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sábado, 29 de novembro de 2025

O senhor que tratava bem a sua cadela

(também publicado no Substack)


Parece que o senhor AH tratava muito bem a sua cadela. O senhor AH alimentava-a, dava-lhe festas e levava-a a passear. Apenas com esta informação, simpatizamos com o senhor AH quase de imediato. Porém, tudo se esfuma se eu lhe disser que AH é Adolf Hitler. Ao ajuizarmos a vida e o legado de Hitler, a sua forma de tratar o animal passa a ser perfeitamente irrelevante. É irritante e até ofensivo se nos detivermos por mais um segundo nessa sua característica. Temos de nos focar no essencial. No entanto, caímos com frequência nestas distracções assessórias. O que de mais relevante resultou do pensamento de Karl Marx foi a inspiração política utópica de regimes comunistas responsáveis pela morte de milhões de pessoas. O pensamento de Carl Schmitt foi útil na sustentação intelectual do regime nazi em que participou sem arrependimento, mesmo depois do seu partido ser responsável pelo Holocausto, pelo Porajmos e por tantas outras atrocidades. É claro que Marx e Schmitt produziram muito pensamento, e que algumas das suas ideias mantêm o interesse. Nem que seja para compreender a História, é importante conhecê-los.

Nos últimos anos aumentaram naturalmente as críticas à ideia do “fim da História” de Francis Fukuyama, acusando-o de ingenuidade na defesa da democracia liberal ocidental como a “forma final do governo humano”. Essa crítica é compreensível face à actual crise das democracias. O problema é que entre as boas críticas a Fukuyama também há correntes da moda que reabilitam os autores que deram sustentação filosófica às ideologias que definitivamente foram derrotadas pelas democracias liberais: o nazismo e o comunismo. Do passado foram ressuscitados velhos fantasmas, seja Marx evocado por Thomas Piketty e pelas publicações da esquerda radical, ou a direita iliberal a colocar Carl Schmitt nas páginas da European Conservative e da Crítica XXI. A coerência é admirável, mas a teimosia nunca combinou bem com o erro.

Digeridos pelo tempo e pela História, Schmitt e Marx curiosamente encontram no actual Partido Comunista Chinês um denominador comum, com o influente académico Jiang Shigong a tentar compatibilizar as teorias políticas de ambos. Do filósofo nazi, Shigong aproveita as teorias sobre o poder autoritário e absoluto, o necessário uso da violência, o tratamento do adversário como inimigo. Ao filósofo comunista, vai buscar algumas ideias do materialismo histórico. Como fez Mao Zedong, Shigong dispõe dos aspectos teóricos que são úteis à manutenção da ditadura do partido comunista e adapta-os à realidade chinesa.

Conhecemos as consequências fatais do pensamento destes e outros autores que continuamos a ver ser difundidos por ambos os extremos do nosso espectro político. Num contexto em que as democracias liberais estão novamente sob pressão e a ser postas à prova, a reabilitação destes autores tem como evidente objectivo a fragilização das nossas instituições democráticas. O debate é sempre bem-vindo em democracia, mesmo até quando a põe em causa. Contudo, devemos estar bem cientes que invocar estes autores é um “abre-te sésamo” que nos permite aceder às maiores tragédias políticas do século XX, correndo o risco de reabrir a caixa de Pandora. O potencial destruidor dos autoritarismos do século XXI é agravado pelas novas tecnologias de controlo e manipulação das massas. E se hoje algumas críticas à democracia liberal são inspiradas pelos velhos Marx e Schmitt, nesse caso Churchill continua a ter razão que “a democracia é a pior forma de governo, à excepção de todas as outras”.

A maior parte das pessoas não conhece bem a vida e obra de Karl Marx, e muito menos a de Carl Schmitt. No entanto, podemos observar as nossas rotundas de Norte a Sul poluídas com cartazes exigindo coisas aos ricos, aos ciganos e aos imigrantes. A velha luta de classes e as novas lutas de classes mostram como o ódio dirigido a determinados grupos sociais faz com que os extremos se confundam. Mas há pessoas que conhecem muito bem a vida e a obra de Marx, bem como a de Schmitt. Eu não os conheço ao ponto de saber se estes autores tinham cães e se os tratavam bem. Mas estudei-os o suficiente para compreender o que procuram os autoritários de hoje quando os citam. Nós já vimos este filme.

terça-feira, 3 de junho de 2025

A esperança em The Great Dictator


    Continua a mexer connosco The Great Dictator, um clássico de Charlie Chaplin estreado em 1940, um ano após o início da Segunda Guerra Mundial. Este fim-de-semana o filme foi projectado no auditório do Teatro Camões com música tocada ao vivo pela Orquestra Sinfónica Portuguesa do Teatro Nacional de São Carlos e conduzida pelo maestro Timothy Brock.

