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Presidenciais 2026 - a campanha e os candidatos

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(também publicado no Jacaré )   Divido os onze candidatos em três categorias: os democratas, os autoritários e os outros. Os autoritários: António Filipe (PCP), André Ventura (Chega), Catarina Martins (BE), Jorge Pinto (L) e André Pestana (ex-PCP, ex-BE, ex-MAS) não são exactamente democratas. As ideologias que os inspiram são irreconciliáveis com a separação de poderes, a liberdade de expressão e outros aspectos fundamentais do Estado de Direito Democrático. Se algum destes candidatos se visse no poder, nenhum de nós poderia prever a data e a forma das próximas eleições. Os democratas: Henrique Gouveia e Melo (Almirante) tinha porte presidencial e uma imagem de competência, no entanto depreciou a sua reputação ao embarcar numa campanha negativa com truques e insinuações. Luís Marques Mendes (PSD) seria o que tem mais experiência governativa e quem conhece melhor as exigências do cargo presidencial, porém o conselho que prestou a empresas nos últimos anos não teve bom acolhimento p...

O erro de Robin dos Bosques

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(originalmente publicado no Jacaré Parado Vira Mala ) Quem não gosta do Robin dos Bosques? A história passa-se na Inglaterra medieval e tem os problemas típicos da literatura romântica: há a donzela em apuros, há o xerife cruel, os pobres e famintos, um príncipe que conspira contra o rei seu irmão… e um herói que resolve todos os problemas com a pontaria do seu arco e flechas, ajudado por valentes amigos como Frei Tuck, João Pequeno e Will Scarlet. Escondidos na floresta de Sherwood, Robin dos Bosques e o seu bando vão resistindo à tirania de João Sem-Terra e sabotando as tentativas do xerife e do príncipe de se aproveitarem da ausência do rei Ricardo Coração-de-Leão que, entretanto, ajudava os cruzados em Jerusalém. Os valores estão todos certos: valentia, patriotismo, solidariedade, fé e amizade. Em Sherwood, Robin e os Merry Men caçam livremente, não pagam impostos, roubam os tesouros do príncipe e as colectas do xerife. Mas não o fazem para enriquecimento próprio, não! Eles roubam ...

conto - um pinheiro de Natal

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(originalmente publicado no  Jacaré ) Era uma vez, nuns terrenos de areia quase à beira do Tejo, um enorme pinheiro de raízes fundas e braços estendidos ao céu. Era a árvore mais vistosa de todo o Ribatejo e sonhava um dia poder alegrar o Natal de alguma família cristã. Ah, como desejava guardar aos pés os presentes de laçarotes encarnados e fingir que eram os seus sapatos de festa… e queria tanto que o vestissem de fitas e bolas brilhantes, que o trajassem de luzes como aos toureiros e que lhe colocassem à cabeça uma bela estrela tal como aos bolos especiais se põe uma cereja! Um dia de Outono, húmido e frio como pertence à estação, o pinheiro contemplava a grande planície e olhava altivo para os pimentos do campo e para o arroz da lezíria. «Pobres vegetais», pensava o pinheiro para com as suas pinhas, «que estão destinados a um fim tão corriqueiro como a alimentação dos homens em dias sem história». O pinheiro aspirava a mais. Mas, enquanto se entretinha com as certezas da sua no...

Phyllis Schlafly e JK Rowling: destemidas não autorizadas

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(originalmente publicado no Jacaré )   J.K. Rowling lê um qualquer artigo e interroga-se no seu  twitter  acerca dos termos usados:  ‘People who menstruate.’ I’m sure there used to be a word for those people. Someone help me out. Wumben? Wimpund? Woomud? Perante a audácia de sugerir o uso da palavra “mulheres”, logo lhe caiu em cima o pesado lobby dos novos costumes. A autora dos livros da saga “Harry Potter” e de “Monstros Fantásticos e Onde Encontrá-los” foi prontamente  criticada  por Daniel Radcliffe, Emma Watson e Eddie Redmayne, actores que deram corpo no cinema aos heróis principais desses livros. Então ela não sabe que dizer a palavra “mulheres” em vez de “pessoas que menstruam” é prejudicial e “apaga a identidade e a dignidade das pessoas transgénero”, indo contra os conselhos médicos para quem é mais propenso a depressões e pensamentos suicidas? “ Não é ódio dizer a verdade ”!, desculpa-se por fim J.K. Rowling. Mas para esta gente, J.K. já não tem...

