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quinta-feira, 8 de janeiro de 2026

Travelling with Tea — part 1

(também publicado no Substack)


My first travels began at home, going back and forth from the kitchen to the living room. As a child sitting next to my mother, I was amazed by how she poured steaming water and tea leaves into the teapot. Simultaneously, we would prepare a tray with warm scones, slices of bread, crackers, butter, honey, and tomato jam. It was cold outside, so we had our tea by the fireplace. Those were the days!

I have always loved tea. Infusions of other aromatic plants never gave me as much joy as real tea. I learned at home to take my tea without sugar, and only rarely with a cloud of milk to mask any excessive bitterness. If I had a sore throat, a spoonful of honey and a sliver of lemon peel were also acceptable. However, in the 1990s, most tea in Lisbon was sold in teabags; if we ordered loose-leaf tea in specialty shops, there were few variations of black tea and lower-quality green tea. And it was difficult to find a nice Oolong.

Lisbon: As a teenager living in old Lisbon, winter meant paying a visit to Casa Pereira. This was a classic tea shop in the Chiado neighbourhood — small and beautiful, with wooden shelves and three or four gentle shopkeepers in dark red uniforms. Casa Pereira was where I bought tea as Christmas presents for my aunts, first with escudo coins and later with euro bills. A very old man and his son ran the shop, but as the son aged, it became clear that no one from the younger generation was interested in continuing the business. Casa Pereira closed its doors six long years ago, but I still remember the scent of that place — the fragrance of roasted coffee, chocolates, and fine Ceylon tea.

Qatar: My first contact with a different tea culture was years ago in Qatar. Upon arriving at the hotel, I was served a welcome drink steaming from a small silver glass with engraved Arabic motifs. The drink was warm and refreshing at the same time. Moroccan, Tuareg, and Arabic people love green tea with peppermint to offset the inhospitable temperatures of the desert. In regions stretching from North Africa to the Middle East and Central Asia, they use a ratio of roughly 20–35% dry green tea to 65–80% fresh peppermint. The water is hot but not boiling, ensuring it doesn’t overcook the leaves and extracts only the best flavours. You can easily prepare this at home. In Qatar, it feels as though no one lives only in the present; you see deep contrasts between the past and the future: traditional old souks and climatised shopping malls, the ancient treasures of the Museum of Islamic Art facing glass skyscrapers across Doha Bay... and old-fashioned hospitality served in a modern hotel.

Bangladesh: In Bengal, there is yet another tea culture. Most tea in Bangladesh comes from the northeastern plantations of Sylhet, near the famous Indian tea region of Assam. The tea there is very affordable and the average quality is good. I visited Bangladesh twice and travelled across the whole country, sometimes in climate and sanitary conditions that are better left undescribed. Occasionally, my overnight trips were in old buses that felt as though they might fall apart in the potholes of the mud roads. Whenever the bus stopped, day or night, it was time for black tea with milk and sugar. Sometimes spices were added to create a version of "chai." It is a warm, aromatic, and comforting drink. When tea is of high quality, it is a pity to add elements that mask its original flavour. On the other hand, I agree with the English: milk and sugar are very helpful for disguising the rougher edges of stronger teas!

Azores: Later, I married my lovely wife. We went to the Azores for our honeymoon and visited the idyllic tea plantations on São Miguel Island. Green and blue are the dominant colours of this landscape, with hilly cultivars stretching toward the Atlantic Ocean and a pale horizon stitching together the different blues of the sky and sea. Tea has existed in the Azores since the early 19th century, when local farmers asked Chinese tea experts to teach them how to grow, harvest, and process it. I have returned since, and I always like to sit in the Gorreana tea shop, sipping their Earl Grey while contemplating that small piece of paradise. For many years, these were the only tea plantations in Europe, though climate change and new technologies are now allowing other European countries to explore tea cultivation.


Anyway, my wife and I decided to try another very Portuguese approach to the tea business: going East to source the best teas directly from China and Japan! But that is a story for later. In my next posts, I will write about the teas I tasted in different regions of China and Japan. Thanks for reading!

segunda-feira, 16 de outubro de 2023

O erro de Robin dos Bosques

(originalmente publicado no Jacaré Parado Vira Mala)

Quem não gosta do Robin dos Bosques? A história passa-se na Inglaterra medieval e tem os problemas típicos da literatura romântica: há a donzela em apuros, há o xerife cruel, os pobres e famintos, um príncipe que conspira contra o rei seu irmão… e um herói que resolve todos os problemas com a pontaria do seu arco e flechas, ajudado por valentes amigos como Frei Tuck, João Pequeno e Will Scarlet. Escondidos na floresta de Sherwood, Robin dos Bosques e o seu bando vão resistindo à tirania de João Sem-Terra e sabotando as tentativas do xerife e do príncipe de se aproveitarem da ausência do rei Ricardo Coração-de-Leão que, entretanto, ajudava os cruzados em Jerusalém. Os valores estão todos certos: valentia, patriotismo, solidariedade, fé e amizade. Em Sherwood, Robin e os Merry Men caçam livremente, não pagam impostos, roubam os tesouros do príncipe e as colectas do xerife. Mas não o fazem para enriquecimento próprio, não! Eles roubam os ricos para dar aos pobres, assim nos é contada a história. Mas como tudo acaba com o regresso do rei da Terra Santa e a frustração das más intenções do seu irmão e do xerife, quase não temos tempo para imaginar Robin dos Bosques e os seus amigos a saírem da floresta para voltar à normalidade das suas vidas. É que, uma vez reposta a justiça e a paz, já não faz sentido eles continuarem a roubar.

