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quarta-feira, 22 de abril de 2026

15 pontos em defesa da democracia liberal

 (também publicado no Jacaré)

"Cícero denuncia Catilina" (1888), de Cesare Maccari

1.     A seguir à vida, a liberdade é aquilo que temos de mais precioso. A liberdade é um direito inalienável e sinal da dignidade humana. O exercício da liberdade realiza-nos enquanto pessoas e todos os povos aspiram a ser livres.


2.     As ditaduras são péssimas: não há ditaduras sem censura, violência e presos políticos. As revoluções também são péssimas: não há revoluções sem censura, violência e presos políticos. Admiro a coragem daqueles que defendem um ideal. Porém, devemos ter a humildade de reconhecer que as nossas acções em nome dum ideal puro e romântico podem ter consequências muito negativas para a vida dos outros.


3.     Por mais iluminado que se julgue o ditador e por mais erros que cometa a classe política em democracia, a democracia liberal é sempre preferível à ditadura. Desde logo, porque o poder corrompe o governante ao longo do tempo. Em democracia, os responsáveis políticos prestam contas e podem ser periodicamente substituídos de forma pacífica, após votação. Já em ditadura, só a turbulência da morte do ditador ou de um golpe de Estado o podem substituir.


4.     Mesmo que os iniciadores da revolução tenham à partida os melhores intuitos democráticos, as revoluções são por definição incontroláveis e podem resultar numa nova ditadura. Sabemos como começa a revolução, mas facilmente se perde o controlo e o seu desfecho é incerto por natureza. Os excessos da revolução que começou em Abril de 1974 foram travados pelo 25 de Novembro de 1975 e desmantelados pela Revisão Constitucional de 1982 com a extinção do Conselho da Revolução e a criação do Tribunal Constitucional.


5.     Sendo necessário pôr fim à ditadura, é preferível haver uma transição pacífica para a democracia. Por vezes essa transição pacífica não é possível, mas deve ser tentada. Aqui ao lado em Espanha, foi possível e aconteceu. A revolução tem de ser o último recurso.


6.     Há muitas comparações que beneficiam o Estado Novo: “antes uma ditadura cristã do que soviética”; “antes Salazar do que Estaline”; “antes uma ditadura autoritária como a nossa do que totalitária como a dos nazis”; “antes Salazar do que Mussolini ou Franco”… mas essas dicotomias são redutoras e falaciosas. Se o passado é inevitável, o futuro está nas nossas mãos. As opções disponíveis para Portugal entre guerras mundiais não eram apenas o modelo soviético russo, o nazi alemão, o fascista italiano ou o nacionalista espanhol. Também teria sido possível elevar o olhar e escolher para Portugal um rumo inspirado nos exemplos democráticos da Suíça, da Irlanda, do Reino Unido, do Canadá ou dos EUA.


7.     Como todas as ditaduras, a ditadura do Estado Novo foi má e cheia de excessos. No entanto, houve no mundo ditaduras piores. Os responsáveis pela existência do Estado Novo são aqueles que o fizeram, mas também aqueles que na Primeira República o tornaram inevitável.


8.     Como todas as revoluções, a revolução de 1974/5 foi má e cheia de excessos. No entanto, houve no mundo revoluções piores. Os responsáveis pela revolução são aqueles que o fizeram, mas também aqueles que no Estado Novo a tornaram inevitável.


9.     Houve ditaduras piores, mas para as vítimas desta ditadura isso não lhes serve de consolo. Houve revoluções piores, mas para as vítimas desta revolução isso não lhes serve de consolo.


10.  Tanto a ditadura como a revolução são atentados contra a nossa liberdade e realização humana. Tanto a ditadura como a revolução forçam-nos a viver com medo das nossas próprias opiniões sobre o que é melhor para o país, a cidade, a aldeia, o bairro. Tanto os ditadores como os revolucionários nos tentam convencer que precisamos da ditadura ou da revolução para alcançar bens que eles sabem que nunca poderão assegurar por si e sem o sacrifício das nossas liberdades.


11.  Faz sentido o enquadramento cronológico do mais recente livro do historiador José Miguel Sardica sobre a revolução: “Em torno de Abril: 25 anos que mudaram Portugal 1961-1986”. Faz sentido falar objectivamente dos factos da nossa História, da ditadura e da revolução, pondo-as no contexto das mudanças que já se viviam em Portugal e no Mundo.


12.  Não faz tanto sentido dar relevância àqueles que discutem na velha trincheira para reabrir feridas e explorar ressentimentos passados, reais ou imaginários, próprios ou herdados, ou ainda comprados em segunda mão. O recente debate entre José Pacheco Pereira e André Ventura é disto um exemplo bem ilustrativo.


