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terça-feira, 3 de junho de 2025

A esperança em The Great Dictator


    Continua a mexer connosco The Great Dictator, um clássico de Charlie Chaplin estreado em 1940, um ano após o início da Segunda Guerra Mundial. Este fim-de-semana o filme foi projectado no auditório do Teatro Camões com música tocada ao vivo pela Orquestra Sinfónica Portuguesa do Teatro Nacional de São Carlos e conduzida pelo maestro Timothy Brock.

    Já não terá sido fácil um actor ajustar o ritmo dos seus movimentos à música da banda sonora do filme, mesmo se composta por si. Empresa mais difícil é uma grande orquestra acertar a música com o ritmo dos movimentos de Charlot. O maestro e a orquestra transmitiram as emoções certas em cada nota da banda sonora, na alegria da Dança Húngara n.º 5 de Brahms na cena do barbeiro com o cliente, ou no encantamento delicado do Prelúdio de Lohengrin de Wagner, na cena da dança do globo terrestre e na do discurso final.

    Como acontece em outros filmes, Charlie Chaplin fez quase tudo: produziu, realizou, actuou e, à excepção das mencionadas obras de Brahms e Wagner, compôs com Meredith Wilson a banda sonora. A história começa na Primeira Guerra Mundial, onde Charlie Chaplin representa um barbeiro alemão e judeu, que se fez herói ao combater pelo seu país e ao salvar a vida de Schultz, um comandante piloto que se torna importante no novo regime. Charlie Chaplin interpreta este barbeiro judeu do gueto e também o ditador antissemita em ascensão, fisicamente confundível com o barbeiro. Na narrativa, Adolf Hitler é chamado de Adenoid Hynkel, Goebbels de Garbitsch, Göring de Herring, Benito Mussolini de Benzino Napaloni, a Alemanha de Tomainia, a Itália de Bacteria e a Áustria de Osterlich. São evidentes as parecenças, mas este uso de nomes imaginários ajuda-nos mais facilmente a encontrar hoje outras ligações para cada personagem e acontecimentos.

    Após um terrível discurso do ditador às massas, Hynkel pergunta a Garbitsch o que achou do discurso. Ele responde que foi muito bom, embora a referência aos judeus pudesse ter sido mais violenta. Com frieza e o olhar vazio, o Ministro da Propaganda acrescenta que a violência contra os judeus seria útil para excitar a ira das pessoas de forma a esquecerem a sua própria fome. Aqui está, o fenómeno do bode expiatório bem explicado em tão breves palavras!

    Nos momentos do filme em que o barbeiro interpretado por Chaplin está mais abatido e desanimado, o tema musical é “Zigeuner”, que em alemão significa “cigano”. Ele mesmo com família cigana, Charlie Chaplin identifica-se com a perseguição dos judeus naqueles anos 30 e 40. Sem ainda conhecer todos os horrores do nazismo, este corajoso retrato do Grande Ditador é certeiro na denúncia do pensamento político que irá gerar mais anos de guerra total, toda a sua destruição, os vários milhões de mortos, o genocídio dos judeus entre nós chamado de Holocausto e o genocídio menos conhecido dos ciganos, o Porajmos.

    Em tão desolador contexto, este é um filme de esperança. Prova disso é outro tema musical de superior beleza intitulado “Hope Springs Eternal”. A obra tem vários momentos de ternura, mostra o humor físico de Charlot, reflecte sobre a ambição humana e a graça do absurdo, e tem as situações de injustiça e crueldade que são autênticos murros no nosso estômago. Existe um ténue fio condutor: o amor frágil e belo entre Hannah e o Barbeiro. No entanto, todas estas cenas vão somando uma tensão crescente que só podia pontificar no grande discurso final do Barbeiro. O Barbeiro toma acidentalmente o lugar do Ditador e mostra que a democracia nos oferece sempre a hipótese de uma alternativa: ainda podemos ser livres, humanos e decentes.

domingo, 21 de janeiro de 2018

No meu tempo...

(Originalmente publicado no "Jacaré parado vira mala" no dia 14 de Janeiro de 2018)


"No meu tempo..." - será que dizem todos a mesma coisa, os velhos? "No meu tempo é que era viver"; "no meu tempo é que era amar"; "que sabeis vós do que é a vida?" - à primeira vista, tudo lugares comuns. É um engano: embora pareça que os velhos dizem todos a mesma coisa, a única coisa que se repete é aquilo que os novos dizem sobre o que dizem os velhos!

É que "no meu tempo" não é para se interpretar à letra e, mesmo que fosse, teriam dado conta que o tempo de que se fala não são os anos '40, '70 ou '90, pelos quais determinada geração de pessoas passou em jovem, mas sim o tempo em que aquela pessoa concreta viveu momentos extraordinários que recorda... Trata-se do "seu tempo", e não "o tempo deles"!

Mas, ao viver agora, este tempo não é "seu" também? Bom, poderíamos concordar que sim só por respeito à coerência do pensamento. Mas "no meu tempo" é uma fórmula poética que remete para memórias que só quem narra conhece, e apenas ele saberá caso entretanto avalie que o revirar de olhos do jovem que o ouve não merece mais escuta.

E vou ser um pouco mais inconveniente ainda: o tempo nem sequer a nós pertence. Quando usamos relógio, podemos ter a ilusão que o controlamos, mas não é por parar o relógio que o tempo deixa de escapar na sua cadência própria, indiferente às nossas vontades de o apressar, retardar, parar, reviver ou saltar. Nesse aspecto, a vida é mais simples na sua complexidade que o simplismo complicado de uma box de televisão, onde tudo se soluciona e comanda pressionando os símbolos:


O tempo a Deus pertence. Aulo Gélio dizia que a verdade é filha do tempo - veritas filia temporis -, talvez  como quem diz que a verdade virá ao de cima como o azeite na água. Mas a verdade já o era antes do tempo passar e, quanto muito, o tempo apenas permitiu que a verdade fosse conhecida. Pelo contrário, o tempo é filho d'Aquele que é a Verdade, bem como o Caminho e a Vida. Deus é o único Senhor dos tempos, nós só fazemos o que podemos no tempo de que dispomos.

