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domingo, 21 de janeiro de 2018

A semana que passou - uma mão cheia de coisas

(Originalmente publicado no "Jacaré parado vira mala" no dia 2 de Outubro de 2017)

A mão cheia compõe-se da palma mais os cinco dedos com que tamborilo neste teclado. E com eles se conta numa penada a semana que passou:

Mindinho: o caso do roubo do paiol de Tancos
Continua o caso do roubo de armas de Tancos sem desenvolvimentos nem solução, e apenas se discute se há relatório ou ainda não. Como assim? Dizia o famoso poeta e gastrónomo Chinês Su Shi 苏轼 (1037-1101) que "As famílias, quando uma criança nasce, querem que ela seja inteligente. Eu, que pela inteligência me tenho prejudicado a vida toda, apenas espero que a criança seja ignorante e estúpida. Assim, terá uma vida tranquila e será um Ministro com gabinete." Não é preciso dizer mais nada.

Anelar: a malograda tentativa de referendo na Catalunha
Há muitos ângulos por onde abordar a questão. Barcelona e Madrid, ambos, estão cheios de razão e da falta dela. Não me interessa entrar por aí. Mas qual deve ser a posição de Portugal neste caso? Portugal habita a mesma península que os intervenientes. Deve o Governo abster-se de qualquer palavra ou apoio a que lado for, mantendo prudente imparcialidade e esperando atento pelo desenlace da situação. Ganhe este braço-de-ferro quem ganhar, e perca quem perder, no fim de contas temos de voltar ao business as usual com ambos os lados.

Este seria o mapa das eventuais independências dos vários povos da Europa. De registar que, por ser um Estado-Nação em que Estado e Nação coincidem exactamente no mesmo território, Portugal é dos poucos países que ficaria intacto.

Do meio: eleições autárquicas em Portugal
Ultrapassando a tristeza de ver os socialistas a ganharem mais de metade das câmaras do meu país, vejo a equívoca estratégia eleitoral do PSD ser punida com o voto noutras forças políticas. Tal circunstância terá provavelmente como consequência o fim do ciclo da liderança de Pedro Passos Coelho no PSD. Passos Coelho não foi brilhante no Governo nem na oposição, mas a ele estou eternamente grato por ter derrotado José Sócrates em 2011. Mais uns anos de Sócrates, e não sei o que restaria de Portugal para os meus filhos. Venha Rui Rio.

Indicador: a morte de Hugh Hefner
Morreu o fundador da revista Playboy. Antes de ser o caquético baboso que víamos a rodear-se das mais jovens practicantes da dita mais velha profissão do mundo, este homem não era um tonto qualquer. Muito hábil como publicista e empresário, Hugh Hefner compreendeu as circunstâncias dos anos 60 na América e contribuiu de forma decisiva para a revolução sexual. Desta caixa de Pandora saíram vários monstros, das feministas queimadoras de soutiens ao lobby gay, dos ideólogos de género aos partidários da legalização do aborto, dos pró-barrigas-de-aluguer aos pornógrafos, dos pedófilos aos polígamos, aos zoófilos e a inúmeras outras perversões que a tal revolução sexual nos obriga gradualmente a tolerar em nome da liberdade. Se as feministas mais radicais consideram a mulher um deus capaz de decidir sobre a vida e a morte de outros seres humanos (como no aborto), Hugh Hefner tratava a mulher como um simples objecto cuja utilidade era satisfazer todos os desejos sexuais do homem. Nisto consiste, para uns e para outros, a liberdade sexual: desafiar abertamente a moral judaico-cristã em crise e substituí-la por uma nova moralidade que se recusa a aceitar a mulher e o homem na sua ordem natural e plena dignidade humana. O recente duelo eleitoral de Hillary Clinton e Donald Trump personificou duas faces desta mesma moeda: a revolução sexual, para a qual Hugh Hefner tanto contribuiu com a sua revista e trabalho, e que tantas famílias destruiu. Hugh Hefner morreu, mas temo que, infelizmente, o seu legado continue a fazer vítimas tanto do lado da procura como da "oferta".