13.  Mas o debate cordial é bom para a democracia porque dá espaço à livre expressão das ideias de pessoas diferentes. Essa diferença enriquece a sociedade, e a pacífica exposição dessa diferença fortalece os nossos laços comunitários.


14.  A democracia liberal é o único modelo que nos permite debater estes assuntos sem medo de represálias. Devemos cuidar da nossa cultura política, do nosso sistema democrático e constitucional, dos princípios da subsidiariedade e da separação de poderes. É essencial fazer reformas que mantenham o sistema democrático a funcionar e dando resposta aos nossos problemas. Tanto o imobilismo de uns como o populismo de outros poderão conduzir-nos a um novo ciclo revolucionário e/ou ditatorial, com a consequente perda da nossa liberdade.


15.  Por estas razões, o PS e o PSD deverão sair do imobilismo dos últimos anos e, em conjunto com a IL e outros partidos do arco democrático, fomentar pactos de regime para as reformas necessárias mais urgentes na Justiça, na Habitação, na Segurança Social, na Defesa ou no Combate aos Incêndios. Será uma perda de tempo pactar com os partidos autoritários e revisionistas que existem em ambos os extremos e que apostam os seus esforços na substituição da nossa democracia real pelas muito particulares formas de utopia que nos procuram impor.

quarta-feira, 15 de abril de 2026

Como sobreviver à confusão das narrativas

(também publicado no Substack)

Quantas vezes já nos aconteceu pegar no telemóvel para fazer uma tarefa e, distraídos por outras notificações, esquecemo-nos daquilo que íamos fazer? Passado um pouco, guardamos o telemóvel sem lembrar o propósito original de o ter ido buscar. O permanente estado de distracção faz parte do nosso dia-a-dia.

A informação não é um bem escasso: há muita, cada vez mais, e pode ser detida por muita gente ao mesmo tempo. O que é um bem escasso – e por isso tem valor económico – é a nossa atenção. E o valor económico deste bem escasso não corresponde necessariamente ao valor moral que tem a boa informação. Aliás, a boa informação tende a ocupar um espaço cada vez mais reduzido da nossa atenção. Este é um dos dramas do nosso tempo: a tabloidização das notícias compensa, os escândalos dão mais cliques do que os acordos, o insulto vale mais do que o elogio, e os produtos que consumimos nas redes geram em nós sentimentos de revolta, de ira e de injustiça.

 

Mil e uma noites de atenção

Na economia da atenção, as emoções negativas gritam-nos enquanto as positivas apenas nos sussurram. Não é por acaso que é nas redes sociais que a polarização mais medra, dando destaque às publicações mais infames dos partidos mais extremistas. Ter boas maneiras não dá audiências na economia da atenção. Os modos de Trump e Ventura provocam indisposições a muitos de nós, mas nem por isso deixamos de estar agarrados a esse tipo de conteúdos. O algoritmo sabe disso, promovendo os vídeos confrontativos para manter a nossa atenção e dela tirar dividendos. Gavin Newsom da Califónia e Isaltino Morais de Oeiras sabem-no também, e as suas respostas à letra têm imensa audiência. Podemos pensar que Trump e Ventura merecem provar do seu veneno e talvez tiremos algum prazer do enxovalho que recebem no “Daily Show” e em “Isto é gozar com quem trabalha”. A sensação é um pouco como a de gostar da violência nos filmes de Tarantino só porque os alvos são os piores vilões, como nazis e esclavagistas, que provam na ficção um pouco do sofrimento que infligiram na realidade. Contudo, continuamos a consumir a violência, o ódio, a inveja e o ressentimento. As mesmas emoções que ajudaram à ascensão destes sujeitos são agora usadas contra eles. E precisamos de sair do círculo vicioso. Se as declarações e as notícias que nos despertam os piores sentimentos são verdadeiras ou falsas, esse é apenas um pequeno pormenor. Como dizem os italianos: si no è vero, è ben trovato. O que interessa hoje já não é tanto a verdade dos factos, mas se a alegação é plausível. Basta apenas isto para que o boato faça o seu caminho.

