claesz Pietersz Berchem (1650) - Museu do Louvre


Também em Portugal há lugares com este nome, por exemplo a Freguesia do Vau que abrange toda a margem sudoeste da Lagoa de Óbidos, ou a Praia do Vau em Portimão e outra praia com o mesmo nome no Rio Paiva, Concelho de Arouca. E esta semana que passou, no Canhão da Nazaré, um português chamado Hugo Vau conseguiu a proeza de surfar uma onda com cerca de 35 metros de altura, provavelmente batendo o record do seu amigo Garrett McNamara.

Esta investigação não podia esperar, avancei um pouco mais. Se “vau” em latim se diz vadu, será que a capital do Principado do Liechtenstein (Vaduz) tem essa etimologia? Procurei, abri livros e sites, mas não cheguei a qualquer conclusão. O Rio Reno corre ali perto, com um caudal já considerável, e pode ser que venha daí pois é insignificante a dimensão dos outros ribeiros que correm da montanha do castelo em direcção ao Reno. Um pouco mais adiante, depois de delimitar as fronteiras da Suíça com o Liechtenstein e com a Áustria, e após passar a bela Constança (Konstanz) na Alemanha, o Reno volta a entrar na Suíça e encontra um vau em Feuerthalen. Feuer?

Se vau em inglês é ford, também é interessante ver como será noutras línguas e se tem a mesma influência nos nomes das terras. Talvez o castelhano tenha preservado melhor o latim vadu, chamando-lhe “vado”. Quem já estacionou o carro em Espanha certamente já reparou que nos sinais para não estacionar defronte a uma garagem está a explicação “vado permanente”. Aqui, vado não será propriamente um baixio ou banco de areia num rio, mas deverá ser entendido como passagem – o que faz todo o sentido. Em francês diz-se “gué”, em italiano “guado”, em alemão “furt”. Furt? Frankfurt am Main! Francoforte é “o vau dos Francos sobre o rio Meno”. Da mesma forma, em flamengo e holandês temos “voorde” e “foort” a compôr os nomes de Vilvoorde (Bélgica), Amersfoort (Holanda) e tantos outros. Nessas línguas podemos encontrar outras palavras acabadas em -tricht, -trecht, -drecht (do latim traiectum) que indica um trajecto ou passagem em forma de vau. Maastricht é “o vau sobre o rio Mosa” (Meuse em francês, Maas em Holandês), e também Ultrecht e Dordrecht são vaus.

"Fox hunting crossing the ford" - George Wright (1860-1942)

Um pouco mais abaixo, na Alemanha próxima do Luxemburgo, temos a cidade de Tréveris com a sua imponente Porta Nigra e que nos acrescenta mais qualquer coisa a esta história dos vaus. Tréveris (Trier em alemão, Trèves em francês, Augusta Treverorum em latim) era habitada pelos Tréveros, um povo belga que mais tarde foi expulso para Norte pelos Francos. Os Tréveros ajudavam os viajantes a atravessar o Rio Mosela e tinham por deusa Ritona, a deusa celta que protegia... os vaus!

Sobre a simbologia do vau e Ritona, transcrevo o que diz o Dicionário dos Símbolos de Jean Chevalier e Alain Gheerbrant (Ed. Teorema):

Vau. O vau, em todos os textos célticos, é o lugar obrigatório dos combates singulares e é nos vaus que Cùchulainn mata a maior parte dos guerreiros que os irlandeses enviam contra eles. O vau é, portanto, acima de tudo, um ponto de encontro ou um limite. Muitas localidades da Irlanda são vaus, a começar pela capital actual Dublim, Baile Atha Cliath, a cidade do vau das caniçadas (WINI, 5, passim).

As descobertas arqueológicas trouxeram frequentemente à luz do dia armas afundadas nos vaus, o que leva a provar que o costume irlandês do combate a vau, em celta continental e britânico, se liga ao da passagem e da corrida. Existiu uma deusa Ritona, atestada pela epigrafia da época romana, que chegou a ser considerada como a especialista e padroeira dos combates de vaus. O herói irlandês Cùchulainn está num combate num vau quando a deusa da guerra se vem enrolar na sua perna sob a forma de uma enguia (LOUP, 186).

