Mostrar mensagens com a etiqueta leis. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta leis. Mostrar todas as mensagens

terça-feira, 18 de março de 2025

É possível fazer lobbying de forma séria

(também publicado no Observador) 

Norman Rockwell - The Right to Know (1968)

Quando falamos de corrupção ou de promiscuidade de interesses conflituantes, é frequente juntar-se um estrangeirismo à conversa: os lobbies. Não me parece justo. Digo que é injusto porque devemos considerar o lobbying como algo que, quando bem enquadrado, beneficia o processo democrático de decisão.

Nesta sociedade muito acelerada e tão cheia de escolhas, é humanamente impossível que um deputado ou um ministro conheça ao pormenor o impacto das inúmeras decisões que toma diariamente. Por mais inteligente que ele seja e por mais numerosa e qualificada que seja a sua equipa, aquele decisor político não sabe exactamente tudo aquilo que faz. O volume de assuntos é tal, que ele acaba por confiar nas indicações do seu partido, em opiniões de outros, na sua intuição, e depois decide porque tem de decidir. Porém, os assuntos mais complexos carecem de reflexão adicional e é necessário auscultar os vários lados da questão, que nunca são menos do que dois. Então, é precisamente aqui que entra o lobbying como serviço público. O lobista, representante bem identificado de uma das partes interessadas, deve organizar e fornecer informação relevante ao decisor político, mostrando a bondade do seu ponto de vista ou do ponto de vista do seu cliente. Já o decisor político (ou a sua equipa) deverá ouvir todas as partes interessadas, e depois então pode avaliar o que é melhor à luz da Constituição e do programa que prometeu cumprir quando foi eleito ou nomeado.

Quem representa os lobbies são os lobistas e a actividade que estes desenvolvem é o lobbying. E isto do lobbying trata-se muito simplesmente de tentar influenciar políticas, mais concretamente as leis e outras decisões executivas. O lobista pode agir em nome próprio, da sua empresa ou da instituição que dirige, ou em representação de uma causa ou de um cliente. O lobista organiza e fornece informação relevante para o decisor político, promove debates, faz perguntas, ajuda a formular leis e emendas às propostas de lei, tenta convencer com bons argumentos os políticos a votar de certa maneira, promove acordos e também desacordos. No entanto, pode estabelecer alianças de forma a fortalecer a sua posição, exercendo pressão em conjunto com outros lobistas profissionais e também com o público em geral, mobilizando-o através das redes sociais, de petições, de artigos de jornal, de manifestações na rua, etc.

Toda a gente pode fazer lobbying. Aliás, toda a gente faz lobbying. Fazem lobbying as empresas, os bancos, as farmácias e os laboratórios, os agricultores, as associações (comerciais, laborais, sindicatos, etc.), as igrejas ou religiões, os países e Estados (governos, diplomatas, etc.), as regiões e cidades, as próprias instituições europeias entre si, os partidos, os cidadãos. E fazem-no através de ONG’s (organizações não governamentais), OANG’s (organizações aparentemente não governamentais), partidos, think tanks, universidades (com estudos, papers, doutoramentos honoris causa...), museus e fundações, atribuição de prémios, escritórios de advogados, consultores de relações públicas, jornais e jornalistas, entre muitas outras figuras.

O lobista, seja ele um profissional que representa um grande grupo ou um simples cidadão a actuar em nome próprio, deve ter o bom senso de insistir apenas o quanto baste, de ser bem-educado e de procurar ajudar de forma construtiva. Tanto quanto for possível no tempo limitado de que dispõe, o decisor político deve ser aberto e procurar ouvir todos aqueles que a ele se dirigem, mas não tem de aturar situações desagradáveis, insultuosas ou infrutíferas. Se o decisor político está ao serviço dos cidadãos e do Bem Comum, também nós devemos reconhecer o seu trabalho e agradecer-lhe o tempo e a atenção que nos dedica, sem fazer perder o seu e o nosso tempo.