"No meu tempo" é, assim, a tal forma poética que indica não um tempo que me pertenceu, mas os fragmentos da memória dum tempo extraordinário que vivi e que guardo e cuido no cofre do meu coração.

"No meu tempo..." - dirão todos a mesma coisa, os velhos? Nada disso, antes pelo contrário! Cada velhinho está a dizer uma coisa bem diferente, muito valiosa e, mais que rara, única. Se porventura duvidardes, "voltamos a falar daqui por uns tempos"...

sexta-feira, 29 de maio de 2015

os dois fins do casamento - Michel Schooyans

Nota de trabalho sobre

Os dois fins do casamento

por Monsenhor Michel Schooyans
Professor emérito da Universidade de Louvain

Louvain-la-Neuve, Bélgica, Março 2015


            A segunda sessão do Sínodo sobre a família está próxima.  Por ocasião dessa sessão serão rediscutidas três questões entrelaçadas: aquelas da união conjugal, do casamento e a família. Chegamos de fato a uma época da história da humanidade na qual, sem dúvida pela primeira vez, assistimos a um questionamento radical do casamento e da família.  O alvo visado é o casamento e a família, com a sua dupla finalidade: o fim unitivo e o fim procriativo da união do homem e da mulher.  Sua destruição desemboca na desagregação de toda a sociedade humana.  É toda a família humana que é agora atacada, abalada, desnaturada pela ação de correntes ideológicas hostis.



Fabricar crianças?

         A mais evidente dessas correntes complexas é a corrente hedonista  que, na união conjugal, separa o fim unitivo do fim procriativo.

         Por um lado, essa corrente exalta unilateralmente certos modos de ação e de comportamentos unitivos no casal, excluindo os comportamentos procriativos.  A dimensão unitiva insiste no prazer e no individualismo hedonista e utilitarista.  Vejam o que acontece com a contracepção.  Não há mais abertura ao outro, não há mais reconhecimento da identidade do outro, da diferença que me distingue do outro.  Cada um quer fazer aquilo que tem vontade de fazer.  É o recuo identitário do mesmo sobre ele-mesmo: a contracepção tranca a relação com o outro.

         Por outro lado, a dissociação, a separação entre os dois fins do casamento, escancara a porta à exaltação unilateral da finalidade  procreativa, excluindo os efeitos unitivos.  Considera-se então que suscitar a vida é uma questão de técnicas e que o enlace amoroso entre homem e mulher não tem nada a ver com isso.

         Esses comportamentos unitivos e essas técnicas procrativas podem eventualmente ser controlados pelos poderes públicos.  No limite, corremos o risco de logo nos encontrarmos em uma sociedade onde não haverá mais lugar para um amor responsável.  Se for o caso, os pais serão despojados de toda autoridade, de todo direito e de todo dever diante de suas crianças.  Porque não poderiam estas serem confiadas à educação, a qual aliás os poderes públicos se arrogam o monopólio?

         A dissolução voluntarista dos dois fins da união conjugal é o ponto focal tocado em 1968 pela encíclica Humanae vitae (ver o número 12), pela exortação sinodal Familiaris consortio (1981) e por numerosos documentos magisteriais entre os quais a instrução Donum vitae (1987) e o estudo Família e procriação humana (2006).  Se chegarmos a separar os dois fins da união conjugal, e do casamento que sela essa união, tudo pode resultar dessa dissociação provocada e radical.

         Uma vez que exaltamos unicamente o fim unitivo, rapidamente chegamos a toda sorte de práticas sexuais: homossexualismo, lesbianismo, fornicação, etc.  Não há mais lugar para a fidelidade, pois o que importa unicamente é o prazer, o interesse de cada indivíduo.  Esse homem não é mais uma pessoa, um ser capaz de se abrir livremente a uma outra pessoa; é um indivíduo que busca seu próprio gozo.

         Se ao contrário exalta-se unicamente o fim procriativo, chega-se a outras consequências, entre as quais, por exemplo, a procriação medicamente assistida, a gestação por terceiros, a tecnização da transmissão da vida a ponto de chegarmos à modificação genética do ser humano.  O homem não se constrói mais em um lar de amor.  Não há mais maternidade, nem paternidade; por conseguinte, não há mais filiação nem consangüinidade. Com a chegada do anunciado útero artificial, logo não será mais necessário que a mulher abrigue uma criança em seu seio.

         Todos esses processos são evidentemente o resultado de experimentos longos e complexos.  Os abortos fazem-se “necessários” para resolver os “insucessos”.  Um exemplo de insucesso?  A intolerável chegada de um ser que não se quer, precisamente em nome da exaltação unilateral do fim unitivo.  Assim, os embriões produzidos in vitro e depois implantados serão seguidos de perto durante sua gestação.  Se anomalias forem assinaladas, serão abortados.  Lembremos aqui que os casos em que se assinalam anomalias são mais frequentes nas fecundações in vitro do que nos casos de fecundações naturais.  Por outro lado, um número excedente de embriões é especialmente “inevitável” para a experimentação com células tronco embrionárias.

