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segunda-feira, 26 de maio de 2025

Um momento de temple

(originalmente publicado no Jacaré)

Tempo

Preso num horário e nas investidas arrítmicas das pessoas e dos acontecimentos na vida, arranjo espaço para templar.

 

Templar

É mais do que o tempero e a temperatura do tempo. É mais do que seasoning. Templar é moderar a vertigem do tempo e apreciar o que passa em câmara lenta. Não se trata de pôr um frame no pause, mas de admirar devagar a sucessão dos acontecimentos, descobrindo a beleza dos pormenores, a verdade de pequenos aspectos, os traços de bondade das suas lições. Podemos templar na acção como na admiração. Templar é provar, sentir, aprender e guardar na memória. Templar é uma arte.

 

Peregrinação

Nada nos dá maior temple do que a oração, caminhando pela natureza, notando as maravilhas da criação na companhia de pessoas que admiramos mais a cada passo que passa.

 

Eucaristia

O altar onde nos encontramos com o Criador que encarnou para nos salvar, unidos ao seu sacrifício e Palavra.

 

Animais

Bodeguero, o segundo toiro que Morante de la Puebla lidou em Sevilha no primeiro dia de Maio, com capotazos memoráveis e cheios de temple. Um cão deslumbrado com o eco do seu ladrar num parque de Miraflores. Um pombo-correio perdido, ao qual dei de beber no Ribatejo. A mesma situação com um melro recém-nascido em pátio de Lisboa. O efusivo encontro com o agaponi que sempre nos espera. A borboleta que voa mais alto que as altas copas das árvores altas. A águia que sobe uma montanha de ar e leva uma cobra que se retorce no bico. A gaivota poisada junto à chaminé da Capela Sistina.

 

Fumo

O charuto de Morante e o cachimbo do poeta: o fumo da arte.

A central do Carregado que voltou a queimar: o fumo da energia.

Os incêndios que se anunciam em Portugal – o fumo da morte.

As bombas em Gaza, na Ucrânia e em Cachemira – o fumo da guerra.

O fumo branco que anuncia a chegada de Leão XIV – o fumo da paz.

 

Encontros

O apressar para a reunião; uma despedida mais demorada; o vagar de uma boa conversa; o despachar atabalhoado quando não apetece; a desilusão; o corte; o comboio que se foi; o semáforo que caiu; as acções em queda livre; as acções em recuperação lenta; uma carta que chegou; duas cartas que se enviou; a lembrança do amigo que se esqueceu; a irmã que telefonou; o irmão que quis saber; a árvore derrubada pelo vendaval; a confissão; e os pais no coração.

 

Família

Mulher e filhos, tão bons. Um sonho! O que posso querer mais?

 

Tempo

Toca o despertador, acabo o parágrafo e fecho o livro. Meto-me a caminho, levanta-se o pó e esfuma-se o fumo. Muda o ritmo, adapto o temple. Dou graças a Deus e peço-Lhe dias melhores.


quinta-feira, 23 de dezembro de 2021

conto - um pinheiro de Natal

(originalmente publicado no Jacaré)




Era uma vez, nuns terrenos de areia quase à beira do Tejo, um enorme pinheiro de raízes fundas e braços estendidos ao céu. Era a árvore mais vistosa de todo o Ribatejo e sonhava um dia poder alegrar o Natal de alguma família cristã. Ah, como desejava guardar aos pés os presentes de laçarotes encarnados e fingir que eram os seus sapatos de festa… e queria tanto que o vestissem de fitas e bolas brilhantes, que o trajassem de luzes como aos toureiros e que lhe colocassem à cabeça uma bela estrela tal como aos bolos especiais se põe uma cereja!