Errol Flynn em "The Adventures of Robin Hood" (1938)

No entanto, a ideia de tirar dinheiro aos ricos para o redistribuir pelos pobres vingou. Sobretudo desde o crash de Wall Street em 1929 que o Estado assumiu o papel de Robin dos Bosques. Lembra-se que Robin dos Bosques, fora-da-lei, roubava as autoridades? Pois a autoridade, dentro da lei, fez nas últimas décadas aquilo que uma futura líder partidária tão bem resumiu: “perdeu a vergonha de ir buscar a quem está a acumular dinheiro”. Nestes quase 95 anos, os impostos aumentaram e tornaram-se progressivos um pouco por todo o mundo, as dívidas públicas galoparam, o Estado engordou e a liberdade económica das famílias enfraqueceu. Chegámos aqui com as experiências do comunismo no falido mundo soviético, com as experiências americanas do New Deal que desnecessariamente agravou a Grande Depressão e prolongou-a até à II Grande Guerra, com os sucedâneos socialistas e sociais-democratas, com as ideias rawlsianas de justiça distributiva e redistribuição da riqueza. Claro que há aplicações que apreciamos desse dinheiro, sobretudo a nível de saúde e educação. Mas olhamos para os públicos e para os privados com a pergunta: será o Estado o melhor gestor e executor desse dinheiro? Este afã do Estado tirar aos ricos para dar aos pobres nunca desapareceu, nem entre nós mostra sinais de abrandamento. A ideia subjacente é de algum modo utilitária: a subtracção daquele dinheiro ao rico causa-lhe menos mossa que o maior alívio proporcionado ao pobre que o recebe.

Voltemos à floresta de Sherwood. Quem no século XII viesse do Norte em direcção a Nottingham, chegava a Blyth e tinha duas opções: ou atravessava a floresta de Sherwood em poucas horas, ou ia por outro caminho e demorava mais um dia. Os mercadores de Sheffield, de Leeds ou de York teriam de pesar muito bem as hipóteses: vou pelo caminho da floresta e chego lá em poucas horas mas arrisco-me a ser roubado e a ficar sem nada; ou então vou à volta por um caminho mais seguro, mas tenho de gastar dinheiro numa estalagem para dormir, mais refeições para mim e ração para os meus cavalos. Se for grande o risco dos mercadores serem assaltados pelo bando de foras-da-lei da floresta de Sherwood, naturalmente eles escolhem o caminho mais longo e seguro. Porém, a consequência é que o preço das suas mercadorias iria aumentar para cobrir os gastos adicionais. Nessa situação, todos os seus clientes perdem poder de compra. E se as mercadorias forem bens de primeira necessidade, como alimentos e roupa, quem irá sofrer mais com esse aumento de preços serão… exactamente, os mais pobres.


A Floresta de Sherwood e Nottingham

Vamos esquecer por um momento a questão política entre os partidários de João Sem-Terra e os partidários de Ricardo Coração-de-Leão. Foquemo-nos apenas na questão económica. Os assaltos de Robin dos Bosques na floresta de Sherwood são para roubar os ricos e dar aos pobres, mas na verdade estes assaltos tornam a vida dos pobres mais difícil. Os preços aumentam para todos, o que tem especial impacto junto dos pobres. Aquilo que os pobres recebem de graça acaba sendo também um incentivo para não trabalharem tanto ou até de todo. Os mercadores e os produtores recebem o incentivo para produzir menos ou até parar. Ricos e pobres, todos ficam mais pobres. A economia encolhe. Havendo menos comércio, há menos colecta de impostos. Mas as contas do Estado não encolhem, então sobem os impostos e, novamente, os preços. Quem mais sofre com isto é, já sabemos, os pobres. Para além do incentivo a produzir menos, existe também um incentivo ao desenvolvimento de um mercado paralelo não taxado. Este ambiente propício à fuga aos impostos prejudica a sociedade como um todo e contribui para o círculo vicioso de crise.

A ideia de Robin dos Bosques é literariamente interessante, mas politicamente prejudicial – tanto a ricos como a pobres. Poderemos discutir outros métodos para evitar que ninguém caia na miséria de uma vida sem condições de dignidade. Sem dúvida que deve haver uma rede de segurança para evitar essas situações e ajudar as pessoas que caiem a relançarem-se na vida. Não devemos é fazê-lo sem questionar a validade política e a sustentabilidade económica do princípio de Robin dos Bosques.

AVC

quinta-feira, 23 de dezembro de 2021

leituras de Abril, 2019

(originalmente publicado no Jacaré)





 

Cherry Ingram - The Englishman who saved Japan's blossoms, por Naoko Abe (380 páginas, Penguin Random House, Londres, 2019). Belíssimamente investigada e escrita pela jornalista Naoko Abe, a história de Collingwood "Cherry" Ingram é rica e interessante. Os 100 anos que Cherry Ingram (1880-1981) viveu são uma lição de perseverança, de desafio às probabilidades, de amor pelo conhecimento, pela diversidade e pela defesa daquilo que está certo. Através da vida deste ornitólogo, militar e coleccionador de cerejeiras, podemos acompanhar a evolução política, diplomática e estética de dois países: a sua Inglaterra natal e o seu fascinante Japão. Enquanto o Japão se preparava para a guerra, só uma variedade de cerejeira devia ser plantada: aquela que, segundo os governantes da época, melhor inspirava os kamikaze - pela beleza com que as suas flores caiem - a morrerem pelo imperador e pela pátria. Contra o empobrecimento cultural e desafiando o uniformismo estético imposto, Ingram trouxe várias espécies proibidas para Inglaterra, salvando-as da sua extinção e plantando-as no seu jardim. Finda a guerra, a partir de lá voltaram as cerejeiras exiladas para o Japão.