Temos de olhar melhor para a cultura política dos países anglo-saxónicos, onde a realidade do lobbying é compreendida com normalidade, os lobistas são contratados pelas suas competências e os contactos políticos surgem naturalmente. São geralmente profissionais muito competentes. Por outro lado, os eleitores fiscalizam e acompanham o trabalho dos seus eleitos, escrevem-lhes e fazem petições. Por sua vez, os eleitos encontram-se regularmente com as pessoas do seu círculo eleitoral e prestam-lhes contas. Há uma cultura política de proximidade, onde o lobista é apenas mais um meio desse diálogo desejável entre o eleitor e o eleito. Entre nós, a cultura política é mais pobre e intermitente: a ligação entre eleitor e eleito quase se resume à campanha eleitoral e ao dia das eleições. Nessa perspectiva – a da cultura política – nós na União Europeia perdemos muito com a saída do Reino Unido.

Nos últimos dias tem-se falado muito de lobbying na sua vertente negativa e como qualificativo de alegada corrupção – legal ou “apenas” ética e moral.  Mas a corrupção não é uma característica do lobbying. Entendamos por corrupção não só aquilo que é ilegal, mas tudo o que degrada a natureza de uma função, de uma acção, de um cargo ou mandato. Por exemplo, o mandato dum eurodeputado é para representar o interesse dos cidadãos que o elegeram. Se esta não for a grande prioridade do eurodeputado, podemos dizer que ele está corrompido. Os principais tipos de corrupção que infectam a práctica do lobbying podem ser: favores legislativos, tráfico de influências, empregos para familiares, espionagem, sedução, cedência de assistentes que trabalhem para terceiros, viagens pagas, presentes, recebimento de dinheiro por acção, promessa de cargo futuro (as famosas portas giratórias ou “revolving doors”) e o financiamento ilegal de campanhas eleitorais. Tudo isto pode alterar as prioridades do político ou funcionário que se pretende influenciar, degradando o seu serviço e dedicação ao Bem Comum. Seja em Lisboa ou em Bruxelas, seja um casino ou uma empresa de telecomunicações, seja promovido pelo Qatar ou pela China, o lobbying deve ser enquadrado pela lei e também por boas prácticas éticas e morais.

O lobbying melhora a qualidade da nossa democracia: presta um serviço útil, confere mais eficácia à voz dos interessados e dá informação relevante ao decisor político. Assim, o lobbying deve ser regulado para poder contribuir de forma virtuosa para o funcionamento da democracia. Portanto, o problema não é o lobbying: o problema é a corrupção. E à corrupção responde-se com leis claras, penas dissuasoras, uma justiça que funcione e, sobretudo, com mais ética pessoal e profissional de todos os intervenientes no processo legislativo.

quinta-feira, 23 de dezembro de 2021

Reflexões dum ex-lobista

(originalmente publicado no Jacaré)

Noutra vida fui lobista e foi-me pedido pela minha querida Universidad de Navarra que explicasse o que era o lobbying a um grupo de alunas da Faculdade de Comunicação que então visitava Bruxelas. Recentemente encontrei o papel desse encontro e achei interessante pôr aqui algumas ideias básicas que lhes tentei transmitir.


Em 2015, havia em Bruxelas cerca de 31 mil funcionários da Comissão Europeia e estimava-se que houvesse mais de 30 mil lobistas, quase um lobista para cada funcionário. Hoje em dia, acredito que o número de lobistas tenha ultrapassado o de funcionários, e atenção que a Comissão Europeia é apenas uma das várias instituições da União Europeia.


Definindo o lobby
Então, e o que vem a ser isto do lobbying? Trata-se muito simplesmente de tentar influenciar políticas, mais concretamente as leis, e o lobista fá-lo no sentido que convém ao interesse ou cliente que representa. O lobista age em nome próprio ou em representação de uma causa ou de um cliente, organiza e fornece informação relevante para o policy maker, promove debates, faz perguntas, ajuda a formular leis e emendas às propostas de lei, convence os políticos a votar de certa maneira, promove acordos e também desacordos. Academicamente, distinguem-se três tipos de lobbying:
lobby top-down (de cima para baixo, exercendo o poder de superior hierárquico como a UE faz em relação aos Estados-membros, ou como um ministro em relação a um secretário de Estado da sua tutela)
lobby directo (de igual para igual, como por exemplo entre ministros ou entre deputados)
lobby de grassroots (de baixo para cima, seja através da organização de manifestações na rua, de artigos de jornal, publicações em redes sociais, petições, etc.)