“Ali Pasha and Kira Vassiliki” (1842), de Paul Emil Jacobs

O discurso público é uma constante luta pela nossa atenção. O abuso de “alertas” e de “breaking news” dos canais de notícias tornou-se tão ridículo que os meus amigos e eu por vezes usamos o sticker “Alerta CM” para comunicar novidades em grupos de WhatsApp. Semelhante chamada de atenção acontece num qualquer clube de Lisboa, quando alguém toma a pose de António Silva n’O Costa do Castelo e anuncia: “Silêncio, que se vai cantar o fado!” E se somos uma empresa, queremos que a nossa marca e o nosso produto estejam na memória e nos desejos do consumidor. Se somos um político, queremos aparecer e ser lembrados para ganhar proximidade e votos. Se somos um professor, queremos prender a atenção dos nossos alunos para poder ensinar. Quando falamos, a nossa preocupação é semelhante à da princesa Sherazade nas Mil e Uma Noites: temos de contar uma história de tal forma interessante que amanhã o nosso público deseje ouvir-nos de novo. Mas se a história for aborrecida, então Sherazade morre e nós somos esquecidos. E tanto no marketing como na comunicação política, o esquecimento é uma forma de morte.

 

O canto das sereias

Outras vezes, nós não estamos a produzir histórias mas a consumi-las. Isto é o que nos acontece a maior parte do tempo. E como consumidores de histórias, a nossa preocupação é outra. Sobre este assunto, Chris Hayes escreveu “The Siren’s Call” (2025, também disponível em português), que começa por lembrar o Canto XII da Odisseia onde Circe recomenda a Ulisses que tenha toda a cautela à passagem pelas sereias que enfeitiçam os homens que delas se aproximam com o seu canto. Porém, ao redor das sereias amontoam-se as ossadas de homens que esqueceram o seu propósito na vida. O conselho de Circe é que Ulisses tape com cera os ouvidos dos homens da sua tripulação, para que estes nada oiçam. E como Ulisses quis mesmo assim ouvir o canto das sereias, teve de ser amarrado ao mastro com força para não cair na tentação de por ali se ficar. O foco da viagem de Ulisses era o regresso a casa, e qualquer distracção podia pôr em causa a realização do seu objectivo.

“Ulysses and the Sirens” (1891), de John William Waterhouse

Tal como Ulisses resistiu ao canto das sereias, também nós somos hoje desafiados a resistir a novas formas gritantes de comunicação, com todo o seu ruído, movimento, côr e desejo. A arquitectura de cada plataforma condiciona o seu conteúdo. Por exemplo, o Instagram, o Facebook, o LinkedIn, o X, a Netflix, o UberEats e o Tinder especializaram-se, cada um, na estimulação dos sete pecados mortais: o orgulho, a inveja, a ganância, a ira, a preguiça, a gula e a luxúria, respectivamente. E no caso dos mais jovens, o TikTok combina todos os apetites e vaidades no seu infinito scroll de estímulos e bizarrias. Esta rede social chinesa é aliás proibida na China – não nos faz isto lembrar um certo cavalo de madeira deixado de presente às portas da muralha de Tróia?

Em relação aos conteúdos que consumimos nas redes, quem conhece O Senhor dos Anéis lembra-se de como se encontrava Théoden, o rei de Rohan: insensível e distante, com o olhar embaciado, de aspecto curvado, despenteado, desleixado. Quem o encaminhara para aquele estado lastimoso foi Gríma Wormtongue, o seu conselheiro maledicente. Falando-lhe ao ouvido, Gríma ia envenenando o espírito do Rei Théoden contra todos os que o rodeavam, incluindo a sua família. Fazendo do rei uma marioneta da sua vontade, o poder de Gríma crescia sobre o reino de Rohan. E quando Théoden agia mal, Gríma validava a sua conduta quase como se fosse o ChatGPT. Um dia, chegou o bom feiticeiro Gandalf à presença do rei e fez três coisas para o salvar: afastou-o do mau conselheiro, lembrou-lhe quem ele era e, por fim, trouxe-o para o ar livre onde podia olhar para a sua terra e respirar bem fundo. O que Gandalf fez a Théoden é o mesmo que Tolkien sugere que façamos a nós próprios: deixar de lado aquilo que nos turva o pensamento, ouvir os amigos, recuperar a liberdade, sair e voltar a respirar o ar livre. Encarando a realidade, vemos com clareza a urgência de tomar novas decisões. Noutra narrativa, Harry Potter depara-se com Dementors, umas criaturas que sugam a felicidade e a alma das pessoas quando delas se aproximam e, como Judas, podem fazê-lo através dum beijo. O que mais existe nas redes em que se enreda o tempo da nossa atenção são perfis de pessoas e de robots assim. Mas se sairmos para o mundo real, podemos recordar o Génesis, onde “Deus viu que isto era bom”.

