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domingo, 21 de janeiro de 2018

No meu tempo...

(Originalmente publicado no "Jacaré parado vira mala" no dia 14 de Janeiro de 2018)


"No meu tempo..." - será que dizem todos a mesma coisa, os velhos? "No meu tempo é que era viver"; "no meu tempo é que era amar"; "que sabeis vós do que é a vida?" - à primeira vista, tudo lugares comuns. É um engano: embora pareça que os velhos dizem todos a mesma coisa, a única coisa que se repete é aquilo que os novos dizem sobre o que dizem os velhos!

É que "no meu tempo" não é para se interpretar à letra e, mesmo que fosse, teriam dado conta que o tempo de que se fala não são os anos '40, '70 ou '90, pelos quais determinada geração de pessoas passou em jovem, mas sim o tempo em que aquela pessoa concreta viveu momentos extraordinários que recorda... Trata-se do "seu tempo", e não "o tempo deles"!

Mas, ao viver agora, este tempo não é "seu" também? Bom, poderíamos concordar que sim só por respeito à coerência do pensamento. Mas "no meu tempo" é uma fórmula poética que remete para memórias que só quem narra conhece, e apenas ele saberá caso entretanto avalie que o revirar de olhos do jovem que o ouve não merece mais escuta.

E vou ser um pouco mais inconveniente ainda: o tempo nem sequer a nós pertence. Quando usamos relógio, podemos ter a ilusão que o controlamos, mas não é por parar o relógio que o tempo deixa de escapar na sua cadência própria, indiferente às nossas vontades de o apressar, retardar, parar, reviver ou saltar. Nesse aspecto, a vida é mais simples na sua complexidade que o simplismo complicado de uma box de televisão, onde tudo se soluciona e comanda pressionando os símbolos:


O tempo a Deus pertence. Aulo Gélio dizia que a verdade é filha do tempo - veritas filia temporis -, talvez  como quem diz que a verdade virá ao de cima como o azeite na água. Mas a verdade já o era antes do tempo passar e, quanto muito, o tempo apenas permitiu que a verdade fosse conhecida. Pelo contrário, o tempo é filho d'Aquele que é a Verdade, bem como o Caminho e a Vida. Deus é o único Senhor dos tempos, nós só fazemos o que podemos no tempo de que dispomos.

"No meu tempo" é, assim, a tal forma poética que indica não um tempo que me pertenceu, mas os fragmentos da memória dum tempo extraordinário que vivi e que guardo e cuido no cofre do meu coração.

"No meu tempo..." - dirão todos a mesma coisa, os velhos? Nada disso, antes pelo contrário! Cada velhinho está a dizer uma coisa bem diferente, muito valiosa e, mais que rara, única. Se porventura duvidardes, "voltamos a falar daqui por uns tempos"...

segunda-feira, 21 de março de 2011

flexibilidade moral é terreno fértil para os sofistas


Há uns tempos falava-se das bondades da "flexisegurança", da necessidade de flexibilizar a contratação e o despedimento, da flexibilização do trabalho e dos horários. São temas que hão-de voltar mais cedo que tarde. Mas hoje trago à Conspiração uma flexibilidade realmente perigosa: a flexibilidade moral. De facto, há trabalhos onde se pede ao contratado uma grande flexibilidade moral para defender valores que não são os seus e vestir uma camisola que não é a sua. Às vezes, até se defendem os valores que não são de ninguém. Há casos reais e diferentes tipos de escravatura no século XXI. Mas a mais perigosa de todas é a escravidão da consciência.

O que torna a consultoria em comunicação um trabalho eticamente difícil é que o compromisso que temos para com a verdade passa para segundo plano. Nesta área da comunicação política e empresarial, muito raramente se tem em conta a verdade entre os objectivos propostos e que quando cumpridos valem como "sucesso". A reputação de uma marca constrói-se num horizonte de longo prazo, mas em Portugal ainda não se pode dizer que haja essa sensibilidade nas empresas, nem na política, e muito menos em tempos de crise. Só conta o aparecer no jornal amanhã, os fãs que se tem no facebook, os seguidores que se tem no twitter. Tudo efémero e pouco relevante se sem estratégia. O sucesso de curto prazo anda a maior parte das vezes desligado da verdade, e pelo crivo do tempo são filtradas quase todas as mentiras, cortinas de fumo, omissões e enganos. Mas, ainda assim, as nossas empresas vivem obcecadas com os números de hoje, com os ROI de amanhã de manhãzinha, com o impacto imediato.

Trago por isso à mesa da Conspiração o Thank you for smoking, que é um filme sobre o lado lunar dos lobbies. Este filme ilustra muito bem como a verdade é constantemente atacada pelo relativismo nestes meios, tornada maleável, e flexibilizada para vender.



Será acertado dizer que falta visão e paciência às nossas empresas, que falta coragem e ousadia aos nossos políticos, que falta activismo na nossa sociedade civil. Mas acima de tudo, o que falta é mais verdade nas nossas vidas. A comunicação não devia ser inimiga da verdade, antes devia ser sua aliada e seu veículo. Mas é preciso ter atenção, porque talvez nunca tenha havido tantos sofistas profissionais como há hoje.


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