Um exemplo de lobbying: o que têm em comum as restrições ao tabaco, os cintos de segurança nos automóveis e a proibição do consumo de álcool ao conduzir? Tudo se deve a um eficaz trabalho de lobby das companhias de seguros.

Quem? Como? Onde?
E quem faz lobbying então? Bem, toda a gente: as empresas, os bancos, as farmácias e laboratórios farmacêuticos, os agricultores, as associações (comerciais, laborais, sindicatos, etc.), as igrejas ou religiões, os países e Estados (governos, diplomatas, etc.), as regiões e cidades, as próprias instituições europeias entre si, os partidos, os cidadãos... e fazem-no através de ONG’s (organizações não governamentais), OAANG’s (organizações apenas aparentemente não governamentais), partidos, think tanks, universidades (com estudos, papers, doutoramentos horroris, perdão, honoris causa...), museus e fundações, atribuição de prémios, escritórios de advogados, consultores de relações públicas, jornais e jornalistas, entre muitas outras figuras. Os lugares onde o lobbying se faz também são diversos: ONU, NATO, Comissão Europeia, Parlamento Europeu, outras organizações internacionais, governos e parlamentos nacionais, cafés, restaurantes, hotéis, discotecas, comboio, avião, metro, e-mail, telefone, gabinetes e escritórios, casa, ginásio, piscina, practicando um desporto em equipa, num clube cultural ou recreativo...

Eficácia do lobby
Se não for bem feito, o lobby pode ser um desperdício de dinheiro ou até contraproducente. Dou dois exemplos de lobbying ineficaz:
- uma vez fui a uma conferência sobre a crise europeia, que fazia um diagnóstico tremendo sobre o estado das economias europeias, suas empresas e famílias. A conferência teria sido um sucesso a nível de conteúdo caso não tivesse sido rematada por um cocktail onde foram servidos champagne, água Evian e tostinhas com foie gras. Neste caso, a forma prejudicou a mensagem.
- em Junho de 2013 assisti a um evento caríssimo, muito bem servido, num dos espaços mais amplos do Parlamento Europeu. O objectivo era a promoção da cidade de Sevilha, não só a nível de turismo como de negócios. O problema foi que todos os discursos foram em castelhano, sem tradução, e o power point e material impresso também só estavam na língua local de Sevilha... tudo para espanhol ver! De que serve a uma cidade ir promover-se ao estrangeiro numa língua que o público não entende? Foram os lobistas andaluzes que não entenderam para quem falavam, e com isso gastaram inutilmente uma fortuna ao seu cliente, que neste caso era o contribuinte.

Assim, para se fazer um lobby eficaz, é fundamental sabermos quem é o nosso cliente, quem é o nosso público-alvo, quais são os nossos objectivos, de que meios dispomos, conhecer o processo legislativo com o seu calendário e prazos, e qual é o nosso orçamento. Desta forma, podemos desenhar e aplicar uma boa estratégia para atacar o problema a que queremos dar resposta. Tendo em conta experiências passadas, estamos sempre a avaliar e aprender a enquadrar melhor as questões e contar melhor a história da nossa perspectiva sobre o assunto em análise. Acima de tudo, temos de ter em conta que do outro lado está uma pessoa como nós, com a sua história, cultura, formação e vicissitudes muito próprias. Por exemplo, com um engenheiro poderei enquadrar a questão de uma forma acção-reacção ou explicar a dinâmica do problema identificando um pólo positivo e um pólo negativo. A um médico, falarei do problema como uma doença a atacar, ajudando-o a descobrir o melhor remédio e prevenindo-o da possibilidade de eventuais contágios para outras áreas. A um pai de família sei que poderei falar do futuro com mais segurança de que será sensível às questões de longo prazo. E por aí fora.

