Mostrar mensagens com a etiqueta Observador. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Observador. Mostrar todas as mensagens

quinta-feira, 23 de dezembro de 2021

a importância de identificar o inimigo

 (publicado originalmente no Observador)



Os nomes das guerras costumam remeter para o sítio onde se combate, e aqueles que participam na guerra costumavam ser aqueles que estão no terreno e lutam nos campos de batalha. No entanto, tem havido guerras com outros tipos de nomes. Em 1945 George Orwell cunhou o nome “guerra fria” para descrever o tipo de relação que os EUA teriam com os países vizinhos por serem o único país com a bomba atómica. Como sabemos, a URSS e outros Estados rapidamente ganharam a sua capacidade nuclear e o mundo evoluiu para uma situação de tensão entre dois blocos concorrentes que recebeu precisamente esse nome – Guerra Fria – até à queda do Muro de Berlim e consequente esboroar do bloco soviético. Também o Presidente Lyndon Johnson chamou em 1964 às suas políticas públicas de “Guerra contra a Pobreza” (War on Poverty), George W. Bush declarou a “Guerra contra o Terrorismo” (Global War on Terrorism) em 2001 e, mais recentemente, temos ouvido vários líderes políticos a falar duma “Guerra contra a Pandemia”.

O problema destas denominações é que o inimigo se torna invisível, difuso, desfocado, múltiplo. Não se sabe bem quem é, ou sequer se é. Não é um inimigo palpável e com rosto. A alternativa não é arranjar um inimigo qualquer para dar sentido à nossa guerra, nem devemos atirar ao lado como alguém que diz que é preciso matar o homem branco, ou outros ainda para quem o grande problema são os ciganos. Esses bodes expiatórios servem para guerras que não são as nossas e, uma vez derrotados, o nosso problema persiste. Foi com simples distracções que nos entretivemos e, entretanto, não só perdemos tempo como eventualmente sacrificámos a paz de inocentes.

Muitas vezes, o politicamente correcto é simplesmente o correcto. Outras vezes, o politicamente correcto limita-nos a capacidade de identificar certeiramente aquilo e aqueles que combatemos. Voltemos a um problema nacional. A guerra no Afeganistão, também nossa porque envolveu 4500 militares portugueses — dois mortos em serviço — no âmbito da NATO, fez parte da Guerra contra o Terrorismo declarada pelos EUA cinco dias depois de sofrer os ataques de 11 de Setembro de 2001. Os atentados de 2001 e dos anos próximos tiveram um autor, a Al-Qaeda, e uma ideologia: o radicalismo islamista.

É claro que seria injusto culpar todo o Islão por causa duma franja minoritária e oportunista que apoia o terrorismo contra o Ocidente e o seu modo de vida. A maioria dos muçulmanos são tão pacíficos e normais como nós. No entanto, não podemos ignorar que os terroristas da Al-Qaeda, do ISIS, do Hezbollah e outros agem invocando motivos religiosos. Aqui, por complexos compreensíveis relacionados com o politicamente correcto, houve um esforço concertado para não relacionar aquela religião e os seus crentes com as ideias de radicalismo, terrorismo e violência. A meu ver, fizemos mal. Seria do nosso interesse e do interesse da maioria dos muçulmanos que tivéssemos juntado esforços para sinalizar os grupos, os líderes políticos e religiosos, as mesquitas e madraças que albergam as seitas ditas islâmicas mas que distorcem o Islão e instrumentalizam a fé dos homens e o nome de Deus para semear a violência e cometer crimes contra a humanidade.

Para além do mau nome que estes radicais dão ao Islão, a maior quantidade de mortos vítimas de atentados terroristas são… muçulmanos. Em vez de identificarmos o inimigo do terrorismo islamista e de o combatermos, cedemos primeiro ao politicamente correcto e depois cedemos também ao medo – sobretudo após os ataques a embaixadas dinamarquesas em 2005/6 por causa de caricaturas no Jyllands-Posten e o massacre do Charlie Hebdo em 2015.

