quarta-feira, 15 de abril de 2026

Como sobreviver à confusão das narrativas

(também publicado no Substack)

Quantas vezes já nos aconteceu pegar no telemóvel para fazer uma tarefa e, distraídos por outras notificações, esquecemo-nos daquilo que íamos fazer? Passado um pouco, guardamos o telemóvel sem lembrar o propósito original de o ter ido buscar. O permanente estado de distracção faz parte do nosso dia-a-dia.

A informação não é um bem escasso: há muita, cada vez mais, e pode ser detida por muita gente ao mesmo tempo. O que é um bem escasso – e por isso tem valor económico – é a nossa atenção. E o valor económico deste bem escasso não corresponde necessariamente ao valor moral que tem a boa informação. Aliás, a boa informação tende a ocupar um espaço cada vez mais reduzido da nossa atenção. Este é um dos dramas do nosso tempo: a tabloidização das notícias compensa, os escândalos dão mais cliques do que os acordos, o insulto vale mais do que o elogio, e os produtos que consumimos nas redes geram em nós sentimentos de revolta, de ira e de injustiça.

 

Mil e uma noites de atenção

Na economia da atenção, as emoções negativas gritam-nos enquanto as positivas apenas nos sussurram. Não é por acaso que é nas redes sociais que a polarização mais medra, dando destaque às publicações mais infames dos partidos mais extremistas. Ter boas maneiras não dá audiências na economia da atenção. Os modos de Trump e Ventura provocam indisposições a muitos de nós, mas nem por isso deixamos de estar agarrados a esse tipo de conteúdos. O algoritmo sabe disso, promovendo os vídeos confrontativos para manter a nossa atenção e dela tirar dividendos. Gavin Newsom da Califónia e Isaltino Morais de Oeiras sabem-no também, e as suas respostas à letra têm imensa audiência. Podemos pensar que Trump e Ventura merecem provar do seu veneno e talvez tiremos algum prazer do enxovalho que recebem no “Daily Show” e em “Isto é gozar com quem trabalha”. A sensação é um pouco como a de gostar da violência nos filmes de Tarantino só porque os alvos são os piores vilões, como nazis e esclavagistas, que provam na ficção um pouco do sofrimento que infligiram na realidade. Contudo, continuamos a consumir a violência, o ódio, a inveja e o ressentimento. As mesmas emoções que ajudaram à ascensão destes sujeitos são agora usadas contra eles. E precisamos de sair do círculo vicioso. Se as declarações e as notícias que nos despertam os piores sentimentos são verdadeiras ou falsas, esse é apenas um pequeno pormenor. Como dizem os italianos: si no è vero, è ben trovato. O que interessa hoje já não é tanto a verdade dos factos, mas se a alegação é plausível. Basta apenas isto para que o boato faça o seu caminho.

“Ali Pasha and Kira Vassiliki” (1842), de Paul Emil Jacobs

O discurso público é uma constante luta pela nossa atenção. O abuso de “alertas” e de “breaking news” dos canais de notícias tornou-se tão ridículo que os meus amigos e eu por vezes usamos o sticker “Alerta CM” para comunicar novidades em grupos de WhatsApp. Semelhante chamada de atenção acontece num qualquer clube de Lisboa, quando alguém toma a pose de António Silva n’O Costa do Castelo e anuncia: “Silêncio, que se vai cantar o fado!” E se somos uma empresa, queremos que a nossa marca e o nosso produto estejam na memória e nos desejos do consumidor. Se somos um político, queremos aparecer e ser lembrados para ganhar proximidade e votos. Se somos um professor, queremos prender a atenção dos nossos alunos para poder ensinar. Quando falamos, a nossa preocupação é semelhante à da princesa Sherazade nas Mil e Uma Noites: temos de contar uma história de tal forma interessante que amanhã o nosso público deseje ouvir-nos de novo. Mas se a história for aborrecida, então Sherazade morre e nós somos esquecidos. E tanto no marketing como na comunicação política, o esquecimento é uma forma de morte.

 

O canto das sereias

Outras vezes, nós não estamos a produzir histórias mas a consumi-las. Isto é o que nos acontece a maior parte do tempo. E como consumidores de histórias, a nossa preocupação é outra. Sobre este assunto, Chris Hayes escreveu “The Siren’s Call” (2025, também disponível em português), que começa por lembrar o Canto XII da Odisseia onde Circe recomenda a Ulisses que tenha toda a cautela à passagem pelas sereias que enfeitiçam os homens que delas se aproximam com o seu canto. Porém, ao redor das sereias amontoam-se as ossadas de homens que esqueceram o seu propósito na vida. O conselho de Circe é que Ulisses tape com cera os ouvidos dos homens da sua tripulação, para que estes nada oiçam. E como Ulisses quis mesmo assim ouvir o canto das sereias, teve de ser amarrado ao mastro com força para não cair na tentação de por ali se ficar. O foco da viagem de Ulisses era o regresso a casa, e qualquer distracção podia pôr em causa a realização do seu objectivo.

“Ulysses and the Sirens” (1891), de John William Waterhouse

Tal como Ulisses resistiu ao canto das sereias, também nós somos hoje desafiados a resistir a novas formas gritantes de comunicação, com todo o seu ruído, movimento, côr e desejo. A arquitectura de cada plataforma condiciona o seu conteúdo. Por exemplo, o Instagram, o Facebook, o LinkedIn, o X, a Netflix, o UberEats e o Tinder especializaram-se, cada um, na estimulação dos sete pecados mortais: o orgulho, a inveja, a ganância, a ira, a preguiça, a gula e a luxúria, respectivamente. E no caso dos mais jovens, o TikTok combina todos os apetites e vaidades no seu infinito scroll de estímulos e bizarrias. Esta rede social chinesa é aliás proibida na China – não nos faz isto lembrar um certo cavalo de madeira deixado de presente às portas da muralha de Tróia?

Em relação aos conteúdos que consumimos nas redes, quem conhece O Senhor dos Anéis lembra-se de como se encontrava Théoden, o rei de Rohan: insensível e distante, com o olhar embaciado, de aspecto curvado, despenteado, desleixado. Quem o encaminhara para aquele estado lastimoso foi Gríma Wormtongue, o seu conselheiro maledicente. Falando-lhe ao ouvido, Gríma ia envenenando o espírito do Rei Théoden contra todos os que o rodeavam, incluindo a sua família. Fazendo do rei uma marioneta da sua vontade, o poder de Gríma crescia sobre o reino de Rohan. E quando Théoden agia mal, Gríma validava a sua conduta quase como se fosse o ChatGPT. Um dia, chegou o bom feiticeiro Gandalf à presença do rei e fez três coisas para o salvar: afastou-o do mau conselheiro, lembrou-lhe quem ele era e, por fim, trouxe-o para o ar livre onde podia olhar para a sua terra e respirar bem fundo. O que Gandalf fez a Théoden é o mesmo que Tolkien sugere que façamos a nós próprios: deixar de lado aquilo que nos turva o pensamento, ouvir os amigos, recuperar a liberdade, sair e voltar a respirar o ar livre. Encarando a realidade, vemos com clareza a urgência de tomar novas decisões. Noutra narrativa, Harry Potter depara-se com Dementors, umas criaturas que sugam a felicidade e a alma das pessoas quando delas se aproximam e, como Judas, podem fazê-lo através dum beijo. O que mais existe nas redes em que se enreda o tempo da nossa atenção são perfis de pessoas e de robots assim. Mas se sairmos para o mundo real, podemos recordar o Génesis, onde “Deus viu que isto era bom”.

 

Os limites das narrativas

Em entrevista recente, o músico Brian Eno lembrava-se da infância em que pintava muito com aguarelas. Ao fim de um dia de pinturas, a água onde lavava os pincéis ficava sempre daquela cor horrível e sempre igual, uma mistura de roxo e castanho a que chamava de “munge”. Hoje, por mais que se esforce em dar as instruções certas ao ChatGPT e por mais que a respostas até sejam interessantes, todo o resultado está coberto de “munge”. É tão fantástico ver uma máquina produzir aqueles resultados como é ver um cão caminhar apenas nas suas patas traseiras. Mas para uma pessoa, caminhar assim é pouco. A inteligência artificial vai buscar a informação a muitas fontes, mas a sua resposta é excessivamente digerida: uma aguadilha “munge”.

Ainda sobre as narrativas da nossa política, cada candidato gostaria de encarnar um super-herói em contraste com o vilão do seu adversário. Além do costumeiro D. Sebastião que sempre esperamos entre as incertas névoas dos dias, desfilam diante de nós um rol de Velhos do Restelo, de Generais Sem Medo, de Maiorias Silenciosas, de Magriços e de Viriatos. O mesmo indivíduo que para uns é um de três Salazares, para outros é um dos quatro Cavaleiros do Apocalipse. Outra personagem do nosso quotidiano queria que perdêssemos “a vergonha de ir buscar dinheiro a quem está a acumular” – uma versão deturpada do imaginário de Robin dos Bosques. E lá fora, vimos na campanha municipal de Nova Iorque um Andrew Cuomo a falar como o Batman na sua Gotham. Batman está do lado dos mais frágeis, mas conhece os mais fortes porque é um deles. O outro candidato era Zhoran Mamdani, demasiado millennial para a sua condição vantajosa ser um problema, e apresentou-se mais como um Zorro que compreende as reais ânsias do povo e está ao lado da gente dos bairros satélites contra os abusos dos oligarcas da Manhattan solar – essa Gotham da qual Batman faz parte. Mario Cuomo, pai de Andrew e tal como ele um ex-Governador de Nova Iorque, disse famosamente que as campanhas eleitorais se fazem em poesia e que depois se governa em prosa. Mamdani venceu as eleições, mas agora terá de baixar um pouco as expectativas que gerou e mostrar que não tem superpoderes que se imponham à realidade. É que por melhor que seja a narrativa, no fim é a realidade que sempre se impõe.

Também os partidos adoptam narrativas para se posicionarem. Tal como os móveis IKEA, também a social-democracia veio da Escandinávia e instalou-se um pouco por todas as casas políticas portuguesas, desde o Largo do Rato à Rua da Palma com passagem pela Lapa. Mas os posicionamentos enganam: nem o CDS é de centro, nem o Chega é conservador, o PSD é popular democrático, o PS é que é social-democrata, a esquerda do Bloco pode ser muita coisa, o Livre e a IL são duas concepções distintas e pouco consensuais de liberalismo, o PAN e o JPP são nomes sem carga ideológica. Entre os partidos portugueses, só o Partido Comunista tem um nome claro que corresponde à sua realidade – porém, só se apresenta a eleições em formato CDU. Em Portugal, os partidos estão com as âncoras ideológicas levantadas e deixam-se ir por onde a corrente do momento as leva.

“The Duke of Wellington at Waterloo” (1892), de Robert Alexander Hillingford

As narrativas têm as suas distorções e limites. Se o regresso de Trump à Casa Branca é como o regresso de Napoleão depois do exílio na ilha de Elba, então quem será o seu Wellington e quando será o seu Waterloo? Todas as narrativas têm limites, e por vezes não ajudam à compreensão da realidade. Ouvi um dos candidatos derrotados às últimas eleições do Benfica dizer “eu sou como Jesus Cristo: trinta anos no anonimato, agora é até à morte”. O exagero narrativo é de uma enorme infelicidade.

 

Como responder à confusão das narrativas

Voltando ao primeiro parágrafo deste artigo, o telemóvel é um objecto muito útil porque é um canivete suíço da tecnologia. O canivete não tem a melhor faca, nem tem o melhor saca-rolhas. A vantagem do canivete é ter várias funções combinadas e serve para nos desenrascar num momento de aperto, mas se quisermos abrir um vinho velho temos de procurar o melhor saca-rolhas e usá-lo sem pressa. A solução para este problema é deixar o telemóvel mais vezes de lado. Se queremos ver as horas, então olhemos para o relógio de pulso e deixemos o telemóvel no bolso. Se queremos fotografar o nosso passeio, nada como trazer a máquina fotográfica e deixar o telemóvel. Se queremos enviar um e-mail não urgente, esperamos por estar diante do computador. Ver um filme ou uma série? Mais logo, na televisão. Podemos deixar o canivete e o telemóvel para os improvisos e dar a cada momento do dia um pouco mais de importância.

E como sobreviver à confusão das narrativas em que estamos imersos? Na verdade, temos de perceber a história em que estamos metidos.  Encarando sabiamente a sua cegueira, o escritor Jorge Luis Borges dizia que tal condição lhe permitia viver os sonhos com menos distracções. De igual modo, lembro uma senhora muito querida que conheci já velha e cuja esperança não vinha tanto dos livros que leu, mas da terra que cultivou, da sua família e da fé. Faltando-lhe a visão e as pernas, não lhe faltou o terço sempre na mão e um bondoso sorriso na cara. Esta riqueza do mundo interior não se cultiva nas horas diárias que perdemos diante dos ecrãs. Se queremos chegar a velhos com um tesouro de vida, temos de dar mais atenção a interesses que nos realizam enquanto pessoas. Temos, por exemplo, de levar as crianças à floresta para brincar, subir às árvores, perseguir pistas de animais, descobrir plantas e cogumelos. Temos de ler um bom livro, e depois outro. Precisamos de voltar à igreja. De rezar. Abrir com amigos uma boa garrafa de vinho. Ver um bom filme. Visitar museus, ir a exposições e a concertos. Encarar o vizinho e desejar-lhe um bom dia. Envolver-nos numa associação. Fazer exercício. Escutar quem nos procura e procurar quem admiramos. Elevar o olhar quando caminhamos na rua. Abraçar a mulher, os filhos, os pais e os amigos. Em suma, precisamos de preencher a nossa liberdade com bons valores.

Para sobreviver à confusão das outras narrativas, primeiro temos de dar atenção ao que mais importa na nossa história. E não querendo alongar ainda mais este texto, apenas me resta agradecer muito pela sua atenção.

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