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quarta-feira, 15 de abril de 2026

Como sobreviver à confusão das narrativas

(também publicado no Substack)

Quantas vezes já nos aconteceu pegar no telemóvel para fazer uma tarefa e, distraídos por outras notificações, esquecemo-nos daquilo que íamos fazer? Passado um pouco, guardamos o telemóvel sem lembrar o propósito original de o ter ido buscar. O permanente estado de distracção faz parte do nosso dia-a-dia.

A informação não é um bem escasso: há muita, cada vez mais, e pode ser detida por muita gente ao mesmo tempo. O que é um bem escasso – e por isso tem valor económico – é a nossa atenção. E o valor económico deste bem escasso não corresponde necessariamente ao valor moral que tem a boa informação. Aliás, a boa informação tende a ocupar um espaço cada vez mais reduzido da nossa atenção. Este é um dos dramas do nosso tempo: a tabloidização das notícias compensa, os escândalos dão mais cliques do que os acordos, o insulto vale mais do que o elogio, e os produtos que consumimos nas redes geram em nós sentimentos de revolta, de ira e de injustiça.

 

Mil e uma noites de atenção

Na economia da atenção, as emoções negativas gritam-nos enquanto as positivas apenas nos sussurram. Não é por acaso que é nas redes sociais que a polarização mais medra, dando destaque às publicações mais infames dos partidos mais extremistas. Ter boas maneiras não dá audiências na economia da atenção. Os modos de Trump e Ventura provocam indisposições a muitos de nós, mas nem por isso deixamos de estar agarrados a esse tipo de conteúdos. O algoritmo sabe disso, promovendo os vídeos confrontativos para manter a nossa atenção e dela tirar dividendos. Gavin Newsom da Califónia e Isaltino Morais de Oeiras sabem-no também, e as suas respostas à letra têm imensa audiência. Podemos pensar que Trump e Ventura merecem provar do seu veneno e talvez tiremos algum prazer do enxovalho que recebem no “Daily Show” e em “Isto é gozar com quem trabalha”. A sensação é um pouco como a de gostar da violência nos filmes de Tarantino só porque os alvos são os piores vilões, como nazis e esclavagistas, que provam na ficção um pouco do sofrimento que infligiram na realidade. Contudo, continuamos a consumir a violência, o ódio, a inveja e o ressentimento. As mesmas emoções que ajudaram à ascensão destes sujeitos são agora usadas contra eles. E precisamos de sair do círculo vicioso. Se as declarações e as notícias que nos despertam os piores sentimentos são verdadeiras ou falsas, esse é apenas um pequeno pormenor. Como dizem os italianos: si no è vero, è ben trovato. O que interessa hoje já não é tanto a verdade dos factos, mas se a alegação é plausível. Basta apenas isto para que o boato faça o seu caminho.

“Ali Pasha and Kira Vassiliki” (1842), de Paul Emil Jacobs

O discurso público é uma constante luta pela nossa atenção. O abuso de “alertas” e de “breaking news” dos canais de notícias tornou-se tão ridículo que os meus amigos e eu por vezes usamos o sticker “Alerta CM” para comunicar novidades em grupos de WhatsApp. Semelhante chamada de atenção acontece num qualquer clube de Lisboa, quando alguém toma a pose de António Silva n’O Costa do Castelo e anuncia: “Silêncio, que se vai cantar o fado!” E se somos uma empresa, queremos que a nossa marca e o nosso produto estejam na memória e nos desejos do consumidor. Se somos um político, queremos aparecer e ser lembrados para ganhar proximidade e votos. Se somos um professor, queremos prender a atenção dos nossos alunos para poder ensinar. Quando falamos, a nossa preocupação é semelhante à da princesa Sherazade nas Mil e Uma Noites: temos de contar uma história de tal forma interessante que amanhã o nosso público deseje ouvir-nos de novo. Mas se a história for aborrecida, então Sherazade morre e nós somos esquecidos. E tanto no marketing como na comunicação política, o esquecimento é uma forma de morte.