         Sob a pressão das ideologias hedonistas, crianças são geradas proporcionalmente aos prazeres dos parceiros, às necessidades da sociedade, tais como estas são definidas pelos “sábios”, por economistas, por demógrafos, por políticos ou por tecnocratas com forte impregnação ideológica.  A seleção está inscrita nessa tecnização; está na lógica da ideologia liberal selecionar: o produto deve ser impecável, senão será enviado ao descarte.   Conhecemos a seleção racial; aqui o que conta, é a seleção política, econômica, a qualidade do produto fabricado.  O homem e a mulher se alienam: transferem para máquinas e para encubadeiras a fabricação de crianças.  Eventualmente a criança, o produto fabricado, poderá ser comprado, vendido ou escolhido em catálogo.

         Assim como deve haver o aborto “seguro”, deverá também haver a procriação “segura”.  É preciso “liberar” a mulher de sua capacidade de procriar porque a procriação natural é muito arriscada.  Atualmente, muitas mulheres não têm filhos porque a procriação é tida como não-segura.

         Assim, abre-se o caminho ao prolongamento de uma vida gozosa e livre das constrições conjugais e parentais.  A transmissão da vida não se fará mais segundo uma perspectiva humana; ela obedecerá a planejamentos ideológicos.  Enfim, na outra ponta da vida, teremos em breve a eutanásia de massa.



O que está em jogo no trans-humanismo.

         Esses são alguns dos pontos em jogo e que podemos observar nos debates atuais sobre o trans-humanismo: as novas técnicas – asseguram-nos – oferecem aos homens meios que permitem dispor dos corpos e fabricar super-homens.  Desculpem a modéstia! Resumindo, assistimos à impulsão de um novo eugenismo e mais precisamente à construção de novas espécies “humanas” modificadas geneticamente e hibridificadas com máquinas.  Uma tal hibridização entre o corpo vivo e a matéria morta é irreversível.  Assistimos à destruição irreversível da integridade do corpo humano.  Decididamente, a cultura da morte se espalha por toda parte... 

         Hoje em dia, mesmo em certos estabelecimentos hospitalares que se dizem católicos, praticam-se intervenções tais como o aborto, as procriações medicamente assistidas, as pesquisas com embriões, sem esquecer a eutanásia, etc.  Quantas vozes, no laicato, o clero e no episcopado, erguem-se em um convite a se reconsiderar essas práticas?  Diante desse mutismo, é preciso fazer valer o caráter indissociável entre os fins da união conjugal e o casamento.  Com efeito, é a separação entre os dois fins que escancara a porta aos múltiplos desvios que hoje conhecemos.  Os efeitos perversos da separação entre os dois fins do casamento vão muitíssimo além da esfera íntima onde essa separação tem início.  Aqueles que atacam à Humanae vitae, à Familiaris consortio, à Donum vitae e aos outros documentos magisteriais devem ter farejado que, no ensinamento da Igreja não basta destacar porque a Igreja recusa a contracepção e o aborto, nem porque a Igreja recusa a ideologia do gênero; essa ideologia não é senão um dos avatares da dissociação de que tratamos.  É preciso então colocar em evidência que uma vez admitida a separação entre os dois fins da união conjugal, abrem-se sem nenhuma rede de segurança todas as possibilidades oferecidas pelas técnicas e asseguradas pelo direito,.

         Quanto aqueles que, na Igreja, batalham para que esse cisão seja admitida, devem saber que correm o risco de provocar um cisma do qual deverão prestar contas a Deus e aos homens.



O Terror, ontem e hoje

         A discussão aqui travada não diz respeito unicamente aos cristãos de hoje e seus adversários.  As correntes individualistas que se encontram  na origem dos desvios que acabamos de evocar, desenvolveram-se inicialmente na Inglaterra, sempre líder intelectual nessas matérias, depois nos Estados Unidos, estrategistas do eugenismo mundial e país onde os médicos fazem morrer, sem que isso suscite discussão.  Em igual medida, essas correntes se difundiram a partir da Alemanha.  Recordemos ao menos que foi nesse país que se difundiram e foram postas em prática as ideologias celebrando o racismo e o eugenismo, bem como a eutanásia.

         Ora, essas mesmas correntes desenvolveram-se sobretudo na França a partir do Século das Luzes.  É a partir da França que se forma, se desenvolve e se exporta uma poderosa corrente exaltando o indivíduo, o “sujeito”, sua razão, sua liberdade, seu direito ao prazer, suas paixões.  A França tornou-se a portadora mundial da tocha da laicidade republicana.  Segundo diferentes impostações, a religião revelada é rejeitada. O homem progride, garantem-nos, apoiando-se tão somente na sua razão e na sua experiência; deve-se dar lugar à religião civil ou ao ateísmo.  As paixões devem estar ordenadas à maximização do leque de voluptuosidades.  O direito ao prazer erótico, levado certas vezes ao paroxismo do direito a destruição, é reivindicado e confortado pela rejeição de Deus.  De seu calabouço, ao divino marques não faltou audiência e conseguiu garantir sua posteridade.

         Ora, após ter-se matado Deus ou agindo como se Deus não existisse, torna-se difícil encontrar um fundamento ao direito.  É essa uma das maiores dificuldade do iluminismo, versão francesa.  Desde o século XVIII, uma fração significativa e atuante da intelligentsia francesa esforçou-se, em nome da liberdade, de dar ao Terror um lugar na vida pública.  Com uma obstinação acachapante, os manuais de história politicamente corretos transmitem de geração em geração a vulgata revolucionária.

         Não obstante, impõe-se uma revisão dessa vulgata, ainda que essa revisão seja perturbadora.  A mídia e a opinião pública recentemente ergueram-se, e com razão, face às decapitações e outros atos de barbárie ocorridos na área de influencia do islã integrista.  Porém, é desonesto ocultar, como se faz nas arengas politiqueiras e nos manuais escolares, que foram os senhores da guilhotina a guilhotinar em série e a exportar sua técnica aprimorada.  Esse desvio cruel observa-se ainda hoje.  Orgulhosos de sua ascendência voltairiana, as forças da laicidade agitam como lúgubre troféu a marca de 200.000 abortos por ano na França.  O terrorismo revolucionário instalou-se de modo duradouro, em nome da liberdade.  Querendo ir muito além do necessário, a França não deixa passar a ocasião de se autoproclamar “Pátria dos Direitos do Homem”, um erro histórico grosseiro mas útil à causa de um messianismo arrogante.



