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quinta-feira, 23 de dezembro de 2021

mais revolução, não!

 (publicado originalmente no Observador e também no Ingovernáveis)

Cuba Libre

Separados, gosto de um bom rum e por vezes também da Coca-Cola com gelo e limão. Vê-los juntos num Cuba Libre, nem tanto. A meu ver, reduz-se o que há de melhor num e noutro: perde-se a consistência suave do rum e tapam-se os seus aromas mais finos com os grosseiros duma cola que, entretanto, perdeu o seu gás e frescura. Mas quando oiço alguém a dar vivas a “la Revolución!”, o meu primeiro impulso é pedir um Cuba Libre. Tudo é melhor que a revolução, até essa mistura. É verdade que o Cuba Libre é mais antigo que Fidel e remonta ao fim da Guerra Hispano-Americana que em 1898 – ano traumático para Espanha – resultou na perda espanhola não só de Cuba como de Porto Rico e das Filipinas, além de outros territórios menores. Mas por causa da revolução de Fidel sessenta anos depois, a família Bacardi mudou o negócio para o estrangeiro e a empresa Havana Club foi nacionalizada, estando a Coca-Cola e a Pepsi proibidas em Cuba. Por causa do embargo, também os norte-americanos estiveram durante décadas privados dos runs cubanos. Embora a Cuba Libre – a bebida – não seja para mim uma perda importante, é sempre lamentável uma limitação das possibilidades de escolha. Eu não aprecio, mas há quem goste; que lhes faça bom proveito!

 

Dois discursos

No passado 25 de Abril o Presidente Marcelo Rebelo de Sousa fez o tradicional discurso na Assembleia da República. Não lhe prestei logo atenção, mas ouvi boas críticas nos dias seguintes. Umas semanas depois ouvi um outro discurso com mais atenção, um discurso que me fez voltar ao de Marcelo e valorizá-lo. No dia 13 de Maio celebravam-se os 700 anos da fundação da Cidade do México. O presidente mexicano Andrés Manuel López Obrador convidou a ex-presidente brasileira Dilma Rousseff e fez um discurso que narrou de modo marxista a História do México. Desvalorizou a crueldade azteca mas valorizou a brutalidade espanhola, em que índios e pobres foram escravizados e explorados pelos brancos, espanhóis, norte-americanos, nobres, burgueses, capitalistas, conservadores e liberais. Para López Obrador, a independência do México fez-se a pensar nos mais pobres e humilhados, e a Revolução Mexicana de 1911 (sem referência aos Cristeros) foi para ele “um acto de justiça e a primeira revolução social do mundo”. Depois, recorda comovido os anos 1935-1983 como dourados, onde, mesmo que houvesse pobreza, pelo menos havia sonhos; e aponta como negro o período neoliberal e pessimista pós-1983, do qual ele resgatou o México em 2018 para um novo período de ânimo e esperança.

Este discurso não podia contrastar mais com o de Marcelo. Onde López Obrador promove divisões naquela velha lógica da luta de classes, Marcelo é alguém que procurou a inclusão e compreensão das várias facções que estiveram em confronto na nossa História recente, dando a cada uma razões de ser. A História não é tão simples como uma luta entre heróis e vilões, entre os certos e os errados; pelo contrário, a História é muitas vezes complexa e as pessoas que estiveram dum lado e do outro tiveram bons argumentos para terem estado onde estiveram ou ainda estão. É por isto que o discurso de Marcelo foi extraordinário: deu finalmente sentido à história de cada português, sem excluir ninguém. Portugal há só um, mas não há apenas uma forma de se ser português. Ou nas suas palavras, “Houve, há e haverá sempre um só Portugal. Um Portugal que amamos e nos orgulhamos para além dos seus claros e escuros também porque é nosso.”

O marxismo de López Obrador, mesmo que mais simbólico e no plano cultural que Gramsci idealizou, não deixa de ser revolucionário e faz a luta na mente das pessoas que não deixam de ser postas em confronto, umas contra as outras. A mentalidade passa a ser de luta, a tal luta de classes entre explorados e exploradores. Foi assim na Revolução Sexual dos anos 60, ou no Maio de 68 em França, ou até nos dez anos de Revolução Cultural Chinesa (1966-76) que sob o slogan “aprender a revolução fazendo a revolução” destruiu não só os símbolos da tradição mas purgou, torturou e matou multidões.

 

Lembrando Roger Scruton

Era precisamente durante aquele Maio de 68 que estava em Paris o jovem Roger Scruton (1944-2020), filósofo inglês que partiu no início do ano passado e um dos expoentes do pensamento político e estético no último século. Em “Como ser um Conservador” (Guerra e Paz, 2018), Scruton explica como o choque desta revolução cultural o leva a questionar as coisas que queria conservar e que os revolucionários não valorizavam na sua política de terra queimada: “O Maio de 68 levou-me a compreender o que valorizo nos costumes, nas instituições e na cultura da Europa. (…) Para meu espanto, os soixante-huitards estavam ocupados a reciclar a velha promessa marxista de uma liberdade radical, que chegará quando a propriedade privada e o Estado de direito «burguês» forem abolidos. (…) A liberdade real, mas relativa, tem de ser destruída em nome da sua sombra ilusória, mas absoluta. (…) A lei, a ordem, a ciência e a verdade são meras máscaras da dominação burguesa, já não interessa o que se pensa, desde que se esteja do lado dos trabalhadores na «luta»” (págs. 19-20).