 

O canto das sereias

Outras vezes, nós não estamos a produzir histórias mas a consumi-las. Isto é o que nos acontece a maior parte do tempo. E como consumidores de histórias, a nossa preocupação é outra. Sobre este assunto, Chris Hayes escreveu “The Siren’s Call” (2025, também disponível em português), que começa por lembrar o Canto XII da Odisseia onde Circe recomenda a Ulisses que tenha toda a cautela à passagem pelas sereias que enfeitiçam os homens que delas se aproximam com o seu canto. Porém, ao redor das sereias amontoam-se as ossadas de homens que esqueceram o seu propósito na vida. O conselho de Circe é que Ulisses tape com cera os ouvidos dos homens da sua tripulação, para que estes nada oiçam. E como Ulisses quis mesmo assim ouvir o canto das sereias, teve de ser amarrado ao mastro com força para não cair na tentação de por ali se ficar. O foco da viagem de Ulisses era o regresso a casa, e qualquer distracção podia pôr em causa a realização do seu objectivo.

“Ulysses and the Sirens” (1891), de John William Waterhouse

Tal como Ulisses resistiu ao canto das sereias, também nós somos hoje desafiados a resistir a novas formas gritantes de comunicação, com todo o seu ruído, movimento, côr e desejo. A arquitectura de cada plataforma condiciona o seu conteúdo. Por exemplo, o Instagram, o Facebook, o LinkedIn, o X, a Netflix, o UberEats e o Tinder especializaram-se, cada um, na estimulação dos sete pecados mortais: o orgulho, a inveja, a ganância, a ira, a preguiça, a gula e a luxúria, respectivamente. E no caso dos mais jovens, o TikTok combina todos os apetites e vaidades no seu infinito scroll de estímulos e bizarrias. Esta rede social chinesa é aliás proibida na China – não nos faz isto lembrar um certo cavalo de madeira deixado de presente às portas da muralha de Tróia?

Em relação aos conteúdos que consumimos nas redes, quem conhece O Senhor dos Anéis lembra-se de como se encontrava Théoden, o rei de Rohan: insensível e distante, com o olhar embaciado, de aspecto curvado, despenteado, desleixado. Quem o encaminhara para aquele estado lastimoso foi Gríma Wormtongue, o seu conselheiro maledicente. Falando-lhe ao ouvido, Gríma ia envenenando o espírito do Rei Théoden contra todos os que o rodeavam, incluindo a sua família. Fazendo do rei uma marioneta da sua vontade, o poder de Gríma crescia sobre o reino de Rohan. E quando Théoden agia mal, Gríma validava a sua conduta quase como se fosse o ChatGPT. Um dia, chegou o bom feiticeiro Gandalf à presença do rei e fez três coisas para o salvar: afastou-o do mau conselheiro, lembrou-lhe quem ele era e, por fim, trouxe-o para o ar livre onde podia olhar para a sua terra e respirar bem fundo. O que Gandalf fez a Théoden é o mesmo que Tolkien sugere que façamos a nós próprios: deixar de lado aquilo que nos turva o pensamento, ouvir os amigos, recuperar a liberdade, sair e voltar a respirar o ar livre. Encarando a realidade, vemos com clareza a urgência de tomar novas decisões. Noutra narrativa, Harry Potter depara-se com Dementors, umas criaturas que sugam a felicidade e a alma das pessoas quando delas se aproximam e, como Judas, podem fazê-lo através dum beijo. O que mais existe nas redes em que se enreda o tempo da nossa atenção são perfis de pessoas e de robots assim. Mas se sairmos para o mundo real, podemos recordar o Génesis, onde “Deus viu que isto era bom”.

 

Os limites das narrativas

Em entrevista recente, o músico Brian Eno lembrava-se da infância em que pintava muito com aguarelas. Ao fim de um dia de pinturas, a água onde lavava os pincéis ficava sempre daquela cor horrível e sempre igual, uma mistura de roxo e castanho a que chamava de “munge”. Hoje, por mais que se esforce em dar as instruções certas ao ChatGPT e por mais que a respostas até sejam interessantes, todo o resultado está coberto de “munge”. É tão fantástico ver uma máquina produzir aqueles resultados como é ver um cão caminhar apenas nas suas patas traseiras. Mas para uma pessoa, caminhar assim é pouco. A inteligência artificial vai buscar a informação a muitas fontes, mas a sua resposta é excessivamente digerida: uma aguadilha “munge”.