 

Os limites das narrativas

Em entrevista recente, o músico Brian Eno lembrava-se da infância em que pintava muito com aguarelas. Ao fim de um dia de pinturas, a água onde lavava os pincéis ficava sempre daquela cor horrível e sempre igual, uma mistura de roxo e castanho a que chamava de “munge”. Hoje, por mais que se esforce em dar as instruções certas ao ChatGPT e por mais que a respostas até sejam interessantes, todo o resultado está coberto de “munge”. É tão fantástico ver uma máquina produzir aqueles resultados como é ver um cão caminhar apenas nas suas patas traseiras. Mas para uma pessoa, caminhar assim é pouco. A inteligência artificial vai buscar a informação a muitas fontes, mas a sua resposta é excessivamente digerida: uma aguadilha “munge”.

Ainda sobre as narrativas da nossa política, cada candidato gostaria de encarnar um super-herói em contraste com o vilão do seu adversário. Além do costumeiro D. Sebastião que sempre esperamos entre as incertas névoas dos dias, desfilam diante de nós um rol de Velhos do Restelo, de Generais Sem Medo, de Maiorias Silenciosas, de Magriços e de Viriatos. O mesmo indivíduo que para uns é um de três Salazares, para outros é um dos quatro Cavaleiros do Apocalipse. Outra personagem do nosso quotidiano queria que perdêssemos “a vergonha de ir buscar dinheiro a quem está a acumular” – uma versão deturpada do imaginário de Robin dos Bosques. E lá fora, vimos na campanha municipal de Nova Iorque um Andrew Cuomo a falar como o Batman na sua Gotham. Batman está do lado dos mais frágeis, mas conhece os mais fortes porque é um deles. O outro candidato era Zhoran Mamdani, demasiado millennial para a sua condição vantajosa ser um problema, e apresentou-se mais como um Zorro que compreende as reais ânsias do povo e está ao lado da gente dos bairros satélites contra os abusos dos oligarcas da Manhattan solar – essa Gotham da qual Batman faz parte. Mario Cuomo, pai de Andrew e tal como ele um ex-Governador de Nova Iorque, disse famosamente que as campanhas eleitorais se fazem em poesia e que depois se governa em prosa. Mamdani venceu as eleições, mas agora terá de baixar um pouco as expectativas que gerou e mostrar que não tem superpoderes que se imponham à realidade. É que por melhor que seja a narrativa, no fim é a realidade que sempre se impõe.

Também os partidos adoptam narrativas para se posicionarem. Tal como os móveis IKEA, também a social-democracia veio da Escandinávia e instalou-se um pouco por todas as casas políticas portuguesas, desde o Largo do Rato à Rua da Palma com passagem pela Lapa. Mas os posicionamentos enganam: nem o CDS é de centro, nem o Chega é conservador, o PSD é popular democrático, o PS é que é social-democrata, a esquerda do Bloco pode ser muita coisa, o Livre e a IL são duas concepções distintas e pouco consensuais de liberalismo, o PAN e o JPP são nomes sem carga ideológica. Entre os partidos portugueses, só o Partido Comunista tem um nome claro que corresponde à sua realidade – porém, só se apresenta a eleições em formato CDU. Em Portugal, os partidos estão com as âncoras ideológicas levantadas e deixam-se ir por onde a corrente do momento as leva.

“The Duke of Wellington at Waterloo” (1892), de Robert Alexander Hillingford

As narrativas têm as suas distorções e limites. Se o regresso de Trump à Casa Branca é como o regresso de Napoleão depois do exílio na ilha de Elba, então quem será o seu Wellington e quando será o seu Waterloo? Todas as narrativas têm limites, e por vezes não ajudam à compreensão da realidade. Ouvi um dos candidatos derrotados às últimas eleições do Benfica dizer “eu sou como Jesus Cristo: trinta anos no anonimato, agora é até à morte”. O exagero narrativo é de uma enorme infelicidade.

 

Como responder à confusão das narrativas

Voltando ao primeiro parágrafo deste artigo, o telemóvel é um objecto muito útil porque é um canivete suíço da tecnologia. O canivete não tem a melhor faca, nem tem o melhor saca-rolhas. A vantagem do canivete é ter várias funções combinadas e serve para nos desenrascar num momento de aperto, mas se quisermos abrir um vinho velho temos de procurar o melhor saca-rolhas e usá-lo sem pressa. A solução para este problema é deixar o telemóvel mais vezes de lado. Se queremos ver as horas, então olhemos para o relógio de pulso e deixemos o telemóvel no bolso. Se queremos fotografar o nosso passeio, nada como trazer a máquina fotográfica e deixar o telemóvel. Se queremos enviar um e-mail não urgente, esperamos por estar diante do computador. Ver um filme ou uma série? Mais logo, na televisão. Podemos deixar o canivete e o telemóvel para os improvisos e dar a cada momento do dia um pouco mais de importância.