Um dia de Outono, húmido e frio como pertence à estação, o pinheiro contemplava a grande planície e olhava altivo para os pimentos do campo e para o arroz da lezíria. «Pobres vegetais», pensava o pinheiro para com as suas pinhas, «que estão destinados a um fim tão corriqueiro como a alimentação dos homens em dias sem história». O pinheiro aspirava a mais. Mas, enquanto se entretinha com as certezas da sua nobreza, “VRRRUMM!” um enorme ruído de motor soou perto do chão. Debruçou-se e viu um homem de serra na mão a levantar uma nuvem de serradura rente às suas raízes. A formosa árvore inclinou-se um pouco mais para ver melhor, sentiu o perfume inebriante da sua resina e “CRAAC”, “PAF!”, caiu com estrondo no manto de carumas. «Oh, meu Deus!», exclamou o pinheiro entusiasmado, «querem ver que chegou o dia? Serei finalmente a árvore de Natal na entrada duma casa grande, ou quem sabe no centro duma praça de aldeia, vila ou cidade?» 

O pinheiro cedo percebeu que os seus planos iam sair furados. No chão, cortaram-lhe o tronco em vários toros do mesmo tamanho e juntaram-no a outras árvores caídas daquele pinhal. No fim, veio uma grua que os carregou para uma camioneta enquanto ele se indignava «Não me podem fazer isto! Não vêem que eu sou um pinheiro de Natal?». No tronco via-se a idade que tinha, tantos anos quantos os seus anéis, e os anéis mais grossos correspondiam aos anos de mais chuva e maior crescimento: no corte, a história da sua vida! Mas não tenhamos já pena do nosso pinheiro, pois ele não imaginava que Deus lhe tinha reservado o melhor para depois. A camioneta levou-o a si e aos seus companheiros para uma boa carpintaria na vila. Lá, foram transformados em tábuas lisas, foram tratados, envernizados e mais tarde montados em conjunto à porta da Igreja Matriz. O pinheiro era agora parte das paredes e do telhado dum estábulo que recebia um burro e uma vaca verdadeiros e actores que representavam os anjos, os pastores e a Sagrada Família. Sentia-se profundamente realizado. As pessoas saíam da Missa do Galo e juntavam-se no adro, à volta do Presépio, ceando um prato quentinho de arroz de pato com pimentos assados. «Ora vivam!», cumprimentou o pinheiro feliz.

AVC

quarta-feira, 13 de junho de 2018

Retiro

(Originalmente publicado no "Jacaré parado vira mala" no dia 9 de Junho de 2018)

O dia-a-dia das grandes cidades absorve muito de nós. Quanto mais energia as cidades nos dão, mais no-la tiram. Luzes, chamadas, escolhas, impactos publicitários, tudo mediado por tecnologias, em doses cavalares e non-stop. Stop!

Vista do Monte Qingyuan 清源山 sobre Quanzhou 泉州, Fujian 福建, China

Quanzhou e Lisboa têm em comum uma riqueza rara que souberam manter: a montanha coberta de floresta e sobranceira à cidade. O monte Quingyuan ou a floresta de Monsanto convida-nos à valentia dum bom passeio a pé. As suas árvores purificam-nos os pulmões e abrigam-nos do sol e das chuvas. Ali podemos mergulhar no verde ou, olhando para trás, ver a cidade em perspectiva.

Neste retiro, encontramos a distância silente que nos permite relativizar os problemas e deixa evidenciar o que é, nesta vida, essencial. Caminhemos então, e deixemos por um par de horas o carro, o telemóvel e o relógio. Aproveitemos para reformular prioridades! Descansemos um pouco na paz de Deus...

No fim da volta, tornados à confusão da urbe, trazemos na memória uma moldura verde que tudo filtra e embeleza.

quarta-feira, 5 de junho de 2013

Lenda do Liz e Lena

Nasceu o Rio Liz junto a uma serra
No mesmo dia em que nasceu o Lena;
Mas com muita paixão, com muita pena
De seu berço não ser da mesma terra

Andando, andando alegres, murmurantes,
Na mesma direcção ambos corriam;
Neles bebendo as árvores chilreantes
Cantavam esse amor que ambos sentiam

Um dia já espigados, já crescidos
Contrataram casar, de amor perdidos
Num domingo, em Leiria de mansinho...