Ainda sobre as narrativas da nossa política, cada candidato gostaria de encarnar um super-herói em contraste com o vilão do seu adversário. Além do costumeiro D. Sebastião que sempre esperamos entre as incertas névoas dos dias, desfilam diante de nós um rol de Velhos do Restelo, de Generais Sem Medo, de Maiorias Silenciosas, de Magriços e de Viriatos. O mesmo indivíduo que para uns é um de três Salazares, para outros é um dos quatro Cavaleiros do Apocalipse. Outra personagem do nosso quotidiano queria que perdêssemos “a vergonha de ir buscar dinheiro a quem está a acumular” – uma versão deturpada do imaginário de Robin dos Bosques. E lá fora, vimos na campanha municipal de Nova Iorque um Andrew Cuomo a falar como o Batman na sua Gotham. Batman está do lado dos mais frágeis, mas conhece os mais fortes porque é um deles. O outro candidato era Zhoran Mamdani, demasiado millennial para a sua condição vantajosa ser um problema, e apresentou-se mais como um Zorro que compreende as reais ânsias do povo e está ao lado da gente dos bairros satélites contra os abusos dos oligarcas da Manhattan solar – essa Gotham da qual Batman faz parte. Mario Cuomo, pai de Andrew e tal como ele um ex-Governador de Nova Iorque, disse famosamente que as campanhas eleitorais se fazem em poesia e que depois se governa em prosa. Mamdani venceu as eleições, mas agora terá de baixar um pouco as expectativas que gerou e mostrar que não tem superpoderes que se imponham à realidade. É que por melhor que seja a narrativa, no fim é a realidade que sempre se impõe.

Também os partidos adoptam narrativas para se posicionarem. Tal como os móveis IKEA, também a social-democracia veio da Escandinávia e instalou-se um pouco por todas as casas políticas portuguesas, desde o Largo do Rato à Rua da Palma com passagem pela Lapa. Mas os posicionamentos enganam: nem o CDS é de centro, nem o Chega é conservador, o PSD é popular democrático, o PS é que é social-democrata, a esquerda do Bloco pode ser muita coisa, o Livre e a IL são duas concepções distintas e pouco consensuais de liberalismo, o PAN e o JPP são nomes sem carga ideológica. Entre os partidos portugueses, só o Partido Comunista tem um nome claro que corresponde à sua realidade – porém, só se apresenta a eleições em formato CDU. Em Portugal, os partidos estão com as âncoras ideológicas levantadas e deixam-se ir por onde a corrente do momento as leva.

“The Duke of Wellington at Waterloo” (1892), de Robert Alexander Hillingford

As narrativas têm as suas distorções e limites. Se o regresso de Trump à Casa Branca é como o regresso de Napoleão depois do exílio na ilha de Elba, então quem será o seu Wellington e quando será o seu Waterloo? Todas as narrativas têm limites, e por vezes não ajudam à compreensão da realidade. Ouvi um dos candidatos derrotados às últimas eleições do Benfica dizer “eu sou como Jesus Cristo: trinta anos no anonimato, agora é até à morte”. O exagero narrativo é de uma enorme infelicidade.

 

Como responder à confusão das narrativas

Voltando ao primeiro parágrafo deste artigo, o telemóvel é um objecto muito útil porque é um canivete suíço da tecnologia. O canivete não tem a melhor faca, nem tem o melhor saca-rolhas. A vantagem do canivete é ter várias funções combinadas e serve para nos desenrascar num momento de aperto, mas se quisermos abrir um vinho velho temos de procurar o melhor saca-rolhas e usá-lo sem pressa. A solução para este problema é deixar o telemóvel mais vezes de lado. Se queremos ver as horas, então olhemos para o relógio de pulso e deixemos o telemóvel no bolso. Se queremos fotografar o nosso passeio, nada como trazer a máquina fotográfica e deixar o telemóvel. Se queremos enviar um e-mail não urgente, esperamos por estar diante do computador. Ver um filme ou uma série? Mais logo, na televisão. Podemos deixar o canivete e o telemóvel para os improvisos e dar a cada momento do dia um pouco mais de importância.

E como sobreviver à confusão das narrativas em que estamos imersos? Na verdade, temos de perceber a história em que estamos metidos.  Encarando sabiamente a sua cegueira, o escritor Jorge Luis Borges dizia que tal condição lhe permitia viver os sonhos com menos distracções. De igual modo, lembro uma senhora muito querida que conheci já velha e cuja esperança não vinha tanto dos livros que leu, mas da terra que cultivou, da sua família e da fé. Faltando-lhe a visão e as pernas, não lhe faltou o terço sempre na mão e um bondoso sorriso na cara. Esta riqueza do mundo interior não se cultiva nas horas diárias que perdemos diante dos ecrãs. Se queremos chegar a velhos com um tesouro de vida, temos de dar mais atenção a interesses que nos realizam enquanto pessoas. Temos, por exemplo, de levar as crianças à floresta para brincar, subir às árvores, perseguir pistas de animais, descobrir plantas e cogumelos. Temos de ler um bom livro, e depois outro. Precisamos de voltar à igreja. De rezar. Abrir com amigos uma boa garrafa de vinho. Ver um bom filme. Visitar museus, ir a exposições e a concertos. Encarar o vizinho e desejar-lhe um bom dia. Envolver-nos numa associação. Fazer exercício. Escutar quem nos procura e procurar quem admiramos. Elevar o olhar quando caminhamos na rua. Abraçar a mulher, os filhos, os pais e os amigos. Em suma, precisamos de preencher a nossa liberdade com bons valores.