Por outro lado, para o lobby eficaz devemos ter em conta a natureza das instituições e dos seus funcionários. No caso de Bruxelas, o processo legislativo muitas vezes começa na Comissão onde a proposta é elaborada, depois é enviada ao Parlamento que a pode aprovar, emendar ou vetar, depois segue para o Conselho... e o lobista pode estar num momento a contribuir de forma construtiva para determinada lei junto da Comissão, e passado umas semanas estar numa atitude destrutiva a fazer o seu lobby junto dos eurodeputados para emendar ou vetar alíneas que não lhe interessam e que não conseguiu influenciar na Comissão. A estratégia geral de lobbying deve contemplar que as tácticas se adaptem a cada público-alvo e a cada momento legislativo.

Vale tudo?
Mas será que vale tudo? Aqui começa a reflexão ética da profissão de lobista e da práctica do lobbying. A verdade é que... o lobista não é pago para dizer a verdade. Também não deve mentir, mas por vezes espera-se do lobista que engane ou induza ao erro. Pagam-lhe para dizer o que é conveniente. A diferença entre uma mentira e aquilo a que os americanos chamam de - e peço desculpa pela feia expressão - bullshit, é que a simples mentira é uma negação da verdade, enquanto que bullshit trata-se de dizer o que quer que seja (verdade, mentira ou engano, não importa) para alcançar um determinado objectivo. Como a verdade perde centralidade nesta indústria do bullshit que é o lobbying, fica prejudicada a capacidade de um lobista gerar confiança. Mas a confiança, que só se ganha no médio e longo prazo, é a chave do seu trabalho. Sem confiança, não é credível aquilo que o lobista oferece aos seus clientes e aos políticos que tenta influenciar. A grande tentação do lobista é dizer que sim a tudo, e tudo o que diz o seu cliente ou chefe passa a ser a sua missão, ordens para cumprir. Mas se o lobista engana o político porque o seu cliente assim pede, algum dia o seu cliente questionar-se-á se o lobista não o está a enganar a si também, e o lobista poderá também questionar-se se o seu cliente não o engana igualmente. Por vezes, o lobista só ganha o respeito das pessoas (clientes, network de contactos, políticos, ou de si mesmo) se tem a coragem de dizer “não”, “isto não faço”, “não ultrapasso esta linha”.

Para além da falta de confiança que advém de omitir, enganar ou induzir em erro (já para não falar da mentira), há outro fenómeno que mina as relações humanas e as sociedades: a corrupção. Quando se fala de lobbying, a corrupção está sempre presente na cabeça mesmo que dela não se fale. E não é por acaso, posso confirmar (sem nunca a ter practicado) que a corrupção no lobbying é bastante comum. Entendamos por corrupção tudo o que degrada a natureza de uma função, de uma acção, de um cargo ou mandato. Por exemplo, o mandato dum eurodeputado é para representar o interesse dos cidadãos que o elegeram. Se esta não for a grande prioridade do eurodeputado, pode-se dizer que ele está corrompido. Os principais tipos de corrupção em lobbying podem ser: favores legislativos, tráfico de influências, empregos para familiares, espionagem, sedução, cedência de assistentes que trabalhem para terceiros, viagens, presentes, recebimento de dinheiro por acção, promessa de cargo futuro (as “portas giratórias” ou revolving doors) e o financiamento ilegal de campanhas eleitorais. Tudo isto pode alterar as prioridades do político ou funcionário que se pretende influenciar, degradando o seu serviço e dedicação ao Bem Comum.

Conclusão
Estou ciente que apresentei aqui uma visão um pouco negra desta profissão que já foi a minha, e de algumas falhas que há no sistema. Há quem diga que é preciso proibir o lobbying, há quem diga que é preciso maior regulação, mas eu acho que o problema é essencialmente cultural. Se formos a ver, todos somos um pouco lobistas, a começar pelos familiares dos políticos. Um deputado vota muitas propostas legislativas todos os meses, tantas que não é humanamente possível ele ser especialista em todos esses assuntos e votar em consciência. É normal e desejável que alguém lhe apresente factos bem organizados e explicados, com uma perspectiva sobre o assunto. Se possível, o político deve procurar também uma perspectiva contrastante para aprender mais matizes da questão e fazer a sua síntese. Bem entendido, o lobbying é um serviço que melhora a qualidade das democracias. Se eu participo numa manifestação ou se escrevo aos deputados, não só estou a exercer um direito como estou a participar de forma positiva no processo legislativo... estou a pedir ao deputado ou ao governo que me representam para agir de certa forma, e nesse caso estou a ser lobista de mim próprio. O problema não é o lobbying, o problema é a corrupção. E à corrupção responde-se com leis claras, penas dissuasoras, uma justiça que funcione e, acima de tudo, com mais ética pessoal e profissional de todos os intervenientes no processo legislativo.

