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terça-feira, 3 de junho de 2025

A esperança em The Great Dictator


    Continua a mexer connosco The Great Dictator, um clássico de Charlie Chaplin estreado em 1940, um ano após o início da Segunda Guerra Mundial. Este fim-de-semana o filme foi projectado no auditório do Teatro Camões com música tocada ao vivo pela Orquestra Sinfónica Portuguesa do Teatro Nacional de São Carlos e conduzida pelo maestro Timothy Brock.

    Já não terá sido fácil um actor ajustar o ritmo dos seus movimentos à música da banda sonora do filme, mesmo se composta por si. Empresa mais difícil é uma grande orquestra acertar a música com o ritmo dos movimentos de Charlot. O maestro e a orquestra transmitiram as emoções certas em cada nota da banda sonora, na alegria da Dança Húngara n.º 5 de Brahms na cena do barbeiro com o cliente, ou no encantamento delicado do Prelúdio de Lohengrin de Wagner, na cena da dança do globo terrestre e na do discurso final.

    Como acontece em outros filmes, Charlie Chaplin fez quase tudo: produziu, realizou, actuou e, à excepção das mencionadas obras de Brahms e Wagner, compôs com Meredith Wilson a banda sonora. A história começa na Primeira Guerra Mundial, onde Charlie Chaplin representa um barbeiro alemão e judeu, que se fez herói ao combater pelo seu país e ao salvar a vida de Schultz, um comandante piloto que se torna importante no novo regime. Charlie Chaplin interpreta este barbeiro judeu do gueto e também o ditador antissemita em ascensão, fisicamente confundível com o barbeiro. Na narrativa, Adolf Hitler é chamado de Adenoid Hynkel, Goebbels de Garbitsch, Göring de Herring, Benito Mussolini de Benzino Napaloni, a Alemanha de Tomainia, a Itália de Bacteria e a Áustria de Osterlich. São evidentes as parecenças, mas este uso de nomes imaginários ajuda-nos mais facilmente a encontrar hoje outras ligações para cada personagem e acontecimentos.

    Após um terrível discurso do ditador às massas, Hynkel pergunta a Garbitsch o que achou do discurso. Ele responde que foi muito bom, embora a referência aos judeus pudesse ter sido mais violenta. Com frieza e o olhar vazio, o Ministro da Propaganda acrescenta que a violência contra os judeus seria útil para excitar a ira das pessoas de forma a esquecerem a sua própria fome. Aqui está, o fenómeno do bode expiatório bem explicado em tão breves palavras!

    Nos momentos do filme em que o barbeiro interpretado por Chaplin está mais abatido e desanimado, o tema musical é “Zigeuner”, que em alemão significa “cigano”. Ele mesmo com família cigana, Charlie Chaplin identifica-se com a perseguição dos judeus naqueles anos 30 e 40. Sem ainda conhecer todos os horrores do nazismo, este corajoso retrato do Grande Ditador é certeiro na denúncia do pensamento político que irá gerar mais anos de guerra total, toda a sua destruição, os vários milhões de mortos, o genocídio dos judeus entre nós chamado de Holocausto e o genocídio menos conhecido dos ciganos, o Porajmos.

    Em tão desolador contexto, este é um filme de esperança. Prova disso é outro tema musical de superior beleza intitulado “Hope Springs Eternal”. A obra tem vários momentos de ternura, mostra o humor físico de Charlot, reflecte sobre a ambição humana e a graça do absurdo, e tem as situações de injustiça e crueldade que são autênticos murros no nosso estômago. Existe um ténue fio condutor: o amor frágil e belo entre Hannah e o Barbeiro. No entanto, todas estas cenas vão somando uma tensão crescente que só podia pontificar no grande discurso final do Barbeiro. O Barbeiro toma acidentalmente o lugar do Ditador e mostra que a democracia nos oferece sempre a hipótese de uma alternativa: ainda podemos ser livres, humanos e decentes.

