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terça-feira, 28 de junho de 2011

o povo em tempos de crise



A população geral, em tempos de crise, quando estão em causa assuntos importantes, tipicamente esperam que a sua salvação aconteça por meios irracionais, mais do que por meios racionais.

in "Vida de Temístocles", de Plutarco (45-120 d.C.)





quinta-feira, 17 de fevereiro de 2011

retratos sobre Portugal e a emigração



Já vivi fora, estudei em Espanha e nos Estados Unidos, e trabalhei em Barcelona. Decidi voltar para Portugal por várias razões. É aqui que vivo actualmente.

A propósito, lembro-me de duas entrevistas de trabalho a que fui há uns meses atrás, cá em Lisboa. Numa, o entrevistador perguntou-me surpreendido porque é que voltei para Portugal nesta altura de crise. Na outra, perguntaram-me porque é que fui fazer o mestrado lá fora e não cá, e dessa vez quem ficou surpreendido fui eu. Mas, infelizmente, as pessoas que pensam como este último homem não são tão poucas quanto isso. Será que vivem no mesmo país que eu?

Conheci este vídeo acima reproduzido através de um post n'O Cachimbo de Magritte. Identifico-me com tudo o que este precioso trabalho da Fundação Calouste Gulbenkian mostra, está muito bem feito e vale a pena vê-lo até ao fim.

Lembro ainda esta citação de Agostinho da Silva.

quarta-feira, 4 de novembro de 2009

felicidade triste

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Quem inventou que triste não é feliz? Quem não é feliz é infeliz, que é muito diferente de se ser triste! A tristeza, por exemplo, costuma até ser bela - coisa que a infelicidade nunca é. Qualquer português pode e deve ser feliz, mas... sendo português, nunca deixará de ser triste. É uma e outra coisa, sem prejuízo para ambas. Um pouco ao jeito do contentamento descontente pelo Poeta cantado.
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domingo, 1 de novembro de 2009

quinta-feira, 29 de outubro de 2009

a nova comunicação: de linear a hipertextual

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Hoje falo sobre um dos novos paradigmas da comunicação: "de linear, a comunicação passou a ser hipertextual". Mas antes, explico o porquê deste exercício.
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Estou neste momento numa aula de Nuevos Medios, que faz parte do Mestrado em Comunicação Política e Corporativa (MCPC), da Universidade de Navarra, onde curso. O Professor desta cadeira é argentino, chama-se José Luis Orihuela, e a sua proposta é que façamos um pequeno ensaio sobre um dos novos paradigmas da comunicação. É, pois, disto que este post se trata.
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"De linear, a comunicação passou a ser hipertextual", diz o autor. Como vemos na maior parte dos textos publicados em páginas web, o hyperlink está na moda. Tradicionalmente (nos livros, jornais, revistas...), o texto é uma sequência de palavras e ideias meticulosamente construídas, de uma forma linear e que tenta ser coerente. No entanto, não é assim que funciona a nossa mente. Basta repararmos nas conversas mais descontraídas que temos com os nossos amigos, em que saltamos de assunto para assunto sem esgotar os temas nem chegar a conclusão alguma. Ao conversarmos, estamos constantemente a "hiperlinkar".
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Há quem diga que Francis Bacon não tinha jeito para escrever, só para pensar; e se ninguém o disse, digo-o eu, porque é especulável e neste momento dá-me jeito. Explico-me. Não há qualquer dúvida que algumas das passagens literárias mais bonitas da Filosofia Política são da autoria de Bacon, autor que tinha uma habilidade enorme para produzir belas metáforas e assim ilustrar melhor o seu pensamento filosófico, usando os mais diversos recursos estilísticos com um fino sentido poético. Mas, na realidade, não sabemos se Bacon escrevia bem ou mal, porque pouco ou nada se conhece de escrito pelo seu próprio punho: era um secretário que anotava tudo, enquanto Francis dava voltas pelo jardim, soltando ideias para a atmosfera. Vidas boas...
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O que quero provar com este exemplo de há quatro séculos atrás é que não é necessária a velha forma de tecer um texto (porque um texto é um tecido) para sermos geniais. Basta escrevermos como pensamos, e hoje a internet permite-nos tal aventura. Mas... como nos ensina a sabedoria popular, "não há bela sem senão", e toda a aventura comporta riscos.
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O que é a comunicação hipertextual? É simplesmente poder escrever um texto e ligá-lo a qualquer outro texto, som, vídeo ou imagem que esteja disponível na Internet. Mas este modelo exige novas destrezas, quer para quem escreve, quer para quem lê. Para quem escreve, há que aprender a articular o texto com ideias, citações e links pertinentes, que possibilite ao leitor uma consulta fácil, mas ao mesmo tempo tentar que o texto escrito não perca a sua unidade. Para quem lê, é necessário um esforço maior para chegar ao fim, como aliás nota J.L.O. no seu texto.
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O grande risco da comunicação hipertextual é que, ao olhar para um texto assim, a coerência do tecido pode perder-se pelo caminho. Se me leu até aqui sem se perder pelos links que pus pelo caminho, autênticas armadilhas para o mais incauto, então muitos parabéns! Está preparado para enfrentar a comunicação do século XXI.
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* houve entretanto um pequeno promenor alterado no texto (veja-se a caixa de comentários)
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quinta-feira, 22 de outubro de 2009