O vau simboliza o combate por uma passagem difícil, de um mundo para o outro, ou de um estado interior para outro estado. Reúne o simbolismo da água (lugar dos renascimentos) e das margens opostas (lugar das contradições, das travessias, das passagens perigosas).

A propósito de combates em vaus, a primeira memória que me surge é a de Robin dos Bosques a lutar com João Pequeno num vau. “Robin Hood: Prince of Thieves” não é o meu filme preferido sobre o Robin dos Bosques, mas esta cena ficou-me.



E outro duelo de vau que recordo é o de Rambo - First Blood.

Voltando às etimologias, não consta que Roma, Florença ou Verona tenham o elemento “guado” (vau) no nome. Mas é sabido que Roma foi construída num vau do Tibre, Florença num vau do Arno e Verona e Trento em vaus do Rio Ádige. Ou seja, a importância dos vaus é mais que toponímica ou do mais que possa parecer. Há uma história dos vaus que está por contar.

Por fim, bem pudemos ver que a etimologia é como qualquer vau: uma passagem que dá acesso à outra margem, de onde se ganha nova perspectiva sobre as coisas. E também os perigos da etimologia são idênticos aos do vau: se a corrente é forte, não nos livramos de ir parar a sítios que não prevíamos. Mas para quem tem curiosidade sobre o desconhecido, arriscar não é problema.

sexta-feira, 30 de junho de 2017

As Cortes na República

(Originalmente publicado no "Jacaré parado vira mala" no dia 1 de Junho de 2017)

Vejo várias vantagens na monarquia. Mas o que eu menos gosto nas monarquias é da Corte no seu pior sentido, entendendo-a como aquele conjunto de pessoas que rodeiam o monarca para obter privilégios e poder sobre os demais. Ossnobs, sem nobreza, ostentam títulos e buscam outras formas de poder como um fim em si mesmo; já os nobres, mesmo quando sem título, reconhecem que o poder de que dispõem não é verdadeiramente seu e que deve ser posto ao serviço do Bem Comum em geral e do próximo em concreto.

Cortes Constituintes Vintistas (1820)

Custa-me ver que tantas repúblicas e republicanos convictos acabaram com tantas tradições boas e úteis da realeza ao mesmo tempo que reforçaram o seu pior defeito: a Corte. No posto dos pequeninos aduladores passámos a ter lugar cativo para vários grupos de pressão muito mais brutos, num esquema clientelista mais ou menos legalizado, com uma gigantesca porta giratória a marcar o ritmo dos movimentos de rotação e translação destes autênticos satélites do poder.

Para encontrar exemplos deste clientelismo, não precisamos de ir muito longe. É um exercício arrepiante se pensarmos nos políticos que marcaram as nossas últimas décadas em Portugal e nos respectivos membros das suas Cortes:

Mário Soares – Almeida Santos, António Arnaut, Carlos Melancia
Cavaco Silva – Dias Loureiro, Duarte Lima, Oliveira e Costa
António Guterres – Jorge Coelho, José Sócrates, Armando Vara, Pina Moura
Durão Barroso – José Luís Arnaut, Isaltino Morais, Santana Lopes
Santana Lopes – Aguiar Branco, Gomes da Silva, António Mexia
José Sócrates – Manuel Pinho, Mário Lino, José Lello, Jaime Silva
Passos Coelho – Miguel Relvas, Luís Montenegro, Marco António Costa
António Costa – Pedro Nuno Santos, Rocha Andrade, Ana Catarina Mendes, Carlos César...

Quantos destes não estão ou estiveram a braços com a justiça? Quantos destes são um exemplo de virtudes? Com quantos destes seríamos capazes de deixar os nossos filhos por meia hora que fosse? E eu até acho que Cavaco Silva ou António Guterres, por exemplo, serão pessoas com bom fundo. Mas isso não significa que se tenham rodeado dos melhores conselheiros, antes pelo contrário. Claro que em todos estes governos também houve boas pessoas que eu não mencionei. No entanto, há muitos aproveitadores a chegar aos lugares-chave da administração pública.