Para sobreviver à confusão das outras narrativas, primeiro temos de dar atenção ao que mais importa na nossa história. E não querendo alongar ainda mais este texto, apenas me resta agradecer muito pela sua atenção.

quinta-feira, 23 de dezembro de 2021

em defesa da grandiosidade de Portugal

(publicado originalmente no Ingovernáveis)


 A 11 de Novembro foi publicado aqui no Ingovernáveis uma interessante reflexão de João Diogo R. P. G. Loureiro intitulada “Great Again: nota incompleta sobre a «grandeza» dos países”. O texto versa sobre a finalidade dum país, o que dele esperamos e a qualidade da sua resposta. Venho com esta resposta concordar com algumas premissas ali expostas, discordar doutras e, onde posta em causa a grandiosidade de Portugal, defendê-la.

Estou com o clichê: Portugal é um pequeno grande país. Mas tenho de esclarecer a priori que entendo o grande de “great” como grandioso. Quando o presidente cessante dos EUA diz querer tornar a América “great again”, ele não estará a propor conquistar novos territórios ao México ou ao Canadá para aumentar a grandeza do seu país, mas apela à recuperação duma suposta grandiosidade perdida. A grandeza dum país remete-nos para dimensões relativamente tangíveis, apesar dos quilómetros quadrados de terra até serem mais quando a maré está baixa, e da medição de linhas costeiras e fronteiras terrestres serem tão mais extensas quanto menor fôr a régua com que as medimos. Mas a grandiosidade remete-nos para valores inequivocamente intangíveis.

Os Doze de Inglaterra (1966) por Jaime Martins Barata

Embora tenhamos em comum a admiração por Aristóteles, começo como Platão no início d’A República por descer ao Pireu, isto é, proponho sairmos da Acrópole das considerações mais ideais e exigentes para retomarmos o argumento em questões mais comezinhas. Em vez de analisarmos o que é “great” e se nos podemos considerar “great”, gostava de começar por defender a utilidade de sermos ou de nos vermos como “great”. 

Em “After Virtue” (1981), Alasdair MacIntyre sugere que só podemos responder à pergunta «o que devo fazer?» se antes conseguirmos tratar a questão «de que história ou histórias é que eu faço parte?». Eu não escolhi nascer nesta família e em Portugal, no entanto assumo o meu apelido e a minha portugalidade. Como português de Portugal, faço parte duma narrativa com pelo menos 9 séculos de História; como cristão, faço parte doutra narrativa com 2 mil anos de História – e na verdade, essas histórias são ainda mais antigas. Agarro nessa tocha que os meus pais me passam e mantenho-a bem acesa até a entregar aos meus filhos. Mas a história não é perfeita: está cheia de glória e traição, acertos e erros, virtudes e pecados. E como todas as histórias, tem uma trama, problemas para resolver, heróis e vilões. Eu posso escolher não fazer parte da narrativa, poderia abandoná-la e procurar um outro país. Mas então, eu teria um papel a desempenhar noutras histórias e lealdades a forjar noutras comunidades.

