quarta-feira, 15 de abril de 2026

Como sobreviver à confusão das narrativas

(também publicado no Substack)

Quantas vezes já nos aconteceu pegar no telemóvel para fazer uma tarefa e, distraídos por outras notificações, esquecemo-nos daquilo que íamos fazer? Passado um pouco, guardamos o telemóvel sem lembrar o propósito original de o ter ido buscar. O permanente estado de distracção faz parte do nosso dia-a-dia.

A informação não é um bem escasso: há muita, cada vez mais, e pode ser detida por muita gente ao mesmo tempo. O que é um bem escasso – e por isso tem valor económico – é a nossa atenção. E o valor económico deste bem escasso não corresponde necessariamente ao valor moral que tem a boa informação. Aliás, a boa informação tende a ocupar um espaço cada vez mais reduzido da nossa atenção. Este é um dos dramas do nosso tempo: a tabloidização das notícias compensa, os escândalos dão mais cliques do que os acordos, o insulto vale mais do que o elogio, e os produtos que consumimos nas redes geram em nós sentimentos de revolta, de ira e de injustiça.

 

Mil e uma noites de atenção

Na economia da atenção, as emoções negativas gritam-nos enquanto as positivas apenas nos sussurram. Não é por acaso que é nas redes sociais que a polarização mais medra, dando destaque às publicações mais infames dos partidos mais extremistas. Ter boas maneiras não dá audiências na economia da atenção. Os modos de Trump e Ventura provocam indisposições a muitos de nós, mas nem por isso deixamos de estar agarrados a esse tipo de conteúdos. O algoritmo sabe disso, promovendo os vídeos confrontativos para manter a nossa atenção e dela tirar dividendos. Gavin Newsom da Califónia e Isaltino Morais de Oeiras sabem-no também, e as suas respostas à letra têm imensa audiência. Podemos pensar que Trump e Ventura merecem provar do seu veneno e talvez tiremos algum prazer do enxovalho que recebem no “Daily Show” e em “Isto é gozar com quem trabalha”. A sensação é um pouco como a de gostar da violência nos filmes de Tarantino só porque os alvos são os piores vilões, como nazis e esclavagistas, que provam na ficção um pouco do sofrimento que infligiram na realidade. Contudo, continuamos a consumir a violência, o ódio, a inveja e o ressentimento. As mesmas emoções que ajudaram à ascensão destes sujeitos são agora usadas contra eles. E precisamos de sair do círculo vicioso. Se as declarações e as notícias que nos despertam os piores sentimentos são verdadeiras ou falsas, esse é apenas um pequeno pormenor. Como dizem os italianos: si no è vero, è ben trovato. O que interessa hoje já não é tanto a verdade dos factos, mas se a alegação é plausível. Basta apenas isto para que o boato faça o seu caminho.

“Ali Pasha and Kira Vassiliki” (1842), de Paul Emil Jacobs

O discurso público é uma constante luta pela nossa atenção. O abuso de “alertas” e de “breaking news” dos canais de notícias tornou-se tão ridículo que os meus amigos e eu por vezes usamos o sticker “Alerta CM” para comunicar novidades em grupos de WhatsApp. Semelhante chamada de atenção acontece num qualquer clube de Lisboa, quando alguém toma a pose de António Silva n’O Costa do Castelo e anuncia: “Silêncio, que se vai cantar o fado!” E se somos uma empresa, queremos que a nossa marca e o nosso produto estejam na memória e nos desejos do consumidor. Se somos um político, queremos aparecer e ser lembrados para ganhar proximidade e votos. Se somos um professor, queremos prender a atenção dos nossos alunos para poder ensinar. Quando falamos, a nossa preocupação é semelhante à da princesa Sherazade nas Mil e Uma Noites: temos de contar uma história de tal forma interessante que amanhã o nosso público deseje ouvir-nos de novo. Mas se a história for aborrecida, então Sherazade morre e nós somos esquecidos. E tanto no marketing como na comunicação política, o esquecimento é uma forma de morte.