Sultão Solimão I, o Magnífico (1494-1566)

Noutros países republicanos também encontramos os piores vícios da Corte, com dinastias políticas a rodearem-se dos mais cúmplices cortesãos. Nos EUA, por exemplo, após Trump ter derrotado o candidato da dinastia Bush nas primárias e a candidata da dinastia Clinton na eleição geral, vemos este Presidente a inventar um poderoso posto de Primeira Filha e a nomear o seu genro para Senior AdvisorComo lembra Philip Mansel na Spectator, também na Turquia o Presidente Erdogan nomeou o seu genro para Ministro da Energia e Recursos Naturais. Em França, o Presidente Macron esboçou um governo de centrão e rodeou-se dos mais importantes empresários e políticos que o apoiaram nas eleições e que, à esquerda e à direita, o aclamam qual Rei Sol. Em Espanha, os dois partidos que suportaram os últimos governos de Zapatero (PSOE) e de Rajoy (PP) e que permitiram tanta corrupção moral e financeira no Estado central e nas autarquias, lá se aguentaram por mais uns tempos no poder após o susto da crise eleitoral que recentemente viveram. Na Rússia, só vinga nos negócios quem está politicamente próximo do Kremlin de Putin. E tal como Putin não esconde a sua inspiração nos Czares, também Erdogan construiu um palácio presidencial maior do que os de outros Sultões Otomanos e Macron faz um uso cénico da política que faz lembrar um certo esplendor (embora decadente) de Versailles. Talvez por prudência ou por feitio, Angela Merkel é mais comedida nas maneiras, mas toda a gente sabe que quem controla a União Europeia é Berlim e que Bruxelas é uma espécie de Brasília ou de Otava, que serve para contentar Rio de Janeiro e São Paulo, ou Toronto e Montreal, ou, neste caso, Paris e Berlim. Angela Merkel é uma Imperatriz que se contenta em exercer o seu poder sem grandes alaridos mediáticos – imagine-se o que será desta Europa quando a senhora for sucedida por um alemão mais espalhafatoso que, dando nas vistas, nos faça ver a triste realidade da nossa condição!

Conselho de Estado com Presidente Marcelo Rebelo de Sousa


Cá em Portugal, o Presidente Marcelo conscientemente prescindiu de promover uma Primeira Dama, invocando que essa figura respeitável é mais própria de uma monarquia que de uma república. Ele lá saberá. No seu caso, por tão afectuoso e popular que é, até ver ninguém se queixa. Mas frequentemente se reúne com a sua Corte, perdão, Conselho de Estado, que é como sempre composto por políticos, magistrados e amigos.

Todo o dirigente precisa de bons conselheiros para pensar nas várias vertentes do problema com que se depara e tomar a melhor decisão possível. Mas estes republicanos de que vos falei, todos eles, assimilaram as Cortes e elevaram este vício do sistema a um patamar superior de corrupção e clientelismo. Com tudo isto, só um Estado mais pequeno e constitucionalmente limitado pode conter a fome dos actuais devoristas. Tal como recentemente dizia Pedro Feytor Pinto, "quase não devia haver governos".

segunda-feira, 20 de março de 2017

a moeda (resposta ao LBM) - JPVM

(Texto originalmente publicado no "Jacaré parado vira mala" no dia 13.02.2017, em resposta a este texto de dia 01.02.2017 de Luís Bessa Monteiro, também publicado no "Jacaré parado vira mala")


Venho desta forma responder ao comentário muito interessante do meu caro amigo Luís BM. E deixem-me dizer desde já que é por isto que gosto de escrever ao seu lado e do João MP, pois assim posso aprender e ter o prazer das boas conversas.

Se o Luís diz não ser especialista em matéria de políticas monetárias, certamente por modéstia, eu então devo afirmar com toda a frontalidade que muito menos especialista serei. Mas como bom ignorante que sou, não deixo de exprimir alguns pensamentos e dúvidas que tenho.