Os Comandos em África, por John P. Cann (165 páginas, Tribuna da História, Cascais, 2019). O autor é capitão de mar e guerra aposentado da Marinha dos EUA e, ao estar destacado em Oeiras na NATO, começou a estudar com maior detalhe as guerras de defesa de Portugal em África, sendo uma autoridade no assunto e com vasta obra publicada. Entre os bravos Comandos Portugueses contam-se alguns dos nossos maiores heróis, tão injustamente esquecidos por conveniência política. Os Comandos representavam pouco mais de 1% das nossas Forças Armadas em África, no entanto às unidades de Comandos se devem a maior eliminação de combatentes inimigos e apreensão de armas dos mesmos. Como diz Cann, "o exigente treino dos Comandos e a sua capacidade de adaptação ao teatro africano de operações, fizeram deles a força mais eficiente do Exército Português em África". Este livro mostra o contexto dos 13 anos de guerra (1961-74), contando em detalhe algumas operações passadas em Angola, Moçambique e Guiné-Bissau. Com a colaboração da Associação de Comandos e da Comissão Portuguesa de História Militar, trata-se de um testemunho que não deixa esquecer estes heróis que merecem a nossa maior admiração e reconhecimento.

Revolução! - Das Internacionais às ditaduras militares: Portugal e Espanha (1864-1926), por José Luís Andrade (705 páginas, Casa das Letras, 2019). O autor, que tenho o gosto de conhecer, é um dos maiores especialistas da Guerra Civil de Espanha e dos tempos que lhe antecederam. Este livro investiga a fundo os acontecimentos e caldo político-cultural em Portugal e Espanha no período 1864-1926, acompanhando influências, contrastes, e desvelando-nos anos pouco estudados mas cruciais para entendermos o nosso século XX. Prometo voltar a este assunto quando a minha leitura estiver mais avançada.

sábado, 3 de fevereiro de 2018

Tal como Atenas na Liga de Delos, a UE castiga quem sai

(Originalmente publicado no "Jacaré parado vira mala" no dia 3 de Fevereiro de 2018)

Como Tasso ou Naxos na Grécia Antiga, o Reino Unido deve ser punido pelo Brexit
por Peter Jones

Nota prévia: sou leitor assíduo da revista “The Spectator”, uma publicação inglesa de grande qualidade e fundada em 1828. A revista tem uma visão tendencialmente liberal-conservadora, é aberta ao diálogo, e versa principalmente sobre política, arte, cultura, filosofia e actualidade. Uma das colunas que leio sempre é “Ancient and Modern”, do classicista Peter Jones, e na edição de dia 9 de Dezembro saiu o seguinte texto que traduzo livremente para Português.

Naxos, ilha de Naxos, Grécia

Like Thasos or Naxos in ancient Greece, Brexit Britain must be punished

A União Europeia não quer que o Reino Unido saia e irá fazer tudo para o impedir. Cada dia que passa, fica mais claro que os Brexiteers não poderão mais esperar um acordo de saída benéfico ou até remotamente satisfatório.

Tal como a UE, os Atenienses sabiam como tratar os “desistentes”. Depois de expulsar os poderosos Persas em 479 a.C., os Atenienses propuseram a todas as cidades-estado gregas que se unissem para impedir que os Persas voltassem novamente. O meio de o conseguir seria uma força naval pan-Helénica que patrulhasse o Mar Egeu constantemente. Essa força seria liderada por Atenas, pois esta era a principal potência marítima da Grécia Antiga.

Para que tal acontecesse, foi acordado que as cidades-estado contribuíssem anualmente com uma soma de dinheiro ou com navios e Atenas ficava incumbida da tarefa de construir uma armada que garantisse a segurança dos gregos na região. O historiador contemporâneo Tucídides relatou que o primeiro membro da Liga a revoltar-se foi a ilha de Naxos, cerca de 468 a.C.. Não quis ou não pôde arranjar o dinheiro ou os barcos requeridos, mas “os Atenienses insistiram que as obrigações tinham de ser estritamente cumpridas”.

Uma vez que muitas das cidades-estado preferiam dar dinheiro em vez de serviço militar na forma de homens e navios,  Atenas pôde alargar a sua própria frota e assim intimidar quem quer que se revoltasse. Naxos foi atacada e forçada a reentrar na Liga. Em 365 a.C. o mesmo destino esperava a ilha de Tasso: as suas muralhas defensivas foram destruídas, a sua marinha rendeu-se, uma indemnização foi imposta e perderam o controlo sobre as suas minas de ouro.

A análise de Tucídides sobre a situação é que, os estados em posição de poder, usam-no em qualquer situação por três razões — status, medo e interesse próprio. E isso foi o que conduziu Atenas a agir desta maneira. Até Péricles admitiu que o império era “como uma tirania”.