Polegar: uma semana cheia de trabalho
Não é que me queixe, eu faço o que gosto! Mas tendo uma viagem grande pela frente, gostaria de estar mais disponível para a família antes de ir. No entanto, há várias coisas para pôr em ordem antes de fazer as malas e partir. Gostava de esticar o tempo e encurtar o cansaço. Não posso. É nisto que me lembro deste poema de Miguel d'Ors, que me ficou dos bons tempos de quando estudei em Navarra:

Reproche a Miguel d'Ors

Tu corazón navega en la «Kon-Tiki»,
se adentra con Amundsen por las grandes
soledades heladas,
sube al Nanga Parbat con Hermann Buhl, se abre
paso hacia el Amazonas, monta potros,
se hunde en ciénagas verdes con fiebres y mosquitos,
atraviesa desiertos, caza el oso.

Y tú aquí, traidor, en un escalafón y un horario.

segunda-feira, 6 de fevereiro de 2012

a Dama de Ferro - ideias sem ferrugem

(texto originalmente publicado no qUE?)

Margaret Thatcher é uma pessoa como restam poucas. É daquelas que olha para uma multidão, diz qual é o melhor caminho, avança em primeiro lugar e persuade o público a segui-la. Em contraste, hoje a maioria dos políticos limita-se a ver para onde se dirige a multidão, põem-se à sua frente e dizem que a lideram. Mas Lady Thatcher foi realmente uma das últimas grandes líderes que o nosso mundo tem visto.

Primeira-Ministra do Reino Unido eleita em 1979, Thatcher foi a primeira mulher (e única, até à data) a ocupar este cargo, dominando a política britânica ao longo dos anos 80 e tendo acabado por ser afastada das suas responsabilidades em 1990, não por eleições populares, mas pelo próprio partido conservador. Thatcher é considerada por politólogos como uma das pessoas que mais contribuiu para a queda do muro de Berlin em 1989, juntamente com Ronald Reagan, João Paulo II e Helmut Kohl.

Pela sua determinação e perseverança, Margaret Thatcher era conhecida entre os soviéticos como a “Dama de Ferro”, epíteto que lhe ficou sempre associado. Thatcher venceu várias batalhas na sua vida graças à sua firmeza de convicções e acções:

  • Foi líder do Partido Conservador em 1975 para surpresa de todos;
  • Ganhou as eleições de 1979 contra a maioria dos prognósticos e impôs-se pelo mérito e não por quotas num meio político dominado por homens;
  • Herdou uma situação social insustentável dos governos trabalhistas, onde havia mais de 3 milhões de desempregados e greves intermináveis;
  • Defendeu com autoridade as ilhas Falkland (ou Malvinas) da invasão argentina em 1982, dando ordem para afundar o cruzador General Belgrano;
  • Venceu o braço de ferro com o sindicato dos mineiros em 1984/85, não cedendo numa greve que durou um ano e foi das mais longas e violentas da história;
  • Sobreviveu ao atentado terrorista do IRA em Outubro de 1984 em Brighton, que feriu e matou vários dos seus mais próximos colaboradores;
  • Recuperou a economia britânica, herdando-a fraca e em crise e tornando-a forte e mais ágil, diminuindo o peso do Estado através de privatizações em sectores onde privados poderiam desempenhar as mesmas responsabilidades e oferecer os mesmos ou mais e melhores serviços que o Estado;
  • Manteve-se fiel à sua posição céptica quanto à então Comunidade Europeia e à ideia de uma moeda única (na altura o ecu, hoje chama-se euro por causa dos portugueses), tendo sido essa a principal razão que lhe custou a liderança do seu partido em 1990 num golpe palaciano;
  • Demite-se do Governo no dia 28 de Novembro de 1990, sucedendo-lhe John Major que serviu até 1997, quando perdeu as eleições para Tony Blair.

Este seu discurso na Conferência do Partido Conservador em 1983 é considerado uma das melhores peças de retórica do século XX, ao nível de JFK, King, Reagan, Churchill ou Mandela. A ideia e políticas de Thatcher de tornar o Estado pequeno e forte tem seguidores hoje, desde David Cameron e a sua Big Society, ao Governo de Pedro Passos Coelho, que neles se inspira. Por sua parte, Margaret Thatcher inspirou-se nas ideias económicas de Friedrich Hayek e na filosofia política de Edmund Burke e Michael Oakeshott para a sua acção enquanto política.

Também o euroceptismo de Thatcher encontra admiradores entre conservadores e nacionalistas britânicos e internacionais. Estes são, por um lado, contra a perda de soberania nacional que os Estados-membros enfrentam. Por outro lado, constatam que esta União Europeia está sendo construída nas costas dos cidadãos e aproxima-se mais de uma União Soviética da Europa que de uns Estados Unidos da Europa, para usar uma imagem de Vladimir Bukovsky.