 

O canto das sereias

Outras vezes, nós não estamos a produzir histórias mas a consumi-las. Isto é o que nos acontece a maior parte do tempo. E como consumidores de histórias, a nossa preocupação é outra. Sobre este assunto, Chris Hayes escreveu “The Siren’s Call” (2025, também disponível em português), que começa por lembrar o Canto XII da Odisseia onde Circe recomenda a Ulisses que tenha toda a cautela à passagem pelas sereias que enfeitiçam os homens que delas se aproximam com o seu canto. Porém, ao redor das sereias amontoam-se as ossadas de homens que esqueceram o seu propósito na vida. O conselho de Circe é que Ulisses tape com cera os ouvidos dos homens da sua tripulação, para que estes nada oiçam. E como Ulisses quis mesmo assim ouvir o canto das sereias, teve de ser amarrado ao mastro com força para não cair na tentação de por ali se ficar. O foco da viagem de Ulisses era o regresso a casa, e qualquer distracção podia pôr em causa a realização do seu objectivo.

“Ulysses and the Sirens” (1891), de John William Waterhouse

Tal como Ulisses resistiu ao canto das sereias, também nós somos hoje desafiados a resistir a novas formas gritantes de comunicação, com todo o seu ruído, movimento, côr e desejo. A arquitectura de cada plataforma condiciona o seu conteúdo. Por exemplo, o Instagram, o Facebook, o LinkedIn, o X, a Netflix, o UberEats e o Tinder especializaram-se, cada um, na estimulação dos sete pecados mortais: o orgulho, a inveja, a ganância, a ira, a preguiça, a gula e a luxúria, respectivamente. E no caso dos mais jovens, o TikTok combina todos os apetites e vaidades no seu infinito scroll de estímulos e bizarrias. Esta rede social chinesa é aliás proibida na China – não nos faz isto lembrar um certo cavalo de madeira deixado de presente às portas da muralha de Tróia?

Em relação aos conteúdos que consumimos nas redes, quem conhece O Senhor dos Anéis lembra-se de como se encontrava Théoden, o rei de Rohan: insensível e distante, com o olhar embaciado, de aspecto curvado, despenteado, desleixado. Quem o encaminhara para aquele estado lastimoso foi Gríma Wormtongue, o seu conselheiro maledicente. Falando-lhe ao ouvido, Gríma ia envenenando o espírito do Rei Théoden contra todos os que o rodeavam, incluindo a sua família. Fazendo do rei uma marioneta da sua vontade, o poder de Gríma crescia sobre o reino de Rohan. E quando Théoden agia mal, Gríma validava a sua conduta quase como se fosse o ChatGPT. Um dia, chegou o bom feiticeiro Gandalf à presença do rei e fez três coisas para o salvar: afastou-o do mau conselheiro, lembrou-lhe quem ele era e, por fim, trouxe-o para o ar livre onde podia olhar para a sua terra e respirar bem fundo. O que Gandalf fez a Théoden é o mesmo que Tolkien sugere que façamos a nós próprios: deixar de lado aquilo que nos turva o pensamento, ouvir os amigos, recuperar a liberdade, sair e voltar a respirar o ar livre. Encarando a realidade, vemos com clareza a urgência de tomar novas decisões. Noutra narrativa, Harry Potter depara-se com Dementors, umas criaturas que sugam a felicidade e a alma das pessoas quando delas se aproximam e, como Judas, podem fazê-lo através dum beijo. O que mais existe nas redes em que se enreda o tempo da nossa atenção são perfis de pessoas e de robots assim. Mas se sairmos para o mundo real, podemos recordar o Génesis, onde “Deus viu que isto era bom”.

 

Os limites das narrativas

Em entrevista recente, o músico Brian Eno lembrava-se da infância em que pintava muito com aguarelas. Ao fim de um dia de pinturas, a água onde lavava os pincéis ficava sempre daquela cor horrível e sempre igual, uma mistura de roxo e castanho a que chamava de “munge”. Hoje, por mais que se esforce em dar as instruções certas ao ChatGPT e por mais que a respostas até sejam interessantes, todo o resultado está coberto de “munge”. É tão fantástico ver uma máquina produzir aqueles resultados como é ver um cão caminhar apenas nas suas patas traseiras. Mas para uma pessoa, caminhar assim é pouco. A inteligência artificial vai buscar a informação a muitas fontes, mas a sua resposta é excessivamente digerida: uma aguadilha “munge”.