A União Europeia não é uma tirania, mas a sua motivação é idêntica. Mais, tal como Atenas, a UE tem a vantagem do seu lado. Por esta razão é que recusa negociar tudo o que não esteja nos seus próprios termos. Porque haveria de fazer de outra forma? Tal como os Atenienses, a UE tem o dever de proteger os seus próprios interesses. Não tem nada que proteger os nossos.

terça-feira, 23 de janeiro de 2018

O vau



(Originalmente publicado no "Jacaré parado vira mala" no dia 22 de Janeiro de 2018)

Há uns meses que o meu carro de família é um Ford. Gosto dos EUA, tenho os automóveis americanos em boa conta, e a caligrafia no logotipo da Ford transporta-me para tempos mais antigos em que Henry Ford fundou a sua empresa e introduziu novas prácticas industriais que fizeram escola até hoje. E já que ando num Ford, pensei que devia ir à procura do significado deste apelido. Claro que fui deixando essa tarefa para mais tarde, mas o nome saltava-me à vista de vez em quando. Com o mesmo apelido, apareceram-me outros notáveis como o 38º Presidente dos EUA Gerald Ford, os realizadores John Ford e Francis Ford Coppola, o actor Harrison Ford e outros. E com um nome mais composto, o elemento “ford” também aparecia em Robert Redford ou no nosso Marquês de Campo Maior, também conhecido por William Carr, Visconde de Beresford.

Dinsford - "Os 101 Dálmatas"

Vendo os antigos desenhos animados dos 101 Dálmatas, a certa altura a acção passa por uma aldeia fictícia chamada Dinsford, e foi aí que despertei para os “fords” enquanto toponímia. É claro que há vários sítios: Dunsford, Beresford, Bedford, Redford… e outros mais conhecidos como Stratford-upon-Avon (a terra de Shakespeare), e lugares universitários como Stanford (Califórnia, EUA) e Oxford (Inglaterra). Oxford é o vau (ford) onde passavam os bois (ox). Já Cambridge, a universidade britânica que rivaliza com Oxford há mais de 800 anos, não tem vau mas uma ponte (bridge) para atravessar o rio Cam. Ambas têm uma relação profunda com a água, como se vê na corrida anual de barcos a remo que disputam entre si na categoria “Eights”.

Mas o que quer dizer ford? Ford é um vau, que segundo o Lello Universal (Lello & Irmãos) se define da seguinte maneira:

Vau, s. m. (lat. vadu). Sítio de um curso de água onde se pode passar a pé ou a cavalo: “Passar um rio a vau”. Baixio, parcel. Ensejo, oportunidade: “Ter vau para falar a alguém”. “Madeira a vau”, madeira em jangada. Pl. Naút. Traves em que assenta a coberta dos navios. Paus cruzados nas gáveas.

"Le Gué" - Claesz Pietersz Berchem (1650) - Museu do Louvre


Também em Portugal há lugares com este nome, por exemplo a Freguesia do Vau que abrange toda a margem sudoeste da Lagoa de Óbidos, ou a Praia do Vau em Portimão e outra praia com o mesmo nome no Rio Paiva, Concelho de Arouca. E esta semana que passou, no Canhão da Nazaré, um português chamado Hugo Vau conseguiu a proeza de surfar uma onda com cerca de 35 metros de altura, provavelmente batendo o record do seu amigo Garrett McNamara.

Esta investigação não podia esperar, avancei um pouco mais. Se “vau” em latim se diz vadu, será que a capital do Principado do Liechtenstein (Vaduz) tem essa etimologia? Procurei, abri livros e sites, mas não cheguei a qualquer conclusão. O Rio Reno corre ali perto, com um caudal já considerável, e pode ser que venha daí pois é insignificante a dimensão dos outros ribeiros que correm da montanha do castelo em direcção ao Reno. Um pouco mais adiante, depois de delimitar as fronteiras da Suíça com o Liechtenstein e com a Áustria, e após passar a bela Constança (Konstanz) na Alemanha, o Reno volta a entrar na Suíça e encontra um vau em Feuerthalen. Feuer?

Se vau em inglês é ford, também é interessante ver como será noutras línguas e se tem a mesma influência nos nomes das terras. Talvez o castelhano tenha preservado melhor o latim vadu, chamando-lhe “vado”. Quem já estacionou o carro em Espanha certamente já reparou que nos sinais para não estacionar defronte a uma garagem está a explicação “vado permanente”. Aqui, vado não será propriamente um baixio ou banco de areia num rio, mas deverá ser entendido como passagem – o que faz todo o sentido. Em francês diz-se “gué”, em italiano “guado”, em alemão “furt”. Furt? Frankfurt am Main! Francoforte é “o vau dos Francos sobre o rio Meno”. Da mesma forma, em flamengo e holandês temos “voorde” e “foort” a compôr os nomes de Vilvoorde (Bélgica), Amersfoort (Holanda) e tantos outros. Nessas línguas podemos encontrar outras palavras acabadas em -tricht, -trecht, -drecht (do latim traiectum) que indica um trajecto ou passagem em forma de vau. Maastricht é “o vau sobre o rio Mosa” (Meuse em francês, Maas em Holandês), e também Ultrecht e Dordrecht são vaus.

"Fox hunting crossing the ford" - George Wright (1860-1942)

Um pouco mais abaixo, na Alemanha próxima do Luxemburgo, temos a cidade de Tréveris com a sua imponente Porta Nigra e que nos acrescenta mais qualquer coisa a esta história dos vaus. Tréveris (Trier em alemão, Trèves em francês, Augusta Treverorum em latim) era habitada pelos Tréveros, um povo belga que mais tarde foi expulso para Norte pelos Francos. Os Tréveros ajudavam os viajantes a atravessar o Rio Mosela e tinham por deusa Ritona, a deusa celta que protegia... os vaus!