sexta-feira, 24 de março de 2023

The Forgotten Conservatism: Why Chega is Not Right

(originalmente publicado na revista The European Conservative)

William Graham Sumner (1840-1910)


“Chega!” is the Portuguese phrase for “Enough!” Does such an interjection sound conservative to you? Neither to me. However, the new Portuguese party named “Chega!” claims to be conservative. Founded in 2019 by André Ventura, Chega won 7% of the votes in the last legislative elections and became the third largest party in Parliament. Since then, the international media have taken for granted that Chega is a conservative party. I would like to dispute that idea and make a broader reflection about the conservative brand.

I am writing this article in rural Portugal, in a town where the Chega party currently is leading the opposition against the Socialist party. Many of the rural people whom I know voted for Chega, and some of them are my friends. Hillary Clinton was terribly wrong in thinking that such a group of supporters were deplorable—in fact, all parties have good people within their supporters. Like many of Donald Trump’s voters in the U.S., the common denominator of Chega voters is that at some point they were somehow mistreated by fortune and are now fed up with the system. Chega is right in identifying the problems of the person that works and pays too many taxes. We may find echoes of this in the thoughts of William Graham Sumner, on the ‘Forgotten Man’:

As soon as A observes something which seems to him to be wrong, from which X is suffering, A talks it over with B, and A and B then propose to get a law passed to remedy the evil and help X. Their law always proposes to determine what C shall do for X or, in the better case, what A, B and C shall do for X. As for A and B, who get a law to make themselves do for X what they are willing to do for him, we have nothing to say except that they might better have done it without any law, ‘but what I want to do is to look up C. I want to show you what manner of man he is. I call him the Forgotten Man … He works, he votes, generally he prays – but he always pays – yes, above all, he pays … All the burdens fall on him, or on her, for it is time to remember that the Forgotten Man is not seldom a woman.

Some years later, while pushing for the New Deal, President F.D. Roosevelt gave another meaning to the Forgotten Man. For him, the Forgotten Man was not man C but man X, as we can read from Amity Shlaes’ insightful book on the Great Depression. However, the original idea of a Forgotten Man is the conservative disposition to relieve the tax burden on those who work and pay without seeing the benefits of it. 

Chega’s conservatism—if there is any—stops there. Chega is really no more than an anti-system protest party that speaks to the Forgotten Man but misrepresents him. For instance, many Portuguese farmers support Chega. The scheme of incentives and protections within the EU is such that farmers are encouraged to grow what the EU determines through the Common Agricultural Policy. It is not unusual to hear that our farmers don’t grow vegetables or breed animals, they just cultivate subsidies. Many products are not economically viable to produce—think of Portuguese organic blueberries—but the EU subsidizes them because some technocrats think they are good for our diet and health. Whether or not the market demands organic blueberries is just an insignificant detail. Who pays? The Forgotten Man, of course. We could have been inspired by the New Zealand agricultural policy that removed subsidies in the 1980’s and helped its farmers to prosper, exporting goods and producing what the markets really demand. Instead, Chega and the other mainstream parties just ask the Government and the EU for incentives and support to Portuguese farmers—meaning more subsidies.

Trump and Ventura identified the Forgotten Man in Appalachia and in Alentejo, in Detroit and in Barreiro. But then, Ventura introduced an element of conflict and turned person C against persons A, B, and X. The old communist class conflicts of workers against the capitalists are replaced by new class conflicts, using the terms of classical Marxist method and identity politics, but with different actors: the taxpayer against the gypsies, the common citizen against corrupt politicians, the good persons against parasites and paedophiles. Ventura likes to surf those divisions, shocking the public and playing with the media just like Trump did. He insists on scapegoating gypsies, politicians, and the media for all the corruption that soaks the money of the “people of good.” Ventura wants to create the Fourth Portuguese Republic, where the president would have more powers.