Ainda sobre as narrativas da nossa política, cada candidato gostaria de encarnar um super-herói em contraste com o vilão do seu adversário. Além do costumeiro D. Sebastião que sempre esperamos entre as incertas névoas dos dias, desfilam diante de nós um rol de Velhos do Restelo, de Generais Sem Medo, de Maiorias Silenciosas, de Magriços e de Viriatos. O mesmo indivíduo que para uns é um de três Salazares, para outros é um dos quatro Cavaleiros do Apocalipse. Outra personagem do nosso quotidiano queria que perdêssemos “a vergonha de ir buscar dinheiro a quem está a acumular” – uma versão deturpada do imaginário de Robin dos Bosques. E lá fora, vimos na campanha municipal de Nova Iorque um Andrew Cuomo a falar como o Batman na sua Gotham. Batman está do lado dos mais frágeis, mas conhece os mais fortes porque é um deles. O outro candidato era Zhoran Mamdani, demasiado millennial para a sua condição vantajosa ser um problema, e apresentou-se mais como um Zorro que compreende as reais ânsias do povo e está ao lado da gente dos bairros satélites contra os abusos dos oligarcas da Manhattan solar – essa Gotham da qual Batman faz parte. Mario Cuomo, pai de Andrew e tal como ele um ex-Governador de Nova Iorque, disse famosamente que as campanhas eleitorais se fazem em poesia e que depois se governa em prosa. Mamdani venceu as eleições, mas agora terá de baixar um pouco as expectativas que gerou e mostrar que não tem superpoderes que se imponham à realidade. É que por melhor que seja a narrativa, no fim é a realidade que sempre se impõe.

Também os partidos adoptam narrativas para se posicionarem. Tal como os móveis IKEA, também a social-democracia veio da Escandinávia e instalou-se um pouco por todas as casas políticas portuguesas, desde o Largo do Rato à Rua da Palma com passagem pela Lapa. Mas os posicionamentos enganam: nem o CDS é de centro, nem o Chega é conservador, o PSD é popular democrático, o PS é que é social-democrata, a esquerda do Bloco pode ser muita coisa, o Livre e a IL são duas concepções distintas e pouco consensuais de liberalismo, o PAN e o JPP são nomes sem carga ideológica. Entre os partidos portugueses, só o Partido Comunista tem um nome claro que corresponde à sua realidade – porém, só se apresenta a eleições em formato CDU. Em Portugal, os partidos estão com as âncoras ideológicas levantadas e deixam-se ir por onde a corrente do momento as leva.

“The Duke of Wellington at Waterloo” (1892), de Robert Alexander Hillingford

As narrativas têm as suas distorções e limites. Se o regresso de Trump à Casa Branca é como o regresso de Napoleão depois do exílio na ilha de Elba, então quem será o seu Wellington e quando será o seu Waterloo? Todas as narrativas têm limites, e por vezes não ajudam à compreensão da realidade. Ouvi um dos candidatos derrotados às últimas eleições do Benfica dizer “eu sou como Jesus Cristo: trinta anos no anonimato, agora é até à morte”. O exagero narrativo é de uma enorme infelicidade.

 

Como responder à confusão das narrativas

Voltando ao primeiro parágrafo deste artigo, o telemóvel é um objecto muito útil porque é um canivete suíço da tecnologia. O canivete não tem a melhor faca, nem tem o melhor saca-rolhas. A vantagem do canivete é ter várias funções combinadas e serve para nos desenrascar num momento de aperto, mas se quisermos abrir um vinho velho temos de procurar o melhor saca-rolhas e usá-lo sem pressa. A solução para este problema é deixar o telemóvel mais vezes de lado. Se queremos ver as horas, então olhemos para o relógio de pulso e deixemos o telemóvel no bolso. Se queremos fotografar o nosso passeio, nada como trazer a máquina fotográfica e deixar o telemóvel. Se queremos enviar um e-mail não urgente, esperamos por estar diante do computador. Ver um filme ou uma série? Mais logo, na televisão. Podemos deixar o canivete e o telemóvel para os improvisos e dar a cada momento do dia um pouco mais de importância.

E como sobreviver à confusão das narrativas em que estamos imersos? Na verdade, temos de perceber a história em que estamos metidos.  Encarando sabiamente a sua cegueira, o escritor Jorge Luis Borges dizia que tal condição lhe permitia viver os sonhos com menos distracções. De igual modo, lembro uma senhora muito querida que conheci já velha e cuja esperança não vinha tanto dos livros que leu, mas da terra que cultivou, da sua família e da fé. Faltando-lhe a visão e as pernas, não lhe faltou o terço sempre na mão e um bondoso sorriso na cara. Esta riqueza do mundo interior não se cultiva nas horas diárias que perdemos diante dos ecrãs. Se queremos chegar a velhos com um tesouro de vida, temos de dar mais atenção a interesses que nos realizam enquanto pessoas. Temos, por exemplo, de levar as crianças à floresta para brincar, subir às árvores, perseguir pistas de animais, descobrir plantas e cogumelos. Temos de ler um bom livro, e depois outro. Precisamos de voltar à igreja. De rezar. Abrir com amigos uma boa garrafa de vinho. Ver um bom filme. Visitar museus, ir a exposições e a concertos. Encarar o vizinho e desejar-lhe um bom dia. Envolver-nos numa associação. Fazer exercício. Escutar quem nos procura e procurar quem admiramos. Elevar o olhar quando caminhamos na rua. Abraçar a mulher, os filhos, os pais e os amigos. Em suma, precisamos de preencher a nossa liberdade com bons valores.