Sobre a simbologia do vau e Ritona, transcrevo o que diz o Dicionário dos Símbolos de Jean Chevalier e Alain Gheerbrant (Ed. Teorema):

Vau. O vau, em todos os textos célticos, é o lugar obrigatório dos combates singulares e é nos vaus que Cùchulainn mata a maior parte dos guerreiros que os irlandeses enviam contra eles. O vau é, portanto, acima de tudo, um ponto de encontro ou um limite. Muitas localidades da Irlanda são vaus, a começar pela capital actual Dublim, Baile Atha Cliath, a cidade do vau das caniçadas (WINI, 5, passim).

As descobertas arqueológicas trouxeram frequentemente à luz do dia armas afundadas nos vaus, o que leva a provar que o costume irlandês do combate a vau, em celta continental e britânico, se liga ao da passagem e da corrida. Existiu uma deusa Ritona, atestada pela epigrafia da época romana, que chegou a ser considerada como a especialista e padroeira dos combates de vaus. O herói irlandês Cùchulainn está num combate num vau quando a deusa da guerra se vem enrolar na sua perna sob a forma de uma enguia (LOUP, 186).

O vau simboliza o combate por uma passagem difícil, de um mundo para o outro, ou de um estado interior para outro estado. Reúne o simbolismo da água (lugar dos renascimentos) e das margens opostas (lugar das contradições, das travessias, das passagens perigosas).

A propósito de combates em vaus, a primeira memória que me surge é a de Robin dos Bosques a lutar com João Pequeno num vau. “Robin Hood: Prince of Thieves” não é o meu filme preferido sobre o Robin dos Bosques, mas esta cena ficou-me.



E outro duelo de vau que recordo é o de Rambo - First Blood.

Voltando às etimologias, não consta que Roma, Florença ou Verona tenham o elemento “guado” (vau) no nome. Mas é sabido que Roma foi construída num vau do Tibre, Florença num vau do Arno e Verona e Trento em vaus do Rio Ádige. Ou seja, a importância dos vaus é mais que toponímica ou do mais que possa parecer. Há uma história dos vaus que está por contar.

Por fim, bem pudemos ver que a etimologia é como qualquer vau: uma passagem que dá acesso à outra margem, de onde se ganha nova perspectiva sobre as coisas. E também os perigos da etimologia são idênticos aos do vau: se a corrente é forte, não nos livramos de ir parar a sítios que não prevíamos. Mas para quem tem curiosidade sobre o desconhecido, arriscar não é problema.

domingo, 21 de janeiro de 2018

Chás para uma tarde de Domingo



(Originalmente publicado no "Jacaré parado vira mala" no dia 5 de Novembro de 2017)

Texto também publicado aqui.

Dirão os puristas que a melhor forma de tomar o chá é simples e sem qualquer adição. Eu concordo. O hábito de ao chá juntar leite ou açúcar vem, muitas vezes, da necessidade de disfarçar defeitos de umas folhas de menor qualidade ou – pior ainda – para mascarar o amargor após a má preparação de um bom chá! Por isso, reforço: sem dúvida que a única maneira de provar um chá é prepará-lo bem e tomá-lo puro.

No entanto, não me choca ver bebidas que misturam outros ingredientes com chá. Por vezes apetece tomar uma bebida diferente, e juntar-lhe um pouco de chá não é crime. Pelo contrário, o chá tem o condão de melhorar quase qualquer bebida, seja pela sua consistência, aromas ou cores.

Este Domingo preparei duas bebidas que me souberam muito bem em ocasiões diferentes. No fim de almoço, tomei um chá preto dos nossos, feito no Japão (Shizuoka 静岡) à moda dos ingleses. Estava óptimo! Pus 4 gramas de English Tea Chás Andorinha num lindo bule de barro que comprei certa vez em Quanzhou 泉州, na China. Deitei água a 90 graus centígrados e deixei infundir durante cerca de 1 minuto. Como o bule é pequeno e o nosso chá muito aromático e tintureiro, não são precisas mais folhas nem tempo. Servi numas xícaras sem asa de uma loiça azul-turquesa típica de Hangzhou 杭州, que também é na China mas um pouco mais a Norte.

Nas várias viagens que tenho tido a oportunidade de fazer ao Extremo Oriente, fui coleccionando chás, livros, bules e outras peças que tenho gosto em usar para reviver essas paisagens e vivências a cada vez que tomo chá. Podia ter servido o chá do Japão em bule e taças de onde pertence; mas servi assim por razões estéticas que também contam, com o líquido côr de mogno do English Tea em contraste com o azul-turquesa da chávena chinesa. Em Roma sê romano, na China chinês e no Japão japonês; mas em Portugal, certamente ninguém me levará a mal se empregar a vontade muito portuguesa de procurar combinações e pontes entre culturas diferentes. 

Por fim, ao lanche, preparei uma bebida especial de Outono que será uma espécie de Houjicha Latte. O Houjicha é um chá verde torrado muito agradável e que liga perfeitamente com os produtos do Outono, como as broas, os frutos secos, a abóbora, a marmelada... e este fi-lo com mel. Passo a explicar:
- peguei nalgumas folhas de Houjicha 2016 Chás Andorinha e pu-las num almofariz;
- moí as folhas bem moídas até as reduzir a pó de Houjicha;
- peneirei esse pó num passador, para dentro dum copo alto, para que passassem apenas as partículas mais finas;
- deitei no copo leite meio-gordo dos Açores à temperatura ambiente, mexi bem, e depois juntei-lhe uma colher de mel alentejano;
- mexi até ficar com espuma e pus umas pedras de gelo para refrescar.