Regarding Christian values, Ventura also doesn’t convince. Chega voted against euthanasia, but Ventura is satisfied with the current liberal abortion law in Portugal—he says he would not change it. Ventura also supports gay marriage. But he likes to call journalists to photograph him in church, praying on his knees. He is open to the death penalty. He is for lower taxes but at the same time he is for higher wages for policemen, doctors, nurses, and other public servants. In other words, his proposals would result in less revenue with more expenditure. The only way to finance such delirium is by raising public debt and overcharging another Forgotten Man: the generations to come. Do you sense any fiscal conservatism here? Me neither.

In Portugal, the common adversary for the Right is the Socialist Party hegemony. Against the Socialists, there is no formal conservative alliance, but something much weaker than that. It is merely an implicit coalition of non-socialist parties. In fact, there are no conservative parties in the Portuguese parliament. Portuguese conservatives look to the right benches of their parliament and can only find a set of contradictions: a popular-democratic party that identifies itself as social-democratic (PSD); a liberal-libertarian party (IL); and a populist protest party (Chega). Yes, Chega is right-wing, but of a non-conservative type.

Brexit is a good example of how different sensibilities on the Right could act separated and still add value to the same objective. There was no need for a unified campaign. Dominic Cummings’s choice to distance his Vote Leave campaign from the Leave.EU campaign was proven right. That way, each campaign spoke to their public without harming their message with toxic associations. Separated, they added votes and won. Likewise, some decades before, William F. Buckley Jr. promoted a variety of conservative tendencies at The National Review magazine, but saw the advantage of defining some boundaries, in order to distance the conservative brand from the style and content of—for example—Ayn Rand or the John Birch Society. The same lesson applies to Portugal, where the largest party in opposition, PSD, should consider distancing itself from Chega. Polls suggest that there is a will to change and to vote for an alternative to the disastrous socialist government. But to become a stronger alternative to the socialists, PSD needs to make a leap of courage and categorically refuse any alliance with Chega.

But the bottom line is that we need a real conservative party in Portugal. There is none right now. We need an alternative that embraces the conservative disposition of Michael Oakeshott; protects the little platoons of society of Edmund Burke, Robert Nisbet, and Richard John Neuhaus; preserves the landscape for future generations as it was idealized by Roger Scruton or Gonçalo Ribeiro Telles; cares for the traditions and respects the human ecology proposed by Pope Benedict XVI; promotes sound economic policies like the ones of Alexander Hamilton, Calvin Coolidge, Ronald Reagan, or Margaret Thatcher. We need to cherish the value of life, family, property, nation-state, religion, neighbourhood, free association, fairness, charity, and work. And above all, as Sumner puts it, “the Forgotten Man would no longer be forgotten where there was true liberty.” No less than values, conservatives should not underestimate the importance of a democratic framework that respects checks and balances and the rule of law. These are the dearest things we must always conserve.

quarta-feira, 4 de janeiro de 2023

Obrigado, Ciganos!

(também publicado no Ingovernáveis)