Havia bastante mais para dizer, pois guardo muitas histórias engraçadas sobre aqueles anos. Mas para terminar num tom mais positivo, posso assegurar que há poucas coisas que dêem mais satisfação do que contribuir de forma saudável para que políticos tomem decisões informadas com impacto real e bom na vida das pessoas. No meu caso, houve alguns momentos em que tal aconteceu.

quarta-feira, 13 de junho de 2018

Eutanásia - carta a todos os deputados



Lisboa, dia 22 de Maio de 2018

Exmo. Senhor Deputado [NOME]
Assembleia da República Portuguesa


Senhor Deputado [NOME],

Chamo-me António Vieira da Cruz, sou portador do cartão do cidadão [--------] e voto em Lisboa. Escrevo porque sei que a Assembleia da República irá debater e votar nos próximos dias uma proposta de legalização da eutanásia.

Edvard Munch - A dança da vida (1899)

Já vivi em países onde a eutanásia está legalizada, como a Bélgica ou o Canadá, mas V.Exa. estará certamente a par do impacto desta práctica nesses países e dos números que confirmam o cenário da slippery slope, a tal “rampa deslizante” que vai afectando cada vez mais vidas. Para ilustrar este fenómeno, por exemplo, a Bélgica viu um aumento de 769% de eutanaziados nos primeiros 10 anos completos (2003-2013) depois da entrada da lei em vigor no ano de 2002. Na Holanda os casos de eutanásia têm aumentado cerca de 10% cada ano, com 6091 eutanásias em 2016 a representar mais de 4% das causas totais de morte nesse país. Vejo o Canadá caminhar na mesma direcção e os números relativos ao Luxemburgo e à Suíça são igualmente preocupantes.

Para além de uma cuidada análise dos números e daquilo que estes representam, esta questão exige de nós uma abordagem humana e socialmente responsável. Por isso é que eu, sendo parte de uma sociedade civil que também é chamada a reflectir sobre a eutanásia, convido V.Exa. a comigo pôr-se na pele:

- do Doente, que está frágil e vulnerável, com dores e em sofrimento, mas intacto em dignidade humana;
- da Família e outros Cuidadores, que acompanham o Doente naquele momento de grande fragilidade e vulnerabilidade, dando-lhe ânimo, paz e esperança para combater o sofrimento;
- do Médico, em quem o Doente confia para ser tratado, das dores aliviado e - se possível - curado;
- do Estado, que tem o dever de acudir pelo menos aos mais fragilizados da sociedade, dando um enquadramento legal que os protege e, se chamado, agindo como entidade de Bem;
- do Legislador, que legisla tendo em conta o Bem Comum.

Senhor Deputado, neste caso, o Bem Comum é realmente coincidente: o bem do Doente, da Família e outros Cuidadores, do Médico e do Estado é a protecção da vida humana. A hipótese da eutanásia destrói a relação de confiança entre o Doente e o seu Médico. A hipótese da eutanásia acrescenta ao Doente sofrimento e o peso da dúvida na altura em que está mais vulnerável. Se efectuada, a eutanásia não elimina o sofrimento, elimina sim uma vida e aumenta ainda mais o sofrimento de quem cá fica. A eutanásia é uma desistência de tratar, cuidar, acompanhar. E no entanto, os cuidados paliativos nunca foram tão eficazes e avançados como são hoje.

Infelizmente, nos últimos anos o Estado tem-nos falhado em várias áreas. Mas o Estado é feito de pessoas e errar é humano. O que não posso conceber é que o Estado se demita deliberadamente de uma obrigação fundamental sua, a de zelar pelo Bem Comum e a protecção legal dos mais fracos.

Espero de V.Exa. que legisle em prol do Bem Comum.

