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sábado, 3 de fevereiro de 2024

Precisa a nossa Agricultura de mais subsídios?

(também publicado no Ingovernáveis, no Observador e no Agroportal)

 São dois assuntos demasiado sensíveis: agricultura e subsídios. Várias pessoas publicaram nas redes a sua indignação e solidariedade para com os agricultores que se manifestaram nos primeiros dias de Fevereiro, cortando a circulação de várias estradas do país. As razões deste protesto são em parte portuguesas: o Governo enganou-se ao inscrever uma área muito pequena (apenas 10 de 460 mil hectares) para reconversão da agricultura convencional em biológica, o que resultou em cortes de 35% nos apoios comunitários a ecorregimes de agricultura biológica e 25% nos de produção integrada. Mas as razões deste protesto são também europeias, com regras ambientais mais apertadas e o fim de subsídios ao gasóleo agrícola ou uma concorrência mais competitiva de produtores sul-americanos. Daí, a mimetização nacional dos métodos e slogans das manifestações em curso noutros países europeus.

 As palavras de ordem são dramáticas e o tom chega a ser violento: “sem agricultores não há comida”, “o nosso fim é a vossa fome”, “se o campo não planta a cidade não janta” e “a agricultura está de luto” são alguns exemplos. As imagens escolhidas para o ilustrar vão de agricultores a enforcarem-se, a senhora Morte com a gadanha a visitá-los ou os tractores a cercar um Parlamento Europeu em chamas. Também são divulgados vídeos de agricultores franceses a entrar nos supermercados e a destruir alimentos importados, ou a virar camiões de abastecimento de bens com a força dos seus tractores. Estes slogans e imagens são mais um sinal da crescente polarização da nossa sociedade, onde os ânimos da revolta são de novo empolados – parece que nada aprendemos com o descontrole emocional que guiou as ocupações de terras do Verão Quente de ’75!

 Fui ver o que os vários partidos diziam no Facebook nos últimos dias. O PSD comunicou que “a Aliança Democrática solidariza-se com a indignação dos agricultores portugueses” e que “os agricultores precisam de governantes que os dignifiquem, que cumpram compromissos”; o Chega anunciou que está “ao lado dos agricultores e da produção nacional” e que os políticos “falharam-lhes com os apoios”; o PCP diz que está “com os agricultores em protesto contra os baixos rendimentos e a imposição de preços por parte da grande distribuição” e que “esta situação requer a adopção de medidas para resolver os problemas verificados, garantindo que os agricultores não têm perda de rendimentos”. O PS nada disse. Da mesma forma, a Iniciativa Liberal, o Bloco de Esquerda, o PAN e o Livre fizeram absoluto silêncio sobre este assunto nas suas redes.

 Portanto, só o PSD, o Chega e o PCP ousaram falar do assunto. O Chega e o PCP são a favor de mais apoios para os agricultores, o PSD mais cauteloso com as palavras defende apenas que o mínimo deve ser cumprido: o Estado tem de honrar os compromissos a que se propôs. Porém, nenhum põe em causa a lógica dos subsídios à agricultura. Esta questão tem de se colocar mais tarde ou mais cedo, só que os nossos partidos ou são omissos ou são a favor de cada vez mais subsídios à agricultura, e nunca contra. Então, proponho que olhemos para esta questão de outro ângulo:

 A história de grande sucesso sobre subsídios agrícolas vem da Nova Zelândia. No início dos anos 1980, os agricultores deste país estavam quase tão dependentes de subsídios como hoje estão os agricultores europeus. No estudo “The Subsidy Scandal”, Charlie Pye-Smith escreve que “em 1983, os apoios à agricultura na Nova Zelândia eram 1/3 daquilo que os agricultores recebiam. O Governo e os próprios agricultores reconheceram que este estado de coisas não podia continuar. Em 1984 foram introduzidos cortes massivos nos subsídios à agricultura, que hoje representam apenas uma pequenina fracção daquilo que eram. Os benefícios desta medida foram largamente sentidos. O contribuinte já não está a ser extorquido. A retirada dos subsídios levou a um abrandamento do desmatamento, o que foi bom para o meio ambiente. E, mais surpreendente que tudo e ao contrário daquilo que tantos tinham previsto, o número de agricultores cresceu em vez de diminuir. Operando no mercado livre, os agricultores adaptaram-se e tornaram-se mais engenhosos para sobreviver. É assim que deve ser. Muitas vezes, os subsídios encorajam a dependência e a preguiça.”

 A Nova Zelândia é hoje uma potência agrícola que exporta carne, lã, fruta e vinho para todo o mundo. Lá, os subsídios reduziram-se a quase 1% daquilo que os agricultores recebem. Mas em Portugal o caso é bem diferente. Cerca de 35% dos fundos europeus são destinados à Política Agrícola Comum (PAC), que por sua vez merece mais de metade das leis comunitárias produzidas todos os anos. A PAC existe, na práctica e desde o início, para defender os interesses agrícolas franceses. Por exemplo, muitos agricultores portugueses começaram por aceitar o subsídio para arrancar vinha logo na altura da adesão, o que convinha aos produtores franceses de vinho. Depois, foram atrás de outros subsídios importantes, como o do milho, o do girassol, e tantos outros. Não cultivavam o que o mercado pedia, mas apenas aquilo que lhes dava mais benefícios. Assim, foram-se tornando mais dependentes destes apoios, até chegarmos aos dados de 2022 que mostram que em Portugal os subsídios à produção representaram cerca de 54% do rendimento empresarial líquido dos agricultores.

 Alguns subsídios muito concretos poderão fazer sentido económico e social. Um exemplo são os apoios à instalação de novas tecnologias que ajudem os agricultores a produzir mais, desperdiçando menos e melhorando o cuidado ambiental. Estes devem ser apoios de uma só instalação e devem ser dirigidos sobretudo a projectos agrícolas de pequena e média dimensão – não tanto àqueles que têm meios próprios para implementar essas mudanças. Agora, coisa diferente é subsidiar constantemente determinado produto que nos chega ao mercado de outro lugar com igual qualidade e um preço mais baixo. Isso já não tem sentido. Esse subsídio irá desvirtuar a concorrência e irá aumentar o seu custo: mesmo que o seu preço na prateleira pareça competitivo, o consumidor já pagou parte daquele custo em impostos enquanto contribuinte.

 Seria melhor seguir o exemplo da Nova Zelândia, onde as regras são mais simples, os impostos menos pesados, e onde os agricultores prosperam sem precisar de subsídios porque estão completamente orientados para as reais necessidades dos mercados onde colocam os seus produtos. Mas nos EUA, no longínquo Estado do Montana, os legisladores decidiram subsidiar os criadores de ovinos locais para concorrer contra os ovinos que lá chegavam com um marketing competente e a preços muito atractivos, vindos da… Nova Zelândia.