“Então vais escrever um artigo a defender os ciganos? Não te metas nisso!” Pessoas próximas avisam-me, mesmo sabendo que um aviso destes costuma ser incentivo para eu avançar. Mostrei a alguém só este título, de resposta recebi uma exclamação: “que exagero!”. Avanço com ainda mais motivação, mas aviso desde já que o texto não vai ser curto. Dado o assunto em causa, sou apenas forçado a fazer um pequeno preâmbulo, e aproveito esta publicação para não ter de o fazer mais vezes. Preâmbulo: a lei é igual para todos, todos somos iguais diante da lei e a lei deve ser aplicada indiscriminadamente. “Ah, mas há problemas na comunidade cigana” – certo, mas há problemas em todas as comunidades, incluindo Portugal enquanto comunidade. Quem já estudou ou trabalhou na Europa Central e do Norte sabe como podem ser vistos os portugueses – e por vezes basta apenas lá passar de visita. Não é só o então presidente do Eurogrupo Dijsselbloem a dizer que os portugueses gastam o dinheiro em bebidas e mulheres, qualquer português sabe o que é ser agrupado num grupo de “PIGS”, ser entendido como porteiro ou pedreiro em França, ou ouvir de um nórdico que a gente do Sul é subsídio-dependente, preguiçosa e cheira a alho. Mesmo que os nossos governantes tenham mostrado incompetência crónica a gerir a nossa dívida pública, devemos nós aceitar calados este tipo de generalizações? “Ah, mas já viste os ciganos à porta do hospital? E já os viste em grandes grupos diante do tribunal?” – sim, já vi. E então, é proibido? “Mas sabes como eles são violentos, e não obedecem às leis, e vão de Mercedes buscar os subsídios, e tudo fazem impunes…” – não creio que assim seja, conheço muitas situações que mostram o contrário, mas em todo o caso repito que a lei é igual para todos, todos somos iguais diante da lei e a lei deve ser aplicada indiscriminadamente. “Pois, também há excepções, por acaso até conheço um cigano que é impecável, mas a comunidade…” – e quantos ciganos conheces? “Hummm… er… um.”  Todos temos iguais direitos e iguais deveres. Todos temos a mesma dignidade humana. Não conheço um cigano que defenda o contrário. No entanto, entristece-me dizer que conheço várias outras pessoas que sim. Essas pessoas não são apenas os militantes e simpatizantes de novas agremiações políticas, e tenho amigos que são. São muitas outras pessoas. Quem nunca reparou em sapos de barro numa montra de loja ou à porta dum café? Muitas pessoas sentem-se condicionadas por uma mitificação dos ciganos. No meu caso, normalmente só me tenta condicionar quem dos ciganos não gosta ou desconfia. Este pequeno preâmbulo parece-me elementar, mas é necessário fazê-lo. Continuemos.

É notório que o Presidente Marcelo Rebelo de Sousa (MRS) tem acusado algum cansaço na fase mais recente do seu mandato. Ninguém consegue estar imune a gaffes quando fala tanto e tantas vezes de improviso. Porém, neste último 1º de Dezembro, MRS voltou a ter uma intervenção relevante e de superior qualidade onde prestou homenagem aos heróis ciganos que tombaram por Portugal e contribuíram para a Restauração da nossa independência.

Nesta mensagem, MRS começa por evocar os 40 conjurados que conhecemos e todos aqueles que “aquém e além-mar” lutaram na recuperação da independência de Portugal. Esta não foi apenas uma vitória dos notáveis conjurados e do Rei D. João IV que os liderou, tratou-se também dum feito dos outros “muitos [que] se implicaram” e do “Povo Português”. Entre os muitos que souberam ser os bastantes, MRS destaca o cavaleiro fidalgo Jerónimo da Costa e 250 outros ciganos que combateram por Portugal. Lembramos o esforço hercúleo dos heróis da Restauração: após 60 anos de domínio filipino, a recuperação da independência foi iniciada a 1 de Dezembro de 1640 e defendida em vários campos de batalha ao longo de 27 anos, culminando com a paz do Tratado de Lisboa em 1668. Neste tratado, Espanha reconhece a Restauração da Independência de Portugal e devolve todos os prisioneiros e conquistas (Olivença incluída), com duas excepções: a aldeia raiana de Ermesende e a cidade de Ceuta, esta última que decidiu manter-se na coroa espanhola apesar de conservar até hoje no seu brasão as armas do nosso país. 