Lady Margaret é Baronesa Thatcher de Kesteven desde 1992, o que lhe permite fazer parte da Câmara dos Lordes até ao fim dos seus dias. Continuou a lutar publicamente pela liberdade, pela democracia e pelos valores conservadores. No entanto, a sua actividade foi sendo reduzida devido à sua idade e doença. Primeiro metodista e depois anglicana, química e advogada antes de ser política, Lady Thatcher tem hoje 86 anos, é viúva de Denis Thatcher (1915-2003) e mãe de dois filhos, Carol e Mark.

Quem estava certo na altura, isso a História o dirá. O que podemos nós dizer é que em seu tempo Margaret Thatcher marcou definitivamente o rumo do Reino Unido, da Europa e do mundo, e que as suas ideias e acções fizeram uma escola que ainda hoje dá cartas na política europeia.


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quarta-feira, 22 de junho de 2011

o discurso de Passos Coelho



O discurso do Primeiro-Ministro Pedro Passos Coelho na tomada de posse do XIX Governo foi adequado. Demonstrou humildade e realismo. Passos Coelho não fez grandes promessas, anunciou alguns erros de antemão e pediu paciência para o que aí vem. Ele expôs as suas prioridades e as linhas de actuação do Governo para os próximos 4 anos. Foi um discurso que colheu vários elogios.

Este foi um discurso bastante alegórico. Passos Coelho quis definir estes tempos como uma tormenta de mar, o povo português como o herói marinheiro que sempre foi, e ele próprio como o capitão do navio que mudará o rumo para levar o País a bom porto. Foi uma formulação interessante, que sem dúvida encontra eco cultural entre os portugueses.

No entanto, a Rádio Renascença apostou numa metáfora muito mais forte que os Descobrimentos no Portugal de hoje: o futebol. A notícia da Renascença online era "Onze de Passos Coelho toma posse. É o XIX Governo Constitucional". O treinador e sua equipa. Nós seríamos os treinadores de bancada, e os homens da troika o trio de arbitragem. Resta saber em que liga vão jogar, se a dos Campeões ou a da Europa, e se jogam para o título ou simplesmente para não descer de divisão.

Registo a expressão que o novo Primeiro-Ministro usou, de pacto de confiança, responsabilidade e abertura. É mesmo isso que precisamos neste momento, de renovada confiança. As três grandes prioridades deste Governo também foram enumeradas de forma clara: estabilizar as finanças, socorrer os mais necessitados, fazer crescer a economia e o emprego. Na figura lá em cima, vemos as palavras mais usadas no discurso, de onde se destacam Confiança, Abertura e Mudança. Foi esta a mensagem que Passos Coelho quis passar.

Gosto, finalmente, da síntese das políticas que aí vêm em apenas duas frases: Queremos um Estado mais pequeno, mais ágil e mais forte, por um lado, e uma sociedade mais livre, mais autónoma e mais próspera, por outro. Na verdade, são como que duas faces da mesma moeda. Não foi à toa que Pedro Passos Coelho se comparou a David Cameron no seu debate televisivo com José Sócrates. É na Big Society de Cameron que Passos Coelho se inspira.

segunda-feira, 20 de junho de 2011

5 razões porque Fernando Nobre não foi eleito Presidente da AR


  • Fernando Nobre insistiu em arrastar a sua candidatura a Presidente da Assembleia da República (AR) para votos, quando não tinha condições de vitória. Só o PSD, com 108 deputados, apoiava a sua candidatura que precisava de uma maioria de 116 deputados. E no fim de contas, nem sequer todos os deputados do PSD votaram em Fernando Nobre, que teve 106 votos na 1ª volta e 105 na 2ª volta. O voto era secreto.

  • Pedro Passos Coelho quis honrar o seu compromisso quando tudo e todos o aconselhavam a não o fazer.

  • Paulo Portas e o CDS quiseram fazer uma demonstração de poder. Quiseram mostrar, logo no princípio desta coligação, como o CDS é essencial ao PSD para passar as leis na AR, e que sem eles concordarem minimamente com cada proposta política, nada feito.

  • O PS preferiu o voto de vingança das eleições presidenciais a cumprir o implícito acordo de cavalheiros que havia sobre a Presidência da AR. Por um lado é triste que a este nível se tomem decisões por rancor, mas por outro lado ainda bem que o 2º cargo da hierarquia do Estado Português não vai ser ocupado por um maçon - até ver. E não deixa de ser irónico que tenha sido o PS a impedi-lo.