Não escolhi nascer português, mas escolho continuar português. Portugal tem a história grandiosa dum país grandioso. É discutível? Sim, e poderíamos concentrarmo-nos em falhas e acidentes de percurso, aos quais prontamente contraporia com um rol já conhecido de feitos fantásticos. Mas essa discussão sói ser um beco sem saída, de interesse relativo. Este País, que tem a felicidade de ser também um Estado e uma Nação, tem uma cultura riquíssima que não só não renego, como assumo com orgulho. A grandiosidade dum país não serve para se medir com a doutro e ver qual deles é o maior, mas é útil para ver se é o melhor para mim e até que ponto me identifico com aquela comunidade e se posso contribuir na construção do seu Bem Comum. O meu país, a minha família, a minha comunidade, são os melhores do mundo para mim. A grandiosidade de Portugal até pode ser chamada de mito, porém o mito é uma história simbólica baseada em factos e características reais do povo português, que nos permite ler a realidade e compreender o nosso papel e missão na História. Mais que aferir se Portugal é realmente “great”, interessa-me reconhecer que a ideia dum Portugal “great” dá propósito e sentido à minha vida em sociedade. Tanto quanto melhor reconhecer a bondade do meu país, mais me sinto obrigado a corresponder aos meus compatriotas. É certo que para aceitar Portugal no seu todo, tenho de ser consequente e reflectir sobre alturas em que o país atravessou “profundas injustiças económicas, sociais ou culturais”, mas penso que seria um erro fazer depender a grandiosidade dum país apenas de critérios contemporâneos.

Os critérios de grandiosidade terão de ser outras virtudes. Um caso paradigmático é o do General Robert E. Lee que comandou as forças confederadas na Guerra Civil Americana. Hoje é consensual que a União liderada por Abraham Lincoln e Ulysses Grant estava do lado certo da História, mas será correcto negar todo o valor ao General Robert E. Lee e a tantas pessoas por terem estado do outro lado que perdeu? O General Lee não tinha escravos, era contra a escravatura e não queria a secessão. No entanto, diante da inevitabilidade da guerra, preferiu estar do lado confederado porque considerou que devia lealdade em primeiro lugar ao seu Estado da Virgínia e não concebia a hipótese de erguer armas contra os seus familiares e vizinhos. Apesar de estar do lado errado da guerra, a atitude do General Lee merece a nossa admiração e parece-me que o seu sentido de comunidade é, apesar de tudo, um excelente candidato à categoria de “great”.

O recontro de Valdevez (1916) por Jorge Colaço

Voltando ao título deste artigo, Portugal é grandioso. Não tenho dúvidas que é. Talvez o título induza o leitor em erro, pois não me detive muito no porquê e mais na utilidade de o ser. Podemos olhar para Portugal e dizer como Agostinho da Silva que a Galiza é a noiva que connosco ficou por casar, ou podemos pensar em Eduardo Lourenço e supor que estamos, ainda e continuamente, sempre a caminho da Índia, como se esse fosse o maior contributo que demos ao Mundo – e essa, já ninguém nos tira. Podemos olhar para as presentes misérias e lamentar o nosso triste fado, ou olhar para o fim do nosso império e para a transferência gradual da nossa soberania para Bruxelas e acharmo-nos presos na cauda da Europa e limitados na capacidade de nos realizarmos enquanto país. Mas apesar de tudo isso, se amarmos Portugal, estamos a reconhecê-lo como grande no nosso coração e, então, estamos a cumpri-lo. Resta-me remeter para Luís de Camões, que cantou não só como fomos “great” nos feitos até ao século XVI, mas leu a grandiosidade da alma deste povo que, na essência, até hoje não mudou. E se podemos divergir em perspectivas políticas sobre a igualdade, a liberdade e a justiça, não me parece difícil concordarmos com o princípio que só com um grande povo é que se faz um grande país.

segunda-feira, 7 de novembro de 2016

Lusophone opportunities in the Indian Ocean

O artigo em baixo foi inicialmente publicado na revista The Brussels Europe Press Club Magazine nº5, de Novembro de 2015.



Lusophone opportunities in the Indian Ocean
by António Vieira da Cruz

Por mares nunca de antes navegados
Passaram ainda além da Taprobana
(Luís Vaz de Camões, “Os Lusíadas”, Canto I)

Portuguese presence in the Indian Ocean
Portuguese is the 6th largest language in the world by number of native speakers and it is spoken by around 250 million people in the five continents. [1] But we might say that Portuguese culture is a tale of three oceans: the Atlantic, the Indian and the Pacific. Most of the times we hear news in Portuguese from Atlantic Brazil, Angola or Portugal; we may also think of Macau and Portuguese interactions with Pacific China or Japan; instead, I chose to write here about our relation with the Indian Ocean. By travelling through this ocean you will certainly face many people with Portuguese surnames, find Portuguese fortresses and churches, or even taste Portuguese cuisine influence in local gastronomy. There is a strong link between those people, those places and Portuguese culture. This is the intangible value of lusophony. But we can go forward – as Portuguese sailors did in the past – and find also very tangible ways to connect people and produce wealth.