Os ciganos portugueses fizeram parte de todo este esforço, também a eles devemos a nossa independência. Em 1646, o procurador da coroa Thomé Pinheiro da Veiga escreve a D. João IV atestando que Jerónimo da Costa “serviu a V. Majestade três anos contínuos nas fronteiras do Alentejo, com suas armas, e cavalo, tudo à sua custa, sem levar soldo algum, franca, e fidalgamente: e relata-se mais em nome de V. Majestade, o valor e esforço [(…)d]as suas proezas, até que na Batalha do Campo de Montijo foi morto com muitas feridas, pelejando sempre mui esforçadamente. (…) Serviu valerosamente no Campo, até deixar a vida, aonde tantos infamemente fugiram, à vista dos que esforçadamente morreram, ou pelejaram”. Três anos depois, em 1649, D. João IV reconhece em alvará os “mais de duzentos e cinquenta [ciganos] em meu serviço desde o tempo de minha feliz aclamação alistados com zelo e valor, com que já foram muitos apremeados”, no entanto confirma no mesmo documento a sua ordem de prisão e degredo de ciganos para Angola e Cabo Verde e, a quem alugasse casas a ciganos ou os recolhesse, o Rei destina degredo para Castro Marim ou África conforme a gravidade e, no caso de serem fidalgos, a sua expulsão da Corte.

Jerónimo da Costa não é exemplo único e não é apenas isto que devemos aos ciganos. Infelizmente, também as duras leis contra os ciganos não são inéditas na História. Lembremos a Porajmos ou Devoração, o nome dado ao genocídio cigano às mãos dos nazis, com várias centenas de milhares de ciganos fuzilados e gaseados em campos de concentração. Estima-se que morreram 25% a 50% do total de ciganos europeus durante os 10 anos de poder de Hitler. Não posso deixar de ter profunda simpatia por um povo que, como os rohingyas, ou como os judeus até à formação do Estado de Israel, são em cada lugar tratados como estrangeiros. Mas não são, e lembro alguns nomes para mostrar que Portugal e o Mundo devem muito daquilo que têm de melhor à comunidade cigana.

Os ciganos e a sua admirável cultura contribuíram e contribuem muito para a nossa vida. Quem não admira a bela cigana Esmeralda, a única pessoa capaz de tratar Quasimodo com dignidade no romance de Victor Hugo? Quem, ao ler García Lorca, não quer acompanhar Antõnito El Camborio que caminha a pé com uma vara de marmeleiro, em direcção a Sevilha, para ver os toiros? Quem não se impressiona com a valentia do Beato Ceferino Giménez Malla “El Pelé”, catequista e patrono dos ciganos que na Guerra Civil Espanhola protegeu um padre das agressões e morreu fuzilado gritando “Viva Cristo Rey!”? Quem não tem curiosidade sobre a peregrinação dos ciganos a Saintes-Maries-de-la-Mer, na Camarga, com a linda procissão das santas acompanhadas por milhares de pessoas a pé, a cavalo e em barcos? E já que falámos de toiros, Hemingway menciona os ciganos e descreve-os como ninguém, muito direitos e olhando de frente os toiros na arena. E entre nós, lida hoje com muita alegria o talentoso cavaleiro cartaxense Parreirita Cigano. Essa ligação especial dos ciganos com os cavalos vê-se também no campo, nas estradas do Ribatejo e do Alentejo, até em Peaky Blinders, nos circos, nas feiras… e o que seriam os circos e as feiras sem os ciganos? Podemos pensar em flamenco e ouvir o purismo de Camarón de la Isla ou a rouquidão melódica de Diego el Cigala, hipnotizados pelas sevilhanas de vestidos às bolas rodopiando e rodando os folhos enquanto desenham poesias aéreas com os seus braços. Deixando essa arte para quem sabe, quem de nós nunca dançou ao som dos Gipsy Kings e das Azúcar Moreno? Quem nunca vibrou com o desempenho no grande ecrã de Bob Hoskins, Sir Michael Caine ou Sir Charlie Chaplin, todos eles de origem cigana?