  • A CDU e o BE portaram-se como se esperava, pois onde houver instabilidade para provocar, aí estarão eles.


Fernando Nobre esteve sozinho durante todo o processo da sua humilhação pública. Nos intervalos das votações no Parlamento, até os deputados do PSD o deixaram só, como vemos na fotografia. A excepção foi Paula Teixeira da Cruz, a próxima Ministra da Justiça, que foi solidária e teve o bonito gesto de estar ao lado de Fernando Nobre em alturas que ninguém mais quis estar por perto e arriscar uma fotografia com o derrotado. A outra excepção foi Miguel Macedo, o próximo Ministro da Administração Interna, que dirigiu palavras públicas de apreço a Fernando Nobre, seguido de aplauso de pé de quase toda a bancada do PSD e silêncio sentado por parte das restantes bancadas.

Fernando Nobre desistiu da sua candidatura. Aguarda-se que amanhã às 16h00m o PSD proponha um novo nome para a Presidência da AR, que provavelmente será o de Guilherme Silva, histórico deputado madeirense.

A lição que se tira de tudo isto é que ninguém se deve candidatar a Presidente da AR como Fernando Nobre prematuramente fez, durante a campanha eleitoral. A sua candidatura deu votos ao partido? Talvez alguns. Mas também lhe deu a sua primeira derrota política, antes ainda de o novo Governo ter tomado posse.

quinta-feira, 9 de junho de 2011

a brasileira da campanha do PSD



Alessandra Augusta é esta mulher que vemos na fotografia. É brasileira e foi contratada pelo PSD para fazer esta última campanha eleitoral. Antes disso, tinha feito algumas eleições locais no Brasil. Alessandra foi atacada por todos os lados, mas continuou discretamente o seu trabalho. Alguns dos ataques até vieram de dentro, de consultores nitidamente aborrecidos por não estarem no seu lugar. Coisa feia, e o algodão não engana.

Hoje, a responsável pelo marketing da campanha do PSD vem dar uma entrevista ao jornal Sol, de onde tiro apenas esta sua resposta:

Tentou modelar Passos Coelho?

Não. O que se fez foi potenciar o que ele tinha de bom. O mais interessante desta campanha é que o ‘não-marketing’ foi o grande marketing. Não trabalhámos Passos Coelho e deixámo-lo o mais natural possível. Porque é um candidato consistente, ainda que pouco conhecido. Mas, ao mesmo tempo, tínhamos outros dois candidatos, Sócrates e Portas, que eram excessivamente marketing. Eram sound-bytes demais. Essa autenticidade de Passos Coelho foi uma mais-valia. É uma circunstância positiva: tínhamos um candidato com conteúdo, com histórico, que sabia como falar com as pessoas, principalmente na rua, com um discurso próprio e formatado. Foi muito mais ele a contribuir para que nós só déssemos forma às coisas do que o marketing a interferir directamente. Se Passos Coelho tivesse um perfil mais artificial não teria avançado tão rapidamente.


A entrevista completa pode ser lida aqui. Quero apenas deixar um contraste entre o que Alessandra disse hoje (dia 9 de Junho) e o que "A Conspiração das Teorias" foi avançando ao longo da campanha.
  • No dia 15 de Maio escrevi:

    "Passos Coelho também tem feito vários erros de comunicação e imagem. Mas estes erros não o têm afectado tanto como a Sócrates. A diferença entre Passos Coelho e Sócrates, neste aspecto, é que Passos Coelho tem errado dentro da sua genuinidade, o que a gente desculpa e até compreende. Já Sócrates parte numa situação mais delicada, pois representa neste momento um personagem que não é ele próprio e, sempre que erra, essa incoerência salta à vista. A grande comodidade de Passos Coelho em relação a Sócrates e a Portas é que a personagem que encarna ainda não saiu de dentro de si. E para se aguentar assim, Passos Coelho terá de cultivar a humildade.
    "


  • No dia 3 de Junho escrevi nos comentários que se seguiram ao postal:

    "Claro que houve erros, há sempre, mas não houve erros grosseiros. Por outro lado, também não podemos dizer que a campanha do PSD tenha tido grandes rasgos de criatividade. Não arriscaram, jogaram pelo seguro e tentaram manter a autenticidade do candidato: muito dialogante e explicativo."

    e

    "As qualidades pessoais de Passos Coelho (mais que as propostas políticas) permitiram-lhe ser a solução do "bom senso" para os problemas que os portugueses atravessam. A realidade e o bom senso em contraste com os líderes dos partidos que podem disputar eleitorado com ele. Tanto Sócrates como Portas representam personagens que já há muito descolaram da realidade.
    "


  • E no dia 6 de Junho escrevi:

    "Pedro Passos Coelho conquistou o voto pela personalidade simpática e autêntica, e por isso confiável."