O resultado é delicioso: o cremoso do leite, o doce do mel e o torrado do nosso Houjicha combinam na perfeição. E quando as temperaturas arrefecerem um pouco mais, esta receita também sabe muito bem quentinha. Não é a melhor forma de se apreciar o Houjicha, que vale por si só... mas é uma bebida de leite que fica muito enriquecida com o toque que o Houjicha lhe dá!

A necessidade da religião no espaço público

(Originalmente publicado no "Jacaré parado vira mala" no dia 10 de Setembro de 2017)

Sou católico. Apenas isso não me define por completo, mas é parte importante daquilo que sou, apesar das regras da sociedade quererem esconder essa parte de mim. Pelo contrário, defendo que a religião merece estar mais presente no espaço público, seja através de procissões, da comunicação social, de debates, de manifestações livres de religiosidade (quer individuais, quer de grupo) e até no discurso político. Há quem queira (seja por ideologia, convicção, medo ou vergonha) acantonar a religião aos espaços que existem para o efeito, como as igrejas e suas sacristias, expulsando os religiosos das escolas, hospitais e outras instituições que fundaram ao longo do tempo, substituindo-os sucessivamente e eliminando qualquer rasto que da sua passagem tivesse porventura ficado. Eu quero mostrar que uma presença maior da religião no espaço público é não só boa como necessária para a liberdade de todos, incluindo a dos que não crêem.

Imperador Constantino num mosaico
da Basílica de Santa Sofia em Istanbul
(antiga Constantinopla)
Ao longo da História, os vários regimes absolutos, totalitários e ditaduras musculadas não conviveram pacificamente com as religiões e igrejas do território. Se pensarmos no Império Romano dos primeiros séculos depois de Cristo, no reinado de Henrique VIII em Inglaterra, na Alemanha Nazi ou na União Soviética e respectivos satélites comunistas, por exemplo, vemos como a relação do Estado com a religião foi de tal modo conflituosa que este perseguiu-a, modificou-a, substituiu-a ou aboliu-a. Noutros casos, como no Império Romano de Constantino, nos vários Reinos Cristãos da era medieval ou nos Califados Islâmicos, foi política então que determinada religião ou igreja se tornasse na oficial do Estado. E se é verdade que muitos dos países de maioria muçulmana são "repúblicas islâmicas" ou outro tipo de teocracias onde sharia é a lei aplicada, os Estados Papais já não existem desde a unificação de Itália em 1870. Como bem notava Alexis de Tocqueville uns 40 anos antes a propósito da sua viagem à América, "a religião não pode partilhar a força material com os governantes sem chamar a si uma parte dos ódios que eles suscitam". Com efeito, ao se ver liberta das responsabilidades do poder temporal, a Igreja Católica pôde dedicar-se única e exclusivamente (e com redobrada credibilidade) à sua missão espiritual de dar Jesus Cristo a conhecer a todas as gentes, para salvação das suas almas e para maior glória de Deus...

Fachada do bloco central do Parlamento Canadiano
Numa intervenção pública que fiz no Parlamento do Canadá em Otava há cerca de 4 anos atrás, diante de vários deputados e representantes das diversas religiões, pude sublinhar o papel da religião na defesa das liberdades, como a de pensamento e a de expressão. De facto, é distinta a natureza dos discursos político e religioso: enquanto que o político está primeiramente preocupado com a conquista e manutenção do poder, o religioso busca antes de nada alcançar a verdade das coisas. Por esta razão, a propaganda e práctica política de regimes mais autoritários tende a conviver mal com o discurso religioso, a liberdade religiosa e tudo o mais que seja da esfera da religião. Assim, defender a liberdade religiosa e a existência livre da religião no espaço público são a melhor garantia de que as liberdades de pensamento, de imprensa, de associação e de expressão não serão postas em causa. Deste modo, o poder político encontra contra-pesos dissuasores para que não degenere em tirania.

Sente-se, além do mais, a falta do discurso religioso numa sociedade cada vez mais atomizada, egoísta, só, utilitarista, gananciosa, promíscua, sem vínculos duradouros nem honra, relativista, pornográfica, violenta... numa palavra: desmoralizada. Alexis de Tocqueville, que acima já foi citado, notou que as instituições democráticas nos Estados Unidos da América encontram na religião a fonte divina dos seus direitos, a salvaguarda dos costumes e a garantia da durabilidade das leis:

Alexis de Tocqueville (1805-1859) foi o autor
de "Da Democracia na América" (1835-40)
"Não existe nenhuma [religião] que não coloque o objecto dos desejos do homem para além e acima dos bens terrestres e que não eleve naturalmente a sua alma a regiões muito superiores às dos sentidos. Também não existe nenhuma religião que não imponha a cada indivíduo certos deveres para com a espécie humana, ou comuns a ela, e que não obrigue, dessa forma, a sair da contemplação exclusiva de si próprio. E esta é uma característica até das religiões mais falsas e perigosas." - Alexis de Tocqueville, in "Da Democracia na América", pág. 509, Principia, 2001, Cascais.

É necessário, portanto, proteger a religião no espaço público. Tal não se faz certamente com a ridícula mas grave investigação que a Universidade de Edimburgo, na Escócia, abriu contra uma aluna de 21 anos por alegada "islamofobia" e "discurso de ódio" depois de ela ter gozado com o ISIS no seu mural do facebook - imagine-se que por zombar dos selvagens do Estado Islâmico em privado se pode ofender toda uma pobre comunidade de vítimas... é de loucos!