Today, 90% of international trade and two thirds of all petroleum supplies travel by sea. Around 70% of the world traffic of petroleum products passes through the Indian Ocean. [2] What happens in the Indian Ocean always had repercussions in other regions. Two proverbs from the 15th century are significant: one says “if the world were an egg, Hormuz would be its yolk”; the other said “whoever is lord of Malacca has his hand on the throat of Venice”. [3] Well, the Portuguese conquered both Hormuz (1507) and Malacca (1511). When the Portuguese conquered Malacca, Ming China’s economy suffered. [4] Former President Hu Jintao recognized China’s “Malacca Dilemma”, by which the country is still dependent on the strait for over 25% of its exports and 15% of its imports. [5] Moreover, “40% of world trade passes through the Strait of Malacca and 40% of all traded crude oil passes through the Strait of Hormuz.” [6]

From the early 16th century until mid 17th century we may say Portugal dominated trade in the Indian Ocean by setting up forts at the important straits and ports along the coasts of Africa and Asia. Like Homer’s Odyssey and Virgil’s Aeneid draw maps to sail in the Mediterranean Sea, we could use The Thousand and One Nights’ Sindbad the Sailor story or Camões’s The Lusiads to sail in the Indian Ocean. From Camões we will find some clues to understand the importance of the Indian Ocean to Portugal and vice-versa. Inspired by the poet I would like to enumerate some key places for the lusophony, starting by South Africa and going through three continents by the ocean’s coastline until the end in Australia.

Cape Town, South Africa
The first European to cross the cape was Bartolomeu Dias in 1488. Until then the cape was called “Cape of Storms” (Cabo das Tormentas), but it was renamed by King John II of Portugal as “Cape of Good Hope” (Cabo da Boa Esperança), revealing his optimism to find a sea route to India. Camões writes about Adamastor, a terrible monster that sunk many ships and tells how the heroic Portuguese sailors overcame this obstacle. [7] The main exports of Cape Town are wine, petroleum products, grapes, apples, pears and quinces. It is also worthy to mention the growing tourism industry and the relevant financial, business services and real estate sectors.

Mozambique
Mozambique is the biggest Portuguese-speaking country in the Indian Ocean. Gas reserves are estimated to be the fourth largest in the world. [8] Mining and quarrying sectors accounted for 1.5% of the economy and energy accounted for 5%. However these sectors were expected to expand by more than 10% per year due to increased output of coal and gas. Important mineral extracted in the country are aluminum (2% of world’s production), beryllium (5%) and tantalum (6%). There is also a significant extraction of marble and production of cement. The main agricultural products in Mozambique are cotton, sugar cane, cashew, copra and cassava.

Zanzibar, Tanzania
Vasco da Gama passed in Zanzibar in 1498 and the island became a Portuguese possession for almost two centuries (1503-1698). Zanzibar's main industries are spices (cloves, nutmeg, cinnamon and black pepper), raffia, and tourism. The island where Freddie Mercury was born also exports seaweed. It is relatively autonomous from mainland Tanzania and Saul Bernard Cohen points out the island’s geopolitical potential: “the durability of the union of Zanzibar and Tanganika is increasingly in doubt. Should Zanzibar become independent, it could benefit from its location to become a gateway state linking East Africa to South Asia and Middle Eastern areas oriented to the Indian Ocean.” [9]

Mombasa, Kenya
Vasco da Gama was not well received by the King of Mombasa, who tried to ambush his units. With 1.3 million people, Mombasa is now the 2nd largest city of Kenya and it was part of the Portuguese Empire for more than 100 years (1593-1698 and 1728-1729). Mombasa has the largest port of Kenya and exports refined oil and cement. Tourism is its main industry.

Malindi (Melinde), Kenya
Pillar of Vasco da Gama in Melinde
Contrasting with the hostile reception south in Mombasa, Vasco da Gama was very well received by the Sheik of Malindi. This is where in The Lusiads the hero Vasco da Gama narrates a part of Portugal’s History. That is already a good reason to visit the place. In reality they signed a trade agreement and the Portuguese explorer hired a Muslim sailor– probably Ahmad ibn Mājid El-Melindi – to guide him through the Indian Ocean water until India. Then, the main exports of Malindi were ivory, rhino horns and agricultural products such as coconuts, oranges, millet and rice. In 1499 the Portuguese established a trading post in Malindi that served as a resting stop on the way to and from India. Malindi remained the center of Portuguese activity in the Eastern Africa until 1593 when the main base was moved to Mombasa. Nowadays the main industries in the region are tourism, cement and cashew.