 

A revolução mais completa

Sem sairmos do sítio, podemos recuar à mãe de todas as revoluções: aquela que começou em 1789 e chamamos de “Revolução Francesa”. Mas terá começado realmente em 1789? De facto, a fortaleza da Bastilha foi tomada a 14 de Julho desse ano, mas o caldo cultural já existia, tanto por causa das ideias iluministas como por culpa dum generalizado imobilismo do regime de Versailles e consequente desfasamento da realidade social e económica em França. O último príncipe de Lampedusa quase teve razão ao escrever no seu “Il Gattopardo” que “tudo tem de mudar para que tudo fique na mesma”. Talvez não tudo, mas alguma coisa, aquilo que for preciso, aos poucos e sem viragens bruscas mas sempre recusando o imobilismo. Porque como notava Edmund Burke (1729-1797), um Estado sem meios de alguma mudança é um Estado sem meios de conservação. Duma revolução, são culpados os revolucionários como também os imobilistas da situação que, por falta de reformas, tornaram a revolução próximo do inevitável. Não é por acaso que Burke se refere à Revolução Francesa como “a Revolução em França” quando escreve as suas Reflexões. De facto, partindo da análise em 1790, as suas reflexões são válidas para outras revoluções também. Na Introdução à edição da F. C. Gulbenkian (2015) das “Reflexões sobre a Revolução em França” de Edmund Burke, a Sra. Professora Ivone Moreira escreve que “Burke caracteriza a Revolução em França como a primeira revolução intelectual, concebida e desenhada teoricamente e levada a cabo com a arrogância e presunção de quem não nutre qualquer tipo de apreço pelo que gerações anteriores construíram” (págs. 35-36). Três anos antes de Luís XVI ter sido decapitado, já Burke antecipava “que o sofrimento de reis é um repasto delicioso para certo tipo de paladares” (pág. 131) e também a violência e instabilidade que iria haver. 

Como se viu depois, a Revolução Francesa passou por várias fases pelas quais outras revoluções passaram também: uma fase moderada, uma fase radical e de terror, uma fase conservadora e eventualmente reaccionária, e uma fase de síntese – no caso francês, liderada por Napoleão. Estas fases não acontecem necessariamente por esta ordem, nem todas as facções têm de passar pelo controlo do poder, mas todos estes factores estão em jogo em qualquer revolução. Por isso, as revoluções mudam de mãos e de donos com muita facilidade. Independentemente dos valores que cada revolução quer promover ou acaba por promover no regime que se lhe segue, proponho que olhemos por um momento apenas para as consequências gravíssimas de uma revolução. Quem começa uma revolução, nunca sabe como é que ela acaba. E pelo caminho, poderá haver destruição, prisões, mortes, ocupações, fugas para o exílio, crise económica e social, instabilidade política…

 

Reformas em vez da revolução

Há revoluções mais daninhas que outras, sobretudo se olharmos para os resultados. O que é incontroverso é que as revoluções são sempre experiências dolorosas para muitos. Uma reforma, uma mudança no tempo certo, um ajustamento dentro do Estado de Direito, é sempre preferível a uma revolução. Podemos contrastar os excessos do PREC à relativa tranquilidade da transição espanhola para a democracia. Não teria sido preferível que os líderes do Estado Novo tivessem preparado atempadamente, como se fez aqui ao lado, uma transição para a democracia em Portugal? Certamente se teriam poupado muitos problemas que a revolução trouxe, desde as ocupações no Sul à descolonização apressada, ou desde a violência política de rua à grave crise económica. Em Espanha a transição foi um sucesso até 2004, quando chegou à Moncloa o primeiro-ministro José Luís R. Zapatero e começou a mexer na lei da memória histórica, reabrindo desta forma no povo espanhol uma ferida quase sarada. Esse filão continua a ser explorado hoje.

A Batalha de Ponte de Ferreira (1832) opôs liberais e miguelistas,
durou 12 horas, morreram 2 mil pessoas, desfecho sem vencedores.

Nos últimos 200 anos, tivemos em Portugal várias revoluções: a liberal de 1820 que culminou na independência do Brasil e na Guerra Civil de 1832-34, a Revolução Republicana de 1910 precedida do regicídio e que nos encaminhou para La Lys e outras carnificinas da Grande Guerra, a de 28 de Maio de 1926 que abriu caminho ao Estado Novo, e a do 25 de Abril de 1974 que depois se acabou coseu com as linhas de 25 de Novembro de 1975. E mesmo que essas revoluções tenham trazido progressos – e umas foram melhores que outras – fizeram-no a custo de quê? Fez-se, entre outras coisas, de guerra civil que virou irmãos contra irmãos, de perda de territórios, de perseguições à Igreja e às associações, de limitação das liberdades individuais, de ocupações de terras, de pobreza e crises económicas, de racionamento, de recolher obrigatório, de terror… por todas estas coisas passámos enquanto povo. No entanto, vem sempre alguém com a mania que é mais puro, que desta vez é que é, e por isso sugere uma nova revolução – seja ela física ou metafórica. Como as revoluções são o pior que nos pode acontecer e há sempre alguém disposto a oferecer-nos mais uma, a única defesa possível é o regime ter a coragem de se ir antecipando, reformando e adaptando a sua resposta às necessidades da população, sempre preservando o Estado de Direito. Em alternativa, a rigidez do regime e o voluntarismo dos revolucionários tornarão inevitável uma revolução que virá e fará tabula rasa de tudo o que existe: tanto do mau como do bom. Dizia Montesquieu que o governo despótico consiste em, quando se quer fruta, cortar uma árvore e apanhá-la. Esse elemento de barbárie está presente em cada revolução.

 

Por fim, resta-me dizer que as reformas não devem ser feitas a pensar tanto nos revolucionários e nas suas reivindicações, mas sobretudo naqueles que se sentem excluídos da sociedade e nos factores que os levam a, em desespero, ponderar o voto nos extremos. Terá sido a pensar neles que, quem sabe tomando um Cuba Libre, Marcelo escreveu o seu discurso.


a política portuguesa em 2 cartazes

 (publicado originalmente no Observador e também no Ingovernáveis)


Imagine um cartaz

Carlos Moedas é o candidato apoiado por PSD, CDS e outros cinco partidos à Câmara Municipal de Lisboa. Irá enfrentar Fernando Medina, que presidiu à CML nos últimos seis anos e ainda não apresentou candidatura – apenas marcou posição ao dizer que José Sócrates “corrói a nossa vida democrática”. Nas últimas semanas, Moedas apresentou-se aos lisboetas num cartaz que podemos encontrar pela cidade. Aparece sem gravata mas de braços cruzados, deixando cair uma suposta formalidade para, involuntariamente, erguer outra barreira entre ele e nós. A fotografia não é tão boa que justifique que a sua cabeça saia da moldura do cartaz, mas é aceitável e o azul sempre transmite serenidade. O mais importante é aumentar o reconhecimento do candidato, missão cumprida. A mensagem é que não é ideal. “Lisboa pode ser muito mais do que imaginas” diz-nos várias coisas:

  • O candidato quer tratar o eleitor por tu;
  • Ele reconhece que Lisboa até está bem, mas que tem um potencial escondido e desaproveitado;
  • Ele acha que o eleitor tem pouca capacidade de imaginação.

É trágico. Por onde começar? Se o candidato me vem pedir votos sem gravata já torço o nariz e estranho, mais ainda, se me quer tratar por tu, mas, enfim, encolho os ombros e acabo por aceitar que é por ali que vão as modas.

As palavras de imaginação são mágicas em comunicação política. Dizer “imagine isto” é trazer o eleitor imediatamente para dentro do mundo do candidato, um mundo que, por sua causa e por causa das suas soluções, será um mundo melhor. Mais poderoso ainda, é conseguir convidar o eleitor a participar desse sonho, tal como fez Martin Luther King. Porém, mencionar a imaginação para dizer que o eleitor não chega lá sozinho, é queimar este instrumento político e dar um tiro no pé.

Coxo, este cartaz dá a entender que Lisboa até está benzinho, o que não é mentira, mas dá desnecessariamente um ponto ao adversário. O candidato deve ser mais afirmativo e pôr ênfase naquilo que ele fará melhor, no tal potencial que quer explicar que falta cumprir. Estando atento ao percurso de Moedas, posso esperar que ele queira fazer de Lisboa uma cidade melhor para as empresas e para a ciência, mais inovadora, mais smart, mais cosmopolita. Esse seria o seu ponto forte, é essa a visão que lhe pode trazer alguma vantagem sobre Medina.

O cartaz da vergonha

Num outro cartaz, junto à Assembleia da República, o Chega pôs uma grande fotografia a preto e branco da cara de José Sócrates e o hashtag garrafal #Vergonha. É um cartaz populista e perverso – já lá vamos –, mas também muito simples e eficaz. Bastam a palavra carregada de incómodo político e a imagem do pior Primeiro-Ministro da História recente de Portugal para transmitir a mensagem do Chega neste momento cirúrgico do julgamento de Sócrates nos tribunais.

Quis o destino, que a decisão do Tribunal Central de Instrução Criminal sobre o processo da Operação Marquês caísse em plena crise económica e social, com muitas pessoas e empresas a passarem por enormes dificuldades ao saírem da terceira vaga da Covid-19. É sobretudo nestas circunstâncias, que uma sociedade pode cair na tentação de arranjar um bode expiatório para sacrificar e, no seu sofrimento, encontrar uma válvula de escape das tensões que foram enchendo a panela de pressão. André Ventura tem ensaiado esta técnica quando aponta para os ciganos ao falar de criminalidade, ou quando sugere a castração para crimes escabrosos que – lá está – nos pede para imaginar.

Este uso das emoções mais básicas de quem está desiludido com a vida, este acirrar de discurso através da boçalidade, esta confusão propositada entre a política e a justiça e este desrespeito pelo Estado de Direito são os ingredientes elementares do populismo. Quando governava, o também perigoso populista José Sócrates pôs em marcha um plano de domínio completo da nossa sociedade, através da colonização dos media, da Justiça e de toda a máquina do Estado; controlando os freios e contrapesos, o seu poder seria quase absoluto. Mediante provas, Sócrates deve ser julgado e merece tudo aquilo que a Justiça lhe der. O combate político contra Sócrates nunca deveria ser judicial ou condicionando a Justiça, mas isso é o que Sócrates e Ventura querem. Por razões diferentes, ambos estão juntos neste ataque ao Estado de Direito: Ventura quer que a Justiça nos vingue politicamente contra aquele político ou aquela classe de gente; e Sócrates quer mostrar que, mais do que um político preso, foi um preso político.

Andrew Jackson, sétimo presidente dos EUA (1829-37) é uma referência para os populistas, não só por se ter apresentado como homem comum que luta contra a corrupção das elites, mas por, em nome do povo, ter contornado as regras estabelecidas. Em 1832, após uma decisão do Supremo Tribunal sobre assuntos relacionados com os Índios Cherokee, da qual o Presidente não gostou, ele terá desafiado os juízes a aplicar a lei que assinaram, se conseguissem. Conseguimos, nós, imaginar Ventura a fazer o mesmo?

Mais uma achega

Entretanto, um PSD nostálgico pelas últimas autárquicas em Loures anunciou, através do seu secretário-geral, José Silvano, uma candidata à presidência da Câmara Municipal da Amadora. A comentadora de TV Suzana Garcia, assim com Z de Zorro, é mais uma candidata que se destaca por querer uma Justiça justiceira em vez de justa, para além do seu estilo de discurso mais condizente com o Chega. A propósito de algumas posições mais radicais da comentadora matutina, José Silvano afirmou, algo constrangido, como quem se desculpa, que Suzana Garcia é candidata à Câmara Municipal da Amadora e “não se candidata à Assembleia da República para legislar”. Bom esforço, senhor deputado. Esta distinção é importante, obviamente não para validar o temperamento e ideias de Suzana Garcia, mas para eu voltar a Carlos Moedas.

Não gostaria de votar em Carlos Moedas para me representar enquanto deputado nacional ou europeu, precisamente por ele ser de uma linha muito mais euro-entusiasta e federalista europeia do que eu sou. No entanto, isso pouco ou nada conta no cargo autárquico a que concorre. Pelo contrário, reconheço em Moedas uma pessoa séria, competente e educada. Moedas é decente. Medina também. Não votarei em Medina, porque discordo do poder sufocante que deu a uma EMEL que serve mais o orçamento da Câmara do que os Lisboetas ou o seu estacionamento e mobilidade. Discordo, também, da desertificação dos bairros históricos – noutros tempos, estes bairros foram populares! – que em muito se deve à lentíssima resposta de regulação do alojamento local perante o boom do turismo em Lisboa. E fico-me por aqui, pois honra seja feita, também melhorou os passeios e alindou alguns jardins.

Não votarei em Medina, mas estou disposto a ouvir o que Moedas tem a dizer sobre urbanismo, transportes e circulação, cultura, impostos municipais, segurança, turismo. Até agora não lhe ouvi uma ideia concreta, mas a campanha ainda está a aquecer motores e estou atento.

Resumindo, em dois cartazes o que é que temos? Primeiro o que não temos: a esquerda, silente sobre as autárquicas, apenas se afasta q.b. da toxicidade de Sócrates. O cartaz de Moedas e a entrada em falso dos candidatos liberais mostra uma direita civilizada que diz que existe, mas é desajeitada e anda ainda à procura da sua relevância. O cartaz do Chega é um calhau robusto atirado por hooligans contra o Estado de Direito. Em dois cartazes, este é o estado da nossa política.

em defesa da grandiosidade de Portugal

(publicado originalmente no Ingovernáveis)


 A 11 de Novembro foi publicado aqui no Ingovernáveis uma interessante reflexão de João Diogo R. P. G. Loureiro intitulada “Great Again: nota incompleta sobre a «grandeza» dos países”. O texto versa sobre a finalidade dum país, o que dele esperamos e a qualidade da sua resposta. Venho com esta resposta concordar com algumas premissas ali expostas, discordar doutras e, onde posta em causa a grandiosidade de Portugal, defendê-la.

Estou com o clichê: Portugal é um pequeno grande país. Mas tenho de esclarecer a priori que entendo o grande de “great” como grandioso. Quando o presidente cessante dos EUA diz querer tornar a América “great again”, ele não estará a propor conquistar novos territórios ao México ou ao Canadá para aumentar a grandeza do seu país, mas apela à recuperação duma suposta grandiosidade perdida. A grandeza dum país remete-nos para dimensões relativamente tangíveis, apesar dos quilómetros quadrados de terra até serem mais quando a maré está baixa, e da medição de linhas costeiras e fronteiras terrestres serem tão mais extensas quanto menor fôr a régua com que as medimos. Mas a grandiosidade remete-nos para valores inequivocamente intangíveis.

Os Doze de Inglaterra (1966) por Jaime Martins Barata

Embora tenhamos em comum a admiração por Aristóteles, começo como Platão no início d’A República por descer ao Pireu, isto é, proponho sairmos da Acrópole das considerações mais ideais e exigentes para retomarmos o argumento em questões mais comezinhas. Em vez de analisarmos o que é “great” e se nos podemos considerar “great”, gostava de começar por defender a utilidade de sermos ou de nos vermos como “great”. 

Em “After Virtue” (1981), Alasdair MacIntyre sugere que só podemos responder à pergunta «o que devo fazer?» se antes conseguirmos tratar a questão «de que história ou histórias é que eu faço parte?». Eu não escolhi nascer nesta família e em Portugal, no entanto assumo o meu apelido e a minha portugalidade. Como português de Portugal, faço parte duma narrativa com pelo menos 9 séculos de História; como cristão, faço parte doutra narrativa com 2 mil anos de História – e na verdade, essas histórias são ainda mais antigas. Agarro nessa tocha que os meus pais me passam e mantenho-a bem acesa até a entregar aos meus filhos. Mas a história não é perfeita: está cheia de glória e traição, acertos e erros, virtudes e pecados. E como todas as histórias, tem uma trama, problemas para resolver, heróis e vilões. Eu posso escolher não fazer parte da narrativa, poderia abandoná-la e procurar um outro país. Mas então, eu teria um papel a desempenhar noutras histórias e lealdades a forjar noutras comunidades.

Não escolhi nascer português, mas escolho continuar português. Portugal tem a história grandiosa dum país grandioso. É discutível? Sim, e poderíamos concentrarmo-nos em falhas e acidentes de percurso, aos quais prontamente contraporia com um rol já conhecido de feitos fantásticos. Mas essa discussão sói ser um beco sem saída, de interesse relativo. Este País, que tem a felicidade de ser também um Estado e uma Nação, tem uma cultura riquíssima que não só não renego, como assumo com orgulho. A grandiosidade dum país não serve para se medir com a doutro e ver qual deles é o maior, mas é útil para ver se é o melhor para mim e até que ponto me identifico com aquela comunidade e se posso contribuir na construção do seu Bem Comum. O meu país, a minha família, a minha comunidade, são os melhores do mundo para mim. A grandiosidade de Portugal até pode ser chamada de mito, porém o mito é uma história simbólica baseada em factos e características reais do povo português, que nos permite ler a realidade e compreender o nosso papel e missão na História. Mais que aferir se Portugal é realmente “great”, interessa-me reconhecer que a ideia dum Portugal “great” dá propósito e sentido à minha vida em sociedade. Tanto quanto melhor reconhecer a bondade do meu país, mais me sinto obrigado a corresponder aos meus compatriotas. É certo que para aceitar Portugal no seu todo, tenho de ser consequente e reflectir sobre alturas em que o país atravessou “profundas injustiças económicas, sociais ou culturais”, mas penso que seria um erro fazer depender a grandiosidade dum país apenas de critérios contemporâneos.

Os critérios de grandiosidade terão de ser outras virtudes. Um caso paradigmático é o do General Robert E. Lee que comandou as forças confederadas na Guerra Civil Americana. Hoje é consensual que a União liderada por Abraham Lincoln e Ulysses Grant estava do lado certo da História, mas será correcto negar todo o valor ao General Robert E. Lee e a tantas pessoas por terem estado do outro lado que perdeu? O General Lee não tinha escravos, era contra a escravatura e não queria a secessão. No entanto, diante da inevitabilidade da guerra, preferiu estar do lado confederado porque considerou que devia lealdade em primeiro lugar ao seu Estado da Virgínia e não concebia a hipótese de erguer armas contra os seus familiares e vizinhos. Apesar de estar do lado errado da guerra, a atitude do General Lee merece a nossa admiração e parece-me que o seu sentido de comunidade é, apesar de tudo, um excelente candidato à categoria de “great”.

O recontro de Valdevez (1916) por Jorge Colaço

Voltando ao título deste artigo, Portugal é grandioso. Não tenho dúvidas que é. Talvez o título induza o leitor em erro, pois não me detive muito no porquê e mais na utilidade de o ser. Podemos olhar para Portugal e dizer como Agostinho da Silva que a Galiza é a noiva que connosco ficou por casar, ou podemos pensar em Eduardo Lourenço e supor que estamos, ainda e continuamente, sempre a caminho da Índia, como se esse fosse o maior contributo que demos ao Mundo – e essa, já ninguém nos tira. Podemos olhar para as presentes misérias e lamentar o nosso triste fado, ou olhar para o fim do nosso império e para a transferência gradual da nossa soberania para Bruxelas e acharmo-nos presos na cauda da Europa e limitados na capacidade de nos realizarmos enquanto país. Mas apesar de tudo isso, se amarmos Portugal, estamos a reconhecê-lo como grande no nosso coração e, então, estamos a cumpri-lo. Resta-me remeter para Luís de Camões, que cantou não só como fomos “great” nos feitos até ao século XVI, mas leu a grandiosidade da alma deste povo que, na essência, até hoje não mudou. E se podemos divergir em perspectivas políticas sobre a igualdade, a liberdade e a justiça, não me parece difícil concordarmos com o princípio que só com um grande povo é que se faz um grande país.

Margaret Thatcher e o apartheid

(publicado originalmente no Ingovernáveis)

 


“The Crown” foi a série que me fez abrir a Netflix pela primeira vez. Escrita e produzida por Peter Morgan, já vai na 4ª temporada e 40 episódios que acompanham a vida da Rainha Isabel II do Reino Unido desde a sua coroação até 1990. Muitas conversas e acontecimentos são romanceados para efeitos narrativos, mas é uma série bem feita que nos faz rever personagens que marcaram a História, desde Winston Churchill a Margaret Thatcher, Chefes de Estado estrangeiros e vários elementos da Família Real. Destaque positivo para o guarda-roupa, os cenários e os diálogos. A 4ª temporada era por mim esperada, pois há anos que me interesso pela pessoa fascinante de Margaret Thatcher e fui comparando os episódios onde aparece com os acontecimentos descritos por Charles Moore na longa biografia oficial (3 volumes: III e III) que publicou sobre a Dama de Ferro. Foi a Senhora Thatcher quem lhe pediu para ser o seu biógrafo, deixando-se entrevistar, indicando contactos que o podiam ajudar a montar o puzzle e dando-lhe acesso a todos os documentos pessoais. A única condição de Margaret Thatcher era que os livros só saíssem depois da sua morte, dando desta maneira ao biógrafo a liberdade de fazer alguma reflexão crítica onde achasse necessário. 

No segundo volume biográfico, há um capítulo "Against Queen and Commonwealth" só sobre a questão da África do Sul que é tratada no 8º episódio da 4ª temporada da série "The Crown". Este capítulo explica detalhadamente qual era a posição de Margaret Thatcher sobre o apartheid, a Commonwealth e o interesse britânico. Segundo Charles Moore, Thatcher nunca apoiou o apartheid e foi a primeira PM britânica (1979-90) a pedir a libertação de Nelson Mandela, que estava preso desde 1964. A Senhora Thatcher estaria muito bem informada sobre o que se passava no governo da África do Sul, pois tinha relatórios dos serviços secretos que contava inclusivamente com informações de ministros do governo de P.W. Botha, de vários políticos e empresários, e do conselheiro Laurens van der Post que era amigo chegado de Thatcher e do Príncipe de Gales – foi o padrinho do Príncipe William. Estas informações e conselhos permitiram-lhe perceber que:

- o regime do apartheid era brutal, desumano e tinha de acabar;
- no entanto, havia mais de 800 mil britânicos na África do Sul, e importantes laços comerciais e financeiros a defender;
- desde que a África do Sul se tornou uma república em 1961 e desde que o seu fundador Hendrick Verwoerd montou o apartheid, que a política do país estava entregue aos descendentes dos Boers que tinham perdido as guerras com os ingleses no fim do século XIX e início do XX. Isto significava que, um confronto aberto de Thatcher com o seu interlocutor P.W. Botha poderia ser contraproducente devido aos velhos ressentimentos entre Boers e ingleses. Nesse aspecto, era um problema diferente do da Rodésia/Zimbabwe;
- Thatcher achava que devia pressionar P.W. Botha em privado, como fez, e tirar partido de ser uma dos poucos chefes de governo com quem o regime isolado de Pretória podia falar (outro era o chanceler alemão Helmut Kohl). Em privado, pressionou-o para acabar com o apartheid, para libertar Mandela, para admitir inspectores das Nações Unidas no país, etc.;
- era do interesse inglês que a necessária mudança de regime na África do Sul fosse protegida da influência soviética no ANC, que os cubanos saíssem de Angola, e que Moçambique e Botswana estivessem estáveis. 

Isto explica que Margaret Thatcher tenha agido de forma mais discreta do que muita gente gostaria, embora de forma muito práctica e influente. Aí, "The Crown" apresenta uma versão simplista, como se a Senhora Thatcher tolerasse ou até gostasse do apartheid, que pelo contrário repudiava. Já o seu marido Dennis era mais céptico em relação às capacidades de de Klerk e Mandela para uma transição pacífica. Mas Thatcher achou que de Klerk era o Gorbatchev daquele regime e que Mandela era capaz de evitar uma guerra civil. Em relação à sua resistência às sanções, tal devia-se por Thatcher considerar que elas não funcionavam e iam prejudicar mais os ingleses que os sul-africanos, mas também porque queria mostrar a Botha que podiam continuar a falar e assim pressionava-o em privado, como mostram as interessantes e duras cartas que os dois trocaram, bem como as notas que Thatcher fez das conversas que tinha com o seu homólogo sul-africano – de quem não gostava mas com quem sentia o dever de lidar. 

Por outro lado, "The Crown" parece captar bem a desconfiança de Thatcher em relação à Commonwealth, o que lhe causou atritos com a Rainha. Margaret Thatcher tinha interesse na velha Commonwealth que juntava o Canadá, a Austrália e a Nova Zelândia, e via com bons olhos a presença de países que queriam levar a sério a democracia, como a Índia. No entanto, impressionava-lhe que a Commonwealth fizesse vista grossa a certos regimes tirânicos e desrespeitadores dos direitos humanos, alguns dos quais eram membros da comunidade, enquanto se uniam tão facilmente para aplicar sanções e condenar a África do Sul a mais dificuldades e isolamento. Thatcher pensava que muitos dos membros da Commonwealth eram hostis ao Reino Unido e à Rainha e por vezes perguntava retoricamente aos seus ministros "porque é que continuamos a fazer parte desta organização?". A Commonwealth é um projecto onde a Rainha se empenha de forma muito pessoal, pelo que o seu desagrado a esta desvalorização de Thatcher era real.

O diferendo com a Rainha foi rapidamente ultrapassado. O grande problema foi Margaret Thatcher ter desautorizado o seu Secretário de Estado dos Negócios Estrangeiros Geoffrey Howe, que se sentiu humilhado e disse que Thatcher era "muito rude com a Commonwealth e muito simpática com o governo branco da África do Sul". Ele foi um dos arquitectos do complot que levou à sua destituição de líder do Partido Conservador, sendo substituída como Primeira-Ministra sem sequer ter perdido as eleições. Charles Moore, o biógrafo, dá a entender que Margaret Thatcher percebeu melhor que os seus pares e subordinados o que havia a fazer, mas nesse caminho fez alguns inimigos desnecessários que lhe custaram a liderança. 

“The Crown” é uma série de ficção de qualidade que vale a pena acompanhar, mas não a podemos tomar como uma versão definitiva da História. Em muitos casos, a série da Netflix especula sem danos de maior sobre o que terá acontecido. Noutros casos, como neste, são-nos apresentados factos errados que são facilmente desmentidos pela vasta documentação que está disponível e que o guionista preferiu ignorar. Em 2011, Meryl Streep fez um bom papel como Margaret Thatcher em “The Iron Lady”, mas é pena que o filme esteja sobretudo focado nos anos finais da sua doença de Alzheimer com declínio físico e mental. Em “The Crown”, Gillian Anderson encarna uma Senhora Thatcher curvada, de cabeça inclinada para o lado, com uma voz parecida mas muito forçada. Enquanto espero que venha um filme que faça justiça a Margaret Thatcher e a mostre no auge das suas faculdades e êxitos, resta-me recordá-la em discursos tão extraordinários como este de 1983:


Partido Republicano - ser ou não ser?

 (publicado originalmente no Ingovernáveis)

Eco e Narciso (1903) - John William Waterhouse

Eco e Narciso

Na mitologia grega, Eco era uma linda ninfa que gostava de caçar e de passear pelos bosques. Eco era também conversadora e fazia questão ter sempre a última palavra. Um dia, a deusa Hera suspeitou que o seu marido Zeus se andava a divertir com as ninfas e foi à sua procura no Monte Olimpo. Pelo caminho, Hera encontrou Eco que a tentou distrair com a sua conversa. Quando percebeu que Eco estava a tentar proteger Zeus com o seu discurso, Hera ficou furiosa e condenou-a ao silêncio, não lhe deixando começar mais nenhuma conversa e permitindo-lhe apenas repetir as últimas palavras que terceiros eventualmente lhe dirigissem. Eco sofria pelo discurso que perdera, mas um dia viu um rapaz chamado Narciso a caçar e imediatamente ficou encantada com a sua beleza. Queria falar-lhe, mas não conseguia. Cansado, Narciso aproximou-se dum lago para beber água e recuperar forças mas, olhando o seu reflexo, gostou tanto de se ver que ficou ali, imóvel, a contemplar-se. Eco tentou chegar perto de Narciso, mas ele rejeitou-a. Ambos estavam perdidamente apaixonados por ele. Este amor centrado num só vaidoso consumiu-os aos dois: Narciso definhou a olhar para o seu reflexo, e ao morrer transformou-se na flor branca que hoje mantém o seu nome; já Eco, também ficou presa à visão de Narciso, perdeu toda a sua beleza e envelheceu rapidamente, os seus ossos formaram pedras e de si apenas resta o som da sua voz estéril a repetir palavras por outros já ditas.


O problema de Sherazade

O fabuloso livro das “Mil e uma noites” começa por nos contar que um rei chamado Xabriar descobriu que a sua mulher lhe era infiel e matou-a a ela e ao amante. Ferido no orgulho, decidiu ainda que ia dormir cada noite com uma mulher nova que, ao amanhecer, matava também. E assim foi, noite após noite, mulher após mulher, até que conheceu Sherazade que era uma princesa muito bonita e com especial talento para contar histórias. Na primeira noite contou uma história que lhe prendeu a atenção, dizendo que contava o resto na noite seguinte se lhe poupasse a vida. Na noite seguinte concluiu a história, prometendo-lhe uma história ainda melhor na noite seguinte se Xabriar a deixasse viver. Um conto e mais um conto, noite atrás de noite, o rei Xabriar foi-se encantando com todas aquelas histórias cheias de novidade e emoções, e deu por si completamente apaixonado pela princesa Sherazade. O amor era recíproco. Ao fim de 1001 noites, Xabriar e Sherazade casaram e viveram juntos e felizes para sempre. As histórias de Sherazade continuam a fazer-nos sonhar hoje: quem nunca embarcou com Simbad o Marinheiro, ou ordenou a uma porta “abre-te sésamo!” como Ali Babá, ou esfregou teimosamente uma lâmpada como Aladim?


As eleições americanas

Não sei se Donald J. Trump será reconduzido a um segundo mandato ou se desta vez as sondagens estão certas ao dá-lo como derrotado nas eleições dentro de 3 dias. O que sei é que Jared Kushner, o genro do Presidente, cumpriu com a ameaça e fez um “full hostile takeover” ao Partido Republicano. O Partido Republicano de 2020 nada tem a ver com o Partido Republicano de 2015. Em 2020, o Partido Republicano abafou e afastou as vozes independentes e está totalmente domado por Trump. É a ninfa Eco, presa a este Narciso que apenas quer saber de si. Talvez o improvável se repita e Trump tenha mais 4 anos de mandato, mas o Partido Republicano ou o que sobra dele terá de se confrontar mais tarde ou mais cedo com a questão existencial: to be or not to be? O que é feito do Partido Republicano que ofereceu à América e ao Mundo presidentes tão brilhantes como Abraham Lincoln, Ulisses Grant, Teddy Roosevelt, Calvin Coolidge, Dwight Eisenhower, Ronald Reagan, entre outros? O Partido Republicano tem uma tradição de defender os interesses americanos, de respeitar as instituições, de privilegiar o poder local sobre o poder central, de querer impostos baixos, despesa e dívida públicas controladas, e forças armadas respeitáveis e respeitadas tanto por inimigos como pelos aliados. Era um partido que usava uma linguagem vibrante mas correcta e agregadora, e que defendia no conteúdo e na forma a decência, a moral e os bons costumes. Era um partido que tentava governar para todos os americanos e para o bem comum, não apenas para alguns e contra os outros. Por onde anda esse partido, alguém o viu? O Partido Republicano faz falta aos EUA e faz falta ao Ocidente. Quando Trump sair, este ano ou daqui a 4, o Partido Republicano terá de reconstruir a sua identidade a partir dos escombros deste terrível período da sua história, tal como fez depois de outro desastre chamado Nixon. Nessa altura, o Partido Republicano terá de olhar novamente para os americanos, encarar esse Rei Xabriar que se sente enganado e voltar a falar-lhe ao coração, encantando-os como Sherazade, contando-lhes boas histórias, reais e que fazem sentido, que dão esperança e fazem sonhar. O Partido Republicano precisa de se encontrar e de desenvolver uma nova narrativa para sobreviver e… viver. Mas se o Partido Republicano quiser continuar em modo Trump, sobretudo na sua forma divisiva de comunicar e de governar, então temo pelo seu e pelo nosso futuro.


um mundo sem misericórdia

(publicado originalmente no Observador e também no Ingovernáveis)


 por Alejandro Navas, Professor de Sociologia da Universidad de Navarra

(Nota do tradutor: o processo da lei da eutanásia em Espanha acompanha no tempo e na forma o processo da lei da eutanásia em Portugal. A argumentação de Alejandro Navas é muito pertinente e aplica-se perfeitamente ao nosso caso.)



A propósito de Heinrich Böll e o processo da lei da eutanásia em Espanha

Voltamos a debater a eutanásia, no seguimento da tramitação do correspondente projecto de lei por parte do Governo Espanhol. Os argumentos são conhecidos. Voltou-se a sublinhar que essa práctica contradiz o ethos médico, tal como se formula desde Hipócrates: antes de tudo, não fazer dano. Consequentemente, curar, aliviar e consolar. Há razões de ciência e consciência para nos opormos à pretensão de converter o médico em carniceiro. Se nunca esta praxis se justificou, o recente desenvolvimento da medicina paliativa torna-a ainda mais rejeitável: a suposta “procura social” que invoca o Governo para justificar a lei, expressa no fundo a necessidade de cuidados paliativos. Onde estes se aplicam, ninguém quer a eutanásia.

Com este texto, proponho-me abordar algum aspecto menos presente no debate actual, partindo das palavras do escritor alemão Heinrich Böll.

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Heinrich Böll e o seu diagnóstico

Nascido em 1917 em Colónia, Heinrich Böll é um dos maiores expoentes da narrativa alemã do pós-guerra. A sua família – pai trabalhador com mulher e oito filhos – arruinou-se durante a grande depressão dos anos vinte e trinta, o que marcou a sua infância e adolescência. A essa experiência inicial sobre a dureza da vida somar-se-iam a Segunda Guerra Mundial e os anos que lhe seguiram: foi soldado e prisioneiro de campo de concentração.

Böll tornou-se porta-voz autorizado das vítimas do desastre: converteu-as em protagonistas da sua obra narrativa e ajudou-as como activista social. Assim encarnou como poucos o tipo de intelectual de esquerda, comprometido com os mais vulneráveis e desfavorecidos. Essa opção pela denúncia crítica plasma-se de modo eminente na sua novela “Retrato de grupo com senhora” (1971), decisiva para conceder-lhe o Prémio Nobel da Literatura em 1972. Antes, já tinha recebido em 1967 o prémio Georg Büchner reconhecendo a sua trajectória.

Com o passar do tempo, foi ampliando o raio do seu activismo, tanto pelo compromisso dos seus temas (energia nuclear, meio ambiente, subdesenvolvimento do terceiro mundo) como pelo âmbito geográfico em que actuou (viajou a países como a Bolívia e o Equador para ajudar no terreno). Não é coincidência que tenha presidido nos anos setenta ao Pen Club International.

A sua obra desfrutou de êxito popular. Da sua novela mais difundida, “A honra perdida de Katharina Blum” (1974), venderam-se três milhões de exemplares. Böll não conta hoje com muitos leitores, nota-se que a sua literatura está muito marcada por um determinado ambiente social e que o mundo mudou muito desde então, mas a sua memória permanece viva através de instituições diversas. Por exemplo, o nome da fundação política vinculada ao partido dos Verdes na Alemanha. A cidade de Colónia criou em 1985 o prémio literário Heinrich Böll e numerosos colégios, ruas e edifícios públicos têm o seu nome.

