(também publicado no Substack)
Quantas vezes já nos aconteceu pegar no telemóvel
para fazer uma tarefa e, distraídos por outras notificações, esquecemo-nos
daquilo que íamos fazer? Passado um pouco, guardamos o telemóvel sem lembrar o
propósito original de o ter ido buscar. O permanente estado de distracção faz
parte do nosso dia-a-dia.
A informação não é um bem escasso: há muita, cada
vez mais, e pode ser detida por muita gente ao mesmo tempo. O que é um bem
escasso – e por isso tem valor económico – é a nossa atenção. E o valor
económico deste bem escasso não corresponde necessariamente ao valor moral que
tem a boa informação. Aliás, a boa informação tende a ocupar um espaço cada vez
mais reduzido da nossa atenção. Este é um dos dramas do nosso tempo: a
tabloidização das notícias compensa, os escândalos dão mais cliques do que os
acordos, o insulto vale mais do que o elogio, e os produtos que consumimos nas
redes geram em nós sentimentos de revolta, de ira e de injustiça.
Mil e uma noites de atenção
Na economia da atenção, as emoções negativas
gritam-nos enquanto as positivas apenas nos sussurram. Não é por acaso que é
nas redes sociais que a polarização mais medra, dando destaque às publicações
mais infames dos partidos mais extremistas. Ter boas maneiras não dá audiências
na economia da atenção. Os modos de Trump e Ventura provocam indisposições a
muitos de nós, mas nem por isso deixamos de estar agarrados a esse tipo de
conteúdos. O algoritmo sabe disso, promovendo os vídeos confrontativos para
manter a nossa atenção e dela tirar dividendos. Gavin Newsom da Califónia e
Isaltino Morais de Oeiras sabem-no também, e as suas respostas à letra têm
imensa audiência. Podemos pensar que Trump e Ventura merecem provar do seu
veneno e talvez tiremos algum prazer do enxovalho que recebem no “Daily Show” e
em “Isto é gozar com quem trabalha”. A sensação é um pouco como a de gostar da
violência nos filmes de Tarantino só porque os alvos são os piores vilões, como
nazis e esclavagistas, que provam na ficção um pouco do sofrimento que
infligiram na realidade. Contudo, continuamos a consumir a violência, o ódio, a
inveja e o ressentimento. As mesmas emoções que ajudaram à ascensão destes
sujeitos são agora usadas contra eles. E precisamos de sair do círculo vicioso.
Se as declarações e as notícias que nos despertam os piores sentimentos são
verdadeiras ou falsas, esse é apenas um pequeno pormenor. Como dizem os
italianos: si no è vero, è ben trovato. O que interessa hoje já não é
tanto a verdade dos factos, mas se a alegação é plausível. Basta apenas isto
para que o boato faça o seu caminho.
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| “Ali Pasha and Kira Vassiliki” (1842), de Paul Emil Jacobs |
O discurso público é uma constante luta pela nossa
atenção. O abuso de “alertas” e de “breaking news” dos canais de notícias
tornou-se tão ridículo que os meus amigos e eu por vezes usamos o sticker
“Alerta CM” para comunicar novidades em grupos de WhatsApp. Semelhante chamada
de atenção acontece num qualquer clube de Lisboa, quando alguém toma a pose de
António Silva n’O Costa do Castelo e anuncia: “Silêncio, que se vai cantar o
fado!” E se somos uma empresa, queremos que a nossa marca e o nosso produto estejam
na memória e nos desejos do consumidor. Se somos um político, queremos aparecer
e ser lembrados para ganhar proximidade e votos. Se somos um professor,
queremos prender a atenção dos nossos alunos para poder ensinar. Quando
falamos, a nossa preocupação é semelhante à da princesa Sherazade nas Mil e Uma
Noites: temos de contar uma história de tal forma interessante que amanhã o
nosso público deseje ouvir-nos de novo. Mas se a história for aborrecida, então
Sherazade morre e nós somos esquecidos. E tanto no marketing como na
comunicação política, o esquecimento é uma forma de morte.
O canto das sereias
Outras vezes, nós não estamos a produzir histórias
mas a consumi-las. Isto é o que nos acontece a maior parte do tempo. E como
consumidores de histórias, a nossa preocupação é outra. Sobre este assunto,
Chris Hayes escreveu “The Siren’s Call” (2025, também disponível em português),
que começa por lembrar o Canto XII da Odisseia onde Circe recomenda a Ulisses
que tenha toda a cautela à passagem pelas sereias que enfeitiçam os homens que
delas se aproximam com o seu canto. Porém, ao redor das sereias amontoam-se as
ossadas de homens que esqueceram o seu propósito na vida. O conselho de Circe é
que Ulisses tape com cera os ouvidos dos homens da sua tripulação, para que
estes nada oiçam. E como Ulisses quis mesmo assim ouvir o canto das sereias,
teve de ser amarrado ao mastro com força para não cair na tentação de por ali
se ficar. O foco da viagem de Ulisses era o regresso a casa, e qualquer
distracção podia pôr em causa a realização do seu objectivo.