Obrigado pela atenção e os melhores cumprimentos,
António Vieira da Cruz, Português, 32 anos.

segunda-feira, 20 de março de 2017

Insisto! - JPVM

(Texto originalmente publicado no "Jacaré parado vira mala" no dia 31.12.2016)


Pela parte que me toca, este blogue corre o risco de virar mala. A probabilidade existe de facto e é forte. Não creio que este exercício venha a ter um impacto enorme, e se o tiver é depois de longos meses de árduo trabalho e um pouco de sorte. Olho para 2017 e o ano que aí vem desenha-se cheio de desafios a todos os níveis: familiar, pessoal, cultural e profissional. Ademais, tenho uma personalidade que tende para o conforto. Há motivos de sobra para esmorecer.

E no entanto, insisto: vamos começar este blogue! Insisto, primeiro que nada, por causa dos meus companheiros desta aventura. O Luís Bessa Monteiro e o João Gonçalo Moreira Pires são velhos amigos, velhos no sentido da azinheira cuja madeira é rija como os seus valores, suas antigas raízes estão bem presas à realidade do chão e seus ramos bem espraiados em direcção a sonhos generosamente banhados pelo sol e por vezes também por alguma chuva. Insisto porque todos os dias me deparo com injustiças, barbaridades que se dizem e fazem e – factor decisivo – que invadem a minha esfera de privacidade para a diminuir ou mudar sem o meu consentimento, beliscando ou até ferindo a liberdade com que eu e os meus fomos concebidos. Insisto porque alguém deve olhar para certas euforias utópicas dos nossos políticos e dizer: “o rei vai nú!”

Insisto porque, como crente que sou, sei que só Deus é perfeito e tenho verdadeira esperança na vida eterna; e por isso mesmo tenho muita cautela com os recorrentes optimismos exacerbados acerca da vida terrena, principalmente com aqueles que nos prometem mundos e fundos em troca de votos e que invariavelmente nos deixam a correr atrás do prejuízo. Insisto porque sei melhor que o Estado o que fazer com a minha vida e com o dinheiro que tenho e ganho. Insisto porque concordo com o Presidente Coolidge que dizia ser “mais importante bloquear as leis más do que passar as boas”. Insisto porque os princípios da vida não devem ser postos em causa e há valores que não são para serem postos à margem da sociedade. Insisto porque a arte deve continuar a ser bela. Insisto porque o dinheiro deve ser real, pois só assim pode servir o Homem. Insisto porque gosto de falar dos prazeres do dia-a-dia.

Em suma, insisto porque me apetece e vejo utilidade em deixá-lo escrito. Porque insisto em transmitir aos meus Filhos o testemunho que recebo de meus Pais. E nesse entretanto, demos vida ao Jacaré!

domingo, 9 de outubro de 2011

a história de Asia Bibi


Asia Bibi é o nome de uma jovem cristã paquistanesa que está condenada à morte por ter bebido água de um poço. Será possível? É possível e foi isso mesmo que aconteceu, Asia bebeu água de um poço e não podia porque era cristã.

Numa manhã de trabalho na província do Punjabe, Paquistão, várias mulheres apanham bagas no campo. Uma delas é cristã e chama-se Asia Bibi, e as outras mulheres são muçulmanas. Asia recebe um salário menor do que as muçulmanas, mas não estranha isso nem protesta, é uma prática normal naquela zona do mundo e ela está habituada. Ao meio-dia está um calor que chega aos 45º. Asia Bibi aproxima-se do poço e bebe umas canecas de água para recuperar forças. Uma das mulheres repara e diz alto para as outras:

- Oiçam todas, esta cristã conspurcou a água do poço ao beber pelo nosso copo, e ao mergulhá-lo na água por diversas vezes. Agora a água está impura! Já não a podemos beber, por causa dela!

Asia, sentindo-se injustiçada, respondeu:
- Penso que Jesus teria um ponto de vista diferente do de Maomé sobre o caso.

Estas palavras incendiaram uma discussão enorme, em que as outras mulheres foram ficando mais violentas e Asia, sozinha, foi resistindo às agressões com valentia. O relato dos acontecimentos não menciona aquele episódio de Jesus no poço com a samaritana (Jo 4, 4-30), mas é impossível não o recordarmos ao lê-lo.

