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domingo, 21 de janeiro de 2018

A semana que passou - uma mão cheia de coisas

(Originalmente publicado no "Jacaré parado vira mala" no dia 2 de Outubro de 2017)

A mão cheia compõe-se da palma mais os cinco dedos com que tamborilo neste teclado. E com eles se conta numa penada a semana que passou:

Mindinho: o caso do roubo do paiol de Tancos
Continua o caso do roubo de armas de Tancos sem desenvolvimentos nem solução, e apenas se discute se há relatório ou ainda não. Como assim? Dizia o famoso poeta e gastrónomo Chinês Su Shi 苏轼 (1037-1101) que "As famílias, quando uma criança nasce, querem que ela seja inteligente. Eu, que pela inteligência me tenho prejudicado a vida toda, apenas espero que a criança seja ignorante e estúpida. Assim, terá uma vida tranquila e será um Ministro com gabinete." Não é preciso dizer mais nada.

Anelar: a malograda tentativa de referendo na Catalunha
Há muitos ângulos por onde abordar a questão. Barcelona e Madrid, ambos, estão cheios de razão e da falta dela. Não me interessa entrar por aí. Mas qual deve ser a posição de Portugal neste caso? Portugal habita a mesma península que os intervenientes. Deve o Governo abster-se de qualquer palavra ou apoio a que lado for, mantendo prudente imparcialidade e esperando atento pelo desenlace da situação. Ganhe este braço-de-ferro quem ganhar, e perca quem perder, no fim de contas temos de voltar ao business as usual com ambos os lados.

Este seria o mapa das eventuais independências dos vários povos da Europa. De registar que, por ser um Estado-Nação em que Estado e Nação coincidem exactamente no mesmo território, Portugal é dos poucos países que ficaria intacto.

Do meio: eleições autárquicas em Portugal
Ultrapassando a tristeza de ver os socialistas a ganharem mais de metade das câmaras do meu país, vejo a equívoca estratégia eleitoral do PSD ser punida com o voto noutras forças políticas. Tal circunstância terá provavelmente como consequência o fim do ciclo da liderança de Pedro Passos Coelho no PSD. Passos Coelho não foi brilhante no Governo nem na oposição, mas a ele estou eternamente grato por ter derrotado José Sócrates em 2011. Mais uns anos de Sócrates, e não sei o que restaria de Portugal para os meus filhos. Venha Rui Rio.

Indicador: a morte de Hugh Hefner
Morreu o fundador da revista Playboy. Antes de ser o caquético baboso que víamos a rodear-se das mais jovens practicantes da dita mais velha profissão do mundo, este homem não era um tonto qualquer. Muito hábil como publicista e empresário, Hugh Hefner compreendeu as circunstâncias dos anos 60 na América e contribuiu de forma decisiva para a revolução sexual. Desta caixa de Pandora saíram vários monstros, das feministas queimadoras de soutiens ao lobby gay, dos ideólogos de género aos partidários da legalização do aborto, dos pró-barrigas-de-aluguer aos pornógrafos, dos pedófilos aos polígamos, aos zoófilos e a inúmeras outras perversões que a tal revolução sexual nos obriga gradualmente a tolerar em nome da liberdade. Se as feministas mais radicais consideram a mulher um deus capaz de decidir sobre a vida e a morte de outros seres humanos (como no aborto), Hugh Hefner tratava a mulher como um simples objecto cuja utilidade era satisfazer todos os desejos sexuais do homem. Nisto consiste, para uns e para outros, a liberdade sexual: desafiar abertamente a moral judaico-cristã em crise e substituí-la por uma nova moralidade que se recusa a aceitar a mulher e o homem na sua ordem natural e plena dignidade humana. O recente duelo eleitoral de Hillary Clinton e Donald Trump personificou duas faces desta mesma moeda: a revolução sexual, para a qual Hugh Hefner tanto contribuiu com a sua revista e trabalho, e que tantas famílias destruiu. Hugh Hefner morreu, mas temo que, infelizmente, o seu legado continue a fazer vítimas tanto do lado da procura como da "oferta".

Polegar: uma semana cheia de trabalho
Não é que me queixe, eu faço o que gosto! Mas tendo uma viagem grande pela frente, gostaria de estar mais disponível para a família antes de ir. No entanto, há várias coisas para pôr em ordem antes de fazer as malas e partir. Gostava de esticar o tempo e encurtar o cansaço. Não posso. É nisto que me lembro deste poema de Miguel d'Ors, que me ficou dos bons tempos de quando estudei em Navarra:

Reproche a Miguel d'Ors

Tu corazón navega en la «Kon-Tiki»,
se adentra con Amundsen por las grandes
soledades heladas,
sube al Nanga Parbat con Hermann Buhl, se abre
paso hacia el Amazonas, monta potros,
se hunde en ciénagas verdes con fiebres y mosquitos,
atraviesa desiertos, caza el oso.

Y tú aquí, traidor, en un escalafón y un horario.

sexta-feira, 30 de junho de 2017

sobre o populismo

(Originalmente publicado no "Jacaré parado vira mala" no dia 30 de Junho de 2017)


Estive esta semana no Estoril Political Forum, que é um encontro de ciência política que o Instituto de Estudos Políticos da Universidade Católica Portuguesa organiza anualmente. O título do encontro que durou 3 dias era “Defending the western tradition of liberty under law” e nele participaram distintos académicos, políticos, diplomatas, jornalistas e interessados em geral. Não pude ir a todas as apresentações que queria, mas houve um debate sobre o populismo que esteve um pouco perdido entre conceitos e autores que pouco ajudavam ao esclarecimento. E quanto a mim, a resposta era muito simples, bastava voltar a olhar para o título do forum: “defender a tradição ocidental da liberdade num Estado de Direito”.

No entanto, o debate foi no sentido de definir o populismo como um ataque contra as instituições representativas e contra a diversidade cultural. Mas o populismo é um ataque a partir de onde? Quando questionamos a boa saúde de uma instituição, estamos a atacá-la? E desde quando é que a diversidade cultural e o multiculturalismo são coisas indiscutíveis e a identidade de um país um tabu? É legítimo fazer estas perguntas, e mais que legítimo é bom para a saúde da democracia e das suas instituições fazê-las. O problema não é questionar.

Diria que a primeira diferença entre um populista e outros intervenientes pode ser uma certa falta de educação e polimento, pois confunde a crítica ao “politicamente correcto” com a tentação de se ser simplesmente “incorrecto”, tanto nos modos grosseiros como na falta de honestidade intelectual. Preocupa-me que esta atitude irada seja tão atraente e charmosa para muitas pessoas que têm também os seus problemas pessoais e assim se sentem por momentos identificadas, tornando o populismo popular. Mas esta distinção não é suficiente. “Como” a questão é posta diz-nos mais acerca do populista, que parece questionar determinada instituição com desprezo existencial, seja essa instituição um dos ramos do poder (legislativo, executivo, judicial) ou uma instituição intermédia que compõe a sociedade civil, como as associações, as igrejas, as escolas, os bairros ou a família.