A questão do mal, hoje

         Na atual situação, a questão do mal se coloca como jamais se colocara antes.  É verdade que há tentativas notáveis de se analisar o mal tal como se apresentou nas grandes ideologias totalitárias do século XX.  Frequentemente se invocou uma perturbação da razão.  Mas hoje, em nome de uma perversão da verdade, desde já desnorteada, somos confrontados a uma tentativa sem precedentes na história da humanidade: aquela de destruir a própria humanidade, de destruir a capacidade que o homem tem naturalmente: a capacidade de amar. Recusa de tomar consciência do plano de Deus para o homem!  Essa destruição leva por fim à destruição do corpo do homem pela destruição irreversível de sua integridade genética.  É o maior drama da história da humanidade.

         Não faz muito tempo, Hilary Clinton pediu a ONU que o direito ao aborto fosse proclamado em escala universal.  Vejam a perversão que espreita o direito: como podemos reduzir um ser humano a um objeto do qual se pode dispor até a destruição?  Um ser humano é para ser acolhido, respeitado: não é objeto de um direito; os juristas dizem que ele não está disponível.  Eu tenho direito de comprar pão, um automóvel ou uma casa.  Mas não tenho direito, eu que sou um ser humano, de matar alguém de eliminar outro ser humano.  Ora, a partir da dissociação entre os fins, não importa o que passa a ser não somente legalizável, mas até mesmo legal; o próprio direito se vê desnaturado.  No torvelinho dos acontecimentos, a medicina é também pervertida, uma vez que em lugar de procurar curar,  melhorar a saúde,  suavizar os sofrimentos, consente em se colocar a serviço da morte, tanto antes quanto depois do nascimento.  Na Bélgica, por ocasião do debate sobre a eutanásia de crianças (em 2014), legiferou-se: a lei passou sem problemas; não houve senão alguns protestos, enquanto que, o que está em jogo em todos esses debates é o próprio futuro da humanidade.



Proteger a moral natural

         Todas essas questões novas não podem ser resolvidas por uma casuística como esta aqui: “Em tal caso pode-se abortar, em tal caso não se pode; em tal caso se pode praticar eutanásia, em tal outro não”.  Limitamo-nos a decidir casos pontuais de consciência sem nos referirmos aos princípios fundamentais da moral.  Essa casuística é de certo modo precursora da moral de situação.  O que é preciso é ir verdadeiramente à origem do problema e reencontrar, na destruição dos fins do casamento, as raízes da ação de Satã, hoje, na história da humanidade e no coração dos homens.

         Convém ainda acrescentar uma reflexão a propósito da casuística que viemos de mencionar.  A Igreja se encontra em uma situação espantosa.  Altos prelados, vindos sobretudo das nações opulentas, se empenham em introduzir modificações na moral cristão referente aos divorciados-recasados e a outras situações problemáticas das quais algumas delas foram citadas aqui.  Esse Guardiões da Fé não deveriam contudo perder de vista que o problema fundamental colocado pela destruição dos dois fins do casamento é um problema de moral natural.  É no plano natural que o homem e a mulher são chamados a se unirem para testemunharem o afeto e para procriarem.  É essa a realidade natural que o Senhor elevou à dignidade de um sacramento.  Diante das potencias que abalam atualmente a família, a Igreja deveria descobrir sua vocação de ser a única instancia à altura de salvar a sexualidade humana e a instituição natural do casamento e da família.  Não se trata apenas de salvar a moral cristã; é preciso salvar e proteger a moral natural.  Não é possível que, por meio de procedimentos casuísticos capciosos, católicos de todos os estratos e de todas as idades contribuam à destruição da moral natural.  Os grandes desvios surgiram quando certos intelectuais católicos começaram a dizer e a escrever: “Sinal verde para o aborto, para as uniões homossexuais, para a eutanásia, etc.”.  Ora, a partir do momento em que os católicos surfam essa onda fatal, contribuem para a destruição da instituição natural do casamento. É toda a comunidade humana que se vê cindida com essa nova “traição dos clérigos”.

         Vale a pena levantar aqui uma questão chave: o Magistério da Igreja é competente para modificar a moral natural?  Uma redução da moral natural a uma moral puramente casuística leva certos teólogos e certos pastores a caucionarem a redução do direito fundado na natureza do homem.  Por ocasião de um processo recente e muito divulgado pela mídia, comentou-se repetidamente que o direito nada tinha a ver com a moral.  A partir daí, não há direito senão o direito puramente positivo, originário da vontade isolada do legislador.  Nesse ultimo caso, não há mais direito que fosse inato ao homem pelo simples fato de ser homem.  Não haveria senão os direitos definidos pelas instancias politicas nacionais, internacionais e mundiais.  É de se ter calafrios pensar que a generalização de um direito assim prenunciasse a instauração de uma sociedade “global”, isto é mundial, teleguiada pela vontade dos mais fortes.

         Resumindo, em vez de proteger a célula familiar da sua detonação, da sua fissura, o próprio direito se coloca a serviço da destruição da pessoa e da família.  O papel do direito não é, ao contrário, proteger o núcleo conjugal, familiar e os frutos que dele decorrem, a saber, os filhos?



A recepção dos ensinamentos pontificais

         O beato Paulo VI conheceu incompreensão e rejeição quando da publicação da encíclica Humanae vitae, encíclica que o fez tanto sofrer, antes como depois de seu aparecimento.  Dissera: “Vocês ainda me agradecerão por ter publicado esse documento”.