Quando não identificamos o inimigo numa guerra, ele ganha uma vantagem desnecessária. Em sociedades democráticas como as nossas, os líderes têm contas a prestar para se manterem no poder e para continuarem a actuar. Quando a guerra é contra um inimigo vago e sem cara, quando após 20 anos já não sabemos o que fazemos numas montanhas longínquas e porque é que isso é tão importante para a nossa segurança e modo de vida, então a retirada é fatal e o sabor da derrota é amargo. Como já não compreendemos aquela guerra, ela torna-se aparentemente inútil e cara.

Queremos crer que os talibãs de hoje são melhores, mais moderados e humanistas que os de há 20 anos – mas as imagens e relatos mostram-nos o contrário. A Al-Qaeda continua, a Bin Laden sucedeu Al-Zawahiri e surgiu também um ISIS que semeia o terror até em Moçambique. Podemos pensar que ao sairmos do Afeganistão a guerra acabou, no entanto, o radicalismo islamista persiste como inimigo violento, perigoso e próximo. Devemos seguir a nossa vida sem a mudar, mas, se formos confrontados novamente com este inimigo, só ganhamos em identificá-lo melhor.

mais revolução, não!

 (publicado originalmente no Observador e também no Ingovernáveis)

Cuba Libre

Separados, gosto de um bom rum e por vezes também da Coca-Cola com gelo e limão. Vê-los juntos num Cuba Libre, nem tanto. A meu ver, reduz-se o que há de melhor num e noutro: perde-se a consistência suave do rum e tapam-se os seus aromas mais finos com os grosseiros duma cola que, entretanto, perdeu o seu gás e frescura. Mas quando oiço alguém a dar vivas a “la Revolución!”, o meu primeiro impulso é pedir um Cuba Libre. Tudo é melhor que a revolução, até essa mistura. É verdade que o Cuba Libre é mais antigo que Fidel e remonta ao fim da Guerra Hispano-Americana que em 1898 – ano traumático para Espanha – resultou na perda espanhola não só de Cuba como de Porto Rico e das Filipinas, além de outros territórios menores. Mas por causa da revolução de Fidel sessenta anos depois, a família Bacardi mudou o negócio para o estrangeiro e a empresa Havana Club foi nacionalizada, estando a Coca-Cola e a Pepsi proibidas em Cuba. Por causa do embargo, também os norte-americanos estiveram durante décadas privados dos runs cubanos. Embora a Cuba Libre – a bebida – não seja para mim uma perda importante, é sempre lamentável uma limitação das possibilidades de escolha. Eu não aprecio, mas há quem goste; que lhes faça bom proveito!

 

Dois discursos

No passado 25 de Abril o Presidente Marcelo Rebelo de Sousa fez o tradicional discurso na Assembleia da República. Não lhe prestei logo atenção, mas ouvi boas críticas nos dias seguintes. Umas semanas depois ouvi um outro discurso com mais atenção, um discurso que me fez voltar ao de Marcelo e valorizá-lo. No dia 13 de Maio celebravam-se os 700 anos da fundação da Cidade do México. O presidente mexicano Andrés Manuel López Obrador convidou a ex-presidente brasileira Dilma Rousseff e fez um discurso que narrou de modo marxista a História do México. Desvalorizou a crueldade azteca mas valorizou a brutalidade espanhola, em que índios e pobres foram escravizados e explorados pelos brancos, espanhóis, norte-americanos, nobres, burgueses, capitalistas, conservadores e liberais. Para López Obrador, a independência do México fez-se a pensar nos mais pobres e humilhados, e a Revolução Mexicana de 1911 (sem referência aos Cristeros) foi para ele “um acto de justiça e a primeira revolução social do mundo”. Depois, recorda comovido os anos 1935-1983 como dourados, onde, mesmo que houvesse pobreza, pelo menos havia sonhos; e aponta como negro o período neoliberal e pessimista pós-1983, do qual ele resgatou o México em 2018 para um novo período de ânimo e esperança.

Este discurso não podia contrastar mais com o de Marcelo. Onde López Obrador promove divisões naquela velha lógica da luta de classes, Marcelo é alguém que procurou a inclusão e compreensão das várias facções que estiveram em confronto na nossa História recente, dando a cada uma razões de ser. A História não é tão simples como uma luta entre heróis e vilões, entre os certos e os errados; pelo contrário, a História é muitas vezes complexa e as pessoas que estiveram dum lado e do outro tiveram bons argumentos para terem estado onde estiveram ou ainda estão. É por isto que o discurso de Marcelo foi extraordinário: deu finalmente sentido à história de cada português, sem excluir ninguém. Portugal há só um, mas não há apenas uma forma de se ser português. Ou nas suas palavras, “Houve, há e haverá sempre um só Portugal. Um Portugal que amamos e nos orgulhamos para além dos seus claros e escuros também porque é nosso.”