No Paquistão há uma "lei da blasfémia", que desde 1986 já terá feito mais de 700 presos, alguns deles condenados à morte. Asia Bibi foi acusada em tribunal por ter blasfemado contra o Islão, e em consequência foi condenada à morte por enforcamento em Novembro de 2010. O Ministro Paquistanês das Minorias Shahbaz Bhatti (cristão católico) e o Governador do Punjabe Salmaan Taseer (muçulmano) apoiaram-na, mas por isso mesmo e por se oporem à lei da blasfémia, foram assassinados por radicais. Também o Papa Bento XVI a apoiou publicamente e rezou por Asia.


Dois anos depois de estar encarcerada numa prisão sem condições nenhumas de higiene, Asia continua à espera do dia em que será assassinada pela lei, pelos guardas inimigos, ou pelas outras prisioneiras. Só pode ver o marido e o advogado, mas não tem o direito de ver os seus 5 filhos. Como não sabe ler nem escrever, Asia teve a ajuda da jornalista Anne-Isabel Tollet para escrever este livro, contando-lhe tudo através do seu marido.

Este livro, Blasfémia, pode ser encontrado nas principais livrarias e custa apenas 11 euros. Muito fácil de se ler, embora de digestão complicada pela crueldade dos assuntos, e ainda por cima estamos a contribuir para as obras da Fundação AIS - Ajuda à Igreja que Sofre.

O livro "Blasfémia" termina assim com um apelo de Asia Bibi:

Agora que me conheceis, contai à vossa volta o que me aconteceu. Fazei com que se saiba. Creio que é a única maneira de eu não morrer no fundo desta prisão.
Preciso de vós!
Salvai-me!

Prisão de Sheikhupura
Abril de 2011

Contemos à nossa volta o que aconteceu a Asia Bibi, ao Ministro das Minorias, ao Governador do Punjabe, e o que se passa no Paquistão. É a única forma que temos de fazer a diferença.

quinta-feira, 28 de julho de 2011

a Conspiração volta em Setembro



Vai ser muito difícil escrever alguma coisa de jeito antes de Setembro. Mas o regresso será com força e mais ideias. Este cartoon foi roubado ao blog "The Monkey Cage". Bom Agosto!

quarta-feira, 14 de julho de 2010

a importância das palavras

As palavras criam molduras conceptuais no nosso raciocínio. Em Espanha foi aprovada no Congresso uma lei que deixa as menores de 16 anos abortarem sem a autorização dos seus pais. É interessante ver as palavras usadas na imprensa de direita e na imprensa de esquerda para definirem essas pessoas. A imprensa de direita fala de "meninas" e de "menores de idade". A imprensa de esquerda fala de "mulheres com menos de 16 anos". Esta última classificação parece quase tão ridícula como a lei, mas revelou-se muito eficaz. Porque quando lemos "mulher" no El País, acolhemos de forma muito diferente a mesma notícia que sai no ABC, onde estas raparigas são nomeadas como "menores". As palavras escolhidas têm tanto poder, que nos forçam e quase nos obrigam a aceitar os pressupostos que implicam, influenciando finalmente a nossa percepção e opinião sobre o assunto. As palavras mandam, cuidado com as palavras.

domingo, 20 de junho de 2010

o futuro do cristianismo

-
A Verdade não muda, resiste e continua pelos séculos. Mas parece ser que o futuro do cristianismo como grande religião passa cada vez mais por converter os asiáticos, que são os Bárbaros do século XXI, e que dominarão esta civilização decadente e sem valores, comparável à Grécia e à Roma dos piores tempos. Ou nos tornamos verdadeiramente conscientes da guerra cultural em que vivemos e travamos esta espiral de perda de valores e de relativismo moral... ou o melhor é começarmos a estudar as culturas chinesa, hindu e árabe. Os maiores inimigos da civilização ocidental não estão fora, mas dentro e muito activos - em várias frentes, uma das quais a legislativa.
-

segunda-feira, 14 de dezembro de 2009

as salsichas e as leis



Os cidadãos não poderiam dormir tranquilos se soubessem como são feitas as salsichas e as leis.