    Já não terá sido fácil um actor ajustar o ritmo dos seus movimentos à música da banda sonora do filme, mesmo se composta por si. Empresa mais difícil é uma grande orquestra acertar a música com o ritmo dos movimentos de Charlot. O maestro e a orquestra transmitiram as emoções certas em cada nota da banda sonora, na alegria da Dança Húngara n.º 5 de Brahms na cena do barbeiro com o cliente, ou no encantamento delicado do Prelúdio de Lohengrin de Wagner, na cena da dança do globo terrestre e na do discurso final.

    Como acontece em outros filmes, Charlie Chaplin fez quase tudo: produziu, realizou, actuou e, à excepção das mencionadas obras de Brahms e Wagner, compôs com Meredith Wilson a banda sonora. A história começa na Primeira Guerra Mundial, onde Charlie Chaplin representa um barbeiro alemão e judeu, que se fez herói ao combater pelo seu país e ao salvar a vida de Schultz, um comandante piloto que se torna importante no novo regime. Charlie Chaplin interpreta este barbeiro judeu do gueto e também o ditador antissemita em ascensão, fisicamente confundível com o barbeiro. Na narrativa, Adolf Hitler é chamado de Adenoid Hynkel, Goebbels de Garbitsch, Göring de Herring, Benito Mussolini de Benzino Napaloni, a Alemanha de Tomainia, a Itália de Bacteria e a Áustria de Osterlich. São evidentes as parecenças, mas este uso de nomes imaginários ajuda-nos mais facilmente a encontrar hoje outras ligações para cada personagem e acontecimentos.

    Após um terrível discurso do ditador às massas, Hynkel pergunta a Garbitsch o que achou do discurso. Ele responde que foi muito bom, embora a referência aos judeus pudesse ter sido mais violenta. Com frieza e o olhar vazio, o Ministro da Propaganda acrescenta que a violência contra os judeus seria útil para excitar a ira das pessoas de forma a esquecerem a sua própria fome. Aqui está, o fenómeno do bode expiatório bem explicado em tão breves palavras!

    Nos momentos do filme em que o barbeiro interpretado por Chaplin está mais abatido e desanimado, o tema musical é “Zigeuner”, que em alemão significa “cigano”. Ele mesmo com família cigana, Charlie Chaplin identifica-se com a perseguição dos judeus naqueles anos 30 e 40. Sem ainda conhecer todos os horrores do nazismo, este corajoso retrato do Grande Ditador é certeiro na denúncia do pensamento político que irá gerar mais anos de guerra total, toda a sua destruição, os vários milhões de mortos, o genocídio dos judeus entre nós chamado de Holocausto e o genocídio menos conhecido dos ciganos, o Porajmos.

    Em tão desolador contexto, este é um filme de esperança. Prova disso é outro tema musical de superior beleza intitulado “Hope Springs Eternal”. A obra tem vários momentos de ternura, mostra o humor físico de Charlot, reflecte sobre a ambição humana e a graça do absurdo, e tem as situações de injustiça e crueldade que são autênticos murros no nosso estômago. Existe um ténue fio condutor: o amor frágil e belo entre Hannah e o Barbeiro. No entanto, todas estas cenas vão somando uma tensão crescente que só podia pontificar no grande discurso final do Barbeiro. O Barbeiro toma acidentalmente o lugar do Ditador e mostra que a democracia nos oferece sempre a hipótese de uma alternativa: ainda podemos ser livres, humanos e decentes.

segunda-feira, 11 de novembro de 2013

please don’t turn your backs to Bangladesh this time

Bangladesh is the 8th most populated country in the world with around 160 million inhabitants and its capital Dhaka is a megacity with more than 15 million people. Today I had a direct flight from Istanbul to Dhaka, which was complete, but even in Istanbul Atatürk Airport we can see the lack of importance given to Bangladesh, reserving for it the very last gate of the airport. This could be a trivial example of how Bangladesh is forgotten internationally, too trivial perhaps. But did you know that in 1971, during 9 months of terror, in Bangladesh 3 million people were killed and around 4 hundred thousand women were raped? “Operation Searchlight” was planned and carried out by the Pakistani Army, with the help of local agents, and besides many indiscriminate killing it systematically targeted Bengali dissidents and religious and ethnic minorities.

These hideous genocide and genocidal rape were part of a plan to subjugate people with a different language, culture and who were willing to live in democracy under the rule of law. It surely represents one of the darkest pages of our World’s History, being without any doubt the 2nd largest genocide in casualties, after the Holocaust. Nevertheless, this is not well known. Now it was finally formed the International Crimes Tribunal in Bangladesh in order to judge war crimes and end 40 years of impunity by the genocide perpetrators. If this happens, this will no longer be what so many people call "a forgotten genocide".

As international community we must not turn once again our backs to the Bengali people, to Human Rights and to its universal declaration. We know that there are many people interested in destroying the reputation of this court and end its activity. As responsible human beings we and our countries must support the International Crimes Tribunal and give the Bangladeshi people a chance to see Human Rights and the Rule of Law flourish in their beautiful country, once for all.

Above all we shall remember what happened in 1971 and avoid by all means such terrible humanitarian disasters to happen again. Never again.