O marxismo de López Obrador, mesmo que mais simbólico e no plano cultural que Gramsci idealizou, não deixa de ser revolucionário e faz a luta na mente das pessoas que não deixam de ser postas em confronto, umas contra as outras. A mentalidade passa a ser de luta, a tal luta de classes entre explorados e exploradores. Foi assim na Revolução Sexual dos anos 60, ou no Maio de 68 em França, ou até nos dez anos de Revolução Cultural Chinesa (1966-76) que sob o slogan “aprender a revolução fazendo a revolução” destruiu não só os símbolos da tradição mas purgou, torturou e matou multidões.

 

Lembrando Roger Scruton

Era precisamente durante aquele Maio de 68 que estava em Paris o jovem Roger Scruton (1944-2020), filósofo inglês que partiu no início do ano passado e um dos expoentes do pensamento político e estético no último século. Em “Como ser um Conservador” (Guerra e Paz, 2018), Scruton explica como o choque desta revolução cultural o leva a questionar as coisas que queria conservar e que os revolucionários não valorizavam na sua política de terra queimada: “O Maio de 68 levou-me a compreender o que valorizo nos costumes, nas instituições e na cultura da Europa. (…) Para meu espanto, os soixante-huitards estavam ocupados a reciclar a velha promessa marxista de uma liberdade radical, que chegará quando a propriedade privada e o Estado de direito «burguês» forem abolidos. (…) A liberdade real, mas relativa, tem de ser destruída em nome da sua sombra ilusória, mas absoluta. (…) A lei, a ordem, a ciência e a verdade são meras máscaras da dominação burguesa, já não interessa o que se pensa, desde que se esteja do lado dos trabalhadores na «luta»” (págs. 19-20).

 

A revolução mais completa

Sem sairmos do sítio, podemos recuar à mãe de todas as revoluções: aquela que começou em 1789 e chamamos de “Revolução Francesa”. Mas terá começado realmente em 1789? De facto, a fortaleza da Bastilha foi tomada a 14 de Julho desse ano, mas o caldo cultural já existia, tanto por causa das ideias iluministas como por culpa dum generalizado imobilismo do regime de Versailles e consequente desfasamento da realidade social e económica em França. O último príncipe de Lampedusa quase teve razão ao escrever no seu “Il Gattopardo” que “tudo tem de mudar para que tudo fique na mesma”. Talvez não tudo, mas alguma coisa, aquilo que for preciso, aos poucos e sem viragens bruscas mas sempre recusando o imobilismo. Porque como notava Edmund Burke (1729-1797), um Estado sem meios de alguma mudança é um Estado sem meios de conservação. Duma revolução, são culpados os revolucionários como também os imobilistas da situação que, por falta de reformas, tornaram a revolução próximo do inevitável. Não é por acaso que Burke se refere à Revolução Francesa como “a Revolução em França” quando escreve as suas Reflexões. De facto, partindo da análise em 1790, as suas reflexões são válidas para outras revoluções também. Na Introdução à edição da F. C. Gulbenkian (2015) das “Reflexões sobre a Revolução em França” de Edmund Burke, a Sra. Professora Ivone Moreira escreve que “Burke caracteriza a Revolução em França como a primeira revolução intelectual, concebida e desenhada teoricamente e levada a cabo com a arrogância e presunção de quem não nutre qualquer tipo de apreço pelo que gerações anteriores construíram” (págs. 35-36). Três anos antes de Luís XVI ter sido decapitado, já Burke antecipava “que o sofrimento de reis é um repasto delicioso para certo tipo de paladares” (pág. 131) e também a violência e instabilidade que iria haver. 