 Os agricultores merecem todo o nosso reconhecimento e respeito. No entanto, não podemos ficar reféns dos seus tractores e devemos questionar até que ponto os nossos impostos devem perpetuar determinadas ineficiências. Conhecemos o aumento do custo de produção de bens que alguém num gabinete de Bruxelas ou de Paris decide serem bons para a nossa saúde (pensemos no famigerado mirtilo), mesmo que tal não faça qualquer senso numa economia livre e de mercado. Os próprios agricultores também são contribuintes, tal como nós, e tal como os neo-zelandeses compreendem bem aquilo que aqui está em causa.

 Não estamos a questionar um qualquer subsídio social, como os prestados no campo da saúde, na área da educação, e até da cultura, ou sobretudo de amparo a quem não encontra trabalho e aos mais frágeis da sociedade. Há partidos que fazem esse papel. O que nenhum partido faz é pensar na razão de ser destes subsídios económicos a sectores de actividade que deviam libertar-se dos artifícios do Estado para finalmente se adaptarem à realidade e poderem encontrar os seus próprios meios de sustento. Encarar a realidade sem constrangimentos é o primeiro passo para podermos encontrar mais justiça, valorizar o trabalho dos agricultores e cuidar do nosso mundo rural.

 AVC

quinta-feira, 23 de dezembro de 2021

a polícia não é o problema

(publicado originalmente no Jacaré)


Depois de mais um vídeo ter corrido as redes sociais a atestar a violência dos bairros ditos sociais na Grande Lisboa, tenho assistido nos dias presentes a vários debates sobre a polícia, o racismo e a criminalidade.


Penso conhecer bem a realidade de alguns destes bairros, sobretudo a de 4 ou 5, nomeadamente porque nasceram, como o tempo passou por eles e quais os seus principais problemas e desafios. E não há como negar: o racismo existe; a criminalidade existe; a polícia também erra. Mas estes problemas, mesmo que graves, são apenas a consequência de um pecado original: mau urbanismo.

Tanto nos velhos bairros de casas ilegais e de barracas (espontâneos) como nos bairros de habitação “social” que os substituíram (planificados), as carências são inúmeras: pouca limpeza, degradação dos prédios e equipamentos públicos, insegurança, crime, separação de comunidades por zonas, rivalidades, pobreza, ausência de oportunidades… factores que conduzem toda uma comunidade à exclusão social. Viver num bairro assim é uma limitação de possibilidades e de horizontes.

Todo o bairro devia ter mais moradores que casas abandonadas, uma boa limpeza, jardim, comércio, escola, igreja, associações, centro cultural (seja com teatro, cinema, biblioteca, galeria de arte ou similares), um centro de dia... e, sim, uma esquadra da polícia.

Ao contrário do que certa esquerda e determinadas organizações ditas “anti-racistas” querem fazer crer, a polícia não é “o” problema. Pelo contrário, qualquer solução de paz no bairro terá sempre de passar pela polícia! Excluir a polícia da equação da paz é uma miragem sem qualquer substância. O vazio de autoridade policial será sempre preenchido por outra força, seja a dos gangs e das máfias ou a desordem anárquica de todos contra todos e cada um por si… em qualquer caso, na ausência de quem faça cumprir o Estado de Direito, este é substituído pela lei da selva que é a lei do mais forte.

Ora, foi por o homem ter rejeitado viver nestas circunstâncias que ele se organizou em sociedade, numa comunidade política em que todos são iguais perante a lei e em que confiamos à polícia a autoridade de fazer cumprir a lei. Como celebremente escreveu Thomas Hobbes no “Leviathan”, fora da sociedade «a vida é solitária, pobre, desagradável, bruta e curta». A primeira garantia de que precisamos da parte do Estado é segurança, e só assim podemos constituir família, trabalhar, procurar ter saúde e educação, e tudo o mais que precisarmos para viver e tentar ser felizes.

Não me agrada a ideia de “super-esquadras” da polícia. A polícia é necessária é em núcleos pequenos e perto de nós. Enquanto a polícia estiver fora de um bairro, só será chamada para intervir quando há desacatos. Aí, a polícia chega de carro e entra na rua abruptamente para impor respeito e tentar evitar ser atingida. Enquanto a polícia estiver fora dos bairros, ela será mais uma força violenta compelida a fazer juízos rápidos e, por isso, frequentemente injustos. Mas se a esquadra estiver no bairro ou próxima dele, se os polícias andarem a pé pelas ruas e não de carro, já não serão os mauzões de arma em punho para punir suspeitos mas sim o Agente Sousa e a Agente Silva que conhecem o bairro e as suas gentes.

PSP fazendo policiamento de proximidade

O policiamento de proximidade não só previne o crime e outros desacatos, como promove a boa convivência e a paz diária. O problema é em parte político, que o Agente Sousa e a Agente Silva são pessoas como nós e estão apenas a cumprir ordens. Mas enquanto não se resolve o problema, façamos um favor a nós mesmos e não subtraiamos a polícia da equação da paz, pois ela existe para estar do lado da paz e das pessoas de bem.

Em segurança, graças à Polícia, podemos combater casos de racismo que são ilegais e não podemos tolerar. Mas já agora, atenção:
- combater o racismo não se trata de vitimizar uma minoria e de lhe impingir rancores identitários;
- combater o racismo não é fazer aquela discriminação positiva que procura obrigar a Polícia a agir de forma mais branda se o criminoso é duma minoria étnica;
- combater o racismo é, precisamente, o contrário de combater: é baixar as armas e construir a paz com todos, olhando para cada pessoa e reconhecendo-lhe plena dignidade.

segunda-feira, 20 de março de 2017

a imoralidade da dívida pública - JPVM



(Texto originalmente publicado no "Jacaré parado vira mala" no dia 04.01.2017)


Se Deus quiser, o meu segundo filho há-de nascer em Maio ou Junho deste ano. Cá em casa estamos muito contentes, a sua Mãe, Pai e Irmã mais velha. No entanto, li anteontem uma notícia que me inquietou: apesar de uma redução que é de saudar embora seja pontual, a dívida pública do Estado ainda anda na ordem dos 241,8 mil milhões de euros - dados relativos a Novembro de 2016. Vamos ter esse valor em conta mesmo sabendo que o contador da dívida pública Portuguesa não cessa de aumentar. Sabendo que somos 10,5 milhões de Portugueses para pagar a conta, isto bem dividido entre todos dá cerca de 23 mil euros a cada um. Mesmo o meu querido filho que não tem culpa alguma nesta conta, já tem a responsabilidade de a pagar. Graças aos sucessivos governos de esquerda e de direita, muitas vezes até arvorados em patriotas, o meu filho nascerá não com um mas dois pecados originais: o herdado de Adão e Eva; e o de mim só pelo facto de ser Português.

Qualquer bebé que nasça no nosso país, nasce já endividado até à ponta dos cabelos que ainda não tem. E os políticos que se deixaram seduzir pela máxima de John Maynard Keynes ("no longo prazo todos estaremos mortos") são aqueles que se esquecem que depois de nós vêm outros como nós, e por isso sentiram-se à vontade para delapidar as riquezas do país e montar esquemas socialistas de dependência das pessoas em relação aos inúmeros subsídios estatais. Se a isso juntarmos um conjunto de obras públicas megalómanas e contratos ruinosos para o bem público, e se considerarmos as vezes em que os Governos decidiram ir além do seu papel, chegamos a um estado de coisas em que o Estado e nós vivemos já não à custa dos nossos pais, mas à custa dos nossos filhos. Sobre eles recairá o encargo de pagar por todas estas escolhas que se fizeram e continuarão alegremente a fazer enquanto houver quem nos empreste mais dinheiro.

Trata-se de um optimismo descontrolado, fazendo fé de que tudo se resolverá no futuro, naquele longo prazo em que todos estaremos mortos. Mas essa crença tem-se vindo a revelar muito imprudente e de uma irresponsabilidade histórica atroz, com consequências já à vista. Logicamente, a geração dos meus filhos não será a primeira a acartar com os sacrifícios. Penso que as pessoas que estão na casa dos 20 a 40 anos - e que portanto têm mais de metade da sua vida profissional contributiva pela frente - não irão receber reforma. O dinheiro que emprestaram ao Estado gastou-se todo, e os nossos poucos filhos (cada vez menos numa sociedade com a pirâmide demográfica invertida) irão talvez ter capacidade de pagar um pouco mais da dívida pública e a subsistência de alguns serviços mínimos do Estado nas áreas da Justiça, Saúde, Educação e Administração Interna. Mas de qualquer forma estou convicto que não pagarão as nossas reformas, seja porque não podem ou porque legitimamente não querem.

Eu assumo sem problemas que não irei receber qualquer reforma, e a ideia é poupar a contar com essa realidade, se possível. Mas por favor, senhores, não façam com que esse esforço seja vão. Temos de adoptar medidas fortes, inclusivamente protecções a nível constitucional, que obriguem os governos futuros a reduzirem a dívida pública todos os anos, proibindo-os de agravar a dívida e os juros ainda mais. Não podemos continuar a eleger aqueles que se limitam a empatar jogos, iludindo os espectadores que se pode ganhar só com alívios toscos da defesa quando a bola nos chega à grande área. E assim tem sido a alternância governativa em Portugal nos últimos anos: governos estáveis, duradouros, que de vez em quando são substituídos por outros governos igualmente keynesianos.

A grande imoralidade da dívida pública é que nos torna cada vez mais dependentes dos credores, fazendo de Portugal um país menos independente e que caminha para um estado agravado de insignificância. Os Portugueses são pessoas que a curto e médio prazo terão gravíssimos problemas de solidariedade intergeracional com a falência do Estado social e as famílias mais frágeis que nunca.

No meu entender, a dívida pública é o nó górdio dos nossos tempos. Ainda hoje o Ministro dos Negócios Estrangeiros disse que "é incontornável a Europa debater o endividamento excessivo que penaliza tantas economias", no entanto considerou que "falta momento e impulso político para discutir as propostas". É sem dúvida incontornável debater o endividamento excessivo senhor Ministro, mas por favor não espere pela Europa para o fazer, nem tão pouco se desculpe com a suposta falta de momento e impulso político. De que nos serve que o senhor ocupe essa cadeira se não é sequer capaz de tomar essa iniciativa? E não é só a difusa economia que a dívida pública "penaliza", esta situação vitima pessoas muito concretas e hipoteca o futuro do nosso país, o nosso e o da nossa descendência. Mas enfim, já é qualquer coisa que o senhor traga este assunto para cima da mesa.

Antes disso, pareceu-me bastante mais completa a proposta que Rui Rio apresentou no passado mês de Dezembro, no sentido de fazer um novo imposto que serveria apenas para pagar a dívida pública mas que não significasse um aumento da carga fiscal. Este tipo de informação permitiria que as pessoas ganhassem maior consciência de quanto devemos enquanto País e quanto cabe a cada um pagar, fiscalizando melhor os políticos e a carestia das suas ideias. Agora urge é debruçarmo-nos sobre esta questão para a tentar resolver de uma vez por todas.

Insisto! - JPVM

(Texto originalmente publicado no "Jacaré parado vira mala" no dia 31.12.2016)


Pela parte que me toca, este blogue corre o risco de virar mala. A probabilidade existe de facto e é forte. Não creio que este exercício venha a ter um impacto enorme, e se o tiver é depois de longos meses de árduo trabalho e um pouco de sorte. Olho para 2017 e o ano que aí vem desenha-se cheio de desafios a todos os níveis: familiar, pessoal, cultural e profissional. Ademais, tenho uma personalidade que tende para o conforto. Há motivos de sobra para esmorecer.

E no entanto, insisto: vamos começar este blogue! Insisto, primeiro que nada, por causa dos meus companheiros desta aventura. O Luís Bessa Monteiro e o João Gonçalo Moreira Pires são velhos amigos, velhos no sentido da azinheira cuja madeira é rija como os seus valores, suas antigas raízes estão bem presas à realidade do chão e seus ramos bem espraiados em direcção a sonhos generosamente banhados pelo sol e por vezes também por alguma chuva. Insisto porque todos os dias me deparo com injustiças, barbaridades que se dizem e fazem e – factor decisivo – que invadem a minha esfera de privacidade para a diminuir ou mudar sem o meu consentimento, beliscando ou até ferindo a liberdade com que eu e os meus fomos concebidos. Insisto porque alguém deve olhar para certas euforias utópicas dos nossos políticos e dizer: “o rei vai nú!”

Insisto porque, como crente que sou, sei que só Deus é perfeito e tenho verdadeira esperança na vida eterna; e por isso mesmo tenho muita cautela com os recorrentes optimismos exacerbados acerca da vida terrena, principalmente com aqueles que nos prometem mundos e fundos em troca de votos e que invariavelmente nos deixam a correr atrás do prejuízo. Insisto porque sei melhor que o Estado o que fazer com a minha vida e com o dinheiro que tenho e ganho. Insisto porque concordo com o Presidente Coolidge que dizia ser “mais importante bloquear as leis más do que passar as boas”. Insisto porque os princípios da vida não devem ser postos em causa e há valores que não são para serem postos à margem da sociedade. Insisto porque a arte deve continuar a ser bela. Insisto porque o dinheiro deve ser real, pois só assim pode servir o Homem. Insisto porque gosto de falar dos prazeres do dia-a-dia.

Em suma, insisto porque me apetece e vejo utilidade em deixá-lo escrito. Porque insisto em transmitir aos meus Filhos o testemunho que recebo de meus Pais. E nesse entretanto, demos vida ao Jacaré!

sábado, 4 de outubro de 2014

grandes fotografias políticas (V)

Anteontem, Narendra Modi começou uma campanha para modernizar o sistema sanitário na Índia. Foi a varrer as ruas de Nova Deli que o Primeiro-Ministro passou a mensagem.

Primeiro-Ministro Modi a limpar as ruas da capital Indiana


Depois de ter lançado a campanha Make in India, convidando Indianos e Estrangeiros a investir na Índia, Narendra Modi lança agora a campanha My Clean India com uma vassoura nas mãos. A Índia enfrenta assim a poluição urbana e os conhecidos atrasos sanitários, desagradáveis pelo cheiro mas sobretudo graves pela transmissão de doenças. Um relatório das Nações Unidas em Maio indicava que cerca de metade dos Indianos defeca na rua, levando à propagação de doenças como a cólera, diarreia, disenteria, hepatite A e tifóide.

Pegar na vassoura e dar o exemplo foi sem dúvida a melhor forma de passar a mensagem e inspirar outros a fazer o mesmo.


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Artigos relacionados:

terça-feira, 4 de junho de 2013

olhando para o Butão e outros assuntos da Ásia do Sul


Editorial que escrevi no oitavo número da revista Think South Asia:
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The King of Bhutan - Jigme Khesar Namgyel Wangchuck
It is now time for us to look at Bhutan. Bhutan is a mountainous country comparable to the size of Switzerland, but with around 730 thousand inhabitants and landlocked between India and Tibet, which as we know is ruled by the Chinese. On the date of this edition we are between 2 rounds of parliamentary elections in Bhutan, being a special moment to analyse this fascinating country. Also another issue for which Bhutan is well known is the Gross National Happiness index (GNH), and we are thinking about it as well.

In this issue of Think South Asia magazine we have very prestigious contributions indeed. First of all, a detailed country profile of Bhutan done by the South Asia Democratic Forum fellow Mr Marian Gallenkamp, who is a knowledgeable expert on this country. Dr Siegfried O. Wolf from the University of Heidelberg dedicates his usual column to an analysis of the Bhutanese elections. The EU Delegate of The Family Watch, Mr Antoine Mellado, writes about development and the Gross National Happiness Index of Bhutan and its parameters. Then, 3 promising and talented ladies from Bangladesh honour us with their inputs: Ms Sheikh Nishat Nazmi is a Social Psychology Counsellor and brings to us a very interesting picture of the Families in South Asia in general, Bangladesh in particular; Mst Sabikun Naher from the University of Dhaka writes about the Bangladesh-Bhutan commercial relations and comparative advantages of both countries; and last but not least, Ms Janina Islam Abir also from the University of Dhaka tell us about the Shahbag Movement, making a very comprehensive and deep analysis of this historical phenomena occurring nowadays in Bangladesh, which we should know better and follow closely.

BNG Ambassador - Ismat Jahan
Now I am privileged to present: 2 interviews, 2 Ambassadors, 2 good friends of South Asia: Her Excellency Mrs Ismat Jahan from Bangladesh, and His Excellency Mr Jan Deboutte from Belgium. Both perspectives – South Asian and European – should be appreciated attentively, so that no drop of wisdom escapes from our readings. Without any previous agreement, both ambassadors showed to be fantastic builders of cultural bridges: while Mr Ambassador Deboutte finds a link between the Bhutanese Gross National Happiness and the Greek classical philosophy, Mrs Ambassador Jahan quotes the first non European Nobel Prize of Literature winner, the Bengali Rabindranath Tagore (1913), proving that his poetry and art could be an inspiration to South Asians, Europeans and everybody in this planet.

Regarding the peace prospects in Kashmir, we have an attention call article from the Executive Director of South Asia Democratic Forum. Mr Paulo Casaca writes about the murder of Mr Arif Shahid, one of the most important figures of Pakistan’s Kashmiri independence movement, and its worrying consequences to the peace in Kashmir.

On the 14th of May there were also elections in Pakistan, where the people expressed the will to have Mr Nawaz Sharif as Prime Minister for the 3rd time in the country’s History. The South Asia Institute of the University of Heidelberg and the South Asia Democratic Forum organised a conference to discuss these elections and in the European Parliament of Brussels. This event resulted in a high-level briefing done by a prestigious set of experts to European policy-makers. You can check their conclusions in the end of the magazine. From the Think South Asia editorial side, I would like to wish to President Sharif all the success, hoping that peace, stability and better living conditions can be achieved in Pakistan with respect to Human Rights and the Rule of Law.

From Bangladesh we received sad news on the last 24th of April, when the Rana Plaza complex collapsed provoking the death of 1129 people. This makes us ask: In a country where the perpetrators of the 1971 genocide (which killed more than 3 million people) were not brought to justice and several other public crimes occurred, like the assassination of President Sheikh Mujibur Rahman, how can we expect that people have care while planning a building? This is why it was important to welcome in Brussels the Bangladeshi Minister of Foreign Affairs, Doctor Dipu Moni. Mrs Moni said that in Bangladesh “the culture of impunity is ending” and the government will do its best to ensure labour safety and rights in the country. We must applaud her courageous statement and support the Bangladeshi authorities in the reinforcement of security and the rule of law.

After some Chinese troops crossed the line of control in Ladakh (Kashmir) in April, I was surprised to see the European Parliament discussing on the 23rd of May the February execution of Mohammad Afzal Guru in Delhi. As I said the Think South Asia 6th edition in February, I personally am against death penalty, but this does not mean supporting impunity. Mr Guru was proven to be associated with the terrorist groups Lashkar-e-Taiba and Jaish-e-Mohammed, and participated in the 2001 attack against the Indian Parliament, killing 7 people and injuring 15. Of course the European Parliament could make the case of banning death penalty in the world... but this case of Mr Guru is far from being the best flag to pick, not to say that it probably sends a wrong message to the international community, as if the EU is supporting impunity for terrorists. I think this is not the case, or at least it shouldn’t.

Two days after this debate in Strasbourg, on the Saturday the 25th of May another terrorist attack happened in the State of Chhattisgarh in India, this time organised by the Naxalite-Maoists. The attackers killed 27 people, amongst them some senior political leaders mainly from the Indian National Congress party. The Naxalite-Maoist insurgency killed already approximately 12 thousand people since its start in 1980 and the Indian police believes it has ties with the above mentioned Lashkar-e-Taiba, as well as with the ISI (intelligence agency also from Pakistan), and their training camps are mainly located in Pakistan, China and Burma.

Finally some good news from Afghanistan. As you can see in the latest document of Reporters Without Frontiers, no journalists were killed in 2012 and arrests of media workers declined. Nevertheless, violence against journalists did not disappear completely. Also, since NATO will withdraw most of the troops from Afghanistan next year and Taliban are expected to return to the country, there are legitimate doubts if this betterment of conditions for the media in Afghanistan is not precarious.

The Taktshang Monastery, in Bhutan
Bhutan also gives us positive news. Bhutan ranks 1st among the South Asian countries for freedom of the press, and the 82nd in the World Press Freedom Index. More concerns should be raised to the situation in the Maldives and in Sri Lanka. Although still preserving an orange colour on the map, the Maldives fell 30 positions in the index due to violence and threats against journalists after the coup d’état in March 2012. Regarding Sri Lanka, it still is the last one of South Asia on the list, ranking number 162nd in the world, three positions below Pakistan (159th).

South Asia as a whole got worse for journalists in 2012, and something should be done about this. However these are sad news, we should put them in perspective. South Asian countries scored considerably better than its neighbour countries:
  • Tajikistan and Burma appear in a red colour with a “difficult situation” for journalists
  • Uzbekistan, China, Iran and Turkmenistan in black with a “very serious situation”


To sum up, reasons are not scarce to give a careful look to this edition of the Think South Asia magazine, because in the next editions there will be some changes and surprises. Meanwhile, any articles for submission, comments or critics are very much welcome in: antonio@sadf.eu

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Publicado no site do South Asia Democratic Forum: www.sadf.eu
Facebook: https://www.facebook.com/SouthAsiaDemocraticForum

Para fazer o download da revista Think South Asia 08: http://sadf.eu/home/wp-content/uploads/2013/06/thinksouthasia08.pdf

domingo, 13 de novembro de 2011

tensão no cinema


Ia dando em pancadaria.

“La Source des Femmes” é um filme passado em Marrocos que eu vi no cinema em Bruxelas, anteontem pela primeira vez e ontem pela segunda. É uma fita polémica mas cheia de bom humor sobre a luta das mulheres muçulmanas pela sua dignidade e respeito enquanto pessoas. Da primeira vez, eu queria apenas ver o filme, que é realmente muito interessante, tem uma fotografia lindíssima e vale a pena. Passa-se numa aldeia metida numa cova entre as montanhas do Atlas e todas as paisagens são magníficas. Mas, na noite seguinte, voltei ao cinema por uma razão completamente diferente. Fui lá para estar com mais atenção à reacção do público.



Anteontem fui ver o filme a de Brouckère, mesmo em frente ao Hotel Metropole *****, bem no centro de Bruxelas. Eram 19h30m e o cinema estava à pinha. Trata-se da história de uma aldeia sem água nem electricidade perdida nas montanhas em Marrocos, onde os homens desempregados se sentam no café durante o dia para conversar e passar o tempo, enquanto as mulheres têm de subir a acidentada montanha para ir buscar água, tal como é tradição. O percurso é duro e as quedas podem acontecer com facilidade, tendo provocado por várias vezes a perda dos bebés entre as mulheres grávidas que fazem esse caminho. Leila, a heroína desta história, quer mudar esta situação e convence as outras mulheres a fazerem frente aos maridos com uma “greve de amor”. A partir daí o filme desenrola-se com várias peripécias de fazer rir e chorar.

No fim do filme é que se armou a grande confusão. Eu já tinha reparado durante o filme em vários risos e comentários fora do tempo e do tom. Só que, quando o painel ficou preto, levantaram-se duas mulheres sem véu mas que pareciam ser muçulmanas e que começaram a gritar e a pedir contas a três belgas que estavam sentadas ao meu lado, que responderam insultando-as com a maior indiferença e arrogância possíveis. Os insultos cresceram em espiral por ambos os lados e foram ficando cada vez mais racistas. Em poucos segundos toda a multidão tinha descolado os seus olhos dos créditos finais do filme, fixando-se naquela cena a meio da sala, mesmo ao meu lado. No escuro, os dentes arreganhados daquelas pessoas impunham ainda mais cautelas. Apercebi-me que a situação só podia piorar enquanto não chegassem os seguranças, e dei dois passos para trás, afastando-me do foco da raiva. Um mouro lá de trás gritou qualquer coisa e atirou uma lata de Coca-Cola vazia, que rasou as belgas e embateu na fila da frente. Um belga lá à frente levantou-se de peito feito, abriu os braços para o mouro e disse abanando a cabeça “Monsieur”. A tensão era enorme, o cinema estava prestes a tornar-se num violento campo de batalha e o palco da realidade tinha há muito ultrapassado em emoções qualquer ficção que ali se costuma projectar. Foi nesse justo momento vieram os seguranças e as pessoas dispersaram entre comentários e insultos, mas sem escalar mais na via da violência. A mulher que tinha pedido contas às belgas, dizia enquanto saía: “esta foi uma sala má”.

Fiquei a pensar em tudo isto que se tinha passado, no filme, nas reacções, nas pessoas. Teria eu apanhado aquela “sala má” só por coincidência? Ou será que aquele clima tenso se iria reproduzir novamente se eu voltasse no dia seguinte? Só havia uma maneira de saber, tinha de ir ver “La Source des Femmes” uma vez mais.

Voltei ontem ao mesmo cinema, desta vez à sessão das 22h10m. Embora a sala não estivesse tão cheia como no dia anterior, pode dizer-se que estava bastante composta.

Notei que ao longo do filme houve muita agitação entre os muçulmanos, ajeitavam-se por tudo e por nada naquelas cadeiras, parecia que não conseguiam encontrar uma posição que lhes fosse confortável. Ao mesmo tempo ia ouvindo os mesmos comentários inconvenientes por parte dos europeus. Os telemóveis tocavam, pessoas iam saindo e entrando na sala. Foi uma sessão cheia de ruídos e risos nervosos. Numa cena mais íntima do filme, quando perto do fim a “greve de amor” termina, um homem lá atrás levanta-se bruscamente, fecha a cadeira com estrondo, e abandona a sala a barafustar com o punho cerrado no ar. Ao meu lado, um casal belga de meia-idade comentava paternalista e arrogantemente que estes muçulmanos ainda não tinham aprendido a comportar-se. Eu respondi “shhh”, como se quisesse ver o filme pela primeira vez, mas na realidade não queria era problemas ao meu lado de novo. No fim, fui dos primeiros a sair para ficar a ver a cara das pessoas quando chegassem à luz da entrada. O incómodo era evidente em quase todas as pessoas. Visto em Portugal, talvez este filme fosse só interessante e divertido. Mas aqui percebi porque “La Source des Femmes” é um grande filme (de Radu Mihaileanu e com a belíssima Leila Bekhti).



Desde que cheguei à Bélgica que noto uma grande desconfiança entre Europeus de origem e Muçulmanos, de parte a parte. Há um medo mútuo que está muito à flor da pele, e que não raras vezes se manifesta com sustos, gestos de aversão e até de violência (física e verbal). E ao mesmo tempo, vejo nesses árabes e mouros um interesse nos assuntos sociais e políticos e um certo esforço de integração que não encontro por exemplo nos chineses. Mas esse é outro assunto.

Ainda não sei bem por onde devem começar os Europeus e os Muçulmanos para se entenderem, mas também sei que, nestas situações, não há nada como ser-se Português.


quinta-feira, 28 de julho de 2011

a Conspiração volta em Setembro



Vai ser muito difícil escrever alguma coisa de jeito antes de Setembro. Mas o regresso será com força e mais ideias. Este cartoon foi roubado ao blog "The Monkey Cage". Bom Agosto!

sexta-feira, 27 de maio de 2011

mudar de condutor



Traduzido dos EUA 1952 para Portugal 2011:

- Os socialistas fizeram erros, mas as intenções deles não são boas?
- Bem, se o condutor da carrinha da sua escola vai contra um camião, bate num candeeiro da rua e despenha-se numa valeta... a questão não é se as suas intenções são boas. Temos de arranjar é um novo condutor.

segunda-feira, 9 de maio de 2011

a melhor sondagem é a que não se publica



As sondagens de opinião são caras e são sempre pagas por alguém. Um jornal pode dizer que pagou e publicou uma sondagem objectiva, mas é importante descortinar aqui alguns aspectos da maior importância, quer do lado da procura, quer do lado da oferta.

Para começar, a própria independência dos media coloca-se hoje em questão, mais que noutros tempos. Cada jornalista vê a sua verdade condicionada quer pelo poder político, quer pelo poder económico (os media são empresas normais, com os seus interesses e preocupações próprios). É por isso importante saber quem pagou a sondagem que se publica.

Em segundo lugar, temos as empresas que fazem as sondagens, e cuja ética é posta à prova conforme o cliente e a encomenda. Quando um cliente quer conhecer melhor um problema, uma situação real, ou determinada percepção pública acerca de um assunto, encomenda uma sondagem a uma destas empresas. Estes resultados são delicados e muito raramente são tornados públicos, é uma informação demasiado valiosa para ser posta à disposição da concorrência (empresarial ou política). Estas são as sondagens mais rigorosas e acertadas, e são normalmente apenas para consumo interno da empresa. O problema é quando um cliente quer encomendar uma sondagem para ser divulgada publicamente. Aqui, o cliente quer mostrar os melhores resultados possíveis da sua posição, e a empresa de sondagens sabe disso. O cliente paga, por isso tem sempre razão. E um cliente satisfeito volta sempre onde foi bem tratado.

Como se manipula uma sondagem, então? Há várias maneiras. A maneira como uma pergunta é feita, por exemplo, pode afectar a resposta. Mas essa é uma forma demasiado óbvia, pois a pergunta tem de constar na publicação (um jornal, por exemplo) sem alterações. Então, o que normalmente se faz é um conjunto de perguntas prévias que “educam” o entrevistado para a resposta final. As perguntas prévias não costumam ser publicadas, apenas a última. Como influem, então, estas perguntas prévias na resposta final?

Imaginemos o caso de o cliente ser uma empresa com interesse na construção de uma central nuclear em Portugal. A pergunta final será publicada e é objectiva: “concorda ou não com a construção de centrais de energia nuclear em Portugal?”. Neste caso, as perguntas prévias vão ser feitas sobre energias limpas, baratas e amigas do ambiente.

Mas imaginemos agora que o cliente é uma empresa concorrente na área da energia, mas focada na transformação do petróleo e do carvão em energia. A pergunta que sairá nos jornais é a mesma, “concorda ou não com a construção de centrais de energia nuclear em Portugal?”, mas as percentagens alteram-se. Como a esta empresa não lhe interessa que a energia nuclear tenha apoio popular, faz uma série de perguntas prévias (não publicadas) sobre o perigo de haver desastres como os de Chernobyl e Fukushima, e fazendo alusões às bombas atómicas da II Guerra Mundial. Embora a pergunta final publicada seja a mesma, os resultados da sua resposta são muito diferentes.

A verdade da sondagem é condicional. Torna-se possível enganar sem mentir.

É por isto que as melhores sondagens são as que não são tornadas públicas, pois essas estão sujeitas a demasiados interesses e pressões para que possam ser levadas a sério.

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A propósito, as últimas sondagens sobre as eleições legislativas 2011:
- Aximage / Correio da Manhã
- Intercampus / Público / TVI
- Eurosondagem / SIC / Rádio Renascença
- Universidade Católica / Jornal de Notícias

Vale sempre a pena ler as fichas técnicas, para ver o que se mostra e o que ficou escondido.


quinta-feira, 3 de fevereiro de 2011

grandes fotografias políticas (II)


As 2 fotografias de hoje tratam de mostrar 2 tentativas de divinizar o líder político. Como se costuma dizer, são imagens que valem mais que mil palavras.

Na primeira fotografia temos um Barack Obama com auréola, em perfeito estado de santidade. O selo presidencial que está por trás, desfocado, contrasta com um presidente pensativo, de ar grave e sério. No seu cansaço, "Santo Obama" quase parece um mártir, enquanto assume uma vez mais o papel de conciliador e árbitro na cena internacional, reflectindo sobre a actual situação do Egipto. A fotografia é de dia 1 de Fevereiro e ilustra esta notícia da Agência Reuters.

Nesta segunda fotografia, temos o presidente russo Dimitry Medvedev emoldurado pela hierarquia da Igreja Ortodoxa Russa. Medvedev aparece no centro da Igreja Ortodoxa, porque assim tenta ser a sua política (recorde-se que 74 anos de comunismo não conseguiram destruir o cristianismo na Rússia, que o Estado agora volta a acarinhar). E Medvedev aparece na fotografia à frente porque é o líder, enquanto que os demais, atrás, apoiam e seguem o seu presidente. A fotografia foi tirada hoje em Moscovo, no Kremlin, a propósito de uma reunião para reforçar a cooperação entre o Estado e a Igreja.

Já na Europa Ocidental continental, há um grande cuidado em separar a Política da Religião, seja devido a complexos de reconhecer as nossas origens religiosas e culturais, seja por causa do jacobinismo público e manifesto de certos "arquitectos" do politicamente correcto. A questão das fronteiras e áreas comuns entre a Política e a Religião fica para outro dia, mas aqui interessa recordar a muito recente campanha presidencial portuguesa.

As campanhas eleitorais também são feitas de sugestões, falam com emoção e razão, para o coração e para a cabeça do eleitor, transmitem algumas mensagens claras, mas também outras que se insinuam só para registo do subconsciente do votante.

A campanha de Cavaco Silva, não abordando directamente a questão religiosa, viu-se várias vezes obrigada a sugerir a religiosidade do candidato para tentar convencer algum eleitorado católico desiludido. Podemos ver isso, por exemplo, neste tempo de antena transmitido na TV, nomeadamente entre os 2m30s e os 2m40s: várias pessoas dizem em conjunto que vão votar Cavaco Silva, num tom e ritmo que insinua que podiam estar a rezar... e este é apenas um exemplo entre muitos que podemos encontrar na sua campanha.

Desta série, ver também: grandes fotografias políticas (I).


domingo, 31 de outubro de 2010

como contar a história do candidato




Eu venho de uma longa linhagem de lenhadores - começa o vídeo enquanto o candidato sobe para o tronco de uma árvore já sem ramos e começa a balançar o machado. - Sempre fui rápido a tirar um grande pedaço de madeira, e estou preparado para cortar a despesa excessiva que há em Washington. - E Sean Duffy conclui: - "I'll bring the axe to Washington", Vou trazer o machado para Washington. (NY Times)

Sean Duffy é o candidato republicano ao Congresso pelo 7º distrito do Estado do Wisconsin. O Wisconsin tinha uma tradição republicana enraizada, mas nos últimos 18 anos votou maioritariamente democrata. Sean Duffy pode ajudar o Partido Republicano (GOP) a recuperar o Wisconsin, tal como se prevê nas próximas eleições.

Duas características das campanhas eleitorais é que deve apresentar a história do candidato de forma coerente, por um lado, e conectar emocionalmente com os valores do eleitorado, pelo mesmo lado. Só assim é que se ganha a atenção das pessoas, e a partir daí podem-se apresentar as propostas políticas, que então talvez sejam ouvidas.

Este candidato conseguiu apresentar a sua história - é lenhador a advogado, filho de lenhadores, e orgulha-se das suas origens. Ele veste uma camisa de flanela aos quadrados e usa o machado, incorporando completamente o seu personagem, o que lhe dá autenticidade e credibilidade. Só usa o fato e a gravata quando é preciso, e não quer parecer ser aquilo que não é.

Conectou emocionalmente com os valores culturais e políticos do eleitorado - o Wisconsin é terra de lenhadores como ele, profissão respeitável e cheia de influência no vocabulário do dia-a-dia e nos jogos tradicionais. Para além disso, o Wisconsin era como vimos um bastião republicano à espera de ser novamente seduzido pelos republicanos da terra. Sean Duffy é católico e uma das figuras que representa o movimento dos católicos americanos mais jovens que se deslocaram cerca de 15% da esquerda para a direita desde a eleição de Obama até hoje, quando os republicanos levam perto de 6% de vantagem entre os crentes desta religião.

Finalmente, Duffy apresentou propostas e apostou na Internet para espalhar melhor a sua mensagem através de vídeos originais. Até à semana passada, ele tinha 6 vezes mais vídeos no seu canal de Youtube que a candidata democrata, Julie Lassa, talvez adormecida pelos 18 anos de poder do seu partido. Os eleitores gostam que os políticos façam tudo o que puderem pelo seu voto, e por isso a dinâmica numa campanha é crucial. "I'll bring the axe to Washington" é um bom slogan porque faz 3 em 1: fala da história do candidato, conecta com os valores do eleitorado, e dá uma direcção política à mensagem. Este slogan é um grande sound bite, porque tem bom som e morde, isto é, a sua representatividade, originalidade e música faz com que estas palavras sejam repetidas pelas pessoas na rua e em suas casa. Um óptimo indicador que a campanha está a correr bem é quando as pessoas usam as nossas palavras e as tornam suas também. Melhor ainda é quando o adversário não consegue competir com a efectividade das nossas palavras. Por isso é que este é mais que um simples slogan de candidatura; tornou-se o mantra de toda a campanha.

Podemos acompanhar a recta final da campanha de Sean Duffy através de várias plataformas da Internet: no site oficial, no dos voluntários da sua campanha, no facebook, twitter, Youtube... e todos estes canais são apenas o mínimo que qualquer campanha eleitoral moderna deve contemplar na sua estratégia. Sim, estratégia. Porque sem uma estratégia fundamentada, nada feito. Mas disso falaremos melhor depois, noutro postal.

sexta-feira, 15 de outubro de 2010

grandes fotografias políticas (I)

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David Cameron, Primeiro-Ministro britânico, a começar o dia com uma tosta enquanto lê as notícias matinais no seu iPad. Simplicidade no compromisso. Começar o dia alimentando o corpo e a mente. O domínio tecnológico e o glamour do poder, para inglês ver. A grande força desta fotografia (além da evidente qualidade no aproveitamento da luz), é que mostra um político apaixonado pelo seu trabalho.
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É difícil eu gostar de uma fotografia de um político a jogar golfe, por exemplo, como as equipas de comunicação de Obama ou Bush insistiam em tirar. Porquê? Porque essas imagens podem ser usadas pelos adversários contra eles: "está fora da realidade"; "anda praticando desportos de gente rica, esquecendo-se da gente pobre"; "nem sequer sabe pegar no taco, tal como não soube pegar no País", etc., e por aí fora. Claro que o cenário seria pior ainda se o golfista fosse Sócrates ou Zapatero, pois nos Estados Unidos o golfe é um desporto nacional e na Europa continental o golfe é uma prática bastante mais elitista.
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Este retrato de David Cameron não tem pontos negativos nem ambíguos por onde os adversários possam pegar, apenas mostra um Primeiro-Ministro trabalhando com gosto à mesa do pequeno-almoço. Porque acima de tudo, ele foi eleito é para trabalhar. Ou pelo menos, é essa a cultura do seu país.
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quarta-feira, 4 de agosto de 2010

quero menos impostos

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Querer menos impostos é saber que gasto melhor o meu dinheiro comigo do que o Governo. O Governo não devia gastar o meu dinheiro comigo, que para isso estou aqui eu, mas devia tomar conta das necessidades sociais que escapam da minha esfera de acção. E se o Governo deixar de ter essa ineficiente (e a maior parte das vezes ineficaz) preocupação de gastar o meu dinheiro comigo, eu não precisarei de pagar tantos impostos e poderei aplicar esse dinheiro muito melhor. A partir daqui derivam várias políticas e uma mudança profunda da nossa relação com o Estado e connosco próprios. Onde todos ganham: o Governo, menos preocupações e dores de cabeça; o Estado, mais sustentabilidade e futuro; quem precisa, melhor assistência e investimento de quem conhece os problemas de perto; e nós, mais responsabilidade e mais riqueza.
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segunda-feira, 14 de dezembro de 2009

a família unida - um valor a defender

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(...)
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O pai disse-lhes então:
- Meus filhos, o mais pequenino de vós partiu sem lhe custar nada todos os vimes, enquanto os partiu um por um; e o mais velho de vós não pôde parti-los todos juntos; nem vós, todos juntos, fostes capazes de partir o feixe. Pois bem, lembrai-vos disto e do que vos vou dizer: enquanto vós todos estiverdes unidos, como irmãos que sois, ninguém zombará de vós, nem vos fará mal, ou vencerá. Mas logo que vos separeis, ou reine entre vós a desunião, facilmente sereis vencidos.
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(...)
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in "Parábola dos Sete Vimes", de Trindade Coelho (1861-1908).
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as salsichas e as leis