Adding to the previous mentioned conquests of Hormuz and Malacca, we must ackowledge other strategic places that the Portuguese conquered, such as Socotra Island (Yemen) and Aden (Yemen) to control the entry of the Red Sea; Muscat (Oman), Sohar (Oman), Khor Fakkan (United Arab Emirates), Bahrain, Qeshm (Iran) and Bandar Abbas (Iran) to – with the help of Hormuz (Iran) – control the Persian Gulf.

India and Ceylon
The Portuguese presence in India is well known and lasted for 450 years. I will not take long about this here. Places like Goa, Daman, Dadra and Nagar Aveli, Diu, Kochi, Cannanore or Calecut were part of the Portuguese Empire. Also Mumbai was Portuguese for 127 years (1534-1661) and it was given to the British as a wedding dowry when Portuguese Queen Catherine of Braganza married King Charles II of England. This Portuguese queen was the one who introduced in English society the culture of tea and the use of a fork at the dining table. And today, Mumbai is the largest city in India and one of the world’s biggest with more than 12 million inhabitants. Spices and tea were the main imports from Portuguese India and Ceylon. Ceylon was Portuguese for 153 years (1505-1658), until it was conquered by the Dutch. Nevertheless, there are still many lusophone elements in current Sri Lanka and many people still bear their Portuguese names. Besides tea, Sri Lanka is rich in rubber, coconut and graphite. It is also important to note Sri Lanka’s tourism growing industry and its indisputable centrality in the Indian Ocean.

Chittagong, Bangladesh; and Bago, Myanmar
Also known by Portuguese as Chatigão or Porto Grande de Bengala, Chittagong has now a population of 7 million people and it is the second largest in Bangladesh. In 1598 there were around 2500 Portuguese in Chittagong. In 1616 Chittagong and the island of Sundiva were conquered and the remaining Portuguese people dedicated themselves to piracy. There are many descendents from Portuguese in that area and I met some Christians with Portuguese surnames still. Main industries nowadays are shipping, tea, consumer foods, textiles, cement, real estate and tourism. Chittagong is also central in the BCIM international commercial corridor, which will link Kunming (China) to Mandalay (Myanmar), Chittagong (Bangladesh), Dhaka (Bangladesh) and Kolkata (India). Likewise, other Portuguese adventurers went south to Myanmar and installed themselves in the Kingdom of Pegu (now Bago). Two of them were even acclaimed as kings: Salvador Ribeiro de Sousa and Filipe de Brito e Nicote. Unfortunately, that history did not end well. Brito e Nicote was impaled, his troops were made prisoners for life. Their descendents are still Christians, have Portuguese names and faces and can be found in rural areas in Ava and Bago areas. They are known as the “Bayingyi”. [10]

East Timor
Finally, and leaving many lusophone places to name, we must consider a country that has Portugal’s best support: East Timor. Where the Indian Ocean ends and the Pacific Ocean starts, the eastern part of the island of Timor was governed by the Portuguese and it is a Portuguese-speaking country on the other side of the world. Timor has been developing a partnership with Australia for the extraction of petroleum and natural gas resources in the waters southeast of East Timor. Regarding Australia, some theorists say that the first Europeans to reach Australia were Portuguese. But what we know for sure is that there is a large hardworking Portuguese community in Australia nowadays. [11]

Conclusion
Like the Portuguese, other great nations explored the Indian Ocean. The Ottomans, the Omanis, other Arabs and Persians, the Chinese, the Dutch, the French, the English, and now the Americans, the Indians and the Chinese again, all of them had different experiences on the region. But as we see the Portuguese experience is especially rich. If we dare to rediscover the lusophone Indian Ocean and reconnect with its people, we may find a very interesting advantage for trade and investments. For that, we must embrace lusophone values like the courage to turn a Cape of Storms into a Cape of Good Hope; or to partner with valuable people to achieve better results, like Vasco da Gama and Ahmad ibn Mājid did in Melinde; to think strategically like Afonso de Albuquerque did; and to conquer the hearts of native people, like St. Francis Xavier did in Goa and Malacca where he is venerated still today. So, the remaining question is… when will you start your lusophone enterprise?