         São João Paulo II retomou esse ímpeto profético com seu engajamento em favor dos mais pobres e dos mais vulneráveis.  Daí seus repetidos apelos para que se pusesse um fim à banalização do aborto e à sua legalização.  Nas intervenções posteriores de João Paulo II, foram examinadas outras questões cruciais.  O papa aborda ali, entre outras,  as politicas de controle de nascimentos, especialmente nos países do terceiro mundo.  Menciona também o aumento da esperança de vida do nascituro, principal causa do envelhecimento da população, envelhecimento que por sua vez, é invocado com vistas à legalização da eutanásia.  Estamos portanto diante de um conjunto de problemas emaranhados aos quais as pessoas estão mais e mais atentas, ainda que estejam frequentemente pouco ou mal informadas, como mostram as discussões nos países ocidentais sobre as adequações a serem feitas na idade da aposentadoria.

         São João Paulo II exprimiu no rosto, no seu comportamento, sua ação, seus discursos, pelas suas encíclicas, por toda sua maneira de ser que foi um mediador entre Deus e os homens.  Em todo lugar que foi no mundo, foi percebido como um enviado de Deus, mesmo entre os não cristãos.  Era um ícone vivo de Deus entre os homens.   Deu aos homens a confiança  necessária para que as pessoas se engajassem no serviço à vida e à família.  São João Paulo II é o papa que terá salvado a família, que terá salvado incontáveis vidas humanas com a potencia da sua palavra.  Desse ponto de vista, São João Paulo II aparece no primeiro plano das figuras carismáticas da Igreja contemporânea.  Tinha efetivamente um contato extraordinário com os homens, as mulheres, as crianças de todos os meios.  Mas aquilo que mais nos retém a atenção, é sua determinação em salvar a vida e a família.  Ele mobilizou as pessoas e os  casais suscitando-lhes a audácia de lançarem-se à aventura de serem pais, de acolherem a vida, de serem profissionais da ternura.

         Será preciso que a Igreja retorne à Humanae Vitae de Paulo VI, bem como aos ensinamentos de João Paulo II e de Bento XVI sobre essas questões.  O papa Francisco permanece na trilha de seus predecessores cada vez que sublinha a coincidência entre o Evangelho do amor e o Evangelho da alegria.  Será preciso fortalecer o peso magisterial  de todo esse ensinamento, colocar em relevo sua coerência  e proteger esse tesouro contra os predadores.



A conversão do coração

         Não é pretendendo modificar o homem ou “melhorá-lo” por meio de técnicas arriscadas que se irão elevar os indicadores de justiça, de bem estar e de felicidade.  As  técnicas disponíveis atualmente se lançam rumo a lugar nenhum; cedem o leme ao sonho.  A utopia está em vias de assumir o comando do mundo mas não resultará em nada.  Ela necessita da ideologia para convencer o homem da “legitimidade” da transgressão.  As utopias cientificistas ou politicas de hoje não fazem senão espelhar a enésima sociedade ideal.  Pretendem que para alcançar esse fim seja preciso modificar o homem ou reconstruí-lo.  Sem essa modificação do homem, a construção da sociedade ideal estará bloqueada.  Segundo essa lógica, os cristãos serão desprezíveis se recusarem aderir a esse projeto; devem ser perseguidos.

         Ora, o homem de hoje deve se libertar dessas armadilhas ideológicas que o confinam em novas escravidões.  O que é preciso é restaurar o respeito devido ao homem.  É preciso chamar o homem à conversão do coração para que possa abrir-se aos valores verdadeiros e engajar-se no seu serviço.  Essa restauração do homem implica uma etapa preliminar: é preciso desmascarar as armadilhas prometeicas e tornar manifesto o peso de pecado que elas injetam em nossas sociedades.  Será preciso também adotar uma visão prospectiva da sociedade e da biosfera, pois as duas, homem e biosfera, só serão salvas juntas.

         Essa reapropriação do homem por ele mesmo permite que se tomem hoje medidas em função da sociedade que se quer construir.  É o que nos ensinou a prospectiva.  Cristã ou não, a moral não pode mais se satisfazer com a previsão que vê no futuro uma simples extrapolação do presente.  De fato, no caso da previsão, o futuro previsto está determinado; ele escapa à responsabilidade moral.  A prospectiva por sua vez, considera que esse futuro a se construir não é o objeto de um sonho; é ele que determina o presente e faz da decisão um ato moralmente responsável.



Levar a esperança ao mundo

         Dessas novas escravidões o homem não sairá se não voltar a ser senhor de si, reafirmando sua capacidade de discernir e decidir.  Prever o futuro como mera extrapolação do presente, como seu prolongamento, não é de modo nenhum suficiente para dar sentido à ação.  Uma concepção previsionista do futuro não abre espaço algum à decisão livre e responsável, pois o futuro já está ali determinado.  A moral da responsabilidade nos convida a agir no mundo de hoje tendo em vista um mundo melhor que desejamos preparar para os jovens de hoje.  Toda moral referente à sexualidade humana e a família deve dirigir sua reflexão para o longo termo.  O futuro que preparamos para as gerações que virão depende da qualidade das decisões que tomamos – ou não tomamos – hoje.  Os pobres e as crianças são nossos senhores.  Devemos com eles nos preocupar. Somos por eles responsáveis.  Devem poder segurar a mão que lhes estendemos para levá-los da morte à vida.  A prospectiva deixa um amplo espaço de livre decisão e assim de abertura aos valores hierarquizados.  Ela mobiliza a vontade; convida ao engajamento; comove o coração diante de todas as misérias sobre as quais o homem, se quiser, pode agir.