Lendo o que está para trás vejo que este postal corre o risco de ser entendido como um auto-elogio, o que não quero de maneira alguma. Não é isso que está em questão. O que quero dizer é que não há campanhas perfeitas, mas esta campanha do PSD foi bem dirigida. Foi uma campanha muito conservadora e sem grandes rasgos de criatividade, mas também sem grandes erros.

Outra coisa que quero deixar clara é que não concordo com a utilização da palavra "marketing" em campanhas eleitorais. Não gosto. Trata os políticos como se fossem produtos, as pessoas como se fossem consumidores, e os votos como se fossem o dinheiro que paga o consumo. Prefiro usar um termo mais humano e abrangente: comunicação. Mas isto é apenas um à-parte.

No fim de contas, Alessandra mais que cumpriu com os objectivos da campanha. Atribui com humildade o mérito da vitória a quem de direito, que é Passos Coelho. Calou os seus críticos. E volta para casa com uma grande vitória eleitoral no seu curriculum.

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segunda-feira, 6 de junho de 2011

vencedores, derrotados, surpresas e expectativas


Vencedores:

- Pedro Passos Coelho: Conquistou o voto pela personalidade simpática e autêntica, e por isso confiável. Tem alguma credibilidade mas também suscita algumas dúvidas pela novidade de certas ideias que traz pela primeira vez à política portuguesa. A sua margem de manobra está condicionada pelo cumprimento do acordo com a ajuda internacional e pela crise económica em que vivemos. Mas todo o vencedor tem direito a um "estado de graça", por mais curto que seja.

- PPD/PSD: Teve 38,6% dos votos e elegeu 105 a 108 deputados (falta atribuir os 4 deputados dos emigrantes, e o PSD conseguirá 2 ou 3 deles). Esteve perto da maioria absoluta, que se consegue com 116 dos 230 deputados da Assembleia da República. Será inequivocamente o partido líder do novo Governo.

- CDS/PP: Obteve a melhor votação dos últimos 28 anos, teve 11,7% dos votos e 24 deputados, tantos quanto a CDU mais o BE juntos. Terá 3 ou 4 ministros no novo Governo. Ganhou em tudo menos nas expectativas ainda maiores que ajudou a criar. Paulo Portas é um resistente, lidera o CDS desde 1998 (à excepção do período 2005/06). Terá o objectivo pessoal de ser Ministro dos Negócios Estrangeiros.

- CDU: Os únicos à esquerda que consolidaram os resultados de 2009. A CDU perdeu 5.322 votos, mas subiu ligeiramente a percentagem (graças à abstenção) e conseguiu mais um deputado (16). Ultrapassou também o BE e voltou a ser a 4ª maior força política em Portugal.


Derrotados:

- José Sócrates: Sai de cena pela porta pequena. Despedido pelos eleitores, rejeitado pelo partido e abandonado pelos amigos. A queda foi grande e com estrondo. Demorará tempo a recompor-se e durante a quarentena ninguém se chegará perto. Quando ganhou, todos estavam lá. Agora que perdeu, ninguém quer aparecer com ele na fotografia.

- PS: Teve o pior resultado eleitoral dos últimos 24 anos. Terá apenas 73 a 75 deputados, conforme ganhe mais 1 ou 2 lugares através do voto emigrante. Não soube renovar as ideias, nem as propostas, nem os candidatos, e fez um uso muito criticável da campanha negra. O partido não soube transmitir confiança nem renovação. O desgaste socialista é visível. Será interessante ver como o PS tentará renascer das cinzas e fazer as pazes com o país.