No meu entender, o populismo é uma atitude revolucionária contra o Estado de Direito, contra as leis e as disposições constitucionais que garantem não só a separação dos poderes como os freios e contrapesos (checks and balances) que nos protegem dum poder absoluto. Para pegar no primeiro e segundo lugares do esquecido concurso da RTP “Grandes Portugueses”, numa ditadura, podemos ter a sorte de ter um Salazar… mas o acaso não evita que a ele lhe suceda um Cunhal. Numa democracia liberal, um Salazar nunca poderia brilhar… nem um Cunhal. A grande desvantagem duma democracia liberal é a de limitar a liberdade criativa do governante, e a sua grande vantagem é precisamente a de limitar a liberdade criativa do governante. A democracia não nos leva necessariamente a eleger a melhor pessoa para o melhor lugar, mas justifica-se por nos permitir expulsar a pior pessoa desse mesmo lugar. É nesse espírito que leio as célebres palavras de Winston Churchill ditas na Câmara dos Comuns (11.11.1947):

Many forms of Government have been tried and will be tried in this world of sin and woe. No one pretends that democracy is perfect or all-wise. Indeed, it has been said that democracy is the worst form of government except all those other forms that have been tried from time to time.

Winston Churchill

Para além das instituições, há quem acuse o populista de “identificar os outros”. Mas não faz parte do debate identificar os outros e aquilo que defendem? Bem sei que não há comunistas tão maus como o comunismo nem cristãos tão perfeitos como Cristo, mas as ideias têm autores e devemos responsabilizar e questionar directamente as pessoas que as defendem. O que não está certo fazer é odiar os adversários e transformá-los em bodes expiatórios, como os nazis fizeram com judeus, ciganos e outras raças. O ódio e a destruição da experiência nazi comprometeu desde então até hoje a busca pelos povos da sua identidade. Mas a identidade, as fronteiras e os países continuam a ter uma razão de ser, razão essa que deve ser investigada e debatida sob pena de aumentarmos a crise de identidade que os povos ocidentais vivem nos dias de hoje e que os terroristas islâmicos e outros inimigos civilizacionais tão eficazmente têm sabido aproveitar.

Deixo a pergunta em aberto, não será “populista” uma palavra da moda para identificar o “revolucionário” - personagem bem mais antigo na história da política? Talvez não sejam exactamente a mesma pessoa, mas esta é a definição simples que mais se aproxima da ideia que tenho do populista. Apesar do tratamento mediático da política apontar noutro sentido, o populismo não é só de direita. Se pensarmos à esquerda, nomeadamente em Chávez, Maduro, Castro, Zapatero, Iglesias, Lula, Sócrates… não são eles excelentes exemplares deste fenómeno? O populismo não é uma ideologia, é uma atitude rude de se estar em público, que inclui uma estratégia de infiltração, conquista e concentração do poder à volta de uma só pessoa.

No fim do debate no Hotel Palácio do Estoril, houve uma aluna de doutoramento que não pode participar no debate por restrições de tempo. Ela estava zangada e achava que não a deixaram falar porque tinham medo daquilo que ela ia dizer. E como não o disse a todos, disse-o a mim: “eu considero-me populista, e acho muito bem que se seja populista! Abomino o politicamente correcto e por isso não me deixam falar. Não sou democrata, sou contra a imigração e digo-lhe mais… eu sou racista”! Enquanto me recompunha de tão desagradável declaração, tentei desviar a conversa para um tema mais simpático sem sucesso, pois fui cortado na palavra. Despedi-me cordialmente e deixei-a a praguejar com um americano contra o politicamente correcto. Penso que esta rapariga estava provavelmente certa em assumir-se como populista. Lamentavelmente, personificava a atitude que acima descrevo e que encontro também noutras pessoas.

Michael Oakeshott

Se queremos combater o populismo, temos de estar aptos a discutir todo e qualquer tema (evitando tabus) importante com elevação, boa educação, respeito pelas opiniões diferentes, respeito pela história e pelas instituições, pacificamente, com espírito aberto e vontade de descobrir a verdade das coisas. Tanto os populistas como muitos dos seus críticos cabem bem na descrição crítica que Michael Oakeshott faz do racionalista:

(…) he is something also of an individualist, finding it difficult to believe that anyone who can think honestly and clearly will think differently from himself.

Não caia eu nesse erro.

terça-feira, 28 de junho de 2011

o povo em tempos de crise



A população geral, em tempos de crise, quando estão em causa assuntos importantes, tipicamente esperam que a sua salvação aconteça por meios irracionais, mais do que por meios racionais.

in "Vida de Temístocles", de Plutarco (45-120 d.C.)





quarta-feira, 22 de junho de 2011

o discurso de Passos Coelho



O discurso do Primeiro-Ministro Pedro Passos Coelho na tomada de posse do XIX Governo foi adequado. Demonstrou humildade e realismo. Passos Coelho não fez grandes promessas, anunciou alguns erros de antemão e pediu paciência para o que aí vem. Ele expôs as suas prioridades e as linhas de actuação do Governo para os próximos 4 anos. Foi um discurso que colheu vários elogios.

Este foi um discurso bastante alegórico. Passos Coelho quis definir estes tempos como uma tormenta de mar, o povo português como o herói marinheiro que sempre foi, e ele próprio como o capitão do navio que mudará o rumo para levar o País a bom porto. Foi uma formulação interessante, que sem dúvida encontra eco cultural entre os portugueses.

No entanto, a Rádio Renascença apostou numa metáfora muito mais forte que os Descobrimentos no Portugal de hoje: o futebol. A notícia da Renascença online era "Onze de Passos Coelho toma posse. É o XIX Governo Constitucional". O treinador e sua equipa. Nós seríamos os treinadores de bancada, e os homens da troika o trio de arbitragem. Resta saber em que liga vão jogar, se a dos Campeões ou a da Europa, e se jogam para o título ou simplesmente para não descer de divisão.

Registo a expressão que o novo Primeiro-Ministro usou, de pacto de confiança, responsabilidade e abertura. É mesmo isso que precisamos neste momento, de renovada confiança. As três grandes prioridades deste Governo também foram enumeradas de forma clara: estabilizar as finanças, socorrer os mais necessitados, fazer crescer a economia e o emprego. Na figura lá em cima, vemos as palavras mais usadas no discurso, de onde se destacam Confiança, Abertura e Mudança. Foi esta a mensagem que Passos Coelho quis passar.

Gosto, finalmente, da síntese das políticas que aí vêm em apenas duas frases: Queremos um Estado mais pequeno, mais ágil e mais forte, por um lado, e uma sociedade mais livre, mais autónoma e mais próspera, por outro. Na verdade, são como que duas faces da mesma moeda. Não foi à toa que Pedro Passos Coelho se comparou a David Cameron no seu debate televisivo com José Sócrates. É na Big Society de Cameron que Passos Coelho se inspira.

quinta-feira, 9 de junho de 2011

a brasileira da campanha do PSD



Alessandra Augusta é esta mulher que vemos na fotografia. É brasileira e foi contratada pelo PSD para fazer esta última campanha eleitoral. Antes disso, tinha feito algumas eleições locais no Brasil. Alessandra foi atacada por todos os lados, mas continuou discretamente o seu trabalho. Alguns dos ataques até vieram de dentro, de consultores nitidamente aborrecidos por não estarem no seu lugar. Coisa feia, e o algodão não engana.

Hoje, a responsável pelo marketing da campanha do PSD vem dar uma entrevista ao jornal Sol, de onde tiro apenas esta sua resposta:

Tentou modelar Passos Coelho?

Não. O que se fez foi potenciar o que ele tinha de bom. O mais interessante desta campanha é que o ‘não-marketing’ foi o grande marketing. Não trabalhámos Passos Coelho e deixámo-lo o mais natural possível. Porque é um candidato consistente, ainda que pouco conhecido. Mas, ao mesmo tempo, tínhamos outros dois candidatos, Sócrates e Portas, que eram excessivamente marketing. Eram sound-bytes demais. Essa autenticidade de Passos Coelho foi uma mais-valia. É uma circunstância positiva: tínhamos um candidato com conteúdo, com histórico, que sabia como falar com as pessoas, principalmente na rua, com um discurso próprio e formatado. Foi muito mais ele a contribuir para que nós só déssemos forma às coisas do que o marketing a interferir directamente. Se Passos Coelho tivesse um perfil mais artificial não teria avançado tão rapidamente.


A entrevista completa pode ser lida aqui. Quero apenas deixar um contraste entre o que Alessandra disse hoje (dia 9 de Junho) e o que "A Conspiração das Teorias" foi avançando ao longo da campanha.
  • No dia 15 de Maio escrevi:

    "Passos Coelho também tem feito vários erros de comunicação e imagem. Mas estes erros não o têm afectado tanto como a Sócrates. A diferença entre Passos Coelho e Sócrates, neste aspecto, é que Passos Coelho tem errado dentro da sua genuinidade, o que a gente desculpa e até compreende. Já Sócrates parte numa situação mais delicada, pois representa neste momento um personagem que não é ele próprio e, sempre que erra, essa incoerência salta à vista. A grande comodidade de Passos Coelho em relação a Sócrates e a Portas é que a personagem que encarna ainda não saiu de dentro de si. E para se aguentar assim, Passos Coelho terá de cultivar a humildade.
    "


  • No dia 3 de Junho escrevi nos comentários que se seguiram ao postal:

    "Claro que houve erros, há sempre, mas não houve erros grosseiros. Por outro lado, também não podemos dizer que a campanha do PSD tenha tido grandes rasgos de criatividade. Não arriscaram, jogaram pelo seguro e tentaram manter a autenticidade do candidato: muito dialogante e explicativo."

    e

    "As qualidades pessoais de Passos Coelho (mais que as propostas políticas) permitiram-lhe ser a solução do "bom senso" para os problemas que os portugueses atravessam. A realidade e o bom senso em contraste com os líderes dos partidos que podem disputar eleitorado com ele. Tanto Sócrates como Portas representam personagens que já há muito descolaram da realidade.
    "


  • E no dia 6 de Junho escrevi:

    "Pedro Passos Coelho conquistou o voto pela personalidade simpática e autêntica, e por isso confiável."

Lendo o que está para trás vejo que este postal corre o risco de ser entendido como um auto-elogio, o que não quero de maneira alguma. Não é isso que está em questão. O que quero dizer é que não há campanhas perfeitas, mas esta campanha do PSD foi bem dirigida. Foi uma campanha muito conservadora e sem grandes rasgos de criatividade, mas também sem grandes erros.

Outra coisa que quero deixar clara é que não concordo com a utilização da palavra "marketing" em campanhas eleitorais. Não gosto. Trata os políticos como se fossem produtos, as pessoas como se fossem consumidores, e os votos como se fossem o dinheiro que paga o consumo. Prefiro usar um termo mais humano e abrangente: comunicação. Mas isto é apenas um à-parte.

No fim de contas, Alessandra mais que cumpriu com os objectivos da campanha. Atribui com humildade o mérito da vitória a quem de direito, que é Passos Coelho. Calou os seus críticos. E volta para casa com uma grande vitória eleitoral no seu curriculum.

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segunda-feira, 6 de junho de 2011

vencedores, derrotados, surpresas e expectativas


Vencedores:

- Pedro Passos Coelho: Conquistou o voto pela personalidade simpática e autêntica, e por isso confiável. Tem alguma credibilidade mas também suscita algumas dúvidas pela novidade de certas ideias que traz pela primeira vez à política portuguesa. A sua margem de manobra está condicionada pelo cumprimento do acordo com a ajuda internacional e pela crise económica em que vivemos. Mas todo o vencedor tem direito a um "estado de graça", por mais curto que seja.

- PPD/PSD: Teve 38,6% dos votos e elegeu 105 a 108 deputados (falta atribuir os 4 deputados dos emigrantes, e o PSD conseguirá 2 ou 3 deles). Esteve perto da maioria absoluta, que se consegue com 116 dos 230 deputados da Assembleia da República. Será inequivocamente o partido líder do novo Governo.

- CDS/PP: Obteve a melhor votação dos últimos 28 anos, teve 11,7% dos votos e 24 deputados, tantos quanto a CDU mais o BE juntos. Terá 3 ou 4 ministros no novo Governo. Ganhou em tudo menos nas expectativas ainda maiores que ajudou a criar. Paulo Portas é um resistente, lidera o CDS desde 1998 (à excepção do período 2005/06). Terá o objectivo pessoal de ser Ministro dos Negócios Estrangeiros.

- CDU: Os únicos à esquerda que consolidaram os resultados de 2009. A CDU perdeu 5.322 votos, mas subiu ligeiramente a percentagem (graças à abstenção) e conseguiu mais um deputado (16). Ultrapassou também o BE e voltou a ser a 4ª maior força política em Portugal.


Derrotados:

- José Sócrates: Sai de cena pela porta pequena. Despedido pelos eleitores, rejeitado pelo partido e abandonado pelos amigos. A queda foi grande e com estrondo. Demorará tempo a recompor-se e durante a quarentena ninguém se chegará perto. Quando ganhou, todos estavam lá. Agora que perdeu, ninguém quer aparecer com ele na fotografia.

- PS: Teve o pior resultado eleitoral dos últimos 24 anos. Terá apenas 73 a 75 deputados, conforme ganhe mais 1 ou 2 lugares através do voto emigrante. Não soube renovar as ideias, nem as propostas, nem os candidatos, e fez um uso muito criticável da campanha negra. O partido não soube transmitir confiança nem renovação. O desgaste socialista é visível. Será interessante ver como o PS tentará renascer das cinzas e fazer as pazes com o país.

- BE: Perdeu metade dos deputados (de 16 para 8) e volta a ser a 5ª maior força política do país, com 5,2% dos votos. O BE perdeu a frescura, tornou-se previsível e deixou de ser ouvido. Costumava ter também a campanha mais criativa e fora do normal, mas não o foi nestas eleições. Há a sensação que a sua missão histórica foi cumprida, pois infelizmente conseguiu a liberalização do aborto, o casamento para homossexuais, o divórcio expresso, entre outras erosões que provocou na sociedade. Foi o partido que nos últimos anos governou em Portugal no campo dos valores (forçando o PS a ir atrás), e o resultado é a crise de valores que existe e que só não é mais notada por causa da crise económica. O BE continua com "causas fracturantes" para dar e vender, mas os eleitores foram sensatos em pôr-lhe um grande travão nestas suas batalhas.

- Empresas de Sondagens: Andaram todas muito longe da realidade, desde o insistente "empate técnico" anunciado, até às patéticas explicações que foram dando ao longo da campanha. Os métodos não foram claros, e quando foram mostravam falhas grandes. Por exemplo, as sondagens telefónicas que faziam ligando para telefones fixos, quando mais de 40% dos portugueses já não têm telefone fixo. E os portugueses que têm telefone fixo têm características especiais que enviesam a amostra. Lembro aqui o que escrevi sobre como "a melhor sondagem é a que não se publica". Mas nas próximas eleições lá estarão as televisões a dar novamente todo o crédito às sondagens. Podem errar muito, manipular, mas enfim... é o que há.


Surpresas:

- Discurso de Pedro Passos Coelho: sem grandes triunfalismos, prometeu trabalho e acabou cantando o Hino Nacional antes de responder às perguntas dos jornalistas. Tem de se esforçar mais para não ser tão aborrecido no discurso.

- Discurso de José Sócrates: assumiu e aceitou a derrota, retira-se da política partidária activa. Teve um impressionante bom perder, e agradeceu a todos os que o apoiaram, apesar de na sala estarem poucas dessas pessoas. Foi um bom discurso, emotivo, que perdeu muito em ser lido no teleponto. Não se fala dos filhos e de sentimentos como o seu amor a Portugal a ler o que diz o teleponto.

- Elevada abstenção: 42,1% é uma taxa elevadíssima de abstenção dada a encruzilhada muito grande em que Portugal estava e está. Significa que 4 em cada 10 eleitores preferiu não exercer o seu direito de voto e escolher o melhor possível para nos governar. É triste e sintomático. Também é verdade que as campanhas não falaram muito para os novos eleitores e para os habituais abstencionistas. Mas este dado merece uma maior reflexão.

- PAN: Um partido novo e desconhecido que teve uma boa primeira votação graças ao nome "Partido pelos Animais e pela Natureza" e terá capitalizado o descontentamento de certas pessoas desencantadas com o BE, apesar do PAN estar bastante mais ao centro. Não deixa de ser preocupante que o partido se defina por ser pelos animais, e não pelas pessoas.

- MEP: Apesar de ter conseguido uma boa presença na internet e uma grande exposição na TV, os resultados ficaram muito aquém do esperado graças ao voto útil no PSD e no CDS.


Onde "A Conspiração das Teorias" acertou:

- PSD com cerca de 37%: teve 38,6%. As previsões públicas ultrapassavam os 40%.

- CDS um pouco acima dos 10%: teve 11,7%. As previsões públicas andavam pelos 14%.

- CDU um pouco abaixo dos 10%: teve 7,9%.

- BE muito abaixo dos 10%: teve 5,2%.


Onde "A Conspiração das Teorias" errou:

- PS estaria perto dos 32%: teve 28,1%.

- MEP ultrapassaria o PCTP/MRPP: não só não o fez, como ainda ficou atrás do PAN e do MPT.


Expectativas:

- Que o PSD e o CDS se entendam rapidamente para formar um Governo equilibrado e pronto para trabalhar no duro e dar resposta às necessidades do país.

- Que o PSD cumpra o seu programa de fazer "mais e melhor com menos", de cortar as gorduras do Estado, de libertar certos sectores da economia da asfixia estatal e torná-la mais competitiva, de não se esquecer de quem mais precisa.

- Que Paulo Portas e o CDS saibam ser, desta vez, um factor de estabilidade e não o contrário. Que dêem também profundidade de valores ao liberalismo do PSD, dentro da linha que se espera dum partido como o CDS.

- PS deve virar à esquerda e fazer a sua oposição na rua, através de manifestações e greves contra as medidas de austeridade do novo Governo e contra o acordo com a troika que eles próprios assinaram. Oxalá não seja assim, mas é o mais natural de acontecer para um partido reduzido a 73-75 deputados (talvez ganhe mais 1 ou 2 na contagem dos votos emigrantes), com presença nos sindicatos da UGT e com a oportunidade de surfar uma crescente onda de descontentamento social.

- A situação não está fácil e o estado de graça de Passos Coelho e do PSD deve durar menos que o costume. É importante que Passos Coelho concilie a sua capacidade de diálogo com mais convicção e liderança, que ponha ordem na casa e saiba formar um Governo bom e coeso, senão corre o risco de - como diz um amigo meu - se tornar "o António Guterres do PSD". Ou seja, uma boa pessoa mal rodeada.

- Finalmente, espera-se do próximo Ministro das Finanças que seja competente, mas que para além disso saiba inspirar confiança e fomentar valores, como na sua altura fez Ernâni Lopes.


Cumprir os compromissos assumidos. Mas principalmente pensar estrategicamente no futuro de Portugal a médio e longo prazo, com educação, com trabalho e com valores.

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sexta-feira, 3 de junho de 2011

os erros da máquina de campanha mais elogiada


A campanha do PS foi mal conduzida a vários níveis. Foi mal conduzida porque a única coisa de que se falou a respeito do PS nesta campanha, foi de como a sua máquina de propaganda era boa e profissional. Não se falou de propostas do PS para o futuro do país porque elas não existem. E apostou-se na capacidade de resistência de José Sócrates, quando há muitos meses ele já estava manifestamente gasto e sem qualquer capital político. Os pozinhos de perlimpimpim não aguentam a exposição 24h/dia durante uma campanha inteira, e nunca desta maneira.

Foi toda uma sucessão de erros da campanha do PS, que se dedicou unicamente a falar de Pedro Passos Coelho e do PSD, fazendo uso de uma agressiva campanha negra. A emoção que o PS mais explorou em campanha foi o medo, e até essa escolha foi ineficaz, pois o maior medo dos eleitores é que José Sócrates continue a governar.

O povo sabe desculpar erros, mas ninguém gosta de mentirosos compulsivos. Em 2009 as pessoas deram o benefício da dúvida a Sócrates, e com isso mais uma oportunidade de se redimir. O lema de Manuela Ferreira Leite e do PSD em 2009 era "Política de Verdade". Foi uma escolha precoce. Mas a ideia hoje reinante é que a falta de sinceridade de Sócrates é incorrigível. Pergunto-me se o lema "Política de Verdade", dois anos depois, não teria tido muito mais sucesso. Apesar disso, considero o "Mudar" melhor, porque implica acção e esperança. Não fizeram mal em pedi-lo emprestado a Obama.

José Sócrates vai perder as eleições no Domingo. O Governo socialista trouxe-nos a este precipício, o seu líder não tem mais credibilidade, e faltam ideias para o futuro do País.

E quando os homens dos bastidores de uma campanha são notícia, mesmo que aparentemente positiva, isso é mau sinal. Estes têm de ser discretos e deixar o palco para os candidatos brilharem. Se Sócrates não servia (e não serve, está gasto), então deviam ter dado visibilidade aos candidatos a deputados de cada círculo.

A campanha do PS, que a par do CDS/PP foi a mais elogiada pelo profissionalismo, pecou por vaidade e por falta de visão, e foi de longe a campanha que fez os erros mais grosseiros. Desde o princípio que observo isto e não vi ninguém dizê-lo. Digo-o somente agora - a escassos minutos do dia de reflexão começar - porque não queria de maneira alguma contribuir (por mais modestamente que fosse) para a perpetuação socialista no Governo de Portugal.

Dito isto, penso que o PSD vai ganhar com cerca de 37%. O PS ficará perto dos 32%. O CDS um pouco acima dos 10%. A CDU um pouco abaixo. O BE bastante abaixo. E dos partidos mais pequenos, pode haver ainda duas surpresas.

O MEP pode eleger Rui Marques por Lisboa, depois de ter conseguido (por decisão do tribunal) marcar presença no horário nobre dos 4 canais de televisão de sinal aberto, nos últimos 2 dias de campanha, quando os indecisos ainda eram entre 15 e 20%. Mesmo que não eleja o deputado, provavelmente ultrapassará o PCTP/MRPP como 6º partido mais votado, ou o maior dos mais pequenos. Trouxe frescura à campanha através de acções criativas como os comícios mais pequenos do mundo e uma boa presença na Internet. A mensagem é de esperança, palavra que integra o próprio acrónimo MEP.

A segunda surpresa pode ser José Manuel Coelho, candidato do PTP pelo círculo da Madeira. Para ser eleito basta-lhe capitalizar o descontentamento da oposição na Madeira, tirando votos ao PS e CDU, e ter metade da votação que conseguiu na Madeira nas presidenciais de há apenas 5 meses atrás.

Mas acabo como comecei, com a campanha socialista. Depois de uma campanha tão negra e cheia de mentiras e insinuações, depois de tanta emoção falsa e energias negativas, depois de tanto blame game... que estratégia adoptará o PS a partir da próxima 2ª feira para se reconciliar com os portugueses?

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Adenda:
  • vale a pena ler aqui os interessantes comentários a este post.
  • o consultor Renato Póvoas também escreve sobre a possibilidade de o MEP eleger Rui Marques e a curiosidade acerca do impacto dos seus debates na TV, no seu blog Relações Públicas Sem Croquete.
  • e como há imagens que valem mais que mil palavras, recomendo este cartoon do grande blog do cartoonista Henrique Monteiro, HenriCartoon.

sexta-feira, 27 de maio de 2011

mudar de condutor



Traduzido dos EUA 1952 para Portugal 2011:

- Os socialistas fizeram erros, mas as intenções deles não são boas?
- Bem, se o condutor da carrinha da sua escola vai contra um camião, bate num candeeiro da rua e despenha-se numa valeta... a questão não é se as suas intenções são boas. Temos de arranjar é um novo condutor.

domingo, 15 de maio de 2011

as mangas arregaçadas de Sócrates


Sei que este postal não versa sobre conteúdos e propostas (o que mais importa para os eleitores), mas apenas sobre a imagem e as aparências que permitem a um candidato entregar melhor ou pior a sua mensagem ao público assistente. Comparemos José Sócrates e Barack Obama quando chegam a um comício.


Barack Obama é naturalmente simpático, comunica bem e sem esforço. Sobe ao palco. Saúda o público. Despe o casaco. Arregaça as mangas da camisa. Sorri. Começa a falar. Diz primeiro como está contente por estar ali. Namora a plateia. A seguir conta uma piada. E depois de ganhar a simpatia do público, coloca a sua mensagem através de uma retórica brilhante, baseada principalmente no relato de histórias - storytelling. Faz pausas onde os aplausos imprimem mais ritmo e dinâmica ao seu discurso. Termina a sua exposição pedindo ao público qualquer coisa, seja dinheiro para a campanha, seja o voto, seja uma acção de apoio. Despede-se demoradamente e deixa-se tocar por todos quantos puderem alcançá-lo com a mão entre os seguranças. Todos ganham o que queriam. Missão cumprida.


José Sócrates é um razoável comunicador porque interioriza o que lhe ensinam sobre comunicação, mas não se pode dizer que este lhe seja um talento inato e natural. Sobe ao palco. Despe o casaco. As mangas já estavam arregaçadas dentro do casaco. E fica o discurso estragado. Ninguém mais dirá que aquele homem e aquele discurso são naturais. E lembramos logo o seu tragicómico episódio "Oh Luís, vê lá como é que fico. Assim fica melhor, ou fica melhor assim?". Game over.

As mangas de camisa arregaçadas mostram vontade de trabalhar, empenho e compromisso. Porém, estes gestos só são levados a sério quando nos parecem gestos naturais e fluidos. A credibilidade e a autenticidade são aspectos chave para que um candidato consiga passar a sua mensagem. É verdade que as imagens valem mais que mil palavras, e precisamente por isso é que é importante fazer as coisas bem feitas e sem erros de palmatória.


Finalmente, Passos Coelho também tem feito vários erros de comunicação e imagem. Mas estes erros não o têm afectado tanto como a Sócrates. A diferença entre Passos Coelho e Sócrates, neste aspecto, é que Passos Coelho tem errado dentro da sua genuinidade, o que a gente desculpa e até compreende. Já Sócrates parte numa situação mais delicada, pois representa neste momento um personagem que não é ele próprio e, sempre que erra, essa incoerência salta à vista. A grande comodidade de Passos Coelho em relação a Sócrates e a Portas é que a personagem que encarna ainda não saiu de dentro de si. E para se aguentar assim, Passos Coelho terá de cultivar a humildade.

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sexta-feira, 15 de outubro de 2010

grandes fotografias políticas (I)

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David Cameron, Primeiro-Ministro britânico, a começar o dia com uma tosta enquanto lê as notícias matinais no seu iPad. Simplicidade no compromisso. Começar o dia alimentando o corpo e a mente. O domínio tecnológico e o glamour do poder, para inglês ver. A grande força desta fotografia (além da evidente qualidade no aproveitamento da luz), é que mostra um político apaixonado pelo seu trabalho.
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É difícil eu gostar de uma fotografia de um político a jogar golfe, por exemplo, como as equipas de comunicação de Obama ou Bush insistiam em tirar. Porquê? Porque essas imagens podem ser usadas pelos adversários contra eles: "está fora da realidade"; "anda praticando desportos de gente rica, esquecendo-se da gente pobre"; "nem sequer sabe pegar no taco, tal como não soube pegar no País", etc., e por aí fora. Claro que o cenário seria pior ainda se o golfista fosse Sócrates ou Zapatero, pois nos Estados Unidos o golfe é um desporto nacional e na Europa continental o golfe é uma prática bastante mais elitista.
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Este retrato de David Cameron não tem pontos negativos nem ambíguos por onde os adversários possam pegar, apenas mostra um Primeiro-Ministro trabalhando com gosto à mesa do pequeno-almoço. Porque acima de tudo, ele foi eleito é para trabalhar. Ou pelo menos, é essa a cultura do seu país.
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segunda-feira, 29 de junho de 2009

pela ética da convicção, contra o voto útil

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Um dos melhores filmes que conheço é o Reino dos Céus (Kingdom of Heaven - 2005), dirigido por Ridey Scott e escrito por William Monahan. O facto de ser um romance histórico, e a necessidade de tornar a narrativa mais cativante e cinematográfica, não garantem precisão histórica, mas em todo o caso esta é uma excelente história que Ridley Scott nos conta. Tendo como pano de fundo a reconquista de Jerusalém pelos muçulmanos em 1187, vemos os extremistas de parte a parte a incitar à guerra que lhes interessava por "vontade de Deus". Este filme tem uma riqueza de conteúdos que permite ser o ponto de partida de várias discussões filosóficas e morais, mas hoje interessa-me aqui citar uns diálogos do "Reino dos Céus" que bem ilustram as éticas de Max Weber em confronto: a "ética da convicção" versus a "ética da responsabilidade".
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Rei Balduíno IV (R) - Decidimos que deverá tomar comando do exército de Jerusalém. Se eu deixar o exército com o Guy, ele tomará o poder através da minha irmã e declara guerra aos muçulmanos [comandados por Saladino].
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Balian, Barão de Ibelin (B) - Seja lá o que pedir, eu servirei.
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R - Não. Oiça tudo antes de responder. Casaria com a minha irmã Sibila [de quem Balian gosta], se ela estivesse livre do Guy de Lusignan?
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B - E o Guy?
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Tiberias, Raimundo III de Tripoli (T) - Vai ser executado. Assim como os cavaleiros que não lhe juram fidelidade.
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B - Eu não posso ser a causa disso.
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T - "Seja o que for que pedir, eu servirei"
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B - Um rei pode mover um homem, disse o senhor. Mas a alma pertence ao homem.
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R - Sim, disse isso.
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B - Aí tem o meu amor e a minha resposta.
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R - Então que assim seja.
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T - Porque é que protege o Guy? Ele é um homem que o insulta, que o odeia. Ele próprio o mataria se tivesse a oportunidade. Nem pela salvação deste reino, será assim tão difícil casar com a Sibila? Jerusalém não tem necessidade de um cavaleiro perfeito.
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B - Não. É um reino de consciência, ou nada.
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B - Sibila!
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Sibila (S) - Quem és tu para recusar o pedido de um rei? Eu sou o que sou. Eu ofereço-te isso. E o mundo. E tu dizes que não.
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B - Achas que eu sou como o Guy? Que eu seria capaz de vender a minha alma?
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S - Virá o dia em que desejarás ter feito um pouco de mal para poderes ter praticado o bem a uma escala maior.
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A dificuldade de muitas das nossas decisões não está em optar entre o bem e o mal, mas entre o ideal e o pragmático, o sentimento e a razão, a convicção e a responsabilidade. Este dilema ético acompanha qualquer pessoa nas suas escolhas ao longo da vida. Como deve ser a minha conduta? A minha ética é a da convicção ou a da responsabilidade? Umas vezes uma, outras vezes outra? Tentar arranjar um equilíbrio entre ambas, tal como sugere Max Weber, não será contaminar a pureza da ética da convicção e torná-la sempre, inevitavelmente, numa ética da responsabilidade?

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Lembro que José Sócrates, na práctica do auto-elogio em que recorre, disse que decidira que o Tratado de Lisboa não iria a referendo em Portugal por uma questão de ética da responsabilidade. Ou seja, para quem crê no valor da democracia ou no valor de honrar a palavra dada na campanha eleitoral, o sr engenhoso preferiu iludir esses valores a arriscar-se a ver o seu Tratado chumbado em referendo. Assim, sou pela ética da convicção em tudo, o mais possível, sem qualquer concessão e defendendo só aquilo em que acredito. Considero até um pouco descabido chamar "ética" à segunda hipótese. É por exemplo pela ética da convicção que desprezo qualquer apelo ao voto útil que façam os dois partidos do poder, ou os cinco da assembleia. Se nalgum deles votar, nunca será por esse repelente argumento, mas pelas suas propostas, ideologias (porque ainda as há), e pessoas. Pode-se dizer que, quem concorda mais com um partido numas eleições e vota noutro porque pensa ser mais útil assim, está-se alinhando por uma ética da responsabilidade (nada a fazer, a designação do Weber é mesmo esta...).

Defender a ética da convicção é proteger a pureza da verdade a todo o custo, numa atitude próxima do irrepreensível. O protagonista deste filme podia ter-se casado com a mulher que amava, ter-se livrado do fidagal inimigo, e ter-se tornado no seguinte Rei de Jerusalém, mantendo uma amigável paz com Saladino, e tudo isto se tivesse dito um simples "sim" ao seu rei. Mas preferiu dizer "não", apenas porque não concordou com o método traiçoeiro de afastar o seu pior inimigo para resolver todos os seus problemas e os do reino. É por isso que considero Balian um dos mais virtuosos heróis que o cinema produziu nos últimos tempos. E se alguém pensa que Balian escolheu a solução que lhe dava menos problemas, está redondamente enganado. Desde quando é que agir conforme a consciência é o caminho mais fácil?

quinta-feira, 14 de maio de 2009

prémio rosa murcha - I

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A Conspiração das Teorias inaugura desta forma o "Prémio Rosa Murcha", que visa distinguir aqueles socialistas e colaboracionistas do socretinismo que se destacaram pela sua especial incompetência, gaffes, ou por seus tiques tirânicos. Elisa Ferreira é a primeira infeliz contemplada, e a escolha é merecida: para além de não mostrar vergonha em concorrer simultaneamente a duas eleições para cargos públicos profissionalmente irreconciliáveis - deputada europeia e a presidência da Câmara Municipal do Porto -, em lugares elegíveis e tomando os eleitores por ignorantes descerebrados, teve o descaramento de dizer em campanha autárquica:
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Pintaram os bairros, mas esqueceram-se de vos dizer que o dinheiro é do Estado, é do PS!
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O dinheiro do Estado é do PS? Exmos. eleitores, desta Elisa, free Porto!
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terça-feira, 12 de maio de 2009

a criminalidade e os bairros sociais em análise

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Sobre os últimos incidentes de criminalidade ocorridos em bairros sociais, algumas notas breves:
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1. Por causa de pequenos grupos de delinquentes, há bairros sociais que são estigmatizados como um todo, a muitos níveis, até na busca de emprego. Conheço pessoas que, para além da carga social de serem pobres, desempregados, deficientes ou de outras raças (que mania palerma agora, a de chamarem "etnias" às raças!), se puderem, não dizem em que bairro moram, porque já lhes aconteceu serem prejudicadas por o dizerem. É necessário estimular os grupos e as lideranças desses bairros para que mostrem as coisas boas que têm à sociedade, e que a comunicação social dê também antena a iniciativas positivas, e não apenas aos acontecimentos negativos. O contraditório e o direito de resposta valem para indivíduos, empresas e partidos que querem defender os seus egos, mas infelizmente ainda não serve para limpar a imagem de bairros inteiros que, muitas vezes, é injustamente manchada.
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2. Os problemas da criminalidade não podem ser reduzidos à questão da emigração. Quanto à emigração, é óbvio que o País deve criar condições para acolher (e não apenas "tolerar") todos aqueles que procurem Portugal para trabalhar e viver. Na falta dessas condições, é nosso dever sermos parcimoniosos na admissão de emigrantes. No entanto, aqueles que já cá estão, têm de ser tratados com toda a dignidade que um português tem e que uma pessoa merece. A vocação histórica do nosso povo passa pelo acolhimento e integração da diferença, pelo respeito multicultural e pela amizade cívica. Agora, é extremamente perigoso e errado insistir em pegar à criminalidade um rótulo de emigração, pois é o mesmo que colocar a todos os emigrantes um selo de criminosos. Esta premissa generalizadora, além de racista e perigosa, pura e simplesmente não é verdadeira.
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3. O urbanismo social tem sido, em geral, mal desenhado. Não só criou guetos erguidos em espírito de apartheid (ciganos para um lado, brancos para aqui, pretos para acolá), como o próprio conceito de "bairro social" é, quanto a mim, errado, principalmente se há casas abandonadas ou desabitadas que são das Câmaras Municipais e nada rendem, antes pelo contrário, prejudicam as vizinhanças. O ideal de integração social seria que em cada bairro houvesse habitantes de todas as condições sociais, tanto quanto fosse possível ao poder municipal de fomentar. Era de entregar estas casas a quem precisa em vez de as distribuir pelos amigalhaços, e cobrar uma renda adequada ao sítio e às possibilidades da família alojada - uma renda justa e aceitável. Recuperava-se e humanizava-se os bairros antigos, a integração dos desfavorecidos seria mais fácil, poupava-se dinheiro, evitava-se a necessidade de mais guetos sociais.
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4. Os contratos locais de segurança são, efectivamente, passos positivos que se têm dado. Se muitas coisas más há a apontar ao actual governo socretino, nem tudo é trevas: também há iniciativas boas que devem ser valorizadas, e estes contratos são uma delas. Através destes acordos, o Estado apoia (em meios e em dinheiro) as associações locais que se encontram nos bairros, mesmo em campo, e que melhor que ninguém sabem quais são os problemas e como lhes dar resposta. Sublinho, é de louvar esta medida.
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5. No entanto, os contratos locais de segurança não chegam. É necessário abrir esquadras de polícia nestes bairros. É necessário um policiamento de proximidade, de facto. A Polícia é mal vista e até mal-vinda nestes bairros, pela simples razão que, sempre que aparecem, é pelas piores razões: repressão, buscas, rusgas, detenções de suspeitos, etc. - o que faz com que as famílias se solidarizem numa frente comum contra a intrusão policial, sem saber qual a pior das inseguranças, se a dos gangs, se a dos azuis. A Polícia actualmente é reactiva, quando deveria ser preventiva. Com esquadras de bairro, os polícias deixam de ser aqueles indivíduos que fazem papel de maus e de brutamontes securitários, para passarem a ser entendidos como amigos que estão lá para o bem das populações, para as proteger. Faz muita diferença o Sr. Agente passar a ser o Agente Silva, faz toda a diferença ele conhecer o Joca dos berlindes, a D. Maria da limpeza e o Sr. André do talho, em vez de os olhar a todos como suspeitos da traficância de droga, das armas e da prostituição.
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6. Com o apoio às instituições locais, com esquadras de bairro, policiamento de proximidade (mais polícias a andar a pé, menos polícias a passar de carro), com melhores planos urbanísticos, com boas escolas em articulação com as universidades e a malha empresarial da zona, e com esforços de integração social e cultural das pessoas, estas populações respirarão novos ares de cidadania.
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sexta-feira, 13 de março de 2009

as tabernas do século XXI

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Quem gosta de um certo ambiente taberneiro, já não encontra em Lisboa muitos antros genuínos, mas para compensar há bastantes stands de automóveis. Ir a um stand de carros é como colher uma generosa amostra sociológica de tabernice, em vários sentidos.
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Por um lado, os vendedores com o gel penteado com um bocadinho de cabelo, meinha branca, cheirando abundantemente a after-shave contrafeito, com um fino e cuidado risco de pêlos no lugar da patilha, tratando o cliente por "o shôr, pá, faxavôr faj'isto e depois had'me dzer s'eu na tinha razão". E depois casca-se no Sócrates, lamenta-se os resultados da bola, cumprimenta-se alguma senhora que passe e manda-se um piropo entre os godes, mas só quando ela estiver à exacta distância de o ouvir sem o perceber. Até aqui não há problema, é até um género típico que acho que deve ser, em certa medida, preservado.
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Contudo, o que realmente me faz pena é ver cada vez mais mulheres nestes stands, escolhidas a dedo pelo chamariz das suas gulosas curvas, muito escassamente vestidas, e com uma atitude que está algures entre o predadora e o delambida. Atenção, a pena que me faz não é a sua existência, mas o facto de terem de recorrer a todos os argumentos que possam encontrar frente ao espelho para cumprir os objectivos de produtividade empresarial e ganhar bónus, ainda para mais em tempos de crise.
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Uma pessoa que vá a um stand, rapidamente se esquece do que vai lá fazer e para onde há de olhar. É terrível. Mas esta indecisão só dura momentos, pois logo vem uma voz rouca de cama que nos lembra "é por causa do arranjo? por aqui, querido", e arrasta languidamente os seus atributos, aos ésses pelo armazém fora.
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Hoje em dia, tudo isto faz parte do marketing automóvel - dizem -, vender o carro explorando ao máximo a testosterona do público masculino, que é o seu principal alvo no mercado. Só que, pelo contrário, este fenómeno nada tem de novo: inspira-se em profissões muito mais antigas que a própria invenção do carro.
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segunda-feira, 23 de fevereiro de 2009

alvo certo, mira torta

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As investigações jornalísticas ao “Caso Fripór” (Freeport?) e todos os ataques pessoais à credibilidade de José Sócrates, só têm tido o reverso e indesejável efeito: ajudar o Primeiro-Ministro a consolidar a sua privilegiada posição nas sondagens, nomeadamente face ao PSD, seu mais directo concorrente.
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Como é possível? É possível. É possível porque as pessoas pouco ligam se um governante é mais ou menos corrupto, ou mais ou menos honesto, desde que os seus direitos, crenças e economias não lhes sejam tirados às claras ou em reconhecível quantidade. As pessoas desculpam favorecimentos aos amigos e à família do titular de um cargo, mas não perdoam uma brusca subida de impostos. A gente fecha os olhos a desvios éticos, mas não esquece a perda substantiva do poder de compra.
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Sejamos claros, este Governo é perigoso e o Primeiro-Ministro uma nódoa. Contudo, a oposição partidária e jornalística ainda não acertou no alvo. Enquanto se fala de fripórs, licenciaturas, faxes, projectos indevidamente assinados, e outros, estão sendo aprovadas socretinas leis que violam o direito das pessoas à privacidade (colocando chips controleiros nos cartões de identidade e nas matrículas dos carros; limitando a liberdade de expressão nos blogues, ou até no Carnaval de Torres; etc.); o assassino direito ao aborto sem qualquer justificação passou a existir; a obrigatoriedade de educação sexual nas escolas foi aprovada entre a 1ª classe e o 12º ano.
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Preparam-se ainda outras políticas da morte, que contemplam por exemplo o direito à eutanásia, o casamento para homossexuais, a liberalização do divórcio, o alargamento do direito ao aborto. Continua a perseguição inaceitável a entidades como a Igreja ou o povo da ilha da Madeira, apenas porque nelas há pessoas que ousam falar de forma desalinhada em relação ao mainstream ideológico instalado em São Bento.
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Chegou a hora de pedir contas ao Governo por todas as promessas que ficaram muito aquém de se realizar (os 150.000 novos empregos, o grandioso choque tecnológico, a baixa dos impostos, a saída da cauda da UE..., ..., ...), mas insistimos em pôr a tónica na crítica aos computadores Magalhães, na JP Sá Couto, no curso de engenharia na Universidade Independente, na compra da casa de Sócrates na Rua Braamcamp, ou no "Caso Fripór".
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Quem quer fazer oposição a sério a Sócrates e ao PS, deve focar-se mais no ataque às perigosas políticas do albicastrense que na crítica da sua honradez, ou falta dela. Se houver falcatruas, pagam (eventualmente) as pessoas que as fizeram; só que, pelas políticas erradas, irresponsáveis, ou até perversas, pagamos todos nós. Aqueles que atacam a integridade moral de Sócrates, apenas se habilitam a que ele se sinta mais frágil. No entanto, aqueles que atacarem as suas políticas farão com que mais portugueses possam sentir o nocivo que é continuar a ter este Governo como nosso. Lembro que somos nós, os portugueses, quem escolhe o Governo este ano. Tem-se apontado ao alvo certo, mas com a mira torta.
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quinta-feira, 5 de fevereiro de 2009

só-cretinices

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Hoje foi aprovada em Conselho de Ministros a socretina lei que impõe a instalação de um chip nas matrículas de todos os carros, atrelados, motociclos e triciclos. Quem se recusar a instalar o chip e for apanhado sem ele, terá consequências a sofrer. Depois dos primeiros 6 meses a seguir à lei ser publicada, o chip terá de ser comprado, pago pelo cidadão.
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Após a questão do chip incorporado no cartão único de identidade, a deriva controlista dos socialistas não pára, soma e segue. Quando dermos por nós em guerra ou em verdadeira crise (Deus nos livre), veremos como o Estado nos controla de uma forma ainda mais sufocante que os totalitarismos comunistas de Estaline e Ceausescu, ou que o nazismo alemão de Hitler.
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Por esses dias, levaremos as mãos à cabeça e perguntaremos confusos: "como foi isto acontecer e não dei por nada!?". O desinteresse pela política, por muito que apeteça, não compensa. Há demasiados lobos para tão desprotegidos cordeiros - sem privacidade, não há liberdade.
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O socretino executivo afirmou que a privacidade dos cidadãos não será posta em causa... mas ainda alguém confia nestes "engenheiros" da nossa escravidão? Para já, "A Conspiração das Teorias" levanta mais uma lebre: o car-jacking é um crime antigo em Portugal, e continua com pouca expressão relativa; com que objectivo terá o fenómeno do car-jacking sido alvo de tanta exposição mediática nos últimos tempos?
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segunda-feira, 26 de janeiro de 2009

elogio da amizade cívica

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Numa altura em que muitos portugueses se vêem gregos para aturar Sócrates, nada como trazer Aristóteles a este convívio conspirativo:
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"É evidente que uma cidade que se torna cada vez mais unitária deixaria de ser cidade. Uma cidade é, por natureza, uma pluralidade e ao tornar-se ainda mais unitária, passará de cidade a casa, e de casa a homem individual, já que podemos afirmar que a casa é mais unitária do que a cidade, e o indivíduo mais do que a casa. Assim, mesmo que alguém pudesse conseguir isto, não o deveria fazer, dado que destruiria a cidade. Por outro lado, não só a cidade consiste numa pluralidade de indivíduos, como estes também diferem em espécie; uma cidade não nasce de indivíduos idênticos."
Aristóteles, Política, II, 1261a
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"Na verdade, parece ser a amizade que mantém unidas as comunidades dentro dos Estados. Por isso que os legisladores se preocupam mais com ela do que com a própria justiça, porque almejam, por um lado, alcançar a concórdia, que é algo de semelhante à amizade, e por outro procuram expulsar o mais possível a discórdia, como uma forma de ódio. Se entre amigos não é necessária a justiça, entre os justos é necessária a amizade. Pois, entre os justos parece haver uma forma extrema de amizade. A amizade não é, então, apenas uma das coisas necessárias à existência humana, mas é também bela. Assim, louvamos os que são amigos dos seus amigos, pois ser amigo de muitas pessoas parece uma das coisas mais belas que existem. Muitos pensam ainda que é a mesma coisa, ser um bom homem e ser um bom amigo."
Aristóteles, Ética a Nicómaco, VIII, 1155a
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"Acreditamos que a amizade é o maior dos bens para as cidades porquanto pode ser o melhor meio de evitar revoltas."
Aristóteles, Política, II, 1262b
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Tolerância não basta, a tolerância é somente o grau zero de cidadania. Como vemos, é na amizade cívica que está a boa aposta.
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