E como sobreviver à confusão das narrativas em que estamos imersos? Na verdade, temos de perceber a história em que estamos metidos.  Encarando sabiamente a sua cegueira, o escritor Jorge Luis Borges dizia que tal condição lhe permitia viver os sonhos com menos distracções. De igual modo, lembro uma senhora muito querida que conheci já velha e cuja esperança não vinha tanto dos livros que leu, mas da terra que cultivou, da sua família e da fé. Faltando-lhe a visão e as pernas, não lhe faltou o terço sempre na mão e um bondoso sorriso na cara. Esta riqueza do mundo interior não se cultiva nas horas diárias que perdemos diante dos ecrãs. Se queremos chegar a velhos com um tesouro de vida, temos de dar mais atenção a interesses que nos realizam enquanto pessoas. Temos, por exemplo, de levar as crianças à floresta para brincar, subir às árvores, perseguir pistas de animais, descobrir plantas e cogumelos. Temos de ler um bom livro, e depois outro. Precisamos de voltar à igreja. De rezar. Abrir com amigos uma boa garrafa de vinho. Ver um bom filme. Visitar museus, ir a exposições e a concertos. Encarar o vizinho e desejar-lhe um bom dia. Envolver-nos numa associação. Fazer exercício. Escutar quem nos procura e procurar quem admiramos. Elevar o olhar quando caminhamos na rua. Abraçar a mulher, os filhos, os pais e os amigos. Em suma, precisamos de preencher a nossa liberdade com bons valores.

Para sobreviver à confusão das outras narrativas, primeiro temos de dar atenção ao que mais importa na nossa história. E não querendo alongar ainda mais este texto, apenas me resta agradecer muito pela sua atenção.

sexta-feira, 16 de janeiro de 2026

Presidenciais 2026 - a campanha e os candidatos

(também publicado no Jacaré)

 

Divido os onze candidatos em três categorias: os democratas, os autoritários e os outros.

Os autoritários: António Filipe (PCP), André Ventura (Chega), Catarina Martins (BE), Jorge Pinto (L) e André Pestana (ex-PCP, ex-BE, ex-MAS) não são exactamente democratas. As ideologias que os inspiram são irreconciliáveis com a separação de poderes, a liberdade de expressão e outros aspectos fundamentais do Estado de Direito Democrático. Se algum destes candidatos se visse no poder, nenhum de nós poderia prever a data e a forma das próximas eleições.

Os democratas: Henrique Gouveia e Melo (Almirante) tinha porte presidencial e uma imagem de competência, no entanto depreciou a sua reputação ao embarcar numa campanha negativa com truques e insinuações. Luís Marques Mendes (PSD) seria o que tem mais experiência governativa e quem conhece melhor as exigências do cargo presidencial, porém o conselho que prestou a empresas nos últimos anos não teve bom acolhimento popular e a sua campanha perdeu gás. João Cotrim de Figueiredo (IL) fez uma campanha inteligente nas redes e foi crescendo nas intenções de voto, mas quando a sua integridade moral foi posta em causa cometeu vários erros e não aguentou o stress test. António José Seguro (PS) tem sido uma presença simpática, mas que ideias tem? Não retive uma.

Outras candidaturas: Humberto Correia é algarvio e, vestido de D. Afonso Henriques, corre o país a falar de habitação, emigração e pobreza. Manuel João Vieira, artista plástico e músico dos velhos Ena Pá 2000, anda por Campo de Ourique e pelos meios de comunicação social com a sua intervenção artística: uma sátira à política em geral e às promessas populistas muito em particular. Quando um candidato promete uma coisa, Vieira cobre a promessa e aumenta-a para o dobro. Dá para sorrir e também para pensar.

A campanha eleitoral é um campo de batalha de onde ninguém sai ileso. Quem ataca perde pontos e mais pontos perde quem é atacado; perde interesse quem é vago e perde apoios quem vinca uma posição. Todos perdem, e o perdedor que menos perder fica Presidente. No fim de contas, ganhamos nós e a democracia que nos permite escolher alguém para representar o país. Aí, será tempo de descomprimir, restaurar fracturas deixadas pela tensão das discussões e então voltar às nossas vidas.

sexta-feira, 24 de março de 2023

The Forgotten Conservatism: Why Chega is Not Right

(originalmente publicado na revista The European Conservative)

William Graham Sumner (1840-1910)


“Chega!” is the Portuguese phrase for “Enough!” Does such an interjection sound conservative to you? Neither to me. However, the new Portuguese party named “Chega!” claims to be conservative. Founded in 2019 by André Ventura, Chega won 7% of the votes in the last legislative elections and became the third largest party in Parliament. Since then, the international media have taken for granted that Chega is a conservative party. I would like to dispute that idea and make a broader reflection about the conservative brand.