Como se viu depois, a Revolução Francesa passou por várias fases pelas quais outras revoluções passaram também: uma fase moderada, uma fase radical e de terror, uma fase conservadora e eventualmente reaccionária, e uma fase de síntese – no caso francês, liderada por Napoleão. Estas fases não acontecem necessariamente por esta ordem, nem todas as facções têm de passar pelo controlo do poder, mas todos estes factores estão em jogo em qualquer revolução. Por isso, as revoluções mudam de mãos e de donos com muita facilidade. Independentemente dos valores que cada revolução quer promover ou acaba por promover no regime que se lhe segue, proponho que olhemos por um momento apenas para as consequências gravíssimas de uma revolução. Quem começa uma revolução, nunca sabe como é que ela acaba. E pelo caminho, poderá haver destruição, prisões, mortes, ocupações, fugas para o exílio, crise económica e social, instabilidade política…

 

Reformas em vez da revolução

Há revoluções mais daninhas que outras, sobretudo se olharmos para os resultados. O que é incontroverso é que as revoluções são sempre experiências dolorosas para muitos. Uma reforma, uma mudança no tempo certo, um ajustamento dentro do Estado de Direito, é sempre preferível a uma revolução. Podemos contrastar os excessos do PREC à relativa tranquilidade da transição espanhola para a democracia. Não teria sido preferível que os líderes do Estado Novo tivessem preparado atempadamente, como se fez aqui ao lado, uma transição para a democracia em Portugal? Certamente se teriam poupado muitos problemas que a revolução trouxe, desde as ocupações no Sul à descolonização apressada, ou desde a violência política de rua à grave crise económica. Em Espanha a transição foi um sucesso até 2004, quando chegou à Moncloa o primeiro-ministro José Luís R. Zapatero e começou a mexer na lei da memória histórica, reabrindo desta forma no povo espanhol uma ferida quase sarada. Esse filão continua a ser explorado hoje.

A Batalha de Ponte de Ferreira (1832) opôs liberais e miguelistas,
durou 12 horas, morreram 2 mil pessoas, desfecho sem vencedores.

Nos últimos 200 anos, tivemos em Portugal várias revoluções: a liberal de 1820 que culminou na independência do Brasil e na Guerra Civil de 1832-34, a Revolução Republicana de 1910 precedida do regicídio e que nos encaminhou para La Lys e outras carnificinas da Grande Guerra, a de 28 de Maio de 1926 que abriu caminho ao Estado Novo, e a do 25 de Abril de 1974 que depois se acabou coseu com as linhas de 25 de Novembro de 1975. E mesmo que essas revoluções tenham trazido progressos – e umas foram melhores que outras – fizeram-no a custo de quê? Fez-se, entre outras coisas, de guerra civil que virou irmãos contra irmãos, de perda de territórios, de perseguições à Igreja e às associações, de limitação das liberdades individuais, de ocupações de terras, de pobreza e crises económicas, de racionamento, de recolher obrigatório, de terror… por todas estas coisas passámos enquanto povo. No entanto, vem sempre alguém com a mania que é mais puro, que desta vez é que é, e por isso sugere uma nova revolução – seja ela física ou metafórica. Como as revoluções são o pior que nos pode acontecer e há sempre alguém disposto a oferecer-nos mais uma, a única defesa possível é o regime ter a coragem de se ir antecipando, reformando e adaptando a sua resposta às necessidades da população, sempre preservando o Estado de Direito. Em alternativa, a rigidez do regime e o voluntarismo dos revolucionários tornarão inevitável uma revolução que virá e fará tabula rasa de tudo o que existe: tanto do mau como do bom. Dizia Montesquieu que o governo despótico consiste em, quando se quer fruta, cortar uma árvore e apanhá-la. Esse elemento de barbárie está presente em cada revolução.