Concordo que enfrentaremos várias dificuldades ao sair do euro. A primeira dificuldade de todas é que estamos há mais de 15 anos sem a experiência política e até pessoal de lidar com uma moeda própria que esteja talhada à medida da nossa realidade. E digo à medida da nossa realidade e não das nossas necessidades, porque as necessidades se devem adaptar à realidade e não o contrário. Quando relegamos a realidade para segundo plano,Pandora trata do resto. Pandora - a que dá tudo - é a Eva da mitologia Grega, que de Zeus recebe um grande jarro como presente de casamento, e com ele a advertência de que nunca o deverá abrir. Mas como seria de apostar, Pandora não resiste à curiosidade e abre esse jarro, comummente conhecido por "a caixa de Pandora", saindo dali para o mundo coisas tão terríveis como a morte, a doença, o desespero, a maldade, a velhice, o ódio, a violência, a guerra e os demais males que vagueiam pelo mundo. Acrescenta Sir Roger Scruton em "As vantagens do pessimismo" (Quetzal Editores 2011) que Pandora fechou imediatamente a caixa, e ficou lá dentro uma prenda - a prenda da esperança: o único remédio, mas também o flagelo final. A esperança, quando bem entendida, é o único remédio; mas facilmente se torna no pior dos males. Ora, a esperança deve não só ir bem acompanhada pela Fé e pela Caridade, como também ser muito bem dirigida para Aquele que realmente nos salva e que nunca nos irá deixar ficar mal. Mas quando pomos esperança na ilusória perfeição das soluções humanas, este triste engano acaba por perpetuar em nós as tormentas dos outros males que saíram da caixa de Pandora, potenciando desse modo o seu impacto destruidor.

Assim, a nova moeda nacional só poderá ser boa se alicerçada na realidade de Portugal, da sua economia e reservas. Devemos fugir da utopia do euro e protegermo-nos das utopias de futuras políticas monetárias, sejam elas keynesianas ou de outra estirpe. E as reservas que dão maior garantia, apesar de tudo, continuam a ser as de ouro. Segundo o World Gold Council, Portugal tem cerca de 382,5 toneladas de ouro, sendo o 12º país com maiores reservas de ouro no mundo. Seria muito bom que pudéssemos voltar a crescer economicamente, a diminuir a nossa dívida pública e a reforçar o nosso tesouro, pois essas são as melhores (senão únicas) garantias internacionais que temos. O dinheiro em Portugal - a nova moeda - deveria depender destes três factores e ser constitucionalmente muito bem protegido das tentações políticas, por forma a atingir credibilidade junto de nós e dos estrangeiros. A partir do momento em que o Governo começa desenfreadamente a brincar às políticas monetárias, a imprimir mais moeda e a mexer nas taxas de juro, tudo está estragado. Os objectivos podem ser os melhores, por exemplo os de fomentar o investimento ou o consumo... mas e quem poupa uma vida toda para ter uma boa velhice e deixar uma boa herança aos seus? O que lhes dizer quando o dinheiro que amealharam com tanto custo passa a valer menos?

Tenho a noção que estou a entrar em território Comanche, pois aqui também há perigos que devem ser acautelados para evitar a concentração de poder em agiotas e usurários tão bem representados por Shakespeare na personagem de Shylock n'O Mercador de Veneza. É por isso talvez necessário encontrar uma via média, pouco intervencionista mas suficientemente atenta para agir quando necessário. Os Gregos Antigos descobriram que um pouco de dívida pode aumentar a riqueza: o devedor fica mais rico porque usa uma propriedade que não tinha; e o credor fica mais rico porque irá colher juros sobre o empréstimo sem perder essa sua propriedade. Mas por outro lado, demasiada dívida torna-se insustentável: o devedor fica mais pobre porque se endividou a um ponto que não consegue pagar e tem de penhorar os seus bens; e o credor fica mais pobre porque não consegue cobrar o que lhe é devido. O clássico problema político é definir o que aqui é "pouco", "muito" e "demasiado", e encontrar uma boa solução para estas situações.

Vem a propósito lembrarmos a história de Sólon e da primeira bolha do crédito de que há memória. Em 594 a.C. Atenas estava à beira duma guerra civil entre credores e devedores por causa de uma situação em que o pagamento das dívidas se tornou insustentável. Chamaram Sólon para apresentar uma solução e a sua proposta terá sido a de imprimir mais moeda e desvalorizar o dracma em cerca de 27%. Esta proposta aliviou os devedores, que ficaram com mais liquidez para pagar as dívidas, e os credores que receberam os pagamentos - apesar de estes valerem menos. E se olharmos para bolhas do crédito mais recentes como a Grande Depressão ou a actual crise (desde 2007 até hoje), vemos que o padrão se repete: desvalorização da moeda e redistribuição da propriedade (riqueza). E depois há uma variável que depende do tipo de pessoas que está no governo nessa altura: ou se deixa os credores abrirem falência e os devedores ficam com a dívida parcial ou totalmente perdoada (mas com menos uma entidade a quem pedir dinheiro no futuro); ou se protege os credores e o Estado paga-lhes essa dívida, seja subindo os impostos ou contraindo mais dívida pública, atirando o desta forma os problemas para o futuro.