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References

[3] KAPLAN, Robert D., in “Monsoon”, p. 7, Random House Trade Paperbacks, New York 2011.
[4] KAPLAN, Robert D., in “Monsoon”, p. 10, Random House Trade Paperbacks, New York 2011.
[7] CAMÕES, Luís Vaz de, in “Os Lusíadas”
[9] COHEN, Saul Bernard, in “Geopolitics of the World system”, p. 376, Rowman and Littlefield Publishers, Oxford 2003

quarta-feira, 21 de novembro de 2012

passaram ainda além da Taprobana

Em baixo o artigo que escrevi no quarto número da revista Think South Asia (19 de Novembro), que edito com o apoio do South Asia Democratic Forum. Principais países em destaque: Sri Lanka e Paquistão. Neste número fala-se também da educação como forma de combater o extremismo e o terrorismo, e temos ainda a honra de contar com Vytautas Landsbergis, o primeiro Presidente da Lituânia após o comunismo.
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Por mares nunca de antes navegados,
Passaram ainda além da Taprobana*
Luís Vaz de Camões, in “Os Lusíadas” – Canto I
 
In this edition of Think South Asia we put the focus on Sri Lanka. With a long history and a very distinctive identity formed by a great profusion of different ethnicities and a meeting point of religions, Sri Lanka has a incredibly rich culture. Its privileged geography puts Sri Lanka in a very central and strategic situation in the Indian Ocean. As in the first stanza of his opus magum “Os Lusíadas”, the Portuguese poet Camões considered Taprobana (another name for Sri Lanka) a transition point for western culture. Of course this 16th century stance is not exactly the same in today’s globalized world, nevertheless Sri Lanka maintains its role of a commercial passage country with many opportunities to be a motor for improving regional cooperation amongst the countries of South Asia.
 
Concerning Sri Lanka, we have the chance to read an excellent country profile from South Asia Democratic Forum’s Policy Adviser Cátia Rodrigues, which gives the floor to Robert Jan Riemersma’s article on the reconciliation process in Sri Lanka. Mr Riemersma is an expert on the issue and conducts his research in the prestigious Heidelberg University. Finally, we have the pleasure to inaugurate a new readers’ section of the Think South Asia magazine, where we recommend an interesting book on Sri Lanka’s history.
 
The hot topic of Balochistan is also an issue affecting South Asia’s peace and stability. Dr Siegfried O. Wolf writes on the current situation in Balochistan and the Pakistani government’s attitude towards it. Meanwhile, on the occasion of the United Nation’s Universal Periodic Review (UPR) for Pakistan, Mr Mehran Baloch alerted us that the “danger of the nuclear assets falling into the hands of terrorists has already materialised and the world should understand this for if it doe­sn’t the world will have to pay a bitter price for its laxity and complacence”. Mr Baloch is the Permanent Representative of Baluchistan to the UN Human Rights Council.
 
We do not forget education for tolerance in this edition. Mr Amir Mustafa is a Research Officer in the South Asia Association for Regional Cooperation (SAARC) Human Resource Development Centre in Islamabad, Pakistan, and he writes on “Education for Peace and Prosperity in South Asia”. This is an article not to be missed: Mr Mustafa gives us a very well-informed idea of what is going on in each of the eight countries of SAARC.
 
Finally, last but not least, in the last edition of this magazine we announced the South Asia Democratic Forum’s conference on “The Merits of Regional Cooperation – The case of South Asia” which took place in Brussels on 11 October. I just want to leave here a word saying it was a great success: it really opened the debate on regional cooperation in South Asia, with deep interventions, such as the one from President Vytautas Landsbergis from Lithuania, which we are honoured to present in this edition. The quality and innovation of the academic papers presented in the conference was clear for all to behold. I hope to be able to share further  findings of that conference with you in due course given the quality of the work produced. In the meantime, I invite you to enjoy this, the fourth edition of Think South Asia.
 
*By seas never before sailed
They passed even over Taprobana
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Publicado no site do South Asia Democratic Forum: www.sadf.eu
Facebook: https://www.facebook.com/SouthAsiaDemocraticForum
Para fazer o download da revista Think South Asia 04: http://sadf.eu/docs/thinksouthasia04.pdf

quarta-feira, 4 de novembro de 2009

felicidade triste

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Quem inventou que triste não é feliz? Quem não é feliz é infeliz, que é muito diferente de se ser triste! A tristeza, por exemplo, costuma até ser bela - coisa que a infelicidade nunca é. Qualquer português pode e deve ser feliz, mas... sendo português, nunca deixará de ser triste. É uma e outra coisa, sem prejuízo para ambas. Um pouco ao jeito do contentamento descontente pelo Poeta cantado.
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