 

Por fim, resta-me dizer que as reformas não devem ser feitas a pensar tanto nos revolucionários e nas suas reivindicações, mas sobretudo naqueles que se sentem excluídos da sociedade e nos factores que os levam a, em desespero, ponderar o voto nos extremos. Terá sido a pensar neles que, quem sabe tomando um Cuba Libre, Marcelo escreveu o seu discurso.


a política portuguesa em 2 cartazes

 (publicado originalmente no Observador e também no Ingovernáveis)


Imagine um cartaz

Carlos Moedas é o candidato apoiado por PSD, CDS e outros cinco partidos à Câmara Municipal de Lisboa. Irá enfrentar Fernando Medina, que presidiu à CML nos últimos seis anos e ainda não apresentou candidatura – apenas marcou posição ao dizer que José Sócrates “corrói a nossa vida democrática”. Nas últimas semanas, Moedas apresentou-se aos lisboetas num cartaz que podemos encontrar pela cidade. Aparece sem gravata mas de braços cruzados, deixando cair uma suposta formalidade para, involuntariamente, erguer outra barreira entre ele e nós. A fotografia não é tão boa que justifique que a sua cabeça saia da moldura do cartaz, mas é aceitável e o azul sempre transmite serenidade. O mais importante é aumentar o reconhecimento do candidato, missão cumprida. A mensagem é que não é ideal. “Lisboa pode ser muito mais do que imaginas” diz-nos várias coisas:

  • O candidato quer tratar o eleitor por tu;
  • Ele reconhece que Lisboa até está bem, mas que tem um potencial escondido e desaproveitado;
  • Ele acha que o eleitor tem pouca capacidade de imaginação.

É trágico. Por onde começar? Se o candidato me vem pedir votos sem gravata já torço o nariz e estranho, mais ainda, se me quer tratar por tu, mas, enfim, encolho os ombros e acabo por aceitar que é por ali que vão as modas.

As palavras de imaginação são mágicas em comunicação política. Dizer “imagine isto” é trazer o eleitor imediatamente para dentro do mundo do candidato, um mundo que, por sua causa e por causa das suas soluções, será um mundo melhor. Mais poderoso ainda, é conseguir convidar o eleitor a participar desse sonho, tal como fez Martin Luther King. Porém, mencionar a imaginação para dizer que o eleitor não chega lá sozinho, é queimar este instrumento político e dar um tiro no pé.

Coxo, este cartaz dá a entender que Lisboa até está benzinho, o que não é mentira, mas dá desnecessariamente um ponto ao adversário. O candidato deve ser mais afirmativo e pôr ênfase naquilo que ele fará melhor, no tal potencial que quer explicar que falta cumprir. Estando atento ao percurso de Moedas, posso esperar que ele queira fazer de Lisboa uma cidade melhor para as empresas e para a ciência, mais inovadora, mais smart, mais cosmopolita. Esse seria o seu ponto forte, é essa a visão que lhe pode trazer alguma vantagem sobre Medina.

O cartaz da vergonha

Num outro cartaz, junto à Assembleia da República, o Chega pôs uma grande fotografia a preto e branco da cara de José Sócrates e o hashtag garrafal #Vergonha. É um cartaz populista e perverso – já lá vamos –, mas também muito simples e eficaz. Bastam a palavra carregada de incómodo político e a imagem do pior Primeiro-Ministro da História recente de Portugal para transmitir a mensagem do Chega neste momento cirúrgico do julgamento de Sócrates nos tribunais.

Quis o destino, que a decisão do Tribunal Central de Instrução Criminal sobre o processo da Operação Marquês caísse em plena crise económica e social, com muitas pessoas e empresas a passarem por enormes dificuldades ao saírem da terceira vaga da Covid-19. É sobretudo nestas circunstâncias, que uma sociedade pode cair na tentação de arranjar um bode expiatório para sacrificar e, no seu sofrimento, encontrar uma válvula de escape das tensões que foram enchendo a panela de pressão. André Ventura tem ensaiado esta técnica quando aponta para os ciganos ao falar de criminalidade, ou quando sugere a castração para crimes escabrosos que – lá está – nos pede para imaginar.

Este uso das emoções mais básicas de quem está desiludido com a vida, este acirrar de discurso através da boçalidade, esta confusão propositada entre a política e a justiça e este desrespeito pelo Estado de Direito são os ingredientes elementares do populismo. Quando governava, o também perigoso populista José Sócrates pôs em marcha um plano de domínio completo da nossa sociedade, através da colonização dos media, da Justiça e de toda a máquina do Estado; controlando os freios e contrapesos, o seu poder seria quase absoluto. Mediante provas, Sócrates deve ser julgado e merece tudo aquilo que a Justiça lhe der. O combate político contra Sócrates nunca deveria ser judicial ou condicionando a Justiça, mas isso é o que Sócrates e Ventura querem. Por razões diferentes, ambos estão juntos neste ataque ao Estado de Direito: Ventura quer que a Justiça nos vingue politicamente contra aquele político ou aquela classe de gente; e Sócrates quer mostrar que, mais do que um político preso, foi um preso político.