I am writing this article in rural Portugal, in a town where the Chega party currently is leading the opposition against the Socialist party. Many of the rural people whom I know voted for Chega, and some of them are my friends. Hillary Clinton was terribly wrong in thinking that such a group of supporters were deplorable—in fact, all parties have good people within their supporters. Like many of Donald Trump’s voters in the U.S., the common denominator of Chega voters is that at some point they were somehow mistreated by fortune and are now fed up with the system. Chega is right in identifying the problems of the person that works and pays too many taxes. We may find echoes of this in the thoughts of William Graham Sumner, on the ‘Forgotten Man’:

As soon as A observes something which seems to him to be wrong, from which X is suffering, A talks it over with B, and A and B then propose to get a law passed to remedy the evil and help X. Their law always proposes to determine what C shall do for X or, in the better case, what A, B and C shall do for X. As for A and B, who get a law to make themselves do for X what they are willing to do for him, we have nothing to say except that they might better have done it without any law, ‘but what I want to do is to look up C. I want to show you what manner of man he is. I call him the Forgotten Man … He works, he votes, generally he prays – but he always pays – yes, above all, he pays … All the burdens fall on him, or on her, for it is time to remember that the Forgotten Man is not seldom a woman.

Some years later, while pushing for the New Deal, President F.D. Roosevelt gave another meaning to the Forgotten Man. For him, the Forgotten Man was not man C but man X, as we can read from Amity Shlaes’ insightful book on the Great Depression. However, the original idea of a Forgotten Man is the conservative disposition to relieve the tax burden on those who work and pay without seeing the benefits of it. 

Chega’s conservatism—if there is any—stops there. Chega is really no more than an anti-system protest party that speaks to the Forgotten Man but misrepresents him. For instance, many Portuguese farmers support Chega. The scheme of incentives and protections within the EU is such that farmers are encouraged to grow what the EU determines through the Common Agricultural Policy. It is not unusual to hear that our farmers don’t grow vegetables or breed animals, they just cultivate subsidies. Many products are not economically viable to produce—think of Portuguese organic blueberries—but the EU subsidizes them because some technocrats think they are good for our diet and health. Whether or not the market demands organic blueberries is just an insignificant detail. Who pays? The Forgotten Man, of course. We could have been inspired by the New Zealand agricultural policy that removed subsidies in the 1980’s and helped its farmers to prosper, exporting goods and producing what the markets really demand. Instead, Chega and the other mainstream parties just ask the Government and the EU for incentives and support to Portuguese farmers—meaning more subsidies.

Trump and Ventura identified the Forgotten Man in Appalachia and in Alentejo, in Detroit and in Barreiro. But then, Ventura introduced an element of conflict and turned person C against persons A, B, and X. The old communist class conflicts of workers against the capitalists are replaced by new class conflicts, using the terms of classical Marxist method and identity politics, but with different actors: the taxpayer against the gypsies, the common citizen against corrupt politicians, the good persons against parasites and paedophiles. Ventura likes to surf those divisions, shocking the public and playing with the media just like Trump did. He insists on scapegoating gypsies, politicians, and the media for all the corruption that soaks the money of the “people of good.” Ventura wants to create the Fourth Portuguese Republic, where the president would have more powers.

Regarding Christian values, Ventura also doesn’t convince. Chega voted against euthanasia, but Ventura is satisfied with the current liberal abortion law in Portugal—he says he would not change it. Ventura also supports gay marriage. But he likes to call journalists to photograph him in church, praying on his knees. He is open to the death penalty. He is for lower taxes but at the same time he is for higher wages for policemen, doctors, nurses, and other public servants. In other words, his proposals would result in less revenue with more expenditure. The only way to finance such delirium is by raising public debt and overcharging another Forgotten Man: the generations to come. Do you sense any fiscal conservatism here? Me neither.

In Portugal, the common adversary for the Right is the Socialist Party hegemony. Against the Socialists, there is no formal conservative alliance, but something much weaker than that. It is merely an implicit coalition of non-socialist parties. In fact, there are no conservative parties in the Portuguese parliament. Portuguese conservatives look to the right benches of their parliament and can only find a set of contradictions: a popular-democratic party that identifies itself as social-democratic (PSD); a liberal-libertarian party (IL); and a populist protest party (Chega). Yes, Chega is right-wing, but of a non-conservative type.