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| “Ulysses and the Sirens” (1891), de John William Waterhouse |
Tal como Ulisses resistiu ao canto das sereias,
também nós somos hoje desafiados a resistir a novas formas gritantes de
comunicação, com todo o seu ruído, movimento, côr e desejo. A arquitectura de
cada plataforma condiciona o seu conteúdo. Por exemplo, o Instagram, o
Facebook, o LinkedIn, o X, a Netflix, o UberEats e o Tinder especializaram-se,
cada um, na estimulação dos sete pecados mortais: o orgulho, a inveja, a
ganância, a ira, a preguiça, a gula e a luxúria, respectivamente. E no caso dos
mais jovens, o TikTok combina todos os apetites e vaidades no seu infinito
scroll de estímulos e bizarrias. Esta rede social chinesa é aliás proibida na
China – não nos faz isto lembrar um certo cavalo de madeira deixado de presente
às portas da muralha de Tróia?
Em relação aos conteúdos que consumimos nas redes,
quem conhece O Senhor dos Anéis lembra-se de como se encontrava Théoden, o rei
de Rohan: insensível e distante, com o olhar embaciado, de aspecto curvado,
despenteado, desleixado. Quem o encaminhara para aquele estado lastimoso foi
Gríma Wormtongue, o seu conselheiro maledicente. Falando-lhe ao ouvido, Gríma
ia envenenando o espírito do Rei Théoden contra todos os que o rodeavam,
incluindo a sua família. Fazendo do rei uma marioneta da sua vontade, o poder de
Gríma crescia sobre o reino de Rohan. E quando Théoden agia mal, Gríma validava
a sua conduta quase como se fosse o ChatGPT. Um dia, chegou o bom feiticeiro
Gandalf à presença do rei e fez três coisas para o salvar: afastou-o do mau
conselheiro, lembrou-lhe quem ele era e, por fim, trouxe-o para o ar livre onde
podia olhar para a sua terra e respirar bem fundo. O que Gandalf fez a Théoden
é o mesmo que Tolkien sugere que façamos a nós próprios: deixar de lado aquilo
que nos turva o pensamento, ouvir os amigos, recuperar a liberdade, sair e
voltar a respirar o ar livre. Encarando a realidade, vemos com clareza a
urgência de tomar novas decisões. Noutra narrativa, Harry Potter depara-se com
Dementors, umas criaturas que sugam a felicidade e a alma das pessoas quando
delas se aproximam e, como Judas, podem fazê-lo através dum beijo. O que mais
existe nas redes em que se enreda o tempo da nossa atenção são perfis de
pessoas e de robots assim. Mas se sairmos para o mundo real, podemos recordar o
Génesis, onde “Deus viu que isto era bom”.
Os limites das narrativas
Em entrevista recente, o músico Brian Eno
lembrava-se da infância em que pintava muito com aguarelas. Ao fim de um dia de
pinturas, a água onde lavava os pincéis ficava sempre daquela cor horrível e
sempre igual, uma mistura de roxo e castanho a que chamava de “munge”. Hoje,
por mais que se esforce em dar as instruções certas ao ChatGPT e por mais que a
respostas até sejam interessantes, todo o resultado está coberto de “munge”. É
tão fantástico ver uma máquina produzir aqueles resultados como é ver um cão caminhar
apenas nas suas patas traseiras. Mas para uma pessoa, caminhar assim é pouco. A
inteligência artificial vai buscar a informação a muitas fontes, mas a sua
resposta é excessivamente digerida: uma aguadilha “munge”.
Ainda sobre as narrativas da nossa política, cada
candidato gostaria de encarnar um super-herói em contraste com o vilão do seu
adversário. Além do costumeiro D. Sebastião que sempre esperamos entre as
incertas névoas dos dias, desfilam diante de nós um rol de Velhos do Restelo,
de Generais Sem Medo, de Maiorias Silenciosas, de Magriços e de Viriatos. O
mesmo indivíduo que para uns é um de três Salazares, para outros é um dos
quatro Cavaleiros do Apocalipse. Outra personagem do nosso quotidiano queria que
perdêssemos “a vergonha de ir buscar dinheiro a quem está a acumular” – uma
versão deturpada do imaginário de Robin dos Bosques. E lá fora, vimos na
campanha municipal de Nova Iorque um Andrew Cuomo a falar como o Batman na sua
Gotham. Batman está do lado dos mais frágeis, mas conhece os mais fortes porque
é um deles. O outro candidato era Zhoran Mamdani, demasiado millennial para a
sua condição vantajosa ser um problema, e apresentou-se mais como um Zorro que
compreende as reais ânsias do povo e está ao lado da gente dos bairros
satélites contra os abusos dos oligarcas da Manhattan solar – essa Gotham da
qual Batman faz parte. Mario Cuomo, pai de Andrew e tal como ele um
ex-Governador de Nova Iorque, disse famosamente que as campanhas eleitorais se
fazem em poesia e que depois se governa em prosa. Mamdani venceu as eleições,
mas agora terá de baixar um pouco as expectativas que gerou e mostrar que não
tem superpoderes que se imponham à realidade. É que por melhor que seja a
narrativa, no fim é a realidade que sempre se impõe.