Contemplemos por um momento Charlie Chaplin. Dele dizia Pablo Neruda “Carlos Chaplin, el último padre de la ternura en el mundo”. Não se sabe ao certo onde Charlie Chaplin nasceu, mas poderá ter sido num acampamento cigano em Black Patch, Birmingham. Quem viu Peaky Blinders sabe do que se trata. Ser cigano não era um assunto, mas Chaplin deu pistas e escreveu “preferia ser cigano a actor de cinema”. Talvez aí esteja a chave para entendermos Charlot, a sua figura cinematográfica. Em “Charles Chaplin, o Self-Made-Myth”, José-Augusto França diz que “para Charlot, o tipo de vida ideal, aquela que, por assim dizer, admite como oficial a sua vagabundagem, é a do cigano – ausência de obrigações cívicas, alheamento ao progresso mecânico, apartamento de qualquer geografia política, uma vida meio selvagem, vivida na surpresa aventurosa do dia a dia, da curva das estradas que vão ter a um sítio que é sempre outro, e onde a sua manha pode desencantar a subsistência necessária. Se Charlot fosse alguma coisa (é-o frequentemente nos seus filmes – dentista, bombeiro, criado de café, polícia, operário, varredor, caixeiro, desempregado), a essa coisa preferiria ser cigano e a partida em vagabundagem, é a conclusão de muitos filmes em que se apresentara como trabalhador; é sempre a sua conclusão lógica…”. Num outro texto, José-Augusto França vai mais longe e chama Charlot de “(ousarei dizê-lo aqui? – talvez brincando, talvez não…) uma espécie de Zé Povinho universal!”

Por falar em Zé Povinho, é escusado lembrar que somos os campeões europeus de futebol em 2016 com Ricardo Quaresma, e que não o seríamos sem ele. Mas eu não quero ser resultadista, o que seria da magia do futebol sem as trivelas daquele que ficou conhecido como o Harry Potter do futebol? Tenho de referir também a música portuguesa dos Ciganos d’Ouro, de Diego el Gavi e Nininho Vaz Maia, cada um no seu registo, com imensa qualidade e sucesso. Mas se falamos de cultura portuguesa, o fado é incontornável. E que seria do fado sem a mítica Severa? Nascida em 1820 na Madragoa, esta cigana viveu na Mouraria, na Rua do Capelão em tantos fados cantada. Ali, Amália Rodrigues descerrou uma placa que diz “Nesta casa viveu Maria Severa Onofriana / Considerada na época a expressão sublime do Fado / Faleceu em 30-11-1846 com 26 anos de idade / Lisboa 3-6-1989”. Júlio Dantas escreveu “A Severa” em 1901, o primeiro filme sonoro português tem o mesmo nome e foi realizado por Leitão de Barros 30 anos depois, muitos fados e homenagens a referem e, mais recentemente, centenas de milhares de pessoas puderam ver o musical “Severa” de Filipe La Féria. Outro apontamento que nos faz encontrar a forte influência cigana no fado é o belíssimo Fado da Sina cantado por Hermínia Silva no filme “Um Homem do Ribatejo” (1946) e que foi um dos maiores sucessos do seu repertório. Assim, a cultura cigana não são só é portuguesa, como a arte destes ciganos nos ajuda a sermos melhores pessoas e melhores portugueses.

Não devia fazer o que acabo de fazer, que é citar tão por alto tantos nomes maiores, ciganos que marcaram indelevelmente a nossa cultura, em tão poucas linhas. Mas, para efeitos de publicação deste artigo que já vai longo, é necessário tentar meter o Rossio na Betesga. Penso que não é preciso citar mais nomes para provar o meu ponto. São tantos os que conheço que ficam de fora... mas tantos mais são aqueles a quem muito devemos e não sabemos que são ciganos!

Por contacto directo, acho também importante referir o trabalho de campo da Pastoral dos Ciganos, instituição católica preocupada com a promoção e integração social do povo cigano, com total respeito pelos seus valores culturais. É assim que deve ser. Pude ver como agem com amor e eficácia em bairros sociais onde, sem qualquer tipo de dúvida posso afirmar que a raiz de todos os problemas é o mau urbanismo. Vi-o com os meus olhos em dois bairros na periferia de Lisboa, num dos casos era uma pequena e antiga aldeia tradicional que de repente recebeu um grande bairro de prédios sociais para realojar pessoas que viviam onde se fez a Expo 98. As pessoas foram realojadas por zonas: os ciganos na parte Norte, os africanos num lado e os brancos noutro lado. Já viram a insensibilidade social do decisor político? Os males sociais desse bairro estavam bem repartidos por todas as comunidades. Um dia, vi uma mãe cigana sair do autocarro com o filho bebé às costas. Os meninos de outra comunidade, crianças de 7-8 anos que jogavam futebol na rua, pararam a bola e pegaram em pedras. Alguma das pedras acertou no grande manto preto da cigana, mas ela seguiu caminho e nem olhou. Ali, naquele momento, a realidade foi tão crua quanto n’O Senhor das Moscas de William Golding. O problema ali não eram os ciganos. Não eram as outras comunidades. Naquele caso, como em tantos outros, a raiz de todos os problemas é tão somente o mau urbanismo.

Voltando à mensagem do 1º de Dezembro, qual é o alcance das palavras do Presidente? Muito imediatamente, são palavras presidenciais com enorme ressonância mediática durante dias e permanência nos algoritmos dos motores de busca sempre que alguém no nosso país procurar por “ciganos”. E sobretudo, a maior importância destas palavras de MRS está indicada no fim do seu texto: “Este dever de memória é de elementar Justiça e rompe com tanto esquecimento e discriminação de que os ciganos têm, infelizmente, sido alvo no nosso País”. Já o discurso de MRS no 25 de Abril de 2021 tinha sido extraordinário por compreender e integrar as várias facções em confronto na nossa História recente, reconhecendo bons argumentos a uns e a outros. Voltou a ser importantíssima esta intervenção de MRS no 1º de Dezembro de 2022, no seguimento de ter sido o primeiro Presidente a estar presente nas comemorações do Dia Internacional do Povo Cigano, na Maia, em 2018. Espero que MRS consiga limitar os seus momentos de improviso e possa oferecer-nos mais intervenções como estas.

Por estas razões, falou por mim o Presidente quando declarou que “Portugal lembra-os, presta-lhes homenagem e exprime a sua gratidão.” Faço também coro das palavras do Papa Francisco falando aos ciganos durante a sua viagem apostólica à Roménia em 2019: “Em nome da Igreja, peço perdão, ao Senhor e a vocês, por todas as vezes que, ao longo da história os discriminamos, maltratamos ou os consideramos de forma errada, com o olhar de Caim em vez do de Abel, e não fomos capazes de os reconhecer, apreciar e defender na sua peculiaridade”.

Jerónimo da Costa, herói e mártir da Restauração da Independência de Portugal, merece ter o seu nome gravado em bonitas ruas e praças deste Alentejo que defendeu. Por tudo isto e mais ainda: Obrigado, Ciganos!

segunda-feira, 4 de maio de 2009

como morre um bravo

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Ceferino Giménez Malla foi domador de cavalos e cesteiro (fazia cestos artesanalmente), era espanhol, leigo da Ordem Franciscana Secular, e casado com a sua prima direita Teresa Giménez. Com 75 anos de idade, morreu fuzilado em plena guerra civil espanhola, em 1936, por tentar proteger um sacerdote que estava sendo ferozmente espancado por milicianos republicanos – rojos. Dizem os relatos que El Pelé, como era chamado, morreu de rosário na mão gritando: "Viva Cristo Rei!". Este acto de heroísmo é apenas uma amostra da vida santa que El Pelé levou. Por isso, este mártir foi beatificado por João Paulo II faz hoje 12 anos.
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Dedico este pequeno postal biográfico a todos aqueles que dizem que não são racistas, a menos que se fale de ciganos. É que o bravo São Ceferino era cigano com muita honra em sê-lo, procurando sempre todos os pretextos para estabelecer pontes entre as nossas culturas.
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São Ceferino, rogai por nós!
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