- BE: Perdeu metade dos deputados (de 16 para 8) e volta a ser a 5ª maior força política do país, com 5,2% dos votos. O BE perdeu a frescura, tornou-se previsível e deixou de ser ouvido. Costumava ter também a campanha mais criativa e fora do normal, mas não o foi nestas eleições. Há a sensação que a sua missão histórica foi cumprida, pois infelizmente conseguiu a liberalização do aborto, o casamento para homossexuais, o divórcio expresso, entre outras erosões que provocou na sociedade. Foi o partido que nos últimos anos governou em Portugal no campo dos valores (forçando o PS a ir atrás), e o resultado é a crise de valores que existe e que só não é mais notada por causa da crise económica. O BE continua com "causas fracturantes" para dar e vender, mas os eleitores foram sensatos em pôr-lhe um grande travão nestas suas batalhas.

- Empresas de Sondagens: Andaram todas muito longe da realidade, desde o insistente "empate técnico" anunciado, até às patéticas explicações que foram dando ao longo da campanha. Os métodos não foram claros, e quando foram mostravam falhas grandes. Por exemplo, as sondagens telefónicas que faziam ligando para telefones fixos, quando mais de 40% dos portugueses já não têm telefone fixo. E os portugueses que têm telefone fixo têm características especiais que enviesam a amostra. Lembro aqui o que escrevi sobre como "a melhor sondagem é a que não se publica". Mas nas próximas eleições lá estarão as televisões a dar novamente todo o crédito às sondagens. Podem errar muito, manipular, mas enfim... é o que há.


Surpresas:

- Discurso de Pedro Passos Coelho: sem grandes triunfalismos, prometeu trabalho e acabou cantando o Hino Nacional antes de responder às perguntas dos jornalistas. Tem de se esforçar mais para não ser tão aborrecido no discurso.

- Discurso de José Sócrates: assumiu e aceitou a derrota, retira-se da política partidária activa. Teve um impressionante bom perder, e agradeceu a todos os que o apoiaram, apesar de na sala estarem poucas dessas pessoas. Foi um bom discurso, emotivo, que perdeu muito em ser lido no teleponto. Não se fala dos filhos e de sentimentos como o seu amor a Portugal a ler o que diz o teleponto.

- Elevada abstenção: 42,1% é uma taxa elevadíssima de abstenção dada a encruzilhada muito grande em que Portugal estava e está. Significa que 4 em cada 10 eleitores preferiu não exercer o seu direito de voto e escolher o melhor possível para nos governar. É triste e sintomático. Também é verdade que as campanhas não falaram muito para os novos eleitores e para os habituais abstencionistas. Mas este dado merece uma maior reflexão.

- PAN: Um partido novo e desconhecido que teve uma boa primeira votação graças ao nome "Partido pelos Animais e pela Natureza" e terá capitalizado o descontentamento de certas pessoas desencantadas com o BE, apesar do PAN estar bastante mais ao centro. Não deixa de ser preocupante que o partido se defina por ser pelos animais, e não pelas pessoas.

- MEP: Apesar de ter conseguido uma boa presença na internet e uma grande exposição na TV, os resultados ficaram muito aquém do esperado graças ao voto útil no PSD e no CDS.


Onde "A Conspiração das Teorias" acertou:

- PSD com cerca de 37%: teve 38,6%. As previsões públicas ultrapassavam os 40%.

- CDS um pouco acima dos 10%: teve 11,7%. As previsões públicas andavam pelos 14%.

- CDU um pouco abaixo dos 10%: teve 7,9%.

- BE muito abaixo dos 10%: teve 5,2%.


Onde "A Conspiração das Teorias" errou:

- PS estaria perto dos 32%: teve 28,1%.

- MEP ultrapassaria o PCTP/MRPP: não só não o fez, como ainda ficou atrás do PAN e do MPT.


Expectativas:

- Que o PSD e o CDS se entendam rapidamente para formar um Governo equilibrado e pronto para trabalhar no duro e dar resposta às necessidades do país.

- Que o PSD cumpra o seu programa de fazer "mais e melhor com menos", de cortar as gorduras do Estado, de libertar certos sectores da economia da asfixia estatal e torná-la mais competitiva, de não se esquecer de quem mais precisa.

- Que Paulo Portas e o CDS saibam ser, desta vez, um factor de estabilidade e não o contrário. Que dêem também profundidade de valores ao liberalismo do PSD, dentro da linha que se espera dum partido como o CDS.