uma tocha mantida acesa

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 (originalmente publicado no Jacaré ) “A Torch Kept Lit – Great Lives of the Twentieth Century” é o livro de 2016 editado pelo jornalista James Rosen que reúne postumamente alguns dos melhores obituários escritos por William F. Buckley Jr ( WFB ). Formado em Yale, WFB trabalhou brevemente na CIA, foi candidato a Mayor de Nova Iorque pelo Conservative Party of New York State que ajudou a fundar e é considerado por muitos como o arquitecto do conservadorismo americano do século XX, um conservadorismo que se pode dizer liberal na economia e tradicional nos costumes, e cujo expoente máximo foi a presidência republicana de Ronald Reagan. Católico, patriota mas cosmopolita, practicante de vela e de ski, junto à sua mulher  Patricia  e do seu filho  Christopher  presente nos círculos da alta sociedade nova-iorquina e de Gstaad, WFB era um gentleman, culto e interessado em boas ideias, com genuíno gosto pelo debate, onde fazia uso do seu vastíssimo vocabulário. William ...

a autoridade como serviço

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(originalmente publicado no Jacaré ) Foi recentemente lançado, logo após a morte do autor, o livro “As ideias políticas e sociais de Jesus Cristo" por Diogo Freitas do Amaral (1941-2019). O percurso do fundador do CDS é sobejamente conhecido e dispensa apresentações. Neste pequeno livro que não chega à centena de páginas, vamos às palavras de Jesus Cristo que inspiram a Doutrina Social da Igreja que Freitas do Amaral explica e promove. As ideias políticas e sociais de Jesus Cristo, presentes em várias passagens e de forma mais óbvia no Sermão da Montanha, são-nos pedagogicamente transmitidas no contexto histórico e económico da época. Para tal, Freitas do Amaral usa o seu poder de síntese e socorre-se de bons mapas. Destaco a seguinte passagem: Na verdade, o Estado - isto é, o poder político com os seus direitos e aparelhos de autoridade - não existe para si próprio ou para agradar aos que o governam (reis, presidentes, ministros), mas sim para se ocupar do bem comum, daquilo que ...

a vida é um desempate permanente

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(originalmente publicado no Jacaré )   Postal antigo alusivo aos Campinos As grandes searas da campina, embora desafiem as alentejanas, não lhes levam a palma. Mas o toiro que irrompe do curro, negro e luzidio, e o cavalo que o espera, nédio e nervoso entre as esporas do cavaleiro, esses não temem confronto e são o produto específico da terra ribatejana. Só nela o puro-sangue pode encontrar o seu húmus, a virgindade dum solo que um deus ainda visita e fecunda. Ele e o homem que o domina, não em luta desigual e traiçoeira, mas saltando-lhe para o lombo indomado ou recebendo-lhe a marrada impetuosa e cega no peito. Na articulação dos três lados do triângulo – campino, cavalo e toiro – conjugam-se as últimas forças viris que restam a Portugal dos tempos livres da Criação, das eras selvagens e testiculares que a civilização castrou. As sociedades protectoras de animais quadrúpedes e bípedes têm-se esforçado por negar à vida a legítima afirmação das suas leis profundas. O instinto, poré...

o Homem Esquecido

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 (originalmente publicado no Jacaré ) "Forgotten Man" de Maynard Dixon (1875-1946) As soon as A observes something which seems to him wrong, from which X is suffering, A talks it over with B, and A and B then propose to get a law passed to remedy the evil and help X. Their law always proposes to determine what C shall do for X, or in the better case, what A, B, and C shall do for X... What I want to do is to look up C. I want to show you what manner of man he is. I call him the Forgotten Man. Perhaps the appellation is not strictly correct. He is the man who never is thought of. He works, he votes, generally he prays — but he always pays. ~  William Graham Sumner  (1840-1910), Universidade de Yale, 1883.

leituras de Abril, 2019

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(originalmente publicado no Jacaré )   Cherry Ingram - The Englishman who saved Japan's blossoms , por Naoko Abe (380 páginas, Penguin Random House, Londres, 2019). Belíssimamente investigada e escrita pela jornalista Naoko Abe, a história de Collingwood "Cherry" Ingram é rica e interessante. Os 100 anos que Cherry Ingram (1880-1981) viveu são uma lição de perseverança, de desafio às probabilidades, de amor pelo conhecimento, pela diversidade e pela defesa daquilo que está certo. Através da vida deste ornitólogo, militar e coleccionador de cerejeiras, podemos acompanhar a evolução política, diplomática e estética de dois países: a sua Inglaterra natal e o seu fascinante Japão. Enquanto o Japão se preparava para a guerra, só uma variedade de cerejeira devia ser plantada: aquela que, segundo os governantes da época, melhor inspirava os  kamikaze  - pela beleza com que as suas flores caiem - a morrerem pelo imperador e pela pátria. Contra o empobrecimento cultural e desafian...