A partir daqui, compreendemos que muita dívida é uma catástrofe; e que um pouco de dívida bem pode aumentar a riqueza, mas também não aumenta o dinheiro. Ou seja, a qualidade de vida aumenta porque se consumiu mais, o dinheiro circulou mais e por mais gente, e fizeram-se coisas que de outra forma não seria possível. No entanto, o dinheiro é um bem escasso que não se reproduz pela circulação. Reproduz-se pela emissão de mais moeda que, se não for feito com extremo cuidado e uma inquebrável dependência da realidade produtiva e económica do país, traduz-se numa desvalorização da moeda que perde credibilidade e força a par das poupanças. Se não tivermos cuidado e esta realidade não for tida em conta, geram-se as bolhas especulativas que invariavelmente causam impacto negativo na economia real, ou seja, na vida das pessoas. A estabilidade dos preços, a criação de emprego e o incentivo ao consumo bem podem ser causas nobres, mas a natureza da moeda tem de estar ligada à realidade das reservas e bem blindada à prova de preferências políticas do momento. E uma reserva credível deverá rica em ouro, o metal cujo valor é historicamente do mais estável que podemos encontrar. Não terá sido por outra razão que a Alemanha deu ordem para que se repatriasse mais rapidamente do que planeado boa parte das reservas de ouro que tem em Nova Iorque e Paris, tal como foi noticiado na passada semana. E se a Alemanha prepara uma eventual saída do euro, não será prudente que nos preparemos também?

Voltando às reservas, desta forma a nossa nova moeda teria real valor. Não teria porventura o valor que desejamos a cada momento. Mas teria o valor que qualquer pessoa lhe reconhece. Talvez não fosse a melhor moeda para as políticas socialistas que nos fazem viver às custas dos nossos filhos. Mas talvez por isso fosse uma âncora de realidade que nos permite evitar mais sacrifícios vãos.

Finalmente, o Luís toca no tema dos sistemas eleitorais. É um tema belíssimo que tem tudo a ver com esta concepção de moeda por se tratar de uma aproximação da política às pessoas e por visar a devolução de poder às mesmas. Mas este texto já vai longo e vejo vantagem em prosseguir esse debate num outro post.

sacrifícios vãos - JPVM

(Texto originalmente publicado no "Jacaré parado vira mala" no dia 27.01.2017)


Antes de 1974 sacrificou-se a democracia para se manter o império.
Depois de 1974 sacrificou-se o império para se ganhar a democracia.
A partir de 1986 sacrificou-se a independência para se aceder à Europa.
Desde 2002 sacrificou-se a moeda própria para se atingir a prosperidade.

Em 2017 não temos império, nem democracia, nem independência, nem Europa, nem moeda, nem prosperidade. Temos apenas um conjunto de más decisões baseadas em premissas falaciosas. Temos um país endividado e pessoas com uma carga fiscal insuportável. Trocámos a nossa realidade por utopias e ficámos practicamente sem nada.

Disto tudo que perdemos, o que podemos recuperar? Do império, apenas os laços culturais e comerciais. Da democracia, devolver a Lisboa a capacidade legislativa que foi transferida para os deputados estrangeiros em Bruxelas e Estrasburgo, e que produzem a esmagadora maioria das leis aplicadas em Portugal. Também ajuda à democracia o bom-senso de reconhecer quem ganha as eleições e, já agora, a rejeição intransigente do comunismo e das suas diversas metástases anti-liberais. Da independência, analisar com prudência e aproveitar o que se puder da oportunidade aberta pela saída do Reino Unido da União Europeia. Da Europa, uma relação mais saudável, comercial e nada subserviente com a União Europeia, rejeitando a mentalidade de alunos da Alemanha e França. Da moeda, um novo escudo forte e ligado à realidade da nossa economia e património - Frankfurt fica lá longe, a mais de 2 mil quilómetros daqui. A prosperidade recupera-se caso a caso, família a família, empresa a empresa, com as decisões pessoais de cada um, com menor e melhor intervenção do Estado e um considerável alívio da carga fiscal.