Brexit is a good example of how different sensibilities on the Right could act separated and still add value to the same objective. There was no need for a unified campaign. Dominic Cummings’s choice to distance his Vote Leave campaign from the Leave.EU campaign was proven right. That way, each campaign spoke to their public without harming their message with toxic associations. Separated, they added votes and won. Likewise, some decades before, William F. Buckley Jr. promoted a variety of conservative tendencies at The National Review magazine, but saw the advantage of defining some boundaries, in order to distance the conservative brand from the style and content of—for example—Ayn Rand or the John Birch Society. The same lesson applies to Portugal, where the largest party in opposition, PSD, should consider distancing itself from Chega. Polls suggest that there is a will to change and to vote for an alternative to the disastrous socialist government. But to become a stronger alternative to the socialists, PSD needs to make a leap of courage and categorically refuse any alliance with Chega.

But the bottom line is that we need a real conservative party in Portugal. There is none right now. We need an alternative that embraces the conservative disposition of Michael Oakeshott; protects the little platoons of society of Edmund Burke, Robert Nisbet, and Richard John Neuhaus; preserves the landscape for future generations as it was idealized by Roger Scruton or Gonçalo Ribeiro Telles; cares for the traditions and respects the human ecology proposed by Pope Benedict XVI; promotes sound economic policies like the ones of Alexander Hamilton, Calvin Coolidge, Ronald Reagan, or Margaret Thatcher. We need to cherish the value of life, family, property, nation-state, religion, neighbourhood, free association, fairness, charity, and work. And above all, as Sumner puts it, “the Forgotten Man would no longer be forgotten where there was true liberty.” No less than values, conservatives should not underestimate the importance of a democratic framework that respects checks and balances and the rule of law. These are the dearest things we must always conserve.

quinta-feira, 23 de dezembro de 2021

a política portuguesa em 2 cartazes

 (publicado originalmente no Observador e também no Ingovernáveis)


Imagine um cartaz

Carlos Moedas é o candidato apoiado por PSD, CDS e outros cinco partidos à Câmara Municipal de Lisboa. Irá enfrentar Fernando Medina, que presidiu à CML nos últimos seis anos e ainda não apresentou candidatura – apenas marcou posição ao dizer que José Sócrates “corrói a nossa vida democrática”. Nas últimas semanas, Moedas apresentou-se aos lisboetas num cartaz que podemos encontrar pela cidade. Aparece sem gravata mas de braços cruzados, deixando cair uma suposta formalidade para, involuntariamente, erguer outra barreira entre ele e nós. A fotografia não é tão boa que justifique que a sua cabeça saia da moldura do cartaz, mas é aceitável e o azul sempre transmite serenidade. O mais importante é aumentar o reconhecimento do candidato, missão cumprida. A mensagem é que não é ideal. “Lisboa pode ser muito mais do que imaginas” diz-nos várias coisas:

  • O candidato quer tratar o eleitor por tu;
  • Ele reconhece que Lisboa até está bem, mas que tem um potencial escondido e desaproveitado;
  • Ele acha que o eleitor tem pouca capacidade de imaginação.

É trágico. Por onde começar? Se o candidato me vem pedir votos sem gravata já torço o nariz e estranho, mais ainda, se me quer tratar por tu, mas, enfim, encolho os ombros e acabo por aceitar que é por ali que vão as modas.

As palavras de imaginação são mágicas em comunicação política. Dizer “imagine isto” é trazer o eleitor imediatamente para dentro do mundo do candidato, um mundo que, por sua causa e por causa das suas soluções, será um mundo melhor. Mais poderoso ainda, é conseguir convidar o eleitor a participar desse sonho, tal como fez Martin Luther King. Porém, mencionar a imaginação para dizer que o eleitor não chega lá sozinho, é queimar este instrumento político e dar um tiro no pé.

Coxo, este cartaz dá a entender que Lisboa até está benzinho, o que não é mentira, mas dá desnecessariamente um ponto ao adversário. O candidato deve ser mais afirmativo e pôr ênfase naquilo que ele fará melhor, no tal potencial que quer explicar que falta cumprir. Estando atento ao percurso de Moedas, posso esperar que ele queira fazer de Lisboa uma cidade melhor para as empresas e para a ciência, mais inovadora, mais smart, mais cosmopolita. Esse seria o seu ponto forte, é essa a visão que lhe pode trazer alguma vantagem sobre Medina.

O cartaz da vergonha

Num outro cartaz, junto à Assembleia da República, o Chega pôs uma grande fotografia a preto e branco da cara de José Sócrates e o hashtag garrafal #Vergonha. É um cartaz populista e perverso – já lá vamos –, mas também muito simples e eficaz. Bastam a palavra carregada de incómodo político e a imagem do pior Primeiro-Ministro da História recente de Portugal para transmitir a mensagem do Chega neste momento cirúrgico do julgamento de Sócrates nos tribunais.