cuidado com a universidade que escolhes

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Só há um critério válido para escolher bem uma Universidade. Não é pelo prestígio que a escolho, nem pelas suas taxas de empregabilidade. Nada disso, o que tenho que fazer é uma pergunta muito simples: confio ou não nos valores morais desta universidade?
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Na universidade, tudo o que extravasa a ciência exacta, é manipulação política. Tudo. E quanto maior o grau e ritmo do desafio (pós-graduação, mestrado, doutoramento), mais conhecimentos nos metem goela acima, sendo difícil filtrar o que é mau e indesejável. Não temos escolha senão assimilarmos quase tudo sem cuidados.
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Para levar um curso a sério, é preciso fazer constantemente a promessa "não deixarei que me contaminem", tendo por certo que o farão. Estudar numa universidade e estar consciente daquilo que me fazem aprender para ter boas notas, é uma de duas:
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- ou a coragem de confiar nos valores que a instituição à partida me propõe;
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- ou a soberba temeridade de pensarmos que, à parte do canudo, vamos sair de lá iguais.
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Mas uma coisa é certa. Os momentos livres têm de ser de pura desintoxicação, mesmo quando confiamos minimamente na universidade em cujas mãos nos pomos. Há que pensar se aquilo que me disseram encaixa ou não nas prioridades que tenho de vida ou se, por outra, mudou as minhas prioridades, e se as mudou, se para melhor ou para pior. É tempo de aproveitar o bom que aprendemos e marcar com sinais visíveis o que não presta.
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Temos de ser os homens e mulheres livres, que preferem a dor da luz ao conforto das sombras. Infelizmente, se não temos cuidado, na universidade podemos ficar ainda mais aprisionados ao fundo da caverna. E não devia ser assim.
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sábado, 5 de setembro de 2009

nesta Lisboa que eu amo...

Sou humilde, sou assim...! Ocupo tão pouco espaço que... caibo dentro de mim.

José Viana (1922-2003), grande actor e pintor. Aqui, na saudosa "Grande Noite" de Filipe la Féria, em 1990.

terça-feira, 14 de julho de 2009

solo se vive una vez


Quem vive amores impossíveis compreende melhor aqueles que acreditam na reencarnação. "Noutra vida teríamos resultado", dizem, convencem-se e, por fim, se conformam. Isso enquanto silenciam as palavras sábias das pacenses Azúcar Moreno - solo se vive una vez!

