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sábado, 20 de dezembro de 2025

O que hoje significa ser-se cristão no Paquistão

(também publicado no Substack)

Meeting lawmakers at the Portuguese Parliament

These last days of Advent I have been following a delegation of Christians from Pakistan visiting Lisbon, Portugal. They represent the Peter John Sahotra Foundation, an institution of good courageous people that provides the Christian community with relief from the heavy burdens of poverty and religious persecution. The couple Sadaf and Joel Amir Sahotra have been meeting members of the Portuguese Parliament, civil society organisations, media, schools and universities. The purpose of this visit is to update the Portuguese society about the situation of Christians in Pakistan with key facts and to find new opportunities of cooperation on the issues of human rights and education.

Pakistan is a 240 million country with about 1% Christians living mainly in Punjab, but also in smaller communities in Sindh and Karachi. The majority of these 2.5 to 3 million people face poverty and all of them live under the stress of religious intolerance. It will be easy to find Christians in sanitation jobs, as domestic helpers or in the hard brick kiln production in Pakistan. These are all low-income jobs; the wages are earned in a daily basis and child labour is often involved.

Mr and Mrs Sahotra addressing a school audience in Portugal

As Mr. Sahotra informed, ‘even in government job advertisements, it is often stated that sweeper and janitorial posts are “only for non-Muslims.” This practice reinforces humiliation and exclusion. Educated Christians rarely find opportunities beyond menial jobs, regardless of qualifications.’However, the starkest picture is the condition of thousands of Christian families that are trapped in generational debt and are forced to work in brick kiln factories. Their living and working conditions are extremely hard. Clean water, healthcare and education are only mirages. The most fragile are more exposed to abuse: ‘young Christian women and girls are especially vulnerable to harassment and sexual abuse by kiln owners and supervisors, often without legal recourse or protection.’

Another problem is the Blasphemy Law. These laws continue to be the source of great injustices and fear. Many innocent Christians have been falsely accused and imprisoned for years. False accusations continue to trigger mob violence against Christians. Entire Christian neighbourhoods – houses and churches – were burned to the ground in tragic incidents such as Joseph Colony (Lahore, 2013) and Jaranwala (2023). In Sharia courts, non-Muslim lawyers are not allowed to represent its clients, restricting access to justice and minorities’ representation. Christians still face social exclusion, workplace bias, forced conversions and hate speech, particularly in rural areas.Long time ago, Muhammad Ali Jinnah said to the Pakistani people: ‘You are free; you are free to go to your temples, you are free to go to your mosques or to any other place or worship in this State of Pakistan. You may belong to any religion or caste or creed that has nothing to do with the business of the State. (…) We are starting in the days where there is no discrimination, no distinction between one community and another, no discrimination between one caste or creed and another. We are starting with this fundamental principle that we are all citizens and equal citizens of one State.’ This was Mr. Jinnah’s presidential address to the Constituent Assembly of Pakistan in the 11th of August 1947 – just three days before the formal Independence Day of Pakistan. The promise of Pakistan’s founding father remains only a dream for the Christians and other religious minorities’ peoples of this country.

Mr. Jinnah promising religious freedom in Pakistan, 1947.

The international community may help by funding Christian projects in Pakistan – such as schools – or offering scholarships and training opportunities abroad for young Christians. Surprisingly for some, Christianity in Pakistan is older than in parts of Europe. Saint Thomas the Apostle spread the word of Jesus Christ as far as the Bay of Bengal. Our common Christian heritage is also to be cherished in the small villages of Punjab and Sindh.

For more information about what means to be a Christian in Pakistan today, please visit the Peter John Sahotra Foundation’s website and check also the Aid to the Church in Need 2025 report on Pakistan.

Mr Joel Amir Sahotra being interviewed at Rádio Renascença

As a Portuguese Member of Parliament said some days ago, “this testimony puts our Christmas into a new perspective”. Those words resonated in my heart. Students in the schools of Lisboa also realised how lucky they are to live without fear of being persecuted because of their faith.

Thanks for your kind attention. Thanks dear friends Sadaf and Joel for your moving courage. And I wish a blessed Christmas to all of you.

quinta-feira, 23 de dezembro de 2021

em defesa da grandiosidade de Portugal

(publicado originalmente no Ingovernáveis)


 A 11 de Novembro foi publicado aqui no Ingovernáveis uma interessante reflexão de João Diogo R. P. G. Loureiro intitulada “Great Again: nota incompleta sobre a «grandeza» dos países”. O texto versa sobre a finalidade dum país, o que dele esperamos e a qualidade da sua resposta. Venho com esta resposta concordar com algumas premissas ali expostas, discordar doutras e, onde posta em causa a grandiosidade de Portugal, defendê-la.

Estou com o clichê: Portugal é um pequeno grande país. Mas tenho de esclarecer a priori que entendo o grande de “great” como grandioso. Quando o presidente cessante dos EUA diz querer tornar a América “great again”, ele não estará a propor conquistar novos territórios ao México ou ao Canadá para aumentar a grandeza do seu país, mas apela à recuperação duma suposta grandiosidade perdida. A grandeza dum país remete-nos para dimensões relativamente tangíveis, apesar dos quilómetros quadrados de terra até serem mais quando a maré está baixa, e da medição de linhas costeiras e fronteiras terrestres serem tão mais extensas quanto menor fôr a régua com que as medimos. Mas a grandiosidade remete-nos para valores inequivocamente intangíveis.

Os Doze de Inglaterra (1966) por Jaime Martins Barata

Embora tenhamos em comum a admiração por Aristóteles, começo como Platão no início d’A República por descer ao Pireu, isto é, proponho sairmos da Acrópole das considerações mais ideais e exigentes para retomarmos o argumento em questões mais comezinhas. Em vez de analisarmos o que é “great” e se nos podemos considerar “great”, gostava de começar por defender a utilidade de sermos ou de nos vermos como “great”. 

Em “After Virtue” (1981), Alasdair MacIntyre sugere que só podemos responder à pergunta «o que devo fazer?» se antes conseguirmos tratar a questão «de que história ou histórias é que eu faço parte?». Eu não escolhi nascer nesta família e em Portugal, no entanto assumo o meu apelido e a minha portugalidade. Como português de Portugal, faço parte duma narrativa com pelo menos 9 séculos de História; como cristão, faço parte doutra narrativa com 2 mil anos de História – e na verdade, essas histórias são ainda mais antigas. Agarro nessa tocha que os meus pais me passam e mantenho-a bem acesa até a entregar aos meus filhos. Mas a história não é perfeita: está cheia de glória e traição, acertos e erros, virtudes e pecados. E como todas as histórias, tem uma trama, problemas para resolver, heróis e vilões. Eu posso escolher não fazer parte da narrativa, poderia abandoná-la e procurar um outro país. Mas então, eu teria um papel a desempenhar noutras histórias e lealdades a forjar noutras comunidades.

Não escolhi nascer português, mas escolho continuar português. Portugal tem a história grandiosa dum país grandioso. É discutível? Sim, e poderíamos concentrarmo-nos em falhas e acidentes de percurso, aos quais prontamente contraporia com um rol já conhecido de feitos fantásticos. Mas essa discussão sói ser um beco sem saída, de interesse relativo. Este País, que tem a felicidade de ser também um Estado e uma Nação, tem uma cultura riquíssima que não só não renego, como assumo com orgulho. A grandiosidade dum país não serve para se medir com a doutro e ver qual deles é o maior, mas é útil para ver se é o melhor para mim e até que ponto me identifico com aquela comunidade e se posso contribuir na construção do seu Bem Comum. O meu país, a minha família, a minha comunidade, são os melhores do mundo para mim. A grandiosidade de Portugal até pode ser chamada de mito, porém o mito é uma história simbólica baseada em factos e características reais do povo português, que nos permite ler a realidade e compreender o nosso papel e missão na História. Mais que aferir se Portugal é realmente “great”, interessa-me reconhecer que a ideia dum Portugal “great” dá propósito e sentido à minha vida em sociedade. Tanto quanto melhor reconhecer a bondade do meu país, mais me sinto obrigado a corresponder aos meus compatriotas. É certo que para aceitar Portugal no seu todo, tenho de ser consequente e reflectir sobre alturas em que o país atravessou “profundas injustiças económicas, sociais ou culturais”, mas penso que seria um erro fazer depender a grandiosidade dum país apenas de critérios contemporâneos.

Os critérios de grandiosidade terão de ser outras virtudes. Um caso paradigmático é o do General Robert E. Lee que comandou as forças confederadas na Guerra Civil Americana. Hoje é consensual que a União liderada por Abraham Lincoln e Ulysses Grant estava do lado certo da História, mas será correcto negar todo o valor ao General Robert E. Lee e a tantas pessoas por terem estado do outro lado que perdeu? O General Lee não tinha escravos, era contra a escravatura e não queria a secessão. No entanto, diante da inevitabilidade da guerra, preferiu estar do lado confederado porque considerou que devia lealdade em primeiro lugar ao seu Estado da Virgínia e não concebia a hipótese de erguer armas contra os seus familiares e vizinhos. Apesar de estar do lado errado da guerra, a atitude do General Lee merece a nossa admiração e parece-me que o seu sentido de comunidade é, apesar de tudo, um excelente candidato à categoria de “great”.

O recontro de Valdevez (1916) por Jorge Colaço

Voltando ao título deste artigo, Portugal é grandioso. Não tenho dúvidas que é. Talvez o título induza o leitor em erro, pois não me detive muito no porquê e mais na utilidade de o ser. Podemos olhar para Portugal e dizer como Agostinho da Silva que a Galiza é a noiva que connosco ficou por casar, ou podemos pensar em Eduardo Lourenço e supor que estamos, ainda e continuamente, sempre a caminho da Índia, como se esse fosse o maior contributo que demos ao Mundo – e essa, já ninguém nos tira. Podemos olhar para as presentes misérias e lamentar o nosso triste fado, ou olhar para o fim do nosso império e para a transferência gradual da nossa soberania para Bruxelas e acharmo-nos presos na cauda da Europa e limitados na capacidade de nos realizarmos enquanto país. Mas apesar de tudo isso, se amarmos Portugal, estamos a reconhecê-lo como grande no nosso coração e, então, estamos a cumpri-lo. Resta-me remeter para Luís de Camões, que cantou não só como fomos “great” nos feitos até ao século XVI, mas leu a grandiosidade da alma deste povo que, na essência, até hoje não mudou. E se podemos divergir em perspectivas políticas sobre a igualdade, a liberdade e a justiça, não me parece difícil concordarmos com o princípio que só com um grande povo é que se faz um grande país.

um mundo sem misericórdia

(publicado originalmente no Observador e também no Ingovernáveis)


 por Alejandro Navas, Professor de Sociologia da Universidad de Navarra

(Nota do tradutor: o processo da lei da eutanásia em Espanha acompanha no tempo e na forma o processo da lei da eutanásia em Portugal. A argumentação de Alejandro Navas é muito pertinente e aplica-se perfeitamente ao nosso caso.)



A propósito de Heinrich Böll e o processo da lei da eutanásia em Espanha

Voltamos a debater a eutanásia, no seguimento da tramitação do correspondente projecto de lei por parte do Governo Espanhol. Os argumentos são conhecidos. Voltou-se a sublinhar que essa práctica contradiz o ethos médico, tal como se formula desde Hipócrates: antes de tudo, não fazer dano. Consequentemente, curar, aliviar e consolar. Há razões de ciência e consciência para nos opormos à pretensão de converter o médico em carniceiro. Se nunca esta praxis se justificou, o recente desenvolvimento da medicina paliativa torna-a ainda mais rejeitável: a suposta “procura social” que invoca o Governo para justificar a lei, expressa no fundo a necessidade de cuidados paliativos. Onde estes se aplicam, ninguém quer a eutanásia.

Com este texto, proponho-me abordar algum aspecto menos presente no debate actual, partindo das palavras do escritor alemão Heinrich Böll.

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Heinrich Böll e o seu diagnóstico

Nascido em 1917 em Colónia, Heinrich Böll é um dos maiores expoentes da narrativa alemã do pós-guerra. A sua família – pai trabalhador com mulher e oito filhos – arruinou-se durante a grande depressão dos anos vinte e trinta, o que marcou a sua infância e adolescência. A essa experiência inicial sobre a dureza da vida somar-se-iam a Segunda Guerra Mundial e os anos que lhe seguiram: foi soldado e prisioneiro de campo de concentração.

Böll tornou-se porta-voz autorizado das vítimas do desastre: converteu-as em protagonistas da sua obra narrativa e ajudou-as como activista social. Assim encarnou como poucos o tipo de intelectual de esquerda, comprometido com os mais vulneráveis e desfavorecidos. Essa opção pela denúncia crítica plasma-se de modo eminente na sua novela “Retrato de grupo com senhora” (1971), decisiva para conceder-lhe o Prémio Nobel da Literatura em 1972. Antes, já tinha recebido em 1967 o prémio Georg Büchner reconhecendo a sua trajectória.

Com o passar do tempo, foi ampliando o raio do seu activismo, tanto pelo compromisso dos seus temas (energia nuclear, meio ambiente, subdesenvolvimento do terceiro mundo) como pelo âmbito geográfico em que actuou (viajou a países como a Bolívia e o Equador para ajudar no terreno). Não é coincidência que tenha presidido nos anos setenta ao Pen Club International.

A sua obra desfrutou de êxito popular. Da sua novela mais difundida, “A honra perdida de Katharina Blum” (1974), venderam-se três milhões de exemplares. Böll não conta hoje com muitos leitores, nota-se que a sua literatura está muito marcada por um determinado ambiente social e que o mundo mudou muito desde então, mas a sua memória permanece viva através de instituições diversas. Por exemplo, o nome da fundação política vinculada ao partido dos Verdes na Alemanha. A cidade de Colónia criou em 1985 o prémio literário Heinrich Böll e numerosos colégios, ruas e edifícios públicos têm o seu nome.

Böll foi educado no catolicismo, mas o seu talento fustigador e denunciador também se dirigiu contra a Igreja, que abandonou oficialmente nos anos setenta (na Alemanha existe um imposto religioso específico: deixar de pagá-lo implica o abandono expresso da instituição, registado de modo oficial). Essa rejeição não o impediu de ponderar a relevância da fé cristã na sociedade. Em 1957 escrevia: “Prefiro o pior dos mundos cristãos ao melhor mundo pagão. Num mundo cristão há sítio para os que se veriam deslocados em qualquer mundo pagão: aleijados e doentes, velhos e débeis. Aqueles que o mundo pagão considera inúteis e sem valor, encontram no mundo cristão algo mais que espaço físico: experimentam amor. Recomendo aos meus contemporâneos imaginar como seria um mundo sem Cristo”.

 

Demografia, economia e saúde

O cenário demográfico do Ocidente adquire hoje um carácter inédito: os maiores de 65 anos superam em número os menores de 15. Isto nunca tinha ocorrido anteriormente. Trata-se de uma consequência da prosperidade económica e do progresso médico. A mortalidade infantil desapareceu na práctica, a esperança de vida prolonga-se de modo contínuo e derrotámos as chicotadas clássicas da humanidade (fome, peste, cólera). No entanto, a melhora objectiva da nossa saúde pode conviver com uma penetrante sensação de vulnerabilidade: nunca tanta gente se sentiu tão doente e nunca se gastou tanto em saúde. Mas grande parte das patologias que nos afligem estão ligadas a estilos de vida insanos: sobrepeso e obesidade, adições – tabaco, álcool, substâncias de drogo-dependências –, doenças sexualmente transmissíveis, stress, depressão, ansiedade, etc.

O Estado social e de bem-estar compromete-se a garantir a saúde e a cuidar dos seus cidadãos desde o berço até à sepultura. Essa promessa, contida no relatório Beveridge dos anos quarenta, tornou-se insustentável. O gasto médico e farmacêutico cresce sem parar, a saúde converteu-se no primeiro gasto nos orçamentos de Estado. Se a isto somarmos o pagamento das pensões – por não falar dos subsídios de desemprego –, a bancarrota das finanças públicas só se poderá evitar endividando as gerações futuras. Os ocidentais deixam de trabalhar relativamente cedo e têm pela frente uns vinte anos de vida como reformados. Durante grande parte desse tempo vamos desfrutar de umas condições de vida bastante saudáveis, que nos permitirão continuar activos de diferentes maneiras: fazer de avós, viajar, cultivar gostos. Finalmente, ficaremos doentes e é justamente nesse trecho final da vida que daremos lugar a um considerável gasto sanitário. Se a vida se encurtasse apenas alguns anos, a poupança económica seria fabulosa.

 

Brutalidade neopagã e mensagem cristã

Não surpreende que neste inquietante contexto económico e sanitário reapareçam a eutanásia e algumas condutas da antiguidade clássica. Devemos muito à Grécia e a Roma, mas aqueles mundos eram cruéis e sem misericórdia: exposição de recém-nascidos, desprezo pelos débeis – pobres, viúvas, órfãos, anciãos –, escravatura. O cristianismo melhorou a situação dos desfavorecidos, e aí está justamente uma das razões do seu êxito e da sua rápida difusão. Quando se produzia alguma epidemia e os sãos – médicos incluídos – fugiam das cidades, abandonando os infectados à sua sorte, os cristãos cuidavam dos seus doentes e também dos pagãos: não havia limites para o exercício da sua caridade. Esse ethos levou gente como Basílio o Grande a fundar em 369, nos arredores de Cesareia, o primeiro hospital de que se tem notícia histórica: Basileias. Tratava-se duma autêntica cidade, que acolhia tanto doentes como pobres. São Basílio passou à História como um grande teólogo, mas também tinha estudado medicina em Atenas e entregou-se ao cuidado dos mais desprezados, aqueles que o mundo descartava e punha de lado. Ele mesmo recebia em pessoa os leprosos, dando-lhes um beijo de boas vindas e oferecendo-lhes todo o tipo de cuidados. O caso de Basílio não foi, antes pelo contrário, um caso isolado: apenas o trouxe à colação a título de exemplo. Até ao dia de hoje, a caritas é um elemento essencial da mensagem cristã de serviço (diakonia), junto da proclamação da palavra e da liturgia (kerigma e liturgia).

Não é imprescindível invocar uma fé em Jesus Cristo para se defender a vida humana frágil ou terminal. Há uma ética e uma boa práctica médica inspiradas em razões de simples humanidade. Contudo, é ao mesmo tempo claro que a pertença comum à espécie Homo sapiens sapiens não basta para excluir cálculos utilitaristas. O que nos impedirá de eliminar idosos improdutivos ou jovens e crianças com deficiência? A fraternidade humana universal tem sentido se se baseia numa filiação partilhada. A dignidade humana só pode aspirar a um valor absoluto se o Homem é imagem ou reflexo do Absoluto, filho de Deus.

No nosso mundo observam-se tendências contraditórias, paradoxos autênticos. Enquanto soa o alarme do abandono e mortalidade dos idosos às mãos do Covid-19, o Governo tramita por via da urgência – sem debate social – a lei da eutanásia. Estava chamada a ser a primeira lei do Governo Sánchez (como se explica essa pressa?). A pandemia trocou-lhes os planos e parece que o Governo quer recuperar a todo o custo o tempo perdido. O neopaganismo convive com (os últimos?) rastos de cultura cristã numa surpreendente mistura. Queremos ir realmente nessa direcção? Seria bom escutar o conselho de Heinrich Böll e tentar imaginar como acabaria por ser o mundo sem Deus.


Alejandro Navas, Professor de Sociologia da Universidad de Navarra

(traduzido por António Vieira da Cruz)

conto - um pinheiro de Natal

(originalmente publicado no Jacaré)




Era uma vez, nuns terrenos de areia quase à beira do Tejo, um enorme pinheiro de raízes fundas e braços estendidos ao céu. Era a árvore mais vistosa de todo o Ribatejo e sonhava um dia poder alegrar o Natal de alguma família cristã. Ah, como desejava guardar aos pés os presentes de laçarotes encarnados e fingir que eram os seus sapatos de festa… e queria tanto que o vestissem de fitas e bolas brilhantes, que o trajassem de luzes como aos toureiros e que lhe colocassem à cabeça uma bela estrela tal como aos bolos especiais se põe uma cereja!


Um dia de Outono, húmido e frio como pertence à estação, o pinheiro contemplava a grande planície e olhava altivo para os pimentos do campo e para o arroz da lezíria. «Pobres vegetais», pensava o pinheiro para com as suas pinhas, «que estão destinados a um fim tão corriqueiro como a alimentação dos homens em dias sem história». O pinheiro aspirava a mais. Mas, enquanto se entretinha com as certezas da sua nobreza, “VRRRUMM!” um enorme ruído de motor soou perto do chão. Debruçou-se e viu um homem de serra na mão a levantar uma nuvem de serradura rente às suas raízes. A formosa árvore inclinou-se um pouco mais para ver melhor, sentiu o perfume inebriante da sua resina e “CRAAC”, “PAF!”, caiu com estrondo no manto de carumas. «Oh, meu Deus!», exclamou o pinheiro entusiasmado, «querem ver que chegou o dia? Serei finalmente a árvore de Natal na entrada duma casa grande, ou quem sabe no centro duma praça de aldeia, vila ou cidade?» 

O pinheiro cedo percebeu que os seus planos iam sair furados. No chão, cortaram-lhe o tronco em vários toros do mesmo tamanho e juntaram-no a outras árvores caídas daquele pinhal. No fim, veio uma grua que os carregou para uma camioneta enquanto ele se indignava «Não me podem fazer isto! Não vêem que eu sou um pinheiro de Natal?». No tronco via-se a idade que tinha, tantos anos quantos os seus anéis, e os anéis mais grossos correspondiam aos anos de mais chuva e maior crescimento: no corte, a história da sua vida! Mas não tenhamos já pena do nosso pinheiro, pois ele não imaginava que Deus lhe tinha reservado o melhor para depois. A camioneta levou-o a si e aos seus companheiros para uma boa carpintaria na vila. Lá, foram transformados em tábuas lisas, foram tratados, envernizados e mais tarde montados em conjunto à porta da Igreja Matriz. O pinheiro era agora parte das paredes e do telhado dum estábulo que recebia um burro e uma vaca verdadeiros e actores que representavam os anjos, os pastores e a Sagrada Família. Sentia-se profundamente realizado. As pessoas saíam da Missa do Galo e juntavam-se no adro, à volta do Presépio, ceando um prato quentinho de arroz de pato com pimentos assados. «Ora vivam!», cumprimentou o pinheiro feliz.

AVC

a autoridade como serviço

(originalmente publicado no Jacaré)


Foi recentemente lançado, logo após a morte do autor, o livro “As ideias políticas e sociais de Jesus Cristo" por Diogo Freitas do Amaral (1941-2019). O percurso do fundador do CDS é sobejamente conhecido e dispensa apresentações. Neste pequeno livro que não chega à centena de páginas, vamos às palavras de Jesus Cristo que inspiram a Doutrina Social da Igreja que Freitas do Amaral explica e promove. As ideias políticas e sociais de Jesus Cristo, presentes em várias passagens e de forma mais óbvia no Sermão da Montanha, são-nos pedagogicamente transmitidas no contexto histórico e económico da época. Para tal, Freitas do Amaral usa o seu poder de síntese e socorre-se de bons mapas.


Destaco a seguinte passagem:
Na verdade, o Estado - isto é, o poder político com os seus direitos e aparelhos de autoridade - não existe para si próprio ou para agradar aos que o governam (reis, presidentes, ministros), mas sim para se ocupar do bem comum, daquilo que é o bem de todos, dos interesses gerais da colectividade. Os poderes de autoridade são apenas um meio para alcançar um fim; o bem comum é que é o fim a atingir. A autoridade, como meio, é um serviço prestado aos outros. (pág.37)


Fica por explorar a amplitude de acção e interpretações que a Doutrina Social da Igreja permite, por exemplo, quanto à dimensão do Estado. As balizas parecem claras: por um lado, dar a César o que é de César e a Deus o que é de Deus, sendo que Jesus deixa claro que o seu reino não é deste mundo; por outro, Jesus Cristo deixou-nos algumas ideias políticas e sociais para este mundo. Sabendo isto, o político cristão (como outros cristãos de outras profissões) deverá conduzir a sua vida com os preceitos da religião que professa. Persiste, porém, a dúvida sobre o ponto certo em que o bem comum deverá ser perseguido: se sobretudo por um Estado que cobra os impostos e os redistribui; ou se sobretudo pelas pessoas que livre e voluntariamente se organizam na sociedade civil. Nesse sentido, é-nos útil o princípio orientador da subsidiariedade que, no entanto, não exclui a subjectividade das análises e o debate entre matizes diversos do plano de acção política.

A definição do bem comum depende, portanto, de várias condicionantes, das circunstâncias e de subjectividades. A Doutrina Social da Igreja dá-nos várias orientações acerca do que poderá ser o bem comum, mas não existe uma fórmula final que o determine de forma concreta e universal. Não dando essa resposta definitiva, este livro dá instrumentos para melhor nos podermos aproximar do bem comum em cada circunstância. Com ideias bem organizadas, clareza de bom comunicador e capacidade de síntese sem perder a profundidade pedagógica, este é um livro de leitura fundamental, para se ter em casa.

Kolinda Grabar-Kitarović

(publicado originalmente na revista Think South Asia em 2012 e depois no Jacaré em 2018)


Kolinda Grabar-Kitarović saúda Luka Modrić, E. Macron aplaude

Dois dos temas mais quentes desta semana foram a efusividade e boa figura da Presidente da Croácia a apoiar a selecção finalista do Campeonato Mundial de Futebol na Rússia e a cimeira da NATO em Bruxelas. À primeira vista os assuntos nada têm que ver, mas para mim sim. Em 2012/13 eu editava uma revista de relações internacionais que fundei, a Think South Asia magazine, que saía em versão digital e também circulava em formato impresso nos meandros políticos e diplomáticos de Bruxelas. Nesses anos, em visitas que fiz à NATO, tive o privilégio de conhecer e entrevistar a senhora embaixadora Kolinda Grabar-Kitarović que na altura era a “NATO Assistant Secretary General for Public Diplomacy” até se tornar a Presidente da Croácia em 2015, função que brilhantemente tem desempenhado até hoje. Antes disso já tinha sido Embaixadora da Croácia nos EUA e Ministra dos Negócios Estrangeiros. É fluente em Português, católica e tendencialmente conservadora. Aqui fica o registo duma pequena entrevista que lhe fiz em 2012 acerca do envolvimento da NATO no Afeganistão:


António Vieira da Cruz (AVC): How do you see 9/11 in 2012 from the NATO perspective?

Ambassador Kolinda Grabar-Kitarović (KGK): The attacks of September 11, 2001 were not only against the United States, but against the principles and values shared by a global community of democratic nations. Eleven years after these attacks, the commitment to the principles and values of the North Atlantic Alliance is firm, and our sense of solidarity and unity remains strong. Since the events of 9-11, working together and with partner nations around the world, the members of the Alliance have taken wide-ranging measures that ensure, collectively, we now face the future better prepared.

AVC: What has been the impact of NATO’s mission in Afghanistan, in particular with respect to a military presence in South Asia?

KGK: NATO’s primary objective in Afghanistan is to enable the Afghan authorities to provide effective security to ensure the country can never again be a safe haven for terrorists. The nations that make up the NATO-led International Security Assistance Force (ISAF) continue to work shoulder-to-shoulder - shona-ba-shona – with Afghan National Security Forces, building a more secure, stable future for the people of Afghanistan. In the eleven years of this partnership, the lives of the Afghan people have improved in terms of security, access to education and health care, economic opportunity and the assurance of rights and freedoms. The task is not yet complete, but Afghanistan’s self-reliance grows stronger each day. In light of the progress over the last 11 years, and building on our firm and shared commitment, we are confident that our strong partnership will lead towards a better future. Regional security, stability and development are interlinked, and a secure and stable Afghanistan is critical for a secure and stable South Asia.

AVC: How do you foresee NATO’s continued engagement with Afghanistan after the withdrawal of troops?

KGK: As the Chicago Summit Declaration stated in May 2012, Afghanistan will not stand alone. NATO’s commitment to Afghanistan is firm. At the Lisbon Summit in 2010, NATO and the Government of Afghanistan signed the Enduring Partnership Declaration, and at the Chicago Summit in 2012, NATO Allies, along with ISAF partners, built on this commitment to provide the Afghan national security forces with the necessary training, advising and assistance moving forward that they need to fulfil their duties. NATO and the Afghan Government have a clear road map through this Transition process, by which full security responsibility for Afghanistan is gradually transitioned from ISAF to the Afghan government. After 2014, the Alliance has committed to providing strong and long-term political and practical support through our Enduring Partnership with Afghanistan.

AVC: What are the current hopes and dreams for the future of NATO?

KGK: At the Chicago Summit, the Heads of State and Government of the member countries of the Alliance recommitted to the core values of NATO, as defined in the Strategic Concept, as the transatlantic framework for strong collective defence, and the essential forum for security consultations and decisions among Allies. NATO has three essential core tasks – collective defence, crisis management, and cooperative security – all of which contribute to safeguarding Alliance members. With the strong partnership of, and dialogue with, nations around the world, the Alliance’s work remains at the forefront of security: From fighting piracy off the Horn of Africa, to efforts in improving cyber defence, to our commitment in supporting United Nations Security Council Resolution (UNSCR) 1325 on Women, Peace and Security, and UNSCR 1612 and related Resolutions on the protection of children affected by armed conflict. The Alliance is also looking to emerging challenges, and the requirement that we must make best use of our resources and to continue to adapt our forces and structures. We remain committed to our common values, and are determined to ensure NATO’s ability to meet any challenges to our shared security.

domingo, 21 de janeiro de 2018

A necessidade da religião no espaço público

(Originalmente publicado no "Jacaré parado vira mala" no dia 10 de Setembro de 2017)

Sou católico. Apenas isso não me define por completo, mas é parte importante daquilo que sou, apesar das regras da sociedade quererem esconder essa parte de mim. Pelo contrário, defendo que a religião merece estar mais presente no espaço público, seja através de procissões, da comunicação social, de debates, de manifestações livres de religiosidade (quer individuais, quer de grupo) e até no discurso político. Há quem queira (seja por ideologia, convicção, medo ou vergonha) acantonar a religião aos espaços que existem para o efeito, como as igrejas e suas sacristias, expulsando os religiosos das escolas, hospitais e outras instituições que fundaram ao longo do tempo, substituindo-os sucessivamente e eliminando qualquer rasto que da sua passagem tivesse porventura ficado. Eu quero mostrar que uma presença maior da religião no espaço público é não só boa como necessária para a liberdade de todos, incluindo a dos que não crêem.

Imperador Constantino num mosaico
da Basílica de Santa Sofia em Istanbul
(antiga Constantinopla)
Ao longo da História, os vários regimes absolutos, totalitários e ditaduras musculadas não conviveram pacificamente com as religiões e igrejas do território. Se pensarmos no Império Romano dos primeiros séculos depois de Cristo, no reinado de Henrique VIII em Inglaterra, na Alemanha Nazi ou na União Soviética e respectivos satélites comunistas, por exemplo, vemos como a relação do Estado com a religião foi de tal modo conflituosa que este perseguiu-a, modificou-a, substituiu-a ou aboliu-a. Noutros casos, como no Império Romano de Constantino, nos vários Reinos Cristãos da era medieval ou nos Califados Islâmicos, foi política então que determinada religião ou igreja se tornasse na oficial do Estado. E se é verdade que muitos dos países de maioria muçulmana são "repúblicas islâmicas" ou outro tipo de teocracias onde sharia é a lei aplicada, os Estados Papais já não existem desde a unificação de Itália em 1870. Como bem notava Alexis de Tocqueville uns 40 anos antes a propósito da sua viagem à América, "a religião não pode partilhar a força material com os governantes sem chamar a si uma parte dos ódios que eles suscitam". Com efeito, ao se ver liberta das responsabilidades do poder temporal, a Igreja Católica pôde dedicar-se única e exclusivamente (e com redobrada credibilidade) à sua missão espiritual de dar Jesus Cristo a conhecer a todas as gentes, para salvação das suas almas e para maior glória de Deus...

Fachada do bloco central do Parlamento Canadiano
Numa intervenção pública que fiz no Parlamento do Canadá em Otava há cerca de 4 anos atrás, diante de vários deputados e representantes das diversas religiões, pude sublinhar o papel da religião na defesa das liberdades, como a de pensamento e a de expressão. De facto, é distinta a natureza dos discursos político e religioso: enquanto que o político está primeiramente preocupado com a conquista e manutenção do poder, o religioso busca antes de nada alcançar a verdade das coisas. Por esta razão, a propaganda e práctica política de regimes mais autoritários tende a conviver mal com o discurso religioso, a liberdade religiosa e tudo o mais que seja da esfera da religião. Assim, defender a liberdade religiosa e a existência livre da religião no espaço público são a melhor garantia de que as liberdades de pensamento, de imprensa, de associação e de expressão não serão postas em causa. Deste modo, o poder político encontra contra-pesos dissuasores para que não degenere em tirania.

Sente-se, além do mais, a falta do discurso religioso numa sociedade cada vez mais atomizada, egoísta, só, utilitarista, gananciosa, promíscua, sem vínculos duradouros nem honra, relativista, pornográfica, violenta... numa palavra: desmoralizada. Alexis de Tocqueville, que acima já foi citado, notou que as instituições democráticas nos Estados Unidos da América encontram na religião a fonte divina dos seus direitos, a salvaguarda dos costumes e a garantia da durabilidade das leis:

Alexis de Tocqueville (1805-1859) foi o autor
de "Da Democracia na América" (1835-40)
"Não existe nenhuma [religião] que não coloque o objecto dos desejos do homem para além e acima dos bens terrestres e que não eleve naturalmente a sua alma a regiões muito superiores às dos sentidos. Também não existe nenhuma religião que não imponha a cada indivíduo certos deveres para com a espécie humana, ou comuns a ela, e que não obrigue, dessa forma, a sair da contemplação exclusiva de si próprio. E esta é uma característica até das religiões mais falsas e perigosas." - Alexis de Tocqueville, in "Da Democracia na América", pág. 509, Principia, 2001, Cascais.

É necessário, portanto, proteger a religião no espaço público. Tal não se faz certamente com a ridícula mas grave investigação que a Universidade de Edimburgo, na Escócia, abriu contra uma aluna de 21 anos por alegada "islamofobia" e "discurso de ódio" depois de ela ter gozado com o ISIS no seu mural do facebook - imagine-se que por zombar dos selvagens do Estado Islâmico em privado se pode ofender toda uma pobre comunidade de vítimas... é de loucos!

A religião - em especial aquela que é marca da nossa civilização e que dá "a César o que é de César e a Deus o que é de Deus" - protege-se ao lhe criarmos condições para se expressar livremente no espaço público. Se possível, acarinhamos a referência moral das religiões e reconhecemos a utilidade pública das suas instituições que, a par das outras associações voluntárias, das famílias e da vizinhança, formam os "pequenos pelotões" que Edmund Burke identificou em 1790 (Reflections on the Revolution in France) e que são a sociedade civil que Peter L. Berger e Richard John Neuhaus quiseram promover em 1977 (To Empower People - From State to Civil Society).

Jacob Rees-Mogg a beber chá
Mal seria de nós se a César devêssemos dar tudo o que está fora das igrejas e suas sacristias, como se Deus merecesse estar confinado apenas a esses locais ou como se César e Deus - a política e a religião - fossem duas realidades estanques que não podem coexistir na mesma conversa. Falemos de Jacob Rees-Mogg, que é um deputado inglês à Câmara dos Comuns em Westminster, do Partido Conservador, e é uma pessoa cuja actuação tenho seguido com interesse ao longo dos últimos meses. Trata-se de um político notável, backbencher com bons princípios e coerente, gentleman com bom humor e bom aspecto; e no entanto, cometeu os "imperdoáveis" erros políticos de ser católico e um orgulhoso antigo aluno da famosa escola de elite de Eton. Jacob Rees-Mogg é um dos favoritos das bases à eventual sucessão a Theresa May como líder do partido e também do país. Quero salientar um recente episódio deste senhor: ao ser entrevistado para a televisão, perguntaram-lhe qual a sua posição em relação aos casamentos entre pessoas do mesmo sexo e relativamente ao tema do aborto. À primeira pergunta respondeu "Sou católico e levo a sério os ensinamentos da Igreja Católica. O Matrimónio é um sacramento e o entendimento sobre o que é o sacramento é dado pela Igreja, não pelo Parlamento. Eu subscrevo o ensinamento da Igreja Católica". À pergunta sobre o aborto, Rees-Mogg retorquiu que era completamente contra e que a vida começa na concepção. Insistiu quem entrevistava se a sua oposição ao aborto incluía todas as circunstâncias, como por exemplo em caso de violação, e o deputado foi claro: "I'm afraid so".

Ruínas do Convento do Carmo, fundado em 1389
por D. Nuno Álvares Pereira, o Santo Condestável
Caiu o Carmo e a Trindade, e até houve católicos a acusar Rees-Mogg de dar argumentos de fé onde se exigia uma abordagem mais racional. Mas eu penso o contrário: não só a fé e a razão são compatíveis e se completam como Jacob foi um belo exemplo de simplicidade e testemunho de fé. Convença-se os crentes com a fé e os não-crentes com os outros argumentos que também há! Mas retirar o argumento religioso do debate é ceder esse lugar aos radicais jacobinos. Foi o que aconteceu em Portugal nos últimos anos: com 85% a 90% da população a assumir-se como católica, a legislação sobre os valores tem sido eficazmente dominada nos últimos 15 anos pelo Bloco de Esquerda, partido que nesse período teve votações na ordem dos 3% a 10%... Por isso, numa altura propícia a fenómenos como Trump, Marinho e Pinto e André Ventura, prefiro que avancem Jacob Rees-Mogg e outros cuja excentricidade não impeça a boa-educação e as ideias enraizadas na boa tradição cristã. Pode ser que com o tempo o Moggmentum se perca e que a Moggmania se vá. Espero que não. Mas venham mais, muitos mais como ele!

Faz falta ao espaço público esta autenticidade livre de calculismos. Desde que o discurso religioso deixou de ser aceite como filtro moral do que está certo e errado, as leis tornaram-se utilitaristas, o "politicamente correcto" tornou-se cativo de certas minorias e transformou-se num código de conduta político-mediático com laivos de ditadura do pensamento único. A liberdade, sem valor, perde-se. Encontramo-nos actualmente nessa perigosa encruzilhada. Os radicais encontram sempre forma de falar e agir. Este é um apelo aos muitos moderados que aí estão, para que não tenham medo nem vergonha de assumir a sua religiosidade e tragam ao debate público a voz moral que foi silenciada e da qual tanto precisamos neste tempo de escolhas difíceis, nomeadamente sobre a vida, a família, o trabalho, a propriedade, a cultura, as fronteiras, e a dívida pública e o planeta que deixamos aos nossos filhos.

segunda-feira, 7 de novembro de 2016

Lusophone opportunities in the Indian Ocean

O artigo em baixo foi inicialmente publicado na revista The Brussels Europe Press Club Magazine nº5, de Novembro de 2015.



Lusophone opportunities in the Indian Ocean
by António Vieira da Cruz

Por mares nunca de antes navegados
Passaram ainda além da Taprobana
(Luís Vaz de Camões, “Os Lusíadas”, Canto I)

Portuguese presence in the Indian Ocean
Portuguese is the 6th largest language in the world by number of native speakers and it is spoken by around 250 million people in the five continents. [1] But we might say that Portuguese culture is a tale of three oceans: the Atlantic, the Indian and the Pacific. Most of the times we hear news in Portuguese from Atlantic Brazil, Angola or Portugal; we may also think of Macau and Portuguese interactions with Pacific China or Japan; instead, I chose to write here about our relation with the Indian Ocean. By travelling through this ocean you will certainly face many people with Portuguese surnames, find Portuguese fortresses and churches, or even taste Portuguese cuisine influence in local gastronomy. There is a strong link between those people, those places and Portuguese culture. This is the intangible value of lusophony. But we can go forward – as Portuguese sailors did in the past – and find also very tangible ways to connect people and produce wealth.

Today, 90% of international trade and two thirds of all petroleum supplies travel by sea. Around 70% of the world traffic of petroleum products passes through the Indian Ocean. [2] What happens in the Indian Ocean always had repercussions in other regions. Two proverbs from the 15th century are significant: one says “if the world were an egg, Hormuz would be its yolk”; the other said “whoever is lord of Malacca has his hand on the throat of Venice”. [3] Well, the Portuguese conquered both Hormuz (1507) and Malacca (1511). When the Portuguese conquered Malacca, Ming China’s economy suffered. [4] Former President Hu Jintao recognized China’s “Malacca Dilemma”, by which the country is still dependent on the strait for over 25% of its exports and 15% of its imports. [5] Moreover, “40% of world trade passes through the Strait of Malacca and 40% of all traded crude oil passes through the Strait of Hormuz.” [6]

From the early 16th century until mid 17th century we may say Portugal dominated trade in the Indian Ocean by setting up forts at the important straits and ports along the coasts of Africa and Asia. Like Homer’s Odyssey and Virgil’s Aeneid draw maps to sail in the Mediterranean Sea, we could use The Thousand and One Nights’ Sindbad the Sailor story or Camões’s The Lusiads to sail in the Indian Ocean. From Camões we will find some clues to understand the importance of the Indian Ocean to Portugal and vice-versa. Inspired by the poet I would like to enumerate some key places for the lusophony, starting by South Africa and going through three continents by the ocean’s coastline until the end in Australia.

Cape Town, South Africa
The first European to cross the cape was Bartolomeu Dias in 1488. Until then the cape was called “Cape of Storms” (Cabo das Tormentas), but it was renamed by King John II of Portugal as “Cape of Good Hope” (Cabo da Boa Esperança), revealing his optimism to find a sea route to India. Camões writes about Adamastor, a terrible monster that sunk many ships and tells how the heroic Portuguese sailors overcame this obstacle. [7] The main exports of Cape Town are wine, petroleum products, grapes, apples, pears and quinces. It is also worthy to mention the growing tourism industry and the relevant financial, business services and real estate sectors.

Mozambique
Mozambique is the biggest Portuguese-speaking country in the Indian Ocean. Gas reserves are estimated to be the fourth largest in the world. [8] Mining and quarrying sectors accounted for 1.5% of the economy and energy accounted for 5%. However these sectors were expected to expand by more than 10% per year due to increased output of coal and gas. Important mineral extracted in the country are aluminum (2% of world’s production), beryllium (5%) and tantalum (6%). There is also a significant extraction of marble and production of cement. The main agricultural products in Mozambique are cotton, sugar cane, cashew, copra and cassava.

Zanzibar, Tanzania
Vasco da Gama passed in Zanzibar in 1498 and the island became a Portuguese possession for almost two centuries (1503-1698). Zanzibar's main industries are spices (cloves, nutmeg, cinnamon and black pepper), raffia, and tourism. The island where Freddie Mercury was born also exports seaweed. It is relatively autonomous from mainland Tanzania and Saul Bernard Cohen points out the island’s geopolitical potential: “the durability of the union of Zanzibar and Tanganika is increasingly in doubt. Should Zanzibar become independent, it could benefit from its location to become a gateway state linking East Africa to South Asia and Middle Eastern areas oriented to the Indian Ocean.” [9]

Mombasa, Kenya
Vasco da Gama was not well received by the King of Mombasa, who tried to ambush his units. With 1.3 million people, Mombasa is now the 2nd largest city of Kenya and it was part of the Portuguese Empire for more than 100 years (1593-1698 and 1728-1729). Mombasa has the largest port of Kenya and exports refined oil and cement. Tourism is its main industry.

Malindi (Melinde), Kenya
Pillar of Vasco da Gama in Melinde
Contrasting with the hostile reception south in Mombasa, Vasco da Gama was very well received by the Sheik of Malindi. This is where in The Lusiads the hero Vasco da Gama narrates a part of Portugal’s History. That is already a good reason to visit the place. In reality they signed a trade agreement and the Portuguese explorer hired a Muslim sailor– probably Ahmad ibn Mājid El-Melindi – to guide him through the Indian Ocean water until India. Then, the main exports of Malindi were ivory, rhino horns and agricultural products such as coconuts, oranges, millet and rice. In 1499 the Portuguese established a trading post in Malindi that served as a resting stop on the way to and from India. Malindi remained the center of Portuguese activity in the Eastern Africa until 1593 when the main base was moved to Mombasa. Nowadays the main industries in the region are tourism, cement and cashew.

Adding to the previous mentioned conquests of Hormuz and Malacca, we must ackowledge other strategic places that the Portuguese conquered, such as Socotra Island (Yemen) and Aden (Yemen) to control the entry of the Red Sea; Muscat (Oman), Sohar (Oman), Khor Fakkan (United Arab Emirates), Bahrain, Qeshm (Iran) and Bandar Abbas (Iran) to – with the help of Hormuz (Iran) – control the Persian Gulf.

India and Ceylon
The Portuguese presence in India is well known and lasted for 450 years. I will not take long about this here. Places like Goa, Daman, Dadra and Nagar Aveli, Diu, Kochi, Cannanore or Calecut were part of the Portuguese Empire. Also Mumbai was Portuguese for 127 years (1534-1661) and it was given to the British as a wedding dowry when Portuguese Queen Catherine of Braganza married King Charles II of England. This Portuguese queen was the one who introduced in English society the culture of tea and the use of a fork at the dining table. And today, Mumbai is the largest city in India and one of the world’s biggest with more than 12 million inhabitants. Spices and tea were the main imports from Portuguese India and Ceylon. Ceylon was Portuguese for 153 years (1505-1658), until it was conquered by the Dutch. Nevertheless, there are still many lusophone elements in current Sri Lanka and many people still bear their Portuguese names. Besides tea, Sri Lanka is rich in rubber, coconut and graphite. It is also important to note Sri Lanka’s tourism growing industry and its indisputable centrality in the Indian Ocean.

Chittagong, Bangladesh; and Bago, Myanmar
Also known by Portuguese as Chatigão or Porto Grande de Bengala, Chittagong has now a population of 7 million people and it is the second largest in Bangladesh. In 1598 there were around 2500 Portuguese in Chittagong. In 1616 Chittagong and the island of Sundiva were conquered and the remaining Portuguese people dedicated themselves to piracy. There are many descendents from Portuguese in that area and I met some Christians with Portuguese surnames still. Main industries nowadays are shipping, tea, consumer foods, textiles, cement, real estate and tourism. Chittagong is also central in the BCIM international commercial corridor, which will link Kunming (China) to Mandalay (Myanmar), Chittagong (Bangladesh), Dhaka (Bangladesh) and Kolkata (India). Likewise, other Portuguese adventurers went south to Myanmar and installed themselves in the Kingdom of Pegu (now Bago). Two of them were even acclaimed as kings: Salvador Ribeiro de Sousa and Filipe de Brito e Nicote. Unfortunately, that history did not end well. Brito e Nicote was impaled, his troops were made prisoners for life. Their descendents are still Christians, have Portuguese names and faces and can be found in rural areas in Ava and Bago areas. They are known as the “Bayingyi”. [10]

East Timor
Finally, and leaving many lusophone places to name, we must consider a country that has Portugal’s best support: East Timor. Where the Indian Ocean ends and the Pacific Ocean starts, the eastern part of the island of Timor was governed by the Portuguese and it is a Portuguese-speaking country on the other side of the world. Timor has been developing a partnership with Australia for the extraction of petroleum and natural gas resources in the waters southeast of East Timor. Regarding Australia, some theorists say that the first Europeans to reach Australia were Portuguese. But what we know for sure is that there is a large hardworking Portuguese community in Australia nowadays. [11]

Conclusion
Like the Portuguese, other great nations explored the Indian Ocean. The Ottomans, the Omanis, other Arabs and Persians, the Chinese, the Dutch, the French, the English, and now the Americans, the Indians and the Chinese again, all of them had different experiences on the region. But as we see the Portuguese experience is especially rich. If we dare to rediscover the lusophone Indian Ocean and reconnect with its people, we may find a very interesting advantage for trade and investments. For that, we must embrace lusophone values like the courage to turn a Cape of Storms into a Cape of Good Hope; or to partner with valuable people to achieve better results, like Vasco da Gama and Ahmad ibn Mājid did in Melinde; to think strategically like Afonso de Albuquerque did; and to conquer the hearts of native people, like St. Francis Xavier did in Goa and Malacca where he is venerated still today. So, the remaining question is… when will you start your lusophone enterprise?


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References

[3] KAPLAN, Robert D., in “Monsoon”, p. 7, Random House Trade Paperbacks, New York 2011.
[4] KAPLAN, Robert D., in “Monsoon”, p. 10, Random House Trade Paperbacks, New York 2011.
[7] CAMÕES, Luís Vaz de, in “Os Lusíadas”
[9] COHEN, Saul Bernard, in “Geopolitics of the World system”, p. 376, Rowman and Littlefield Publishers, Oxford 2003