         Certamente todos os temas abordados pelo sínodo da família merecem ser discutidos.  Mas a Igreja corre o risco de se perder se exaltar as previsões delirantes em lugar de oferecer à sociedade humana a mensagem de esperança que o Senhor lhe confiou e que ela tem, por mandato, de levar às Nações.



Michel Schooyans


Tradução: Rui A.C. Costa


(Recebido por correio electrónico gentilmente enviado pelo Rev. Padre Nuno Serras Pereira - blog)

quarta-feira, 5 de junho de 2013

Lenda do Liz e Lena

Nasceu o Rio Liz junto a uma serra
No mesmo dia em que nasceu o Lena;
Mas com muita paixão, com muita pena
De seu berço não ser da mesma terra

Andando, andando alegres, murmurantes,
Na mesma direcção ambos corriam;
Neles bebendo as árvores chilreantes
Cantavam esse amor que ambos sentiam

Um dia já espigados, já crescidos
Contrataram casar, de amor perdidos
Num domingo, em Leiria de mansinho...

Mas Lena, assim a modo envergonhada
Do povo, foi casar toda enfeitada
Com o Liz mais abaixo um bocadinho.

José Marques da Cruz

sábado, 5 de setembro de 2009

nesta Lisboa que eu amo...

Sou humilde, sou assim...! Ocupo tão pouco espaço que... caibo dentro de mim.

José Viana (1922-2003), grande actor e pintor. Aqui, na saudosa "Grande Noite" de Filipe la Féria, em 1990.

terça-feira, 14 de julho de 2009

solo se vive una vez


Quem vive amores impossíveis compreende melhor aqueles que acreditam na reencarnação. "Noutra vida teríamos resultado", dizem, convencem-se e, por fim, se conformam. Isso enquanto silenciam as palavras sábias das pacenses Azúcar Moreno - solo se vive una vez!

quarta-feira, 20 de maio de 2009

lembrando "Bruddah IZ"

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Nascido a 20 de Maio de 1959 no Hawai'i, Israel Kamakawiwo'ole faria hoje 50 anos se fosse vivo. Com um porte distinto (1,90m de altura e quase 350kg de peso), o cantor e compositor insular não se separava do seu ukelele (descendente americano do muito nosso cavaquinho), que tocava com mestria enquanto cantava o amor, a natureza, e também a causa da independência do Hawai'i. Se o quisermos enquadrar num género musical, podemos tentar encaixá-lo entre o jazz, a música folklórica hawaiana e o reggae, mas a verdade é que a sua enorme versatilidade nos dificulta muito esse redutor trabalho de rotulação. Embora "Bruddah IZ", como era carinhosamente chamado, tenha marcado muito a cultura e identidade contemporânea daquelas ilhas, foi contudo um medley que fez dos temas Over the Rainbow e What a Wonderful World que lhe deu maior projecção internacional. IZ morreu com 38 anos em 1997, devido a problemas de respiração causados pela sua obesidade. O seu funeral teve honras de Estado e mais de 10.000 pessoas a assistir, e ainda hoje as suas melodias continuam na moda, nas telenovelas, nos filmes e nos anúncios publicitários, ecoando pelo tempo em corações que as suas interpretações tão bem sabem comover e contagiar.
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quinta-feira, 30 de abril de 2009

algumas virtudes d'um chefe de família

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Passo quase todo o dia fora de casa, ocupado em assuntos alheios, e o resto do tempo passo-o com a família, por isso que o tempo que fica para mim, isto é, para a correspondência, é nenhum.
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Quando regresso a casa, tenho de conversar com minha mulher, de brincar com as crianças, de me entender com o pessoal doméstico. Meto estas coisas nos afazeres, pois têm de ser feitas, e têm de o ser caso não queiramos ser estranhos em nossa própria casa, sendo necessário ter as mais simpáticas relações com os companheiros da vida que a natureza ou o acaso nos deram, ou que nós escolhemos, sem ir ao ponto de os mimar por excesso de familiaridade, nem de fazer, dos servos, senhores. Tudo isto leva os dias, os meses, os anos.
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in "Epístola a Pedro Egídio", de São Tomás Moro
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sexta-feira, 24 de abril de 2009

a história do Fado na Mouraria

Tia Macheta (canta Berta Cardoso)

O amante não aparecera,
Triste Severa,
Sempre fiel,
Chamou a tia Macheta,
Velha alcoveta,
P’ra saber dele.

A velha pegou nas cartas
Sebentas fartas
De mãos tão sujas
E antes de as embaralhar
Pôs-se a grasnar
Como as corujas.

Ele não vem, minha filha,
di-lo a espadilha,
há maus agoiros.
Há também uma viagem,
Um personagem
A dama d’oiros.

Este conde é o meu fraco,
Tome um pataco
Tia Macheta.
A velha guardou as cartas
De sebo fartas
Sob a roupeta.

Caíram três badaladas
Fortes, pesadas,
Três irmãs gémeas;
Cá fora nos portais frios
Cantam vadios
Feias blasfemas.

O fidalgo não voltou,
Severa o esperou
Até ser dia.
E desde essa noite, é que existe
O fado triste da Mouraria.

quarta-feira, 22 de abril de 2009

música conspirativa

Não, este postal não é sobre o belíssimo novo tema dos Xutos&Pontapés, Sem eira nem Beira, mas até podia ser. O álbum de estreia dos Afromen chama-se "Mentalidade", e o nome diz quase tudo. Trata-se de uma sonoridade que anda entre o hip hop e o rap clássico, muito contagiante, acompanhadas de sumarentas letras de verdadeira intervenção política - principalmente ao nível da mentalidade e dos comportamentos sociais. É o som que está a dar em Angola desde Dezembro, quando o CD foi lançado, e que está chegando a Portugal apesar de ainda não constar na Fnac.