- PS deve virar à esquerda e fazer a sua oposição na rua, através de manifestações e greves contra as medidas de austeridade do novo Governo e contra o acordo com a troika que eles próprios assinaram. Oxalá não seja assim, mas é o mais natural de acontecer para um partido reduzido a 73-75 deputados (talvez ganhe mais 1 ou 2 na contagem dos votos emigrantes), com presença nos sindicatos da UGT e com a oportunidade de surfar uma crescente onda de descontentamento social.

- A situação não está fácil e o estado de graça de Passos Coelho e do PSD deve durar menos que o costume. É importante que Passos Coelho concilie a sua capacidade de diálogo com mais convicção e liderança, que ponha ordem na casa e saiba formar um Governo bom e coeso, senão corre o risco de - como diz um amigo meu - se tornar "o António Guterres do PSD". Ou seja, uma boa pessoa mal rodeada.

- Finalmente, espera-se do próximo Ministro das Finanças que seja competente, mas que para além disso saiba inspirar confiança e fomentar valores, como na sua altura fez Ernâni Lopes.


Cumprir os compromissos assumidos. Mas principalmente pensar estrategicamente no futuro de Portugal a médio e longo prazo, com educação, com trabalho e com valores.

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sexta-feira, 3 de junho de 2011

os erros da máquina de campanha mais elogiada


A campanha do PS foi mal conduzida a vários níveis. Foi mal conduzida porque a única coisa de que se falou a respeito do PS nesta campanha, foi de como a sua máquina de propaganda era boa e profissional. Não se falou de propostas do PS para o futuro do país porque elas não existem. E apostou-se na capacidade de resistência de José Sócrates, quando há muitos meses ele já estava manifestamente gasto e sem qualquer capital político. Os pozinhos de perlimpimpim não aguentam a exposição 24h/dia durante uma campanha inteira, e nunca desta maneira.

Foi toda uma sucessão de erros da campanha do PS, que se dedicou unicamente a falar de Pedro Passos Coelho e do PSD, fazendo uso de uma agressiva campanha negra. A emoção que o PS mais explorou em campanha foi o medo, e até essa escolha foi ineficaz, pois o maior medo dos eleitores é que José Sócrates continue a governar.

O povo sabe desculpar erros, mas ninguém gosta de mentirosos compulsivos. Em 2009 as pessoas deram o benefício da dúvida a Sócrates, e com isso mais uma oportunidade de se redimir. O lema de Manuela Ferreira Leite e do PSD em 2009 era "Política de Verdade". Foi uma escolha precoce. Mas a ideia hoje reinante é que a falta de sinceridade de Sócrates é incorrigível. Pergunto-me se o lema "Política de Verdade", dois anos depois, não teria tido muito mais sucesso. Apesar disso, considero o "Mudar" melhor, porque implica acção e esperança. Não fizeram mal em pedi-lo emprestado a Obama.

José Sócrates vai perder as eleições no Domingo. O Governo socialista trouxe-nos a este precipício, o seu líder não tem mais credibilidade, e faltam ideias para o futuro do País.

E quando os homens dos bastidores de uma campanha são notícia, mesmo que aparentemente positiva, isso é mau sinal. Estes têm de ser discretos e deixar o palco para os candidatos brilharem. Se Sócrates não servia (e não serve, está gasto), então deviam ter dado visibilidade aos candidatos a deputados de cada círculo.

A campanha do PS, que a par do CDS/PP foi a mais elogiada pelo profissionalismo, pecou por vaidade e por falta de visão, e foi de longe a campanha que fez os erros mais grosseiros. Desde o princípio que observo isto e não vi ninguém dizê-lo. Digo-o somente agora - a escassos minutos do dia de reflexão começar - porque não queria de maneira alguma contribuir (por mais modestamente que fosse) para a perpetuação socialista no Governo de Portugal.

Dito isto, penso que o PSD vai ganhar com cerca de 37%. O PS ficará perto dos 32%. O CDS um pouco acima dos 10%. A CDU um pouco abaixo. O BE bastante abaixo. E dos partidos mais pequenos, pode haver ainda duas surpresas.

O MEP pode eleger Rui Marques por Lisboa, depois de ter conseguido (por decisão do tribunal) marcar presença no horário nobre dos 4 canais de televisão de sinal aberto, nos últimos 2 dias de campanha, quando os indecisos ainda eram entre 15 e 20%. Mesmo que não eleja o deputado, provavelmente ultrapassará o PCTP/MRPP como 6º partido mais votado, ou o maior dos mais pequenos. Trouxe frescura à campanha através de acções criativas como os comícios mais pequenos do mundo e uma boa presença na Internet. A mensagem é de esperança, palavra que integra o próprio acrónimo MEP.