Andrew Jackson, sétimo presidente dos EUA (1829-37) é uma referência para os populistas, não só por se ter apresentado como homem comum que luta contra a corrupção das elites, mas por, em nome do povo, ter contornado as regras estabelecidas. Em 1832, após uma decisão do Supremo Tribunal sobre assuntos relacionados com os Índios Cherokee, da qual o Presidente não gostou, ele terá desafiado os juízes a aplicar a lei que assinaram, se conseguissem. Conseguimos, nós, imaginar Ventura a fazer o mesmo?

Mais uma achega

Entretanto, um PSD nostálgico pelas últimas autárquicas em Loures anunciou, através do seu secretário-geral, José Silvano, uma candidata à presidência da Câmara Municipal da Amadora. A comentadora de TV Suzana Garcia, assim com Z de Zorro, é mais uma candidata que se destaca por querer uma Justiça justiceira em vez de justa, para além do seu estilo de discurso mais condizente com o Chega. A propósito de algumas posições mais radicais da comentadora matutina, José Silvano afirmou, algo constrangido, como quem se desculpa, que Suzana Garcia é candidata à Câmara Municipal da Amadora e “não se candidata à Assembleia da República para legislar”. Bom esforço, senhor deputado. Esta distinção é importante, obviamente não para validar o temperamento e ideias de Suzana Garcia, mas para eu voltar a Carlos Moedas.

Não gostaria de votar em Carlos Moedas para me representar enquanto deputado nacional ou europeu, precisamente por ele ser de uma linha muito mais euro-entusiasta e federalista europeia do que eu sou. No entanto, isso pouco ou nada conta no cargo autárquico a que concorre. Pelo contrário, reconheço em Moedas uma pessoa séria, competente e educada. Moedas é decente. Medina também. Não votarei em Medina, porque discordo do poder sufocante que deu a uma EMEL que serve mais o orçamento da Câmara do que os Lisboetas ou o seu estacionamento e mobilidade. Discordo, também, da desertificação dos bairros históricos – noutros tempos, estes bairros foram populares! – que em muito se deve à lentíssima resposta de regulação do alojamento local perante o boom do turismo em Lisboa. E fico-me por aqui, pois honra seja feita, também melhorou os passeios e alindou alguns jardins.

Não votarei em Medina, mas estou disposto a ouvir o que Moedas tem a dizer sobre urbanismo, transportes e circulação, cultura, impostos municipais, segurança, turismo. Até agora não lhe ouvi uma ideia concreta, mas a campanha ainda está a aquecer motores e estou atento.

Resumindo, em dois cartazes o que é que temos? Primeiro o que não temos: a esquerda, silente sobre as autárquicas, apenas se afasta q.b. da toxicidade de Sócrates. O cartaz de Moedas e a entrada em falso dos candidatos liberais mostra uma direita civilizada que diz que existe, mas é desajeitada e anda ainda à procura da sua relevância. O cartaz do Chega é um calhau robusto atirado por hooligans contra o Estado de Direito. Em dois cartazes, este é o estado da nossa política.

um mundo sem misericórdia

(publicado originalmente no Observador e também no Ingovernáveis)


 por Alejandro Navas, Professor de Sociologia da Universidad de Navarra

(Nota do tradutor: o processo da lei da eutanásia em Espanha acompanha no tempo e na forma o processo da lei da eutanásia em Portugal. A argumentação de Alejandro Navas é muito pertinente e aplica-se perfeitamente ao nosso caso.)



A propósito de Heinrich Böll e o processo da lei da eutanásia em Espanha

Voltamos a debater a eutanásia, no seguimento da tramitação do correspondente projecto de lei por parte do Governo Espanhol. Os argumentos são conhecidos. Voltou-se a sublinhar que essa práctica contradiz o ethos médico, tal como se formula desde Hipócrates: antes de tudo, não fazer dano. Consequentemente, curar, aliviar e consolar. Há razões de ciência e consciência para nos opormos à pretensão de converter o médico em carniceiro. Se nunca esta praxis se justificou, o recente desenvolvimento da medicina paliativa torna-a ainda mais rejeitável: a suposta “procura social” que invoca o Governo para justificar a lei, expressa no fundo a necessidade de cuidados paliativos. Onde estes se aplicam, ninguém quer a eutanásia.