Para sobreviver à confusão das outras narrativas, primeiro temos de dar atenção ao que mais importa na nossa história. E não querendo alongar ainda mais este texto, apenas me resta agradecer muito pela sua atenção.

quinta-feira, 12 de fevereiro de 2026

Travelling with tea – part 2

 (também publicado no Substack)

You may read part 1 here.

 

    China: About ten years ago, I started providing trade consultancy to some Chinese companies. For a couple of years, I had to travel frequently to China – and that’s when I got to know the southern part of the country. From the high Himalayan mountains of Yunnan 云南 to the softer Pacific hills of Zhejiang 浙江, I have been to the main tea plantation areas of China. What a shock, so many novelties! The teas I tasted there were completely new to me – nothing like the kind we might find in the tea shops of Lisbon. How is it possible to extract so many different flavours and aromas from the same Camellia sinensis leaves without adding new elements to them? And why were those teas not available in my country before?

Myself in a tea plantation nearby Eshan, in Yunnan.

    Before I proceed, I must say I am not a China scholar. One does not become an expert on a place after spending only a few hundred hours there. For instance, I love my wife’s origins: the city of Viseu and its surrounding villages. I try to learn as much about it as possible so that I may pass on some of those interests and affections to my kids. We spend some time there throughout the year, but am I an expert on Viseu? Come on, I don’t live there! No, I don’t feel like an expert on Viseu — and even less an expert on China. I’ve been to the Middle Kingdom more than a dozen times, and I would simply like to share some of my impressions about this fabulous culture, trying to keep politics aside for now.

 

    Zhejiang 浙江: China has many museums dedicated to tea, but there is only one China National Museum of Tea. This official museum is in the precious tea plantation of Longjing 龙井, a little village in Zhejiang province. Across the famous West Lake of Hangzhou 杭州市, a few miles further, you will find a wonderful light green plain nestled in the middle of dark green mountains and crossed by a small river. The museum has a wealth of information, a good collection of historic tea instruments, a library, nice shops, and a tea house where you may taste the signature specialty of this place: Longjing tea 龙井茶. This is a very delicate green tea with straight loose leaves, looking flat as if they were ironed, and extremely tender after being infused. These tea leaves can be eaten; they form the base of a delicate local dish consisting of prawns cooked with Longjing tea, which adds a slight bitterness and much elegance to the meal. To complete this experience, you may visit the villages of Longjing 龙井 and Mei Jia Wu 梅家坞, the ancient Buddhist statues of the Fei Lai Feng grottos 飞来峰 — which survived the Cultural Revolution thanks to university students and locals who resisted the Red Guards — as well as the beautiful West Lake 西湖 with its impressive pagodas and the imperial city of Hangzhou 杭州市. 

A beautiful tea room in Longjing, with a view to a tea plantation.

    Fujian 福建: Most Chinese tea in Lisbon during the 90s came from this province facing the Taiwan Strait. Like any Chinese province, Fujian is a cosmos of diversity. I can share some thoughts on two of the most well-known tea areas in Fujian: the Wuyi Mountains 武夷山 and Anxi 安溪县. In the north of the province lie the Wuyi Mountains, where fine oolongs are produced alongside two fabulous black teas: the smoky Lapsang Souchong and Da Hong Pao. The latter is very aromatic, with notes reminding me of oak, cocoa, and prunes, and a velvety body if well brewed — it is one of my favourites.

    Like other great discoveries, these teas have curious stories behind them. Da Hong Pao 大红袍 literally means "Great Red Robe," which was allegedly given by the emperor to a man who cured him of his illness with this tea. And the story of Lapsang Souchong 正山小种 goes like this: in a tea-producing village, all the men were rounded up to go to war. As often happens, the conflict lasted longer than expected, and when the farmers finally came home, there was no time to properly dry their tea leaves for the market. They had to improvise, so they gathered pine firewood and dried the leaves in its smoke. The result was a strange new type of tea, but the clients loved it and demanded the "accident" be repeated for future harvests.