A segunda surpresa pode ser José Manuel Coelho, candidato do PTP pelo círculo da Madeira. Para ser eleito basta-lhe capitalizar o descontentamento da oposição na Madeira, tirando votos ao PS e CDU, e ter metade da votação que conseguiu na Madeira nas presidenciais de há apenas 5 meses atrás.

Mas acabo como comecei, com a campanha socialista. Depois de uma campanha tão negra e cheia de mentiras e insinuações, depois de tanta emoção falsa e energias negativas, depois de tanto blame game... que estratégia adoptará o PS a partir da próxima 2ª feira para se reconciliar com os portugueses?

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Adenda:
  • vale a pena ler aqui os interessantes comentários a este post.
  • o consultor Renato Póvoas também escreve sobre a possibilidade de o MEP eleger Rui Marques e a curiosidade acerca do impacto dos seus debates na TV, no seu blog Relações Públicas Sem Croquete.
  • e como há imagens que valem mais que mil palavras, recomendo este cartoon do grande blog do cartoonista Henrique Monteiro, HenriCartoon.

sexta-feira, 27 de maio de 2011

mudar de condutor



Traduzido dos EUA 1952 para Portugal 2011:

- Os socialistas fizeram erros, mas as intenções deles não são boas?
- Bem, se o condutor da carrinha da sua escola vai contra um camião, bate num candeeiro da rua e despenha-se numa valeta... a questão não é se as suas intenções são boas. Temos de arranjar é um novo condutor.

domingo, 15 de maio de 2011

as mangas arregaçadas de Sócrates


Sei que este postal não versa sobre conteúdos e propostas (o que mais importa para os eleitores), mas apenas sobre a imagem e as aparências que permitem a um candidato entregar melhor ou pior a sua mensagem ao público assistente. Comparemos José Sócrates e Barack Obama quando chegam a um comício.


Barack Obama é naturalmente simpático, comunica bem e sem esforço. Sobe ao palco. Saúda o público. Despe o casaco. Arregaça as mangas da camisa. Sorri. Começa a falar. Diz primeiro como está contente por estar ali. Namora a plateia. A seguir conta uma piada. E depois de ganhar a simpatia do público, coloca a sua mensagem através de uma retórica brilhante, baseada principalmente no relato de histórias - storytelling. Faz pausas onde os aplausos imprimem mais ritmo e dinâmica ao seu discurso. Termina a sua exposição pedindo ao público qualquer coisa, seja dinheiro para a campanha, seja o voto, seja uma acção de apoio. Despede-se demoradamente e deixa-se tocar por todos quantos puderem alcançá-lo com a mão entre os seguranças. Todos ganham o que queriam. Missão cumprida.


José Sócrates é um razoável comunicador porque interioriza o que lhe ensinam sobre comunicação, mas não se pode dizer que este lhe seja um talento inato e natural. Sobe ao palco. Despe o casaco. As mangas já estavam arregaçadas dentro do casaco. E fica o discurso estragado. Ninguém mais dirá que aquele homem e aquele discurso são naturais. E lembramos logo o seu tragicómico episódio "Oh Luís, vê lá como é que fico. Assim fica melhor, ou fica melhor assim?". Game over.

As mangas de camisa arregaçadas mostram vontade de trabalhar, empenho e compromisso. Porém, estes gestos só são levados a sério quando nos parecem gestos naturais e fluidos. A credibilidade e a autenticidade são aspectos chave para que um candidato consiga passar a sua mensagem. É verdade que as imagens valem mais que mil palavras, e precisamente por isso é que é importante fazer as coisas bem feitas e sem erros de palmatória.


Finalmente, Passos Coelho também tem feito vários erros de comunicação e imagem. Mas estes erros não o têm afectado tanto como a Sócrates. A diferença entre Passos Coelho e Sócrates, neste aspecto, é que Passos Coelho tem errado dentro da sua genuinidade, o que a gente desculpa e até compreende. Já Sócrates parte numa situação mais delicada, pois representa neste momento um personagem que não é ele próprio e, sempre que erra, essa incoerência salta à vista. A grande comodidade de Passos Coelho em relação a Sócrates e a Portas é que a personagem que encarna ainda não saiu de dentro de si. E para se aguentar assim, Passos Coelho terá de cultivar a humildade.

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