Os cidadãos não poderiam dormir tranquilos se soubessem como são feitas as salsichas e as leis.



domingo, 13 de dezembro de 2009

el lobby del queso en Portugal


EL LOBBY DEL QUESO EN PORTUGAL

Contexto:

Estamos en septiembre del año 2000. El Gobierno socialista (PS) había sido elegido el pasado año de 1999 con un curioso equilibrio de fuerzas en la Assembleia da República (Parlamento): 115 de los 230 diputados son del partido socialista, los otros 115 son de los variados partidos de la oposición. El Gobierno necesita tener 1 apoyo más (un diputado) para aprobar sus leyes tranquilamente, de las cuales la más importante es el Presupuesto General del Estado (cuya votación es en el noviembre de 2000).

En el norte de Portugal hay una ciudad, Ponte de Lima, donde hay una industria de queso de alta calidad, pero que en el año 2000 iba a cerrar un conjunto de fábricas y deslocalizarlas hacía las afueras de Lisboa, la capital. Las empresas de queso no quieren moverse de Ponte de Lima, pero se ven forzados a hacerlo por motivos económicos. Su gran preocupación es la reputación de sus marcas al tener que despedir centenas de personas, posiblemente generando impactos negativos a distintos niveles: regionales, comerciales y legales.

El Presidente da Câmara (Alcalde) de Ponte de Lima es también diputado en la Asamblea, electo por ese círculo electoral con apoyo del Partido Popular, que está en los antípodas políticos del Partido Socialista. Se ve presionado por 3 lados: Los trabajadores de Ponte de Lima que no quieren quedarse en el paro; las empresas de queso que no quieren cerrar sus fábricas; y su Partido, que impone disciplina de voto en las votaciones del Presupuesto General del Estado.

El Alcalde de Ponte de Lima, Daniel Campelo, decide por fin liderar el lobby del queso y negociar con el Gobierno su voto, arriesgando su carrera dentro del Partido Popular pero ganando aún más la simpatía de sus electores.


Objetivos de la campaña de lobby:

  1. Que el Gobierno dé garantías y condiciones para que las fábricas de queso se queden en Ponte de Lima.
  2. Que el Gobierno construya mejores infraestructuras que beneficien el acceso a las fábricas (dos carreteras en particular).
  3. Que el Gobierno de incentivos fiscales a la industria del queso y facilite subvenciones para la innovación tecnológica de las fábricas.


Timing:

El timing es corto. En apenas 2 meses y medio (septiembre, octubre y 10 días de noviembre), Daniel Campelo tiene de conseguir 3 cosas:

  1. Llamar la atención de los ciudadanos (a través de los Medios de Comunicación) y del Gobierno para la situación de la industria quesera de Ponte de Lima.
  2. Llegar a negociación con el Gobierno para obtener los beneficios que quiere para su región.
  3. Que el Gobierno no consiga llegar a acuerdo con los partidos de la oposición. Este apartado es fácil, pues el Gobierno tiene una mayoría frágil y todos están interesados en que haya elecciones anticipadas.

Equipo:

Daniel Campelo estará solo en el Parlamento. No tendrá amigos. Desde el Partido Socialista, le miran con desconfianza. Desde su Partido Popular, le miran como si fuera un traidor. Los otros partidos le llaman vendido. Está solo y su único respaldo es el apoyo popular y de las empresas queseras. Como decía el actor John Wayne: Están todos contra mí, menos el pueblo.


Públicos:

- El Primeiro-Ministro y lider del Partido Socialista, António Guterres, para que dé garantías de que los intereses de la industria quesera serán satisfechos.

- El Ministro das Finanças, António de Sousa Franco, el que elabora el Presupuesto General del Estado Portugués.

- Los medios de comunicación, para que le apoyen y den voz al pueblo que le apoya.

- El lider del Partido Popular, Paulo Portas, para que no le sancione demasiado.


Estrategia:

La estrategia es hacer lobby directo (junto al Gobierno) y lobby de grassroots, para que su causa sea lo más popular posible.


Acciones:

- Daniel Campelo empezó por llamar la atención de los medios de comunicación social, anunciando una huelga de hambre en el Parlamento en cuanto el Gobierno no declarase su interés por los fabricantes de queso de Ponte de Lima.

- Durante las negociaciones, Daniel Campelo fue criticando suavemente el Presupuesto en público, para que el Gobierno no pensase que su voto estaba ya ganado.

- Por fin, Daniel Campelo y el Gobierno llegaron a acuerdo: por un lado, Daniel Campelo se abstenía de votar el Presupuesto y el Gobierno ganaba la votación en el Parlamento (115 contra 114 y una abstención); por el otro lado, los intereses del lobby del queso serían públicamente declarados por el Gobierno como siendo de interés nacional, y posteriormente satisfechos.


Presupuesto:

Esta campaña no tuvo precio monetario. El precio fue el voto de Daniel Campelo (o mejor dicho, su abstención).


Resultado:

- Los principales objetivos de las empresas queseras fueran logrados: una gran y moderna fábrica de queso, 6 carreteras nuevas de acceso, 2 medidas extraordinarias de incentivo fiscal para las empresas de la región.

- El Presupuesto General del Estado fue aprobado, y se quedó conocido como el Orçamento Limiano, en alusión a la principal empresa implicada en el lobby: “Queijos Limiano”.

- Daniel Campelo, nuestro lobista, fue expulso del Partido Popular, aunque 4 años después fue readmitido en el seno de su partido. Dejó su cargo de diputado, pero sigue siendo el Alcalde de Ponte de Lima, con votaciones siempre por en cima de los 60%. Hoy es una figura política conocida a nivel nacional y no esconde su deseo de ser un día Alcalde de Viana do Castelo, una ciudad mayor y más importante que Ponte de Lima.


Enlaces de interés:

- http://www.limiano.pt

- http://www.freipedro.pt/tb/150301/opin7.htm

- http://www.inepcia.hpg.ig.com.br/semanais5.html


Bibliografía:

- MALTEZ, José Adelino (2005), Tradição e Revolução – vol. II, Tribuna da História, Lisboa.

- SARAIVA, José António (2002), Dicionário Político à Portuguesa, Expresso, Lisboa.

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