Quis o destino, que a decisão do Tribunal Central de Instrução Criminal sobre o processo da Operação Marquês caísse em plena crise económica e social, com muitas pessoas e empresas a passarem por enormes dificuldades ao saírem da terceira vaga da Covid-19. É sobretudo nestas circunstâncias, que uma sociedade pode cair na tentação de arranjar um bode expiatório para sacrificar e, no seu sofrimento, encontrar uma válvula de escape das tensões que foram enchendo a panela de pressão. André Ventura tem ensaiado esta técnica quando aponta para os ciganos ao falar de criminalidade, ou quando sugere a castração para crimes escabrosos que – lá está – nos pede para imaginar.

Este uso das emoções mais básicas de quem está desiludido com a vida, este acirrar de discurso através da boçalidade, esta confusão propositada entre a política e a justiça e este desrespeito pelo Estado de Direito são os ingredientes elementares do populismo. Quando governava, o também perigoso populista José Sócrates pôs em marcha um plano de domínio completo da nossa sociedade, através da colonização dos media, da Justiça e de toda a máquina do Estado; controlando os freios e contrapesos, o seu poder seria quase absoluto. Mediante provas, Sócrates deve ser julgado e merece tudo aquilo que a Justiça lhe der. O combate político contra Sócrates nunca deveria ser judicial ou condicionando a Justiça, mas isso é o que Sócrates e Ventura querem. Por razões diferentes, ambos estão juntos neste ataque ao Estado de Direito: Ventura quer que a Justiça nos vingue politicamente contra aquele político ou aquela classe de gente; e Sócrates quer mostrar que, mais do que um político preso, foi um preso político.

Andrew Jackson, sétimo presidente dos EUA (1829-37) é uma referência para os populistas, não só por se ter apresentado como homem comum que luta contra a corrupção das elites, mas por, em nome do povo, ter contornado as regras estabelecidas. Em 1832, após uma decisão do Supremo Tribunal sobre assuntos relacionados com os Índios Cherokee, da qual o Presidente não gostou, ele terá desafiado os juízes a aplicar a lei que assinaram, se conseguissem. Conseguimos, nós, imaginar Ventura a fazer o mesmo?

Mais uma achega

Entretanto, um PSD nostálgico pelas últimas autárquicas em Loures anunciou, através do seu secretário-geral, José Silvano, uma candidata à presidência da Câmara Municipal da Amadora. A comentadora de TV Suzana Garcia, assim com Z de Zorro, é mais uma candidata que se destaca por querer uma Justiça justiceira em vez de justa, para além do seu estilo de discurso mais condizente com o Chega. A propósito de algumas posições mais radicais da comentadora matutina, José Silvano afirmou, algo constrangido, como quem se desculpa, que Suzana Garcia é candidata à Câmara Municipal da Amadora e “não se candidata à Assembleia da República para legislar”. Bom esforço, senhor deputado. Esta distinção é importante, obviamente não para validar o temperamento e ideias de Suzana Garcia, mas para eu voltar a Carlos Moedas.

Não gostaria de votar em Carlos Moedas para me representar enquanto deputado nacional ou europeu, precisamente por ele ser de uma linha muito mais euro-entusiasta e federalista europeia do que eu sou. No entanto, isso pouco ou nada conta no cargo autárquico a que concorre. Pelo contrário, reconheço em Moedas uma pessoa séria, competente e educada. Moedas é decente. Medina também. Não votarei em Medina, porque discordo do poder sufocante que deu a uma EMEL que serve mais o orçamento da Câmara do que os Lisboetas ou o seu estacionamento e mobilidade. Discordo, também, da desertificação dos bairros históricos – noutros tempos, estes bairros foram populares! – que em muito se deve à lentíssima resposta de regulação do alojamento local perante o boom do turismo em Lisboa. E fico-me por aqui, pois honra seja feita, também melhorou os passeios e alindou alguns jardins.

Não votarei em Medina, mas estou disposto a ouvir o que Moedas tem a dizer sobre urbanismo, transportes e circulação, cultura, impostos municipais, segurança, turismo. Até agora não lhe ouvi uma ideia concreta, mas a campanha ainda está a aquecer motores e estou atento.

Resumindo, em dois cartazes o que é que temos? Primeiro o que não temos: a esquerda, silente sobre as autárquicas, apenas se afasta q.b. da toxicidade de Sócrates. O cartaz de Moedas e a entrada em falso dos candidatos liberais mostra uma direita civilizada que diz que existe, mas é desajeitada e anda ainda à procura da sua relevância. O cartaz do Chega é um calhau robusto atirado por hooligans contra o Estado de Direito. Em dois cartazes, este é o estado da nossa política.