Com este texto, proponho-me abordar algum aspecto menos presente no debate actual, partindo das palavras do escritor alemão Heinrich Böll.

_________________________

Heinrich Böll e o seu diagnóstico

Nascido em 1917 em Colónia, Heinrich Böll é um dos maiores expoentes da narrativa alemã do pós-guerra. A sua família – pai trabalhador com mulher e oito filhos – arruinou-se durante a grande depressão dos anos vinte e trinta, o que marcou a sua infância e adolescência. A essa experiência inicial sobre a dureza da vida somar-se-iam a Segunda Guerra Mundial e os anos que lhe seguiram: foi soldado e prisioneiro de campo de concentração.

Böll tornou-se porta-voz autorizado das vítimas do desastre: converteu-as em protagonistas da sua obra narrativa e ajudou-as como activista social. Assim encarnou como poucos o tipo de intelectual de esquerda, comprometido com os mais vulneráveis e desfavorecidos. Essa opção pela denúncia crítica plasma-se de modo eminente na sua novela “Retrato de grupo com senhora” (1971), decisiva para conceder-lhe o Prémio Nobel da Literatura em 1972. Antes, já tinha recebido em 1967 o prémio Georg Büchner reconhecendo a sua trajectória.

Com o passar do tempo, foi ampliando o raio do seu activismo, tanto pelo compromisso dos seus temas (energia nuclear, meio ambiente, subdesenvolvimento do terceiro mundo) como pelo âmbito geográfico em que actuou (viajou a países como a Bolívia e o Equador para ajudar no terreno). Não é coincidência que tenha presidido nos anos setenta ao Pen Club International.

A sua obra desfrutou de êxito popular. Da sua novela mais difundida, “A honra perdida de Katharina Blum” (1974), venderam-se três milhões de exemplares. Böll não conta hoje com muitos leitores, nota-se que a sua literatura está muito marcada por um determinado ambiente social e que o mundo mudou muito desde então, mas a sua memória permanece viva através de instituições diversas. Por exemplo, o nome da fundação política vinculada ao partido dos Verdes na Alemanha. A cidade de Colónia criou em 1985 o prémio literário Heinrich Böll e numerosos colégios, ruas e edifícios públicos têm o seu nome.

Böll foi educado no catolicismo, mas o seu talento fustigador e denunciador também se dirigiu contra a Igreja, que abandonou oficialmente nos anos setenta (na Alemanha existe um imposto religioso específico: deixar de pagá-lo implica o abandono expresso da instituição, registado de modo oficial). Essa rejeição não o impediu de ponderar a relevância da fé cristã na sociedade. Em 1957 escrevia: “Prefiro o pior dos mundos cristãos ao melhor mundo pagão. Num mundo cristão há sítio para os que se veriam deslocados em qualquer mundo pagão: aleijados e doentes, velhos e débeis. Aqueles que o mundo pagão considera inúteis e sem valor, encontram no mundo cristão algo mais que espaço físico: experimentam amor. Recomendo aos meus contemporâneos imaginar como seria um mundo sem Cristo”.

 

Demografia, economia e saúde

O cenário demográfico do Ocidente adquire hoje um carácter inédito: os maiores de 65 anos superam em número os menores de 15. Isto nunca tinha ocorrido anteriormente. Trata-se de uma consequência da prosperidade económica e do progresso médico. A mortalidade infantil desapareceu na práctica, a esperança de vida prolonga-se de modo contínuo e derrotámos as chicotadas clássicas da humanidade (fome, peste, cólera). No entanto, a melhora objectiva da nossa saúde pode conviver com uma penetrante sensação de vulnerabilidade: nunca tanta gente se sentiu tão doente e nunca se gastou tanto em saúde. Mas grande parte das patologias que nos afligem estão ligadas a estilos de vida insanos: sobrepeso e obesidade, adições – tabaco, álcool, substâncias de drogo-dependências –, doenças sexualmente transmissíveis, stress, depressão, ansiedade, etc.