A religião - em especial aquela que é marca da nossa civilização e que dá "a César o que é de César e a Deus o que é de Deus" - protege-se ao lhe criarmos condições para se expressar livremente no espaço público. Se possível, acarinhamos a referência moral das religiões e reconhecemos a utilidade pública das suas instituições que, a par das outras associações voluntárias, das famílias e da vizinhança, formam os "pequenos pelotões" que Edmund Burke identificou em 1790 (Reflections on the Revolution in France) e que são a sociedade civil que Peter L. Berger e Richard John Neuhaus quiseram promover em 1977 (To Empower People - From State to Civil Society).

Jacob Rees-Mogg a beber chá
Mal seria de nós se a César devêssemos dar tudo o que está fora das igrejas e suas sacristias, como se Deus merecesse estar confinado apenas a esses locais ou como se César e Deus - a política e a religião - fossem duas realidades estanques que não podem coexistir na mesma conversa. Falemos de Jacob Rees-Mogg, que é um deputado inglês à Câmara dos Comuns em Westminster, do Partido Conservador, e é uma pessoa cuja actuação tenho seguido com interesse ao longo dos últimos meses. Trata-se de um político notável, backbencher com bons princípios e coerente, gentleman com bom humor e bom aspecto; e no entanto, cometeu os "imperdoáveis" erros políticos de ser católico e um orgulhoso antigo aluno da famosa escola de elite de Eton. Jacob Rees-Mogg é um dos favoritos das bases à eventual sucessão a Theresa May como líder do partido e também do país. Quero salientar um recente episódio deste senhor: ao ser entrevistado para a televisão, perguntaram-lhe qual a sua posição em relação aos casamentos entre pessoas do mesmo sexo e relativamente ao tema do aborto. À primeira pergunta respondeu "Sou católico e levo a sério os ensinamentos da Igreja Católica. O Matrimónio é um sacramento e o entendimento sobre o que é o sacramento é dado pela Igreja, não pelo Parlamento. Eu subscrevo o ensinamento da Igreja Católica". À pergunta sobre o aborto, Rees-Mogg retorquiu que era completamente contra e que a vida começa na concepção. Insistiu quem entrevistava se a sua oposição ao aborto incluía todas as circunstâncias, como por exemplo em caso de violação, e o deputado foi claro: "I'm afraid so".

Ruínas do Convento do Carmo, fundado em 1389
por D. Nuno Álvares Pereira, o Santo Condestável
Caiu o Carmo e a Trindade, e até houve católicos a acusar Rees-Mogg de dar argumentos de fé onde se exigia uma abordagem mais racional. Mas eu penso o contrário: não só a fé e a razão são compatíveis e se completam como Jacob foi um belo exemplo de simplicidade e testemunho de fé. Convença-se os crentes com a fé e os não-crentes com os outros argumentos que também há! Mas retirar o argumento religioso do debate é ceder esse lugar aos radicais jacobinos. Foi o que aconteceu em Portugal nos últimos anos: com 85% a 90% da população a assumir-se como católica, a legislação sobre os valores tem sido eficazmente dominada nos últimos 15 anos pelo Bloco de Esquerda, partido que nesse período teve votações na ordem dos 3% a 10%... Por isso, numa altura propícia a fenómenos como Trump, Marinho e Pinto e André Ventura, prefiro que avancem Jacob Rees-Mogg e outros cuja excentricidade não impeça a boa-educação e as ideias enraizadas na boa tradição cristã. Pode ser que com o tempo o Moggmentum se perca e que a Moggmania se vá. Espero que não. Mas venham mais, muitos mais como ele!

Faz falta ao espaço público esta autenticidade livre de calculismos. Desde que o discurso religioso deixou de ser aceite como filtro moral do que está certo e errado, as leis tornaram-se utilitaristas, o "politicamente correcto" tornou-se cativo de certas minorias e transformou-se num código de conduta político-mediático com laivos de ditadura do pensamento único. A liberdade, sem valor, perde-se. Encontramo-nos actualmente nessa perigosa encruzilhada. Os radicais encontram sempre forma de falar e agir. Este é um apelo aos muitos moderados que aí estão, para que não tenham medo nem vergonha de assumir a sua religiosidade e tragam ao debate público a voz moral que foi silenciada e da qual tanto precisamos neste tempo de escolhas difíceis, nomeadamente sobre a vida, a família, o trabalho, a propriedade, a cultura, as fronteiras, e a dívida pública e o planeta que deixamos aos nossos filhos.

sexta-feira, 30 de junho de 2017

sobre o populismo

(Originalmente publicado no "Jacaré parado vira mala" no dia 30 de Junho de 2017)


Estive esta semana no Estoril Political Forum, que é um encontro de ciência política que o Instituto de Estudos Políticos da Universidade Católica Portuguesa organiza anualmente. O título do encontro que durou 3 dias era “Defending the western tradition of liberty under law” e nele participaram distintos académicos, políticos, diplomatas, jornalistas e interessados em geral. Não pude ir a todas as apresentações que queria, mas houve um debate sobre o populismo que esteve um pouco perdido entre conceitos e autores que pouco ajudavam ao esclarecimento. E quanto a mim, a resposta era muito simples, bastava voltar a olhar para o título do forum: “defender a tradição ocidental da liberdade num Estado de Direito”.

