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domingo, 21 de novembro de 2010

personagens do Fado (II) - o Homem do Saldanha



O Homem do Saldanha morreu no dia 10 deste mês. Também conhecido por "o Senhor do Adeus", ele dedicava o tempo a cumprimentar desconhecidos, com acenos e sorrisos. Era um verdadeiro ex libris da cidade de Lisboa, levando a alegria ao Restelo de dia e à praça do Saldanha de noite.

A simpatia do Homem do Saldanha quebrava o gelo e obrigava-nos a sair do conforto do anonimato, desta indiferença social que a cidade teima em nos impor. Diz a gente que este senhor cumprimentava os desconhecidos porque se sentia só. Podemos julgar que a sua postura no dia-a-dia era fora do normal, mas isso não quer dizer que ele não tivesse toda a razão em encarar a vida assim. Penso até que tinha. E parecia ser, acima de tudo, um homem genuíno e bondoso.

O destino, o amor impossível de uma mulher, a solidão e a saudade, o adeus, o carinho tardio da sua cidade - depois da morte - são alguns dos ingredientes que fazem desta história um fado. A vida deste senhor inspirou então esta interpretação em dueto de Carlos do Carmo e Marco Rodrigues, e com letra de Boss AC, que podemos ouvir neste vídeo.


A morte do Homem do Saldanha teve um importante impacto nas pessoas, e os meios de comunicação aperceberam-se rapidamente disso, dando toda a visibilidade mediática à sua história, espremendo-a até à exaustão. E isto lembra-nos que, entre a confusão mediática e os problemas do dia-a-dia, o que as pessoas querem desde sempre e em qualquer idade das suas vidas é ouvir boas histórias. Esta história, para além de rica, era real e era fadista. Também as empresas e os políticos, quando comunicam, devem ter isto em conta: as pessoas querem ouvir boas histórias. Por boas histórias entenda-se que terão de ser credíveis (nunca mentir), reais, mas com uma narrativa cuidada e interessante.

O Homem do Saldanha chamava-se João Manuel Serra. Morreu aos 79 anos. Que descanse em paz e que Deus o acolha no Céu, onde sabemos que a solidão não existe mais. Porque para quem acredita, a sua história ainda não acabou.

(escrito a partir deste primeiro post publicado no Parar Para Pensar, com alguns cortes e adições)

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