Também os partidos adoptam narrativas para se
posicionarem. Tal como os móveis IKEA, também a social-democracia veio da
Escandinávia e instalou-se um pouco por todas as casas políticas portuguesas,
desde o Largo do Rato à Rua da Palma com passagem pela Lapa. Mas os
posicionamentos enganam: nem o CDS é de centro, nem o Chega é conservador, o
PSD é popular democrático, o PS é que é social-democrata, a esquerda do Bloco pode
ser muita coisa, o Livre e a IL são duas concepções distintas e pouco consensuais
de liberalismo, o PAN e o JPP são nomes sem carga ideológica. Entre os partidos
portugueses, só o Partido Comunista tem um nome claro que corresponde à sua
realidade – porém, só se apresenta a eleições em formato CDU. Em Portugal, os
partidos estão com as âncoras ideológicas levantadas e deixam-se ir por onde a
corrente do momento as leva.
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| “The Duke of Wellington at Waterloo” (1892), de Robert Alexander Hillingford |
As narrativas têm as suas distorções e limites. Se o
regresso de Trump à Casa Branca é como o regresso de Napoleão depois do exílio
na ilha de Elba, então quem será o seu Wellington e quando será o seu Waterloo?
Todas as narrativas têm limites, e por vezes não ajudam à compreensão da
realidade. Ouvi um dos candidatos derrotados às últimas eleições do Benfica
dizer “eu sou como Jesus Cristo: trinta anos no anonimato, agora é até à
morte”. O exagero narrativo é de uma enorme infelicidade.
Como responder à confusão das narrativas
Voltando ao primeiro parágrafo deste artigo, o
telemóvel é um objecto muito útil porque é um canivete suíço da tecnologia. O
canivete não tem a melhor faca, nem tem o melhor saca-rolhas. A vantagem do
canivete é ter várias funções combinadas e serve para nos desenrascar num
momento de aperto, mas se quisermos abrir um vinho velho temos de procurar o
melhor saca-rolhas e usá-lo sem pressa. A solução para este problema é deixar o
telemóvel mais vezes de lado. Se queremos ver as horas, então olhemos para o
relógio de pulso e deixemos o telemóvel no bolso. Se queremos fotografar o
nosso passeio, nada como trazer a máquina fotográfica e deixar o telemóvel. Se
queremos enviar um e-mail não urgente, esperamos por estar diante do
computador. Ver um filme ou uma série? Mais logo, na televisão. Podemos deixar
o canivete e o telemóvel para os improvisos e dar a cada momento do dia um
pouco mais de importância.
E como sobreviver à confusão das narrativas em que
estamos imersos? Na verdade, temos de perceber a história em que estamos
metidos. Encarando sabiamente a sua
cegueira, o escritor Jorge Luis Borges dizia que tal condição lhe permitia
viver os sonhos com menos distracções. De igual modo, lembro uma senhora muito
querida que conheci já velha e cuja esperança não vinha tanto dos livros que
leu, mas da terra que cultivou, da sua família e da fé. Faltando-lhe a visão e
as pernas, não lhe faltou o terço sempre na mão e um bondoso sorriso na cara.
Esta riqueza do mundo interior não se cultiva nas horas diárias que perdemos
diante dos ecrãs. Se queremos chegar a velhos com um tesouro de vida, temos de
dar mais atenção a interesses que nos realizam enquanto pessoas. Temos, por
exemplo, de levar as crianças à floresta para brincar, subir às árvores,
perseguir pistas de animais, descobrir plantas e cogumelos. Temos de ler um bom
livro, e depois outro. Precisamos de voltar à igreja. De rezar. Abrir com
amigos uma boa garrafa de vinho. Ver um bom filme. Visitar museus, ir a
exposições e a concertos. Encarar o vizinho e desejar-lhe um bom dia.
Envolver-nos numa associação. Fazer exercício. Escutar quem nos procura e
procurar quem admiramos. Elevar o olhar quando caminhamos na rua. Abraçar a
mulher, os filhos, os pais e os amigos. Em suma, precisamos de preencher a
nossa liberdade com bons valores.
Para sobreviver à confusão das outras narrativas,
primeiro temos de dar atenção ao que mais importa na nossa história. E não
querendo alongar ainda mais este texto, apenas me resta agradecer muito pela
sua atenção.