a polícia não é o problema

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(publicado originalmente no Jacaré ) Depois de mais um vídeo ter corrido as redes sociais a atestar a violência dos bairros ditos sociais na Grande Lisboa, tenho assistido nos dias presentes a vários debates sobre a polícia, o racismo e a criminalidade. Penso conhecer bem a realidade de alguns destes bairros, sobretudo a de 4 ou 5, nomeadamente porque nasceram, como o tempo passou por eles e quais os seus principais problemas e desafios. E não há como negar: o racismo existe; a criminalidade existe; a polícia também erra. Mas estes problemas, mesmo que graves, são apenas a consequência de um pecado original: mau urbanismo. Tanto nos velhos bairros de casas ilegais e de barracas (espontâneos) como nos bairros de habitação “social” que os substituíram (planificados), as carências são inúmeras: pouca limpeza, degradação dos prédios e equipamentos públicos, insegurança, crime, separação de comunidades por zonas, rivalidades, pobreza, ausência de oportunidades… factores que conduzem toda um...

a grande Vitória

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 (publicado originalmente no Jacaré ) Auto-reminiscência de Paris (1949) Um dia Dom Sebastião, o nosso Rei mais jovem, o nosso mais belo Rei, juntou toda a juventude Portuguesa para realizar a grande Vitória. Mas Deus guardou essa Vitória, esperando... esperando o amanhã... esperando sempre o amanhã... ... Esperando-nos a nós, os Portugueses de hoje! José de Almada Negreiros, Paris, 7 de Abril de 1919.

o caso Kavanaugh

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 (publicado originalmente no Jacaré ) Nas últimas semanas várias notícias têm cruzado o Atlântico com o nome de Brett Kavanaugh, o homem que o Presidente Trump escolheu para substituir o Juiz Anthony Kennedy no Supremo Tribunal dos EUA. O Supremo Tribunal é a última instância de justiça nos EUA e os seus 9 juízes têm a competência de julgar em conjunto os casos que lhes chegam, à luz da Constituição dos EUA e das suas emendas. A Constituição dos EUA, em vigor há 230 anos, é uma das mais curtas e antigas constituições do Mundo. A sua brevidade, uma boa leitura da natureza humana e o contexto cultural americano onde se insere asseguram que este documento seja respeitado até hoje. Supremo Tribunal dos EUA - Washington D.C. No entanto, e sobretudo a partir da segunda metade do século XX, alguns juízes adoptaram uma atitude mais subjectiva perante o texto constitucional, fazendo uma interpretação pessoal e livre que adaptasse as normas aos desafios dos tempos presentes – o que quer que ...

Kolinda Grabar-Kitarović

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(publicado originalmente na revista Think South Asia em 2012 e depois no Jacaré em 2018) Kolinda Grabar-Kitarović saúda Luka Modrić, E. Macron aplaude Dois dos temas mais quentes desta semana foram a efusividade e boa figura da Presidente da Croácia a apoiar a selecção finalista do Campeonato Mundial de Futebol na Rússia e a cimeira da NATO em Bruxelas. À primeira vista os assuntos nada têm que ver, mas para mim sim. Em 2012/13 eu editava uma revista de relações internacionais que fundei, a  Think South Asia magazine , que saía em versão digital e também circulava em formato impresso nos meandros políticos e diplomáticos de Bruxelas. Nesses anos, em visitas que fiz à NATO, tive o privilégio de conhecer e entrevistar a senhora embaixadora Kolinda Grabar-Kitarović que na altura era a “NATO Assistant Secretary General for Public Diplomacy” até se tornar a Presidente da Croácia em 2015, função que brilhantemente tem desempenhado até hoje. Antes disso já tinha sido Embaixadora da ...

a fama chinesa

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(originalmente publicado no Jacaré )   O que significa ser-se famoso num país tão grande e populoso como a China? A palavra chinesa para famoso é 有名 (yǒu+míng), ou seja, aquele que tem 有 nome 名. Num mundo nivelado e cheio de tanta gente anónima, onde a economia da atenção vale quase tudo, ser famoso na China consiste num princípio de identidade que é, tão simplesmente, "ter nome".