Yannick Ngombo, o vocalista e líder deste grupo, já anda nestas lides há mais de 10 anos, mas depois de viajar pelo mundo voltou a Angola com novidades para contar. Afromen põe o dedo em algumas feridas da actual sociedade angolana, e denuncia tendências viciosas que devem ser combatidades com valores como o respeito, a lealdade, a boa vizinhança, a autenticidade, a humildade, a esperança. Embora dirigida aos angolanos, a mensagem de Yannick serve que nem uma luva à sociedade portuguesa. Nesta faixa, o rapper lembra algumas virtudes do bairrismo saudável. Também na banda sonora d'a Conspiração, aqui na barra do lado, podemos escutar o grande hit de apresentação deste novo grupo a ter em conta: Afromen - 1, 2, 3.

Hoje, se o vizinho tá doente

não adianta perguntar

e dizer tem o quê?

Não vai dizer a verdade

e no coração vai dizer "seu fofoqueiro"

quinta-feira, 26 de março de 2009

castidade, a proposta que combate a SIDA

A propósito das sábias mas "politicamente incorrectas" declarações do Papa acerca dos preservativos e da abstinência, traz-se à Conspiração este belíssimo exemplar de comunicação que é um vídeo da campanha moçambicana de prevenção contra o vírus SIDA/AIDS/HIV. É na castidade e na lealdade que está a resposta que combate a promiscuidade sexual, que é a base do vertiginoso aumento do contágio de SIDA em África e, cada vez mais, na Europa. Não conheço uma campanha publicitária de preservativos (Control, Durex, etc.) que desincentive esta mesma promiscuidade sexual. Zero. Nenhuma! Antes pelo contrário, incentivam e contribuem na medida do possível para o crescimento deste lucrativo pântano onde chafurdam.

quarta-feira, 25 de março de 2009

o dia da renovada esperança

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Em tempos de crescente desânimo, uma antiga notícia é hoje especialmente bem-vinda, como todos os anos o é neste dia: a anunciação. Exactamente 9 meses antes do Natal, é a 25 de Março que a esperança da salvação começa a ganhar contornos reais. Por mais Judas e Pilatos que haja, por entre Herodes e Invernos (tanto os naturais como os económicos, demográficos ou de valores), do frio sai a Primavera e com ela renasce o amor, a fé, a esperança. Avé Maria, cheia de graça!
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segunda-feira, 23 de março de 2009

vox populi - III

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Chamo-me Maria da Conceição e a história da minha vida resume-se a umas poucas de linhas, muito breves e dramáticas. Nasci numa pequena aldeia de serra algarvia, e lá vivi até aos meus 14 aninhos quando fui trabalhar para casa de uns senhores em Lisboa.
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Que bons eram esses senhores... ensinaram-me a cozinhar e a limpar, enfim, a lida da casa, e trabalhei para eles durante 40, quase 50 anos. Uma vida! Sempre dedicada àquela família, não mais voltei à terra, nada me prendia lá, nem sequer família lá deixei. E também, quem é que era a vizinha que se ia lembrar da gaiata que em 50 anos nunca lá voltou? Nunca fiz descontos para a reforma, era feliz e despreocupada cá em Lisboa. Só que...
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O patrão morreu, e a sua senhora foi para um lar doente de alzheimer, ou lá como é que se diz. Eu também arranjei uma doença de pernas que mal me deixa andar, e por causa disso e da minha idade não arranjo trabalho em lado nenhum. Ando devagar, devagarinho, já fui operada mais que uma vez mas parece que isto da perna só fica pior. Internada no hospital ao menos tenho cama, tecto e comida. Mas acabam sempre por me dar alta...
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Os remédios que me receitam são caríssimos. Tenho de pedir na rua ou no metro mas, de tudo o que me dão, só me chega para comer ou para comprar remédios, nunca as duas coisas. Se compro remédios, passo fome; se como, não dá para os remédios.
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E depois olha, tenho de ter a perna descoberta com as cicatrizes à mostra, que é para as pessoas terem pena de mim e me darem qualquer coisinha. Eu sei que desta maneira entra pó e infecta mais, mas o que hei-de fazer? Da outra forma nem para o pão chegava... não me custa chorar assim.
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Hoje tenho 68 anos embora a minha cara diga 86. Poucas coisas me alegram, mas apesar de estar há cerca de 4 anos na rua, ainda não perdi a esperança de arranjar uma casa para trabalhar. Sei lá, por exemplo para estar na cozinha... diziam os meus senhores que eu até me desenrascava muito bem com os pitéus! Que saudades deles, foram mais que a minha família...
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terça-feira, 10 de fevereiro de 2009

quem quer ser milionário?

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Slumdog Millionaire mostra-nos uma faceta da Índia que não estamos habituados a conhecer, mas o alcance deste filme não se fica pelos problemas do subcontinente do caril – gravíssimos e reais, por sinal –, a sua mensagem pode aplicar-se à vida de qualquer português. A película conta-nos sobre o trajecto de dois irmãos, Caim e Abel, perdão, Salim e Jamal, que nasceram num sujo subúrbio de Bombaim, actual Mumbai, e que encaram a vida com atitudes muito diferentes. Enquanto que Salim se rende ao maquiavelismo musculado, Jamal joga a sua felicidade no globalizado mas pernicioso “Quem quer ser milionário?”. Todavia, alguém que pense que a felicidade se consegue graças ao dinheiro, desengane-se mais esta vez. O amor e a verdade são a escada para a verdadeira felicidade, onde só quem não está interessado no poder ou no dinheiro é que é digno de os ter. Mas, porque falo tanto de dinheiro, se esta é essencialmente uma história de amor? Este filme trata-se de uma grande história de amor e tribulação, com bons actores e muito bem contada. Mais, Slumdog Millionaire é um glorioso elogio do conhecimento empírico. É um dos melhores filmes que tenho visto.
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domingo, 25 de janeiro de 2009