Destruction of the tea in Boston Harbor, December 16, 1773.

    One more story: the famous "Bohea" teas are the teas produced in the Wuyi Mountains. In the local Hokkien dialect, the Wuyi Mountains (Wuyi Shan) are called Bu-i-soa, which is why the English called what they sourced from there "Bohea." The tea that Americans threw overboard during the famous Boston Tea Party (1773) was mainly Bohea. Just imagine, what a waste! Additionally, this Hokkien dialect explains a major etymological divide: Portuguese, Slavic, Arabic, Turkish, Hindi, and Japanese call the drink like the Mandarin Chinese – cha –, while other European languages call it like the Hokkien dialect – te.

    If we head south, the people of Anxi 安溪县 proudly declare they live in the “Chinese Capital of Tea.” I’m sure they are not the only ones with that pretension, but this is the place to get excellent white teas and my favourite oolong of all: the extraordinary Tie Guan Yin 铁观音. Unfortunately, it is difficult to buy decent Tie Guan Yin outside of Anxi. When you get these rolled, curly leaves, your infusion will have a strong body and elegant aromatic notes of peaches, apricots, and white flowers.

Separating the twigs from the leaves of Tie Guan Yin tea in the Anxi market.

    If you are in Anxi, don't miss the lovely city of Xiamen 厦门市 (Amoy) facing the Taiwan Strait, and the little island of Gulangyu 鼓浪屿 with its old merchants’ and diplomats’ colonial houses — once dubbed "the richest square mile on earth." Once a hub of commerce between China and the West, Gulangyu is now a tourist attraction with tropical gardens, a piano museum, and shops selling pearls and craftworks. A special word must also go to Quanzhou 泉州, a beautiful city of around 7 million people where satin was invented; it was a starting point for the maritime Silk Road. I spent a few days there visiting temples of different religions and using a bicycle to get around. I climbed Qingyuan Mountain 清源山 for beautiful views, saw the harmonious statue of Laozi carved in granite over a thousand years ago during the Song Dynasty, and visited a Shaolin temple where I saw young monks in their robes learning martial arts. Well, enough of Fujian, or else I will start buying plane tickets before I finish this text!

 

    Yunnan 云南: Let’s get back to tea’s origins. In the eastern continuation of the Himalayas, the mountains of Yunnan are where everything began. In the year 2737 B.C., as the legend goes, the Chinese Emperor Shen Nong was resting in the shade of a tree. Some leaves fell into his cup of hot water and infused. The tree was a Camellia sinensis, and as he tried the new drink, he felt reinvigorated. The mythic Tea Horse Road 茶马古道 starts here. Compressed into bricks, tea was transported on the backs of donkeys and men through the mountains to Tibet. Tibetans loved the tea, and in exchange, they provided the fantastic horses the Chinese needed for expansion. This trade kept the route busy for centuries. While the teas of Menghai 勐海县 and Xishuangbanna 西双版纳 are famous, Pu’er 普洱 tea is second to none. It is a very dark tea because it is oxidized and fermented; it can be stored in a cellar like vintage wine, its rough flavours growing softer and rounder over time, shifting from notes of earth and iodine to woody aromas. I once imported Pu’er from a village north of Eshan 峨山 at an altitude of 2,300m. Next time, I would like to visit the picturesque historic places of Lincang 临沧市, Dali 大理, and Lijiang 丽江市. For now, I remember the astonishing natural beauty of Shilin 石林, a "stone forest" near the capital city of Kunming 昆明. Whether in the cities or in rural areas, we see ethnic minorities speaking their local languages, with women and girls wearing cheerful folkloric dresses that lift our mood with colour and life.

A section of the Tea Horse Ancient Road - Cha Ma Gu Dao.
 

    Next: In upcoming posts, I will write about the teas I tasted in Macau, Hong Kong, and Japan. Japan has a completely different tea culture that deserves our attention! I might also tell the story of my tea business and share some references of other tea brands that I like. That’s all for today, thanks for reading!

sexta-feira, 16 de janeiro de 2026

Presidenciais 2026 - a campanha e os candidatos

(também publicado no Jacaré)

 

Divido os onze candidatos em três categorias: os democratas, os autoritários e os outros.