segunda-feira, 29 de junho de 2009

pela ética da convicção, contra o voto útil

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Um dos melhores filmes que conheço é o Reino dos Céus (Kingdom of Heaven - 2005), dirigido por Ridey Scott e escrito por William Monahan. O facto de ser um romance histórico, e a necessidade de tornar a narrativa mais cativante e cinematográfica, não garantem precisão histórica, mas em todo o caso esta é uma excelente história que Ridley Scott nos conta. Tendo como pano de fundo a reconquista de Jerusalém pelos muçulmanos em 1187, vemos os extremistas de parte a parte a incitar à guerra que lhes interessava por "vontade de Deus". Este filme tem uma riqueza de conteúdos que permite ser o ponto de partida de várias discussões filosóficas e morais, mas hoje interessa-me aqui citar uns diálogos do "Reino dos Céus" que bem ilustram as éticas de Max Weber em confronto: a "ética da convicção" versus a "ética da responsabilidade".
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Rei Balduíno IV (R) - Decidimos que deverá tomar comando do exército de Jerusalém. Se eu deixar o exército com o Guy, ele tomará o poder através da minha irmã e declara guerra aos muçulmanos [comandados por Saladino].
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Balian, Barão de Ibelin (B) - Seja lá o que pedir, eu servirei.
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R - Não. Oiça tudo antes de responder. Casaria com a minha irmã Sibila [de quem Balian gosta], se ela estivesse livre do Guy de Lusignan?
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B - E o Guy?
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Tiberias, Raimundo III de Tripoli (T) - Vai ser executado. Assim como os cavaleiros que não lhe juram fidelidade.
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B - Eu não posso ser a causa disso.
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T - "Seja o que for que pedir, eu servirei"
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B - Um rei pode mover um homem, disse o senhor. Mas a alma pertence ao homem.
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R - Sim, disse isso.
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B - Aí tem o meu amor e a minha resposta.
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R - Então que assim seja.
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T - Porque é que protege o Guy? Ele é um homem que o insulta, que o odeia. Ele próprio o mataria se tivesse a oportunidade. Nem pela salvação deste reino, será assim tão difícil casar com a Sibila? Jerusalém não tem necessidade de um cavaleiro perfeito.
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B - Não. É um reino de consciência, ou nada.
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B - Sibila!
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Sibila (S) - Quem és tu para recusar o pedido de um rei? Eu sou o que sou. Eu ofereço-te isso. E o mundo. E tu dizes que não.
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B - Achas que eu sou como o Guy? Que eu seria capaz de vender a minha alma?
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S - Virá o dia em que desejarás ter feito um pouco de mal para poderes ter praticado o bem a uma escala maior.
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A dificuldade de muitas das nossas decisões não está em optar entre o bem e o mal, mas entre o ideal e o pragmático, o sentimento e a razão, a convicção e a responsabilidade. Este dilema ético acompanha qualquer pessoa nas suas escolhas ao longo da vida. Como deve ser a minha conduta? A minha ética é a da convicção ou a da responsabilidade? Umas vezes uma, outras vezes outra? Tentar arranjar um equilíbrio entre ambas, tal como sugere Max Weber, não será contaminar a pureza da ética da convicção e torná-la sempre, inevitavelmente, numa ética da responsabilidade?

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Lembro que José Sócrates, na práctica do auto-elogio em que recorre, disse que decidira que o Tratado de Lisboa não iria a referendo em Portugal por uma questão de ética da responsabilidade. Ou seja, para quem crê no valor da democracia ou no valor de honrar a palavra dada na campanha eleitoral, o sr engenhoso preferiu iludir esses valores a arriscar-se a ver o seu Tratado chumbado em referendo. Assim, sou pela ética da convicção em tudo, o mais possível, sem qualquer concessão e defendendo só aquilo em que acredito. Considero até um pouco descabido chamar "ética" à segunda hipótese. É por exemplo pela ética da convicção que desprezo qualquer apelo ao voto útil que façam os dois partidos do poder, ou os cinco da assembleia. Se nalgum deles votar, nunca será por esse repelente argumento, mas pelas suas propostas, ideologias (porque ainda as há), e pessoas. Pode-se dizer que, quem concorda mais com um partido numas eleições e vota noutro porque pensa ser mais útil assim, está-se alinhando por uma ética da responsabilidade (nada a fazer, a designação do Weber é mesmo esta...).

Defender a ética da convicção é proteger a pureza da verdade a todo o custo, numa atitude próxima do irrepreensível. O protagonista deste filme podia ter-se casado com a mulher que amava, ter-se livrado do fidagal inimigo, e ter-se tornado no seguinte Rei de Jerusalém, mantendo uma amigável paz com Saladino, e tudo isto se tivesse dito um simples "sim" ao seu rei. Mas preferiu dizer "não", apenas porque não concordou com o método traiçoeiro de afastar o seu pior inimigo para resolver todos os seus problemas e os do reino. É por isso que considero Balian um dos mais virtuosos heróis que o cinema produziu nos últimos tempos. E se alguém pensa que Balian escolheu a solução que lhe dava menos problemas, está redondamente enganado. Desde quando é que agir conforme a consciência é o caminho mais fácil?

terça-feira, 2 de junho de 2009

o fado tem futuro na Carminho

Antes de ontem fui com um amigo à FNAC ver se arranjava o tão esperado CD da Carminho - Fado. Já a ouvi ao vivo, alia ao seu jeito puro de fadista uma voz poderosa mas bela. Procurei, nem nos tops nem nas prateleiras estava, perguntei à menina que avisou:

- Só a partir de amanhã, que é o dia do lançamento.

Ah bom. Voltei a tentar ontem, passei no Corte Inglês com outro amigo, eram aí umas 4 da tarde.

- O CD da Carminho? Desculpe, já esgotou.

Como vale a pena, hoje saí de casa apostado em encontrar uma loja que ainda tivesse o seu primeiro CD, mas a meio do caminho dei conta que me tinha esquecido da carteira em casa.

E enquanto não resolvo esta faena, tenho ao menos o consolo de já se poderem ouvir dois dos novos fados desta mui promissora Carminho no youtube, em videoclips realizados por João Botelho, seu admirador. Eis "A Bia da Mouraria", da Carminho Rebelo de Andrade.

sexta-feira, 29 de maio de 2009

os portugueses emigrados são os que se ficaram

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Para dizer tudo numa palavra, Portugal, para os verdadeiros portugueses, se tornava um país inabitável. Ao contrário da denominação histórica que se tornou corrente, os verdadeiros estranjeirados eram realmente os que, ficando em Portugal, serviam o poder; os outros, os que emigravam o mais que podiam, esses eram os reais portugueses, os portugueses tradicionalistas, os portugueses; que preferiam todos os incómodos de um exílio à dor de viver numa pátria que, de sua, só tinha o elemento material de céu, terra e mar.
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in "Reflexão à margem da literatura portuguesa", de Agostinho da Silva

quinta-feira, 21 de maio de 2009

os dois noivos que a vida separou

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Galiza, Catalunha, Navarra, Andaluzia, Bascos, Levantinos, ao correr da história, pouco mais do que escravos de escravos: porque escravidão, no fim de contas, pelo que respeita a degradação humana, age para os dois lados, para o lado do opressor e para o lado do oprimido. Com uma grande vantagem a favor das regiões periféricas: é que, vencidas, jamais se submeteram; e, no momento oportuno, se poderão comportar como nações livres [livres, do centralismo castelhano] que jamais renegaram a sua liberdade e jamais, abandonando seus mortos, desistiram da luta.

E aqui, ao que me parece, se insere a grande façanha de Portugal. O que Portugal fez de maior no mundo não foi nem o descobrimento, nem a conquista, nem a formação de nações ultramarinas: foi o ter resistido a Castela. O ter mantido, através de sangue e fogo, o princípio de independência dos territórios periféricos. E o ter mostrado, naquilo que cabia em suas forças, e mais do que isso, porque verdadeira história só se faz assim, naquilo que estava muito para além de suas forças, de que modo uma Espanha [em sentido amplo, de Península] livre e convivente poderia ter transformado a face do mundo.

[...]

Por ter garantido a possibilidade, pelo menos em amostra, de arquitectar o que teria sido um universo verdadeiramente católico, vejo eu Aljubarrota como a maior batalha da história, a par daquela outra em que Constantino venceu Justiniano. Não apenas por isso, no entanto. Mas igualmente porque é só em Portugal que as outras nações da Península podem ver uma esperança e um ponto de apoio para uma futura liberdade.

[...]

Só que, por fatalidade, e logo desde o começo, faltou a Portugal, para uma plena acção, a companhia e a integração de seu complemento natural para os lados do Norte.

[...]

Mas tempo vem, atrás de tempo; se há «talvez» para o passado da História, há «talvez» igualmente para o futuro da História; pode ser que um dia a reintegração da Península em si mesma, na sua liberdade essencial, se faça através da reunião de Portugal e de Galiza. Dos dois noivos que a vida separou.

in "Reflexão à margem da literatura portuguesa", de Agostinho da Silva

terça-feira, 5 de maio de 2009

vox populi - IV

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Hola, o meu nome é Angel e tenho uma data de anos. Nascido e criado em Sanguesa, se me dizem "então és navarro!", logo respondo "hombre, que no, que soy un español de Navarra!". Sempre fui muito patriota. Conduzi ambulâncias durante a guerra civil, vejam lá, já tenho a carta de condução há mais de 75 anos!
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Naquele tempo a guerra era diferente, como aliás era tudo. Mas a guerra, essa terrível desventura, nunca mais a esqueço, não preciso que o Zapatero e a sua canalha venham cá com leis da memória histórica para me lembrar de coisas que me esforço por esquecer ou ao menos pacificar dentro de mim.
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Lembro-me de recolher corpos, de ambas as facções da guerra, de moribundos furados por metralha de lado a lado... metia-os para dentro da ambulância e muitas vezes tinha de ser eu a intervir antes que me morressem pelo caminho. E sacar para fora todos aqueles tiros escondidos pela carne e pelo sangue? Era através dum detector de metais que sabia mais ou menos onde tinha de agir, sempre que apitava, tu-tu-tuuu...
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Hombre, ainda salvei muitas vidas, ou melhor, adiei-lhes a morte! Agora, quase só cá estou eu para contar estas histórias.
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quinta-feira, 30 de abril de 2009

algumas virtudes d'um chefe de família

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Passo quase todo o dia fora de casa, ocupado em assuntos alheios, e o resto do tempo passo-o com a família, por isso que o tempo que fica para mim, isto é, para a correspondência, é nenhum.
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Quando regresso a casa, tenho de conversar com minha mulher, de brincar com as crianças, de me entender com o pessoal doméstico. Meto estas coisas nos afazeres, pois têm de ser feitas, e têm de o ser caso não queiramos ser estranhos em nossa própria casa, sendo necessário ter as mais simpáticas relações com os companheiros da vida que a natureza ou o acaso nos deram, ou que nós escolhemos, sem ir ao ponto de os mimar por excesso de familiaridade, nem de fazer, dos servos, senhores. Tudo isto leva os dias, os meses, os anos.
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in "Epístola a Pedro Egídio", de São Tomás Moro
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quarta-feira, 22 de abril de 2009

música conspirativa

Não, este postal não é sobre o belíssimo novo tema dos Xutos&Pontapés, Sem eira nem Beira, mas até podia ser. O álbum de estreia dos Afromen chama-se "Mentalidade", e o nome diz quase tudo. Trata-se de uma sonoridade que anda entre o hip hop e o rap clássico, muito contagiante, acompanhadas de sumarentas letras de verdadeira intervenção política - principalmente ao nível da mentalidade e dos comportamentos sociais. É o som que está a dar em Angola desde Dezembro, quando o CD foi lançado, e que está chegando a Portugal apesar de ainda não constar na Fnac.

Yannick Ngombo, o vocalista e líder deste grupo, já anda nestas lides há mais de 10 anos, mas depois de viajar pelo mundo voltou a Angola com novidades para contar. Afromen põe o dedo em algumas feridas da actual sociedade angolana, e denuncia tendências viciosas que devem ser combatidades com valores como o respeito, a lealdade, a boa vizinhança, a autenticidade, a humildade, a esperança. Embora dirigida aos angolanos, a mensagem de Yannick serve que nem uma luva à sociedade portuguesa. Nesta faixa, o rapper lembra algumas virtudes do bairrismo saudável. Também na banda sonora d'a Conspiração, aqui na barra do lado, podemos escutar o grande hit de apresentação deste novo grupo a ter em conta: Afromen - 1, 2, 3.

Hoje, se o vizinho tá doente

não adianta perguntar

e dizer tem o quê?

Não vai dizer a verdade

e no coração vai dizer "seu fofoqueiro"

segunda-feira, 23 de março de 2009

vox populi - III

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Chamo-me Maria da Conceição e a história da minha vida resume-se a umas poucas de linhas, muito breves e dramáticas. Nasci numa pequena aldeia de serra algarvia, e lá vivi até aos meus 14 aninhos quando fui trabalhar para casa de uns senhores em Lisboa.
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Que bons eram esses senhores... ensinaram-me a cozinhar e a limpar, enfim, a lida da casa, e trabalhei para eles durante 40, quase 50 anos. Uma vida! Sempre dedicada àquela família, não mais voltei à terra, nada me prendia lá, nem sequer família lá deixei. E também, quem é que era a vizinha que se ia lembrar da gaiata que em 50 anos nunca lá voltou? Nunca fiz descontos para a reforma, era feliz e despreocupada cá em Lisboa. Só que...
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O patrão morreu, e a sua senhora foi para um lar doente de alzheimer, ou lá como é que se diz. Eu também arranjei uma doença de pernas que mal me deixa andar, e por causa disso e da minha idade não arranjo trabalho em lado nenhum. Ando devagar, devagarinho, já fui operada mais que uma vez mas parece que isto da perna só fica pior. Internada no hospital ao menos tenho cama, tecto e comida. Mas acabam sempre por me dar alta...
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Os remédios que me receitam são caríssimos. Tenho de pedir na rua ou no metro mas, de tudo o que me dão, só me chega para comer ou para comprar remédios, nunca as duas coisas. Se compro remédios, passo fome; se como, não dá para os remédios.
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E depois olha, tenho de ter a perna descoberta com as cicatrizes à mostra, que é para as pessoas terem pena de mim e me darem qualquer coisinha. Eu sei que desta maneira entra pó e infecta mais, mas o que hei-de fazer? Da outra forma nem para o pão chegava... não me custa chorar assim.
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Hoje tenho 68 anos embora a minha cara diga 86. Poucas coisas me alegram, mas apesar de estar há cerca de 4 anos na rua, ainda não perdi a esperança de arranjar uma casa para trabalhar. Sei lá, por exemplo para estar na cozinha... diziam os meus senhores que eu até me desenrascava muito bem com os pitéus! Que saudades deles, foram mais que a minha família...
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quinta-feira, 19 de março de 2009

"canción tonta"

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Mamá.
Yo quiero ser de plata.
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Hijo,
tendrás mucho frío.
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Mamá.
Yo quiero ser de agua.
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Hijo,
tendrás mucho frío.
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Mamá.
Bórdame en tu almohada.
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¡Eso sí!
¡Ahora mismo!
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in "Obra Poética", de Frederico García Lorca
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sexta-feira, 6 de março de 2009

fome, e uma correcção

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Estranhei o bairro do Montijo chamar-se Braço de Prata, como o de Lisboa, ao lado do Beato. Afinal não é. De facto, trata-se da Quinta da Fonte da Prata, mais concretamente na cidade da Moita. Tudo o resto está certo.
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A comunidade apoia, através da Caritas Diocesana de Setúbal e do Centro Paroquial, cerca de 200 famílias com grandes e graves carências económicas, diz uma carta de 4 de Março, das Irmãs Escravas do Sagrado Coração de Jesus. Mas, este ano, aumentou muito o número de pedidos de inscrição para ajuda alimentar, de tal forma que estas instituições não estão a conseguir satisfazer as necessidades básicas alimentares de muitas famílias.
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Os bens mais necessários são óleo, azeite, açúcar, leite, enlatados (salsichas e atum) e arroz. A entrega pode ser feita no Colégio das Escravas, em Lisboa, de 2ª a 6ª (das 8h00m às 19h00m), nas Missas de Domingo, ou directamente no local, nas instituições referidas.
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Achamos horrível quando nos mandam fotografias que mostram a fome em África, e até encaminhamos todos esses e-mails. Mas quando a tragédia acontece aqui ao lado, é fácil fecharmos os olhos e nem querermos saber de nada. Vivemos em Portugal, estamos ao alcance de ajudar realmente quem precisa. Mãos à obra, nem que seja passando a palavra!
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domingo, 22 de fevereiro de 2009

quando há fé e boa vontade...

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... tudo se consegue. Mesmo quando somos pequenos, é possível contagiar os outros com o bom exemplo. Mesmo quando nos achamos sozinhos, podemos ser o princípio de esforços que se unem. Yes we can.

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domingo, 15 de fevereiro de 2009

literatura por um canudo

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A minha querida amiga Catarina (http://coisasamim.blogspot.com/) propôs-me um desafio, que achei interessante. O desafio tem as seguintes regras:
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1. Pegar no livro mais próximo
2. Abri-lo na página 161
3. Procurar a 5ª frase completa
4. Copiar a frase
5. Não escolher a melhor frase nem o melhor livro (usar o mais próximo)
6. Passar o desafio a cinco pessoas
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O livro que estava mais perto era o Fausto, de Johann W. Goethe, e a dramática frase que me tocou foi:
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Ergueu-se o rei e bebeu
Último trago de vida.
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Passo o desafio aos próximos amigos, a quem obviamente desejo melhor sorte:
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