pedido de tolerância aos discriminados desta vida

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Às senhoras: não me levem a mal por vos oferecer a prioridade ao passar uma porta. Não é machismo, é consideração!
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Aos homossexuais: não se ofendam com o debate sobre o casamento. Não é homofobia, é zelo pela família!
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Aos africanos: não nos julguem pelo mal que alguns antepassados desta Pátria fizeram aos seus. Não é esquecer o passado, é construir uma irmandade com futuro!
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Aos pobres: não condenem todos os poderosos pela exploração realizada por alguns. Não é luta de classes, é igualdade perante a justiça!
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A todos, a minha oração, respeito e amizade. Não só tolerância, mas amizade.
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quinta-feira, 22 de janeiro de 2009

no carnaval da vida

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- Gostarias que eu fosse a tua gueixa, menino bom?
- Sim, também. Mas, sobretudo, minha mulher. Vim a Tóquio propor-te casamento pela enésima vez. Desta vez convencer-te-ei, já te aviso. E, a propósito, desde quando é que andas de autocarro? O chefe dos Yakuza não te pode arranjar um carro com motorista e guarda-costas?
- Mesmo que pudesse, não o faria - disse-me ela, sempre agarrada ao meu braço. - Seria ostentação, a coisa que os japoneses mais detestam. Aqui é mal visto uma pessoa diferenciar-se das outras, seja no que for. Por isso, os ricos disfarçam-se de pobres e os pobres de ricos.
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in "Travesuras de la niña mala", de Mario Vargas Llosa
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terça-feira, 20 de janeiro de 2009

vox populi - II

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Zé Carlos, 47 anos (hoje com 50), sem-abrigo desde os 43, cabelo grisalho e espesso, contava como a sua mulher Cecília o tinha trocado por um colega de trabalho. Com ela, deixou dois filhos: Frederico, 13 anos, que nasceu com paralisia e é “muita lindo”; e a Daniela, de 11 anos.

Noutras vidas, Zé Carlos trabalhou na construção civil, foi pintor de paredes, e carpinteiro também. É artista, desenha bem, tem esboços de quadros em carvão sobre papel, semi-amarrotados e com pingos de água – talvez da chuva, ou quem sabe das lágrimas...

Suas paixões? A Natureza!, responde logo. E depois, a História de Arte, os romances históricos, a História da Idade Média, Biologia, o Surrealismo (os seus esboços são também surrealistas, eu vi-os, e de qualidade), Jerónimo Bosch. Os olhos de Zé Carlos iluminavam-se...
– Ah, e sou doido pelo Tio Patinhas, principalmente as histórias feitas p’lo Carl Barks, e as do Don Rosa! São uma maravilha! Conheces?
– Sim, sim! Muito boas.

Acredita em Deus mas diz não rezar as orações tradicionais. Respondi-lhe que as suas orações não eram menos valiosas para Deus, e ele abriu a confiança num sorriso da boca aos olhos, mostrando pela primeira vez a falta de dentes.

Tem a auto-estima em baixo, diz-se feio. Mas é culto e autodidata. Não se dá com os outros sem-abrigo, a sua companhia é Deus e o cão, que se chama Rainbow (a sua dificuldade na dicção fez-me perguntar 3 vezes se se tratava do Rambo, até ele me explicar que era um arco-íris).

O Zé Carlos falou um dia com a assistente social, dizendo-lhe que queria refazer a sua vida. Esta respondeu que era difícil ajudá-lo por ele não ser toxicodependente. Perguntou numa entristecida ironia, de voz embargada:
– Não me orientas um charrinho que m’ajude? É que senão, não me safo...

Quando disfarçadamente bocejou a primeira vez, quis deixá-lo descansar, e despedimo-nos entre mais conversas e apertos de mão, durante uns bons 10 minutos.
– É que – pausa, suspiro – não é todos os dias que se fala...
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segunda-feira, 12 de janeiro de 2009

recomposição sentimental

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Aconteceram coisas extraordinárias naquele Verão de 1950. Conijoba Lañas atirou-se pela primeira vez a uma rapariga — a ruiva Seminauel — e esta, ante a surpresa de Miraflores inteiro, disse-lhe que sim. Conijoba esqueceu-se do seu coxear e andava desde então pelas ruas a fazer peito como um Charles Atlas. Tico Tiravante acabou o namoro com Ilse e atirou-se a Laurita, Víctor Ojeda atirou-se a Ilse e acabou com Inge, Juan Barreto atirou-se a Inge e acabou com Ilse. Houve uma tal recomposição sentimental no bairro que andávamos aturdidos, os enamoramentos desfaziam-se e refaziam-se e ao sair das festas dos sábados os pares nem sempre eram os mesmos que tinham entrado. «Que relaxação!», escandalizava-se a minha tia Alberta, com quem eu vivia desde a morte dos meus pais.
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Ocurrieron cosas extraordinarias en aquel verano de 1950. Cojinoba Lañas le cayó por primera vez a una chica — la pelirroja Seminauel — y ésta, ante la sorpresa de todo Miraflores, le dijo que sí. Cojinoba se olvidó de su cojera y andaba desde entonces por las calles sacando pecho como un Charles Atlas. Tico Tiravante rompió con Ilse y le cayó a Laurita, Víctor Ojeda le cayó a Ilse y rompió con Inge, Juan Barreto le cayó a Inge y rompió con Ilse. Hubo tal recomposición sentimental en el barrio que andábamos aturdidos, los enamoramientos se deshacían y rehacían y al salir de las fiestas de los sábados las parejas no siempre eran las mismas que entraron. «¡Qué relajo!», se escandalizaba mi tía Alberta, con quien yo vivía desde la muerte de mis padres.
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in "Travesuras de la niña mala", de Mario Vargas Llosa
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