quinta-feira, 18 de dezembro de 2014

book review "Forgotten War: Forgotten Genocide"

Author: Wali-ur Rahman
Publisher: Bangladesh Heritage Foundation
Place: Dhaka, Bangladesh
Year: 2011
181 pages


If someone ever asks me how to understand Bangladesh better, my advice is: start by studying its International Crimes Tribunal. I would say this is perhaps the best way to know about Bangladesh contemporary history and politics. That is what happened with me. The International Crimes Tribunal in Bangladesh tells us a lot about the country’s past and present; about its independence; about its cultural, ethnic and political tensions; and about its struggle to find justice, peace and prosperity. The book “Forgotten War: Forgotten Genocide” was written in 2011 by my good friend H.E. Ambassador Wali-ur Rahman and it is an ideal tool to understand everything about these issues.

From 1947 to 1971 Bangladesh was part of Pakistan and before it was under the British Raj. Bangladesh, or East Pakistan, had a very different culture and language than West Pakistan, which the rulers of Islamabad did not recognize. On the end of 1970, Pakistan held the first general elections in its History and the Awami League party (from East Pakistan, now Bangladesh) won the elections by far, gaining more than half of the parliamentary seats. However, President Yahya Khan refused to hand out the power to the Awami League and, on the 7th of March 1971, its leader Sheik Mujibur Rahman declared in front of 2 million people in Dhaka “our struggle is for our freedom, our struggle is for our independence”. Yahya Khan met with Pakistan Armed Forces and started a terrible crackdown in East Pakistan, which resulted in 9 months of war, ending with the independence of a new country, Bangladesh.

But meanwhile, heinous crimes against humanity were committed and probably the biggest world genocide after the Holocaust happened, causing the death of about 3 million people. As Wali-ur Rahman says in the book,

In the short period of 9 months we lost 3 million people and 2 lac mothers and sisters lost their virginity. It is believed in certain quarters that a figure of three million has its origins in comments made by Yahiya Khan to the journalist Robert Payne on 22 February 1971: “Kill three million of them and the rest will eat out of our hands.” (page 31)

The Pakistani military forces and its local collaborators were particularly brutal and, as ordered,

attacked systematically and on a widespread basis the Bangalees on an ethnic ground; they attacked Hindu Bangalees on a religious ground; they attacked Awami league supporters on a political ground. So it is evident that they made their attacks being discriminated politically, racially, religiously and ethnically and the attack was systemic and widespread if we take into account the occurrences of the attacks during 9 months and the number of victims. (pages 41-42)

From this results that

by September 1972, nearly 41.000 collaborators were arrested and charges were brought against 37.491 collaborators against whom there were specific allegations. Till October 1973, 2.848 cases were heard by the 73 Collaborators Tribunals and 752 were convicted. During the trial, on April 17, 1973 the government issued a Press Release as regards war criminals for the first time. In the Press Release 195 persons were termed as war criminals. (page 35)

According to the book, the religious affiliation of victims during the 1971 war were Muslims (56,50%), but also Hindus (41,44%) and Christians & Others (2,06%). Incidents of History – explained in the book – only allowed Bangladesh to form a fully working tribunal to judge the 1971 crimes against humanity on 2010, almost 40 years later. But it is better later than never. The idea of such a tribunal comes from a considerable tradition of International Crimes Tribunals formed since the 2nd World War in many occasions and places. This is a list of them:


  • Nuremberg Tribunals (Nuremberg, 1945-6)
  • Tokyo Tribunals (Tokyo, 1946)
  • The International Crimes Tribunal for Former Yugoslavia ICTY (Hague, 1994)
  • The International Crimes Tribunal for Rwanda ICTR (Arusha-Tanzania, 1996)
  • Special Courts for Sierra Leone (Sierra Leone, 2002)
  • Extraordinary Chambers in the Courts of Cambodia ECCC (Cambodia, 1997)
  • Hybrid Tribunals for East Timor (Dili, 2000)
  • International Crimes Tribunal (Bangladesh, 2010 - present)



It is very important for Bangladesh to finally overcome this wound. Present democratic leaders of Bangladesh realized that if impunity keeps triumphing like it did for the last 40 years in Bangladesh, the country would never overcome this wound and punish some of the worse war criminals of the 20th century. It is very important for Bangladesh that the international community supports its International Crimes Tribunal. Proper justice is crucial to gain peace and for the nation to move forward.