No entanto, o debate foi no sentido de definir o populismo como um ataque contra as instituições representativas e contra a diversidade cultural. Mas o populismo é um ataque a partir de onde? Quando questionamos a boa saúde de uma instituição, estamos a atacá-la? E desde quando é que a diversidade cultural e o multiculturalismo são coisas indiscutíveis e a identidade de um país um tabu? É legítimo fazer estas perguntas, e mais que legítimo é bom para a saúde da democracia e das suas instituições fazê-las. O problema não é questionar.

Diria que a primeira diferença entre um populista e outros intervenientes pode ser uma certa falta de educação e polimento, pois confunde a crítica ao “politicamente correcto” com a tentação de se ser simplesmente “incorrecto”, tanto nos modos grosseiros como na falta de honestidade intelectual. Preocupa-me que esta atitude irada seja tão atraente e charmosa para muitas pessoas que têm também os seus problemas pessoais e assim se sentem por momentos identificadas, tornando o populismo popular. Mas esta distinção não é suficiente. “Como” a questão é posta diz-nos mais acerca do populista, que parece questionar determinada instituição com desprezo existencial, seja essa instituição um dos ramos do poder (legislativo, executivo, judicial) ou uma instituição intermédia que compõe a sociedade civil, como as associações, as igrejas, as escolas, os bairros ou a família.

No meu entender, o populismo é uma atitude revolucionária contra o Estado de Direito, contra as leis e as disposições constitucionais que garantem não só a separação dos poderes como os freios e contrapesos (checks and balances) que nos protegem dum poder absoluto. Para pegar no primeiro e segundo lugares do esquecido concurso da RTP “Grandes Portugueses”, numa ditadura, podemos ter a sorte de ter um Salazar… mas o acaso não evita que a ele lhe suceda um Cunhal. Numa democracia liberal, um Salazar nunca poderia brilhar… nem um Cunhal. A grande desvantagem duma democracia liberal é a de limitar a liberdade criativa do governante, e a sua grande vantagem é precisamente a de limitar a liberdade criativa do governante. A democracia não nos leva necessariamente a eleger a melhor pessoa para o melhor lugar, mas justifica-se por nos permitir expulsar a pior pessoa desse mesmo lugar. É nesse espírito que leio as célebres palavras de Winston Churchill ditas na Câmara dos Comuns (11.11.1947):

Many forms of Government have been tried and will be tried in this world of sin and woe. No one pretends that democracy is perfect or all-wise. Indeed, it has been said that democracy is the worst form of government except all those other forms that have been tried from time to time.

Winston Churchill

Para além das instituições, há quem acuse o populista de “identificar os outros”. Mas não faz parte do debate identificar os outros e aquilo que defendem? Bem sei que não há comunistas tão maus como o comunismo nem cristãos tão perfeitos como Cristo, mas as ideias têm autores e devemos responsabilizar e questionar directamente as pessoas que as defendem. O que não está certo fazer é odiar os adversários e transformá-los em bodes expiatórios, como os nazis fizeram com judeus, ciganos e outras raças. O ódio e a destruição da experiência nazi comprometeu desde então até hoje a busca pelos povos da sua identidade. Mas a identidade, as fronteiras e os países continuam a ter uma razão de ser, razão essa que deve ser investigada e debatida sob pena de aumentarmos a crise de identidade que os povos ocidentais vivem nos dias de hoje e que os terroristas islâmicos e outros inimigos civilizacionais tão eficazmente têm sabido aproveitar.

Deixo a pergunta em aberto, não será “populista” uma palavra da moda para identificar o “revolucionário” - personagem bem mais antigo na história da política? Talvez não sejam exactamente a mesma pessoa, mas esta é a definição simples que mais se aproxima da ideia que tenho do populista. Apesar do tratamento mediático da política apontar noutro sentido, o populismo não é só de direita. Se pensarmos à esquerda, nomeadamente em Chávez, Maduro, Castro, Zapatero, Iglesias, Lula, Sócrates… não são eles excelentes exemplares deste fenómeno? O populismo não é uma ideologia, é uma atitude rude de se estar em público, que inclui uma estratégia de infiltração, conquista e concentração do poder à volta de uma só pessoa.

No fim do debate no Hotel Palácio do Estoril, houve uma aluna de doutoramento que não pode participar no debate por restrições de tempo. Ela estava zangada e achava que não a deixaram falar porque tinham medo daquilo que ela ia dizer. E como não o disse a todos, disse-o a mim: “eu considero-me populista, e acho muito bem que se seja populista! Abomino o politicamente correcto e por isso não me deixam falar. Não sou democrata, sou contra a imigração e digo-lhe mais… eu sou racista”! Enquanto me recompunha de tão desagradável declaração, tentei desviar a conversa para um tema mais simpático sem sucesso, pois fui cortado na palavra. Despedi-me cordialmente e deixei-a a praguejar com um americano contra o politicamente correcto. Penso que esta rapariga estava provavelmente certa em assumir-se como populista. Lamentavelmente, personificava a atitude que acima descrevo e que encontro também noutras pessoas.

Michael Oakeshott

Se queremos combater o populismo, temos de estar aptos a discutir todo e qualquer tema (evitando tabus) importante com elevação, boa educação, respeito pelas opiniões diferentes, respeito pela história e pelas instituições, pacificamente, com espírito aberto e vontade de descobrir a verdade das coisas. Tanto os populistas como muitos dos seus críticos cabem bem na descrição crítica que Michael Oakeshott faz do racionalista:

(…) he is something also of an individualist, finding it difficult to believe that anyone who can think honestly and clearly will think differently from himself.

Não caia eu nesse erro.