Mas Lena, assim a modo envergonhada
Do povo, foi casar toda enfeitada
Com o Liz mais abaixo um bocadinho.

José Marques da Cruz

quinta-feira, 21 de outubro de 2010

da humildade



Passa uma geração, vem outra geração e a terra permanece sempre. Nasce o sol e põe-se o sol; depressa volta ao ponto de partida, donde volta a nascer. O vento sopra do sul, depois sopra do norte; num vaivém constante, retoma os seus caminhos. Todos os rios vão ter ao mar e o mar nunca se enche; e embora cheguem ao seu termo, jamais deixam de correr. Todas as coisas se afadigam, mais de quanto se pode explicar; o olhar não se farta de ver, nem o ouvido se cansa de ouvir. O que foi será outra vez e o que se deu voltará a acontecer: nada de novo debaixo do sol. Se de alguma coisa se disser: «Vede que isto é novidade», o certo é que já foi assim nos tempos que nos precederam. Mas nenhuma memória ficou dos tempos antigos, nem haverá lembrança dos acontecimentos futuros entre aqueles que vierem depois.

Qohélet 1, 2-11

sábado, 26 de dezembro de 2009

histórias anónimas que ficaram por contar

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Passam hoje 5 anos desde que um Tsunami devastou a costa de vários países, principalmente Tailândia, Indonésia e Índia, matando cerca de 226.400 vidas humanas. 70.000 pessoas não foram encontradas. Mais de 1,5 milhão ficaram sem casa.
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Cada pessoa uma vida, cada vida uma história. Envaidecidos pelos sucessos, tantas vezes nos convencemos que tudo podemos... É fácil esquecermos como somos frágeis e pequenos. Tão pequenos que cabemos dentro de nós.
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Há 5 anos a tragédia foi no outro lado do mundo, há 250 anos aconteceu aqui, feridas da Terra que continuam vivas. E como se não bastassem estas histórias anónimas que a Natureza não nos deixa contar, nós ainda contribuimos artificialmente para mais mortes anónimas, frágeis, indefesas (guerras, aborto, eutanásia,...) ... e choramos as tragédias com as mãos cobertas de sangue.
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Que todas as vítimas descansem em paz.
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sábado, 18 de julho de 2009

as circunstâncias, iludem

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Visto à luz do sol

é apenas mais um insecto

o pirilampo

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in "O gosto solitário do orvalho", de Matsuo Bashô (1644-1694)

quarta-feira, 20 de maio de 2009

lembrando "Bruddah IZ"

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Nascido a 20 de Maio de 1959 no Hawai'i, Israel Kamakawiwo'ole faria hoje 50 anos se fosse vivo. Com um porte distinto (1,90m de altura e quase 350kg de peso), o cantor e compositor insular não se separava do seu ukelele (descendente americano do muito nosso cavaquinho), que tocava com mestria enquanto cantava o amor, a natureza, e também a causa da independência do Hawai'i. Se o quisermos enquadrar num género musical, podemos tentar encaixá-lo entre o jazz, a música folklórica hawaiana e o reggae, mas a verdade é que a sua enorme versatilidade nos dificulta muito esse redutor trabalho de rotulação. Embora "Bruddah IZ", como era carinhosamente chamado, tenha marcado muito a cultura e identidade contemporânea daquelas ilhas, foi contudo um medley que fez dos temas Over the Rainbow e What a Wonderful World que lhe deu maior projecção internacional. IZ morreu com 38 anos em 1997, devido a problemas de respiração causados pela sua obesidade. O seu funeral teve honras de Estado e mais de 10.000 pessoas a assistir, e ainda hoje as suas melodias continuam na moda, nas telenovelas, nos filmes e nos anúncios publicitários, ecoando pelo tempo em corações que as suas interpretações tão bem sabem comover e contagiar.
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terça-feira, 21 de abril de 2009

redacções de pequenino - I

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Uma aventura na floresta
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Eu fui comprar o jornal quando vi a seguinte notícia:
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Pág. 18 --- Diário de Notícias ---
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Cangurus em extinção nas florestas da Austrália.
Pessoas estão a matar cangurus por divertimento na Austrália e oferecemos um prémio de fornecimento de chocolates para toda a vida a quem prender as pessoas.
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- Isto é um escândalo! - disse eu para comigo.
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Disse à minha Mãe e ao meu Pai que ia para a Austrália em missão secreta.
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Então a minha Mãe disse:
- Não vais se não me contares que missão é essa.
- Ai vou, vou!
- Não vais!
- Ai vou, vou!
- Não vais, não!
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E assim estivemos a falar no resto da semana.
E ao fim dessa semana interferiu o meu Pai na conversa.
E disse o mesmo que a minha Mãe.
E assim ficámos outra semana.
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No fim da outra semana, quando já tinhamos acabado a discussão, vi no jornal que já tinham descoberto os caçadores.
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Tanto trabalho para nada!
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(escrito na 4ª classe)
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quarta-feira, 15 de abril de 2009

maio florido e formoso

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Marzo ventoso
y abril aguanoso,
sacan a mayo
florido y hermoso.
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Sabedoria popular da Extremadura espanhola
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quarta-feira, 25 de março de 2009

o dia da renovada esperança

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Em tempos de crescente desânimo, uma antiga notícia é hoje especialmente bem-vinda, como todos os anos o é neste dia: a anunciação. Exactamente 9 meses antes do Natal, é a 25 de Março que a esperança da salvação começa a ganhar contornos reais. Por mais Judas e Pilatos que haja, por entre Herodes e Invernos (tanto os naturais como os económicos, demográficos ou de valores), do frio sai a Primavera e com ela renasce o amor, a fé, a esperança. Avé Maria, cheia de graça!
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terça-feira, 20 de janeiro de 2009

vox populi - II

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Zé Carlos, 47 anos (hoje com 50), sem-abrigo desde os 43, cabelo grisalho e espesso, contava como a sua mulher Cecília o tinha trocado por um colega de trabalho. Com ela, deixou dois filhos: Frederico, 13 anos, que nasceu com paralisia e é “muita lindo”; e a Daniela, de 11 anos.

Noutras vidas, Zé Carlos trabalhou na construção civil, foi pintor de paredes, e carpinteiro também. É artista, desenha bem, tem esboços de quadros em carvão sobre papel, semi-amarrotados e com pingos de água – talvez da chuva, ou quem sabe das lágrimas...

Suas paixões? A Natureza!, responde logo. E depois, a História de Arte, os romances históricos, a História da Idade Média, Biologia, o Surrealismo (os seus esboços são também surrealistas, eu vi-os, e de qualidade), Jerónimo Bosch. Os olhos de Zé Carlos iluminavam-se...
– Ah, e sou doido pelo Tio Patinhas, principalmente as histórias feitas p’lo Carl Barks, e as do Don Rosa! São uma maravilha! Conheces?
– Sim, sim! Muito boas.

Acredita em Deus mas diz não rezar as orações tradicionais. Respondi-lhe que as suas orações não eram menos valiosas para Deus, e ele abriu a confiança num sorriso da boca aos olhos, mostrando pela primeira vez a falta de dentes.

Tem a auto-estima em baixo, diz-se feio. Mas é culto e autodidata. Não se dá com os outros sem-abrigo, a sua companhia é Deus e o cão, que se chama Rainbow (a sua dificuldade na dicção fez-me perguntar 3 vezes se se tratava do Rambo, até ele me explicar que era um arco-íris).

O Zé Carlos falou um dia com a assistente social, dizendo-lhe que queria refazer a sua vida. Esta respondeu que era difícil ajudá-lo por ele não ser toxicodependente. Perguntou numa entristecida ironia, de voz embargada:
– Não me orientas um charrinho que m’ajude? É que senão, não me safo...

Quando disfarçadamente bocejou a primeira vez, quis deixá-lo descansar, e despedimo-nos entre mais conversas e apertos de mão, durante uns bons 10 minutos.
– É que – pausa, suspiro – não é todos os dias que se fala...
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