I strongly recommend the reading of this book because it helps us to remember the forgotten war and to know why and how the International Crimes Tribunal was formed: for the sake of human rights, democracy and the rule of law. Reading this book you will be able to understand the importance of judging these crimes still today, as the impressive Shahbag youth protests in 2013 clearly showed. When this process ends, Bangladesh will be finally able to move forward and embrace exclusively its future. May this beautiful country and its heroic people be blessed with the best things that exist.

quarta-feira, 21 de novembro de 2012

passaram ainda além da Taprobana

Em baixo o artigo que escrevi no quarto número da revista Think South Asia (19 de Novembro), que edito com o apoio do South Asia Democratic Forum. Principais países em destaque: Sri Lanka e Paquistão. Neste número fala-se também da educação como forma de combater o extremismo e o terrorismo, e temos ainda a honra de contar com Vytautas Landsbergis, o primeiro Presidente da Lituânia após o comunismo.
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Por mares nunca de antes navegados,
Passaram ainda além da Taprobana*
Luís Vaz de Camões, in “Os Lusíadas” – Canto I
 
In this edition of Think South Asia we put the focus on Sri Lanka. With a long history and a very distinctive identity formed by a great profusion of different ethnicities and a meeting point of religions, Sri Lanka has a incredibly rich culture. Its privileged geography puts Sri Lanka in a very central and strategic situation in the Indian Ocean. As in the first stanza of his opus magum “Os Lusíadas”, the Portuguese poet Camões considered Taprobana (another name for Sri Lanka) a transition point for western culture. Of course this 16th century stance is not exactly the same in today’s globalized world, nevertheless Sri Lanka maintains its role of a commercial passage country with many opportunities to be a motor for improving regional cooperation amongst the countries of South Asia.
 
Concerning Sri Lanka, we have the chance to read an excellent country profile from South Asia Democratic Forum’s Policy Adviser Cátia Rodrigues, which gives the floor to Robert Jan Riemersma’s article on the reconciliation process in Sri Lanka. Mr Riemersma is an expert on the issue and conducts his research in the prestigious Heidelberg University. Finally, we have the pleasure to inaugurate a new readers’ section of the Think South Asia magazine, where we recommend an interesting book on Sri Lanka’s history.
 
The hot topic of Balochistan is also an issue affecting South Asia’s peace and stability. Dr Siegfried O. Wolf writes on the current situation in Balochistan and the Pakistani government’s attitude towards it. Meanwhile, on the occasion of the United Nation’s Universal Periodic Review (UPR) for Pakistan, Mr Mehran Baloch alerted us that the “danger of the nuclear assets falling into the hands of terrorists has already materialised and the world should understand this for if it doe­sn’t the world will have to pay a bitter price for its laxity and complacence”. Mr Baloch is the Permanent Representative of Baluchistan to the UN Human Rights Council.
 
We do not forget education for tolerance in this edition. Mr Amir Mustafa is a Research Officer in the South Asia Association for Regional Cooperation (SAARC) Human Resource Development Centre in Islamabad, Pakistan, and he writes on “Education for Peace and Prosperity in South Asia”. This is an article not to be missed: Mr Mustafa gives us a very well-informed idea of what is going on in each of the eight countries of SAARC.
 
Finally, last but not least, in the last edition of this magazine we announced the South Asia Democratic Forum’s conference on “The Merits of Regional Cooperation – The case of South Asia” which took place in Brussels on 11 October. I just want to leave here a word saying it was a great success: it really opened the debate on regional cooperation in South Asia, with deep interventions, such as the one from President Vytautas Landsbergis from Lithuania, which we are honoured to present in this edition. The quality and innovation of the academic papers presented in the conference was clear for all to behold. I hope to be able to share further  findings of that conference with you in due course given the quality of the work produced. In the meantime, I invite you to enjoy this, the fourth edition of Think South Asia.
 
*By seas never before sailed
They passed even over Taprobana
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Publicado no site do South Asia Democratic Forum: www.sadf.eu
Facebook: https://www.facebook.com/SouthAsiaDemocraticForum
Para fazer o download da revista Think South Asia 04: http://sadf.eu/docs/thinksouthasia04.pdf