O Estado social e de bem-estar compromete-se a garantir a saúde e a cuidar dos seus cidadãos desde o berço até à sepultura. Essa promessa, contida no relatório Beveridge dos anos quarenta, tornou-se insustentável. O gasto médico e farmacêutico cresce sem parar, a saúde converteu-se no primeiro gasto nos orçamentos de Estado. Se a isto somarmos o pagamento das pensões – por não falar dos subsídios de desemprego –, a bancarrota das finanças públicas só se poderá evitar endividando as gerações futuras. Os ocidentais deixam de trabalhar relativamente cedo e têm pela frente uns vinte anos de vida como reformados. Durante grande parte desse tempo vamos desfrutar de umas condições de vida bastante saudáveis, que nos permitirão continuar activos de diferentes maneiras: fazer de avós, viajar, cultivar gostos. Finalmente, ficaremos doentes e é justamente nesse trecho final da vida que daremos lugar a um considerável gasto sanitário. Se a vida se encurtasse apenas alguns anos, a poupança económica seria fabulosa.

 

Brutalidade neopagã e mensagem cristã

Não surpreende que neste inquietante contexto económico e sanitário reapareçam a eutanásia e algumas condutas da antiguidade clássica. Devemos muito à Grécia e a Roma, mas aqueles mundos eram cruéis e sem misericórdia: exposição de recém-nascidos, desprezo pelos débeis – pobres, viúvas, órfãos, anciãos –, escravatura. O cristianismo melhorou a situação dos desfavorecidos, e aí está justamente uma das razões do seu êxito e da sua rápida difusão. Quando se produzia alguma epidemia e os sãos – médicos incluídos – fugiam das cidades, abandonando os infectados à sua sorte, os cristãos cuidavam dos seus doentes e também dos pagãos: não havia limites para o exercício da sua caridade. Esse ethos levou gente como Basílio o Grande a fundar em 369, nos arredores de Cesareia, o primeiro hospital de que se tem notícia histórica: Basileias. Tratava-se duma autêntica cidade, que acolhia tanto doentes como pobres. São Basílio passou à História como um grande teólogo, mas também tinha estudado medicina em Atenas e entregou-se ao cuidado dos mais desprezados, aqueles que o mundo descartava e punha de lado. Ele mesmo recebia em pessoa os leprosos, dando-lhes um beijo de boas vindas e oferecendo-lhes todo o tipo de cuidados. O caso de Basílio não foi, antes pelo contrário, um caso isolado: apenas o trouxe à colação a título de exemplo. Até ao dia de hoje, a caritas é um elemento essencial da mensagem cristã de serviço (diakonia), junto da proclamação da palavra e da liturgia (kerigma e liturgia).

Não é imprescindível invocar uma fé em Jesus Cristo para se defender a vida humana frágil ou terminal. Há uma ética e uma boa práctica médica inspiradas em razões de simples humanidade. Contudo, é ao mesmo tempo claro que a pertença comum à espécie Homo sapiens sapiens não basta para excluir cálculos utilitaristas. O que nos impedirá de eliminar idosos improdutivos ou jovens e crianças com deficiência? A fraternidade humana universal tem sentido se se baseia numa filiação partilhada. A dignidade humana só pode aspirar a um valor absoluto se o Homem é imagem ou reflexo do Absoluto, filho de Deus.

No nosso mundo observam-se tendências contraditórias, paradoxos autênticos. Enquanto soa o alarme do abandono e mortalidade dos idosos às mãos do Covid-19, o Governo tramita por via da urgência – sem debate social – a lei da eutanásia. Estava chamada a ser a primeira lei do Governo Sánchez (como se explica essa pressa?). A pandemia trocou-lhes os planos e parece que o Governo quer recuperar a todo o custo o tempo perdido. O neopaganismo convive com (os últimos?) rastos de cultura cristã numa surpreendente mistura. Queremos ir realmente nessa direcção? Seria bom escutar o conselho de Heinrich Böll e tentar imaginar como acabaria por ser o mundo sem Deus.


Alejandro Navas, Professor de Sociologia da Universidad de Navarra

(traduzido por António Vieira da Cruz)