Böll foi educado no catolicismo, mas o seu talento fustigador e denunciador também se dirigiu contra a Igreja, que abandonou oficialmente nos anos setenta (na Alemanha existe um imposto religioso específico: deixar de pagá-lo implica o abandono expresso da instituição, registado de modo oficial). Essa rejeição não o impediu de ponderar a relevância da fé cristã na sociedade. Em 1957 escrevia: “Prefiro o pior dos mundos cristãos ao melhor mundo pagão. Num mundo cristão há sítio para os que se veriam deslocados em qualquer mundo pagão: aleijados e doentes, velhos e débeis. Aqueles que o mundo pagão considera inúteis e sem valor, encontram no mundo cristão algo mais que espaço físico: experimentam amor. Recomendo aos meus contemporâneos imaginar como seria um mundo sem Cristo”.

 

Demografia, economia e saúde

O cenário demográfico do Ocidente adquire hoje um carácter inédito: os maiores de 65 anos superam em número os menores de 15. Isto nunca tinha ocorrido anteriormente. Trata-se de uma consequência da prosperidade económica e do progresso médico. A mortalidade infantil desapareceu na práctica, a esperança de vida prolonga-se de modo contínuo e derrotámos as chicotadas clássicas da humanidade (fome, peste, cólera). No entanto, a melhora objectiva da nossa saúde pode conviver com uma penetrante sensação de vulnerabilidade: nunca tanta gente se sentiu tão doente e nunca se gastou tanto em saúde. Mas grande parte das patologias que nos afligem estão ligadas a estilos de vida insanos: sobrepeso e obesidade, adições – tabaco, álcool, substâncias de drogo-dependências –, doenças sexualmente transmissíveis, stress, depressão, ansiedade, etc.

O Estado social e de bem-estar compromete-se a garantir a saúde e a cuidar dos seus cidadãos desde o berço até à sepultura. Essa promessa, contida no relatório Beveridge dos anos quarenta, tornou-se insustentável. O gasto médico e farmacêutico cresce sem parar, a saúde converteu-se no primeiro gasto nos orçamentos de Estado. Se a isto somarmos o pagamento das pensões – por não falar dos subsídios de desemprego –, a bancarrota das finanças públicas só se poderá evitar endividando as gerações futuras. Os ocidentais deixam de trabalhar relativamente cedo e têm pela frente uns vinte anos de vida como reformados. Durante grande parte desse tempo vamos desfrutar de umas condições de vida bastante saudáveis, que nos permitirão continuar activos de diferentes maneiras: fazer de avós, viajar, cultivar gostos. Finalmente, ficaremos doentes e é justamente nesse trecho final da vida que daremos lugar a um considerável gasto sanitário. Se a vida se encurtasse apenas alguns anos, a poupança económica seria fabulosa.

 

Brutalidade neopagã e mensagem cristã

Não surpreende que neste inquietante contexto económico e sanitário reapareçam a eutanásia e algumas condutas da antiguidade clássica. Devemos muito à Grécia e a Roma, mas aqueles mundos eram cruéis e sem misericórdia: exposição de recém-nascidos, desprezo pelos débeis – pobres, viúvas, órfãos, anciãos –, escravatura. O cristianismo melhorou a situação dos desfavorecidos, e aí está justamente uma das razões do seu êxito e da sua rápida difusão. Quando se produzia alguma epidemia e os sãos – médicos incluídos – fugiam das cidades, abandonando os infectados à sua sorte, os cristãos cuidavam dos seus doentes e também dos pagãos: não havia limites para o exercício da sua caridade. Esse ethos levou gente como Basílio o Grande a fundar em 369, nos arredores de Cesareia, o primeiro hospital de que se tem notícia histórica: Basileias. Tratava-se duma autêntica cidade, que acolhia tanto doentes como pobres. São Basílio passou à História como um grande teólogo, mas também tinha estudado medicina em Atenas e entregou-se ao cuidado dos mais desprezados, aqueles que o mundo descartava e punha de lado. Ele mesmo recebia em pessoa os leprosos, dando-lhes um beijo de boas vindas e oferecendo-lhes todo o tipo de cuidados. O caso de Basílio não foi, antes pelo contrário, um caso isolado: apenas o trouxe à colação a título de exemplo. Até ao dia de hoje, a caritas é um elemento essencial da mensagem cristã de serviço (diakonia), junto da proclamação da palavra e da liturgia (kerigma e liturgia).

Não é imprescindível invocar uma fé em Jesus Cristo para se defender a vida humana frágil ou terminal. Há uma ética e uma boa práctica médica inspiradas em razões de simples humanidade. Contudo, é ao mesmo tempo claro que a pertença comum à espécie Homo sapiens sapiens não basta para excluir cálculos utilitaristas. O que nos impedirá de eliminar idosos improdutivos ou jovens e crianças com deficiência? A fraternidade humana universal tem sentido se se baseia numa filiação partilhada. A dignidade humana só pode aspirar a um valor absoluto se o Homem é imagem ou reflexo do Absoluto, filho de Deus.

No nosso mundo observam-se tendências contraditórias, paradoxos autênticos. Enquanto soa o alarme do abandono e mortalidade dos idosos às mãos do Covid-19, o Governo tramita por via da urgência – sem debate social – a lei da eutanásia. Estava chamada a ser a primeira lei do Governo Sánchez (como se explica essa pressa?). A pandemia trocou-lhes os planos e parece que o Governo quer recuperar a todo o custo o tempo perdido. O neopaganismo convive com (os últimos?) rastos de cultura cristã numa surpreendente mistura. Queremos ir realmente nessa direcção? Seria bom escutar o conselho de Heinrich Böll e tentar imaginar como acabaria por ser o mundo sem Deus.


Alejandro Navas, Professor de Sociologia da Universidad de Navarra

(traduzido por António Vieira da Cruz)