Os autoritários: António Filipe (PCP), André Ventura (Chega), Catarina Martins (BE), Jorge Pinto (L) e André Pestana (ex-PCP, ex-BE, ex-MAS) não são exactamente democratas. As ideologias que os inspiram são irreconciliáveis com a separação de poderes, a liberdade de expressão e outros aspectos fundamentais do Estado de Direito Democrático. Se algum destes candidatos se visse no poder, nenhum de nós poderia prever a data e a forma das próximas eleições.

Os democratas: Henrique Gouveia e Melo (Almirante) tinha porte presidencial e uma imagem de competência, no entanto depreciou a sua reputação ao embarcar numa campanha negativa com truques e insinuações. Luís Marques Mendes (PSD) seria o que tem mais experiência governativa e quem conhece melhor as exigências do cargo presidencial, porém o conselho que prestou a empresas nos últimos anos não teve bom acolhimento popular e a sua campanha perdeu gás. João Cotrim de Figueiredo (IL) fez uma campanha inteligente nas redes e foi crescendo nas intenções de voto, mas quando a sua integridade moral foi posta em causa cometeu vários erros e não aguentou o stress test. António José Seguro (PS) tem sido uma presença simpática, mas que ideias tem? Não retive uma.

Outras candidaturas: Humberto Correia é algarvio e, vestido de D. Afonso Henriques, corre o país a falar de habitação, emigração e pobreza. Manuel João Vieira, artista plástico e músico dos velhos Ena Pá 2000, anda por Campo de Ourique e pelos meios de comunicação social com a sua intervenção artística: uma sátira à política em geral e às promessas populistas muito em particular. Quando um candidato promete uma coisa, Vieira cobre a promessa e aumenta-a para o dobro. Dá para sorrir e também para pensar.

A campanha eleitoral é um campo de batalha de onde ninguém sai ileso. Quem ataca perde pontos e mais pontos perde quem é atacado; perde interesse quem é vago e perde apoios quem vinca uma posição. Todos perdem, e o perdedor que menos perder fica Presidente. No fim de contas, ganhamos nós e a democracia que nos permite escolher alguém para representar o país. Aí, será tempo de descomprimir, restaurar fracturas deixadas pela tensão das discussões e então voltar às nossas vidas.

quinta-feira, 8 de janeiro de 2026

Travelling with Tea — part 1

(também publicado no Substack)


My first travels began at home, going back and forth from the kitchen to the living room. As a child sitting next to my mother, I was amazed by how she poured steaming water and tea leaves into the teapot. Simultaneously, we would prepare a tray with warm scones, slices of bread, crackers, butter, honey, and tomato jam. It was cold outside, so we had our tea by the fireplace. Those were the days!

I have always loved tea. Infusions of other aromatic plants never gave me as much joy as real tea. I learned at home to take my tea without sugar, and only rarely with a cloud of milk to mask any excessive bitterness. If I had a sore throat, a spoonful of honey and a sliver of lemon peel were also acceptable. However, in the 1990s, most tea in Lisbon was sold in teabags; if we ordered loose-leaf tea in specialty shops, there were few variations of black tea and lower-quality green tea. And it was difficult to find a nice Oolong.

Lisbon: As a teenager living in old Lisbon, winter meant paying a visit to Casa Pereira. This was a classic tea shop in the Chiado neighbourhood — small and beautiful, with wooden shelves and three or four gentle shopkeepers in dark red uniforms. Casa Pereira was where I bought tea as Christmas presents for my aunts, first with escudo coins and later with euro bills. A very old man and his son ran the shop, but as the son aged, it became clear that no one from the younger generation was interested in continuing the business. Casa Pereira closed its doors six long years ago, but I still remember the scent of that place — the fragrance of roasted coffee, chocolates, and fine Ceylon tea.

Qatar: My first contact with a different tea culture was years ago in Qatar. Upon arriving at the hotel, I was served a welcome drink steaming from a small silver glass with engraved Arabic motifs. The drink was warm and refreshing at the same time. Moroccan, Tuareg, and Arabic people love green tea with peppermint to offset the inhospitable temperatures of the desert. In regions stretching from North Africa to the Middle East and Central Asia, they use a ratio of roughly 20–35% dry green tea to 65–80% fresh peppermint. The water is hot but not boiling, ensuring it doesn’t overcook the leaves and extracts only the best flavours. You can easily prepare this at home. In Qatar, it feