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Quem gosta de um certo ambiente taberneiro, já não encontra em Lisboa muitos antros genuínos, mas para compensar há bastantes stands de automóveis. Ir a um stand de carros é como colher uma generosa amostra sociológica de tabernice, em vários sentidos.
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Por um lado, os vendedores com o gel penteado com um bocadinho de cabelo, meinha branca, cheirando abundantemente a after-shave contrafeito, com um fino e cuidado risco de pêlos no lugar da patilha, tratando o cliente por "o shôr, pá, faxavôr faj'isto e depois had'me dzer s'eu na tinha razão". E depois casca-se no Sócrates, lamenta-se os resultados da bola, cumprimenta-se alguma senhora que passe e manda-se um piropo entre os godes, mas só quando ela estiver à exacta distância de o ouvir sem o perceber. Até aqui não há problema, é até um género típico que acho que deve ser, em certa medida, preservado.
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Contudo, o que realmente me faz pena é ver cada vez mais mulheres nestes stands, escolhidas a dedo pelo chamariz das suas gulosas curvas, muito escassamente vestidas, e com uma atitude que está algures entre o predadora e o delambida. Atenção, a pena que me faz não é a sua existência, mas o facto de terem de recorrer a todos os argumentos que possam encontrar frente ao espelho para cumprir os objectivos de produtividade empresarial e ganhar bónus, ainda para mais em tempos de crise.
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Uma pessoa que vá a um stand, rapidamente se esquece do que vai lá fazer e para onde há de olhar. É terrível. Mas esta indecisão só dura momentos, pois logo vem uma voz rouca de cama que nos lembra "é por causa do arranjo? por aqui, querido", e arrasta languidamente os seus atributos, aos ésses pelo armazém fora.
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Hoje em dia, tudo isto faz parte do marketing automóvel - dizem -, vender o carro explorando ao máximo a testosterona do público masculino, que é o seu principal alvo no mercado. Só que, pelo contrário, este fenómeno nada tem de novo: inspira-se em profissões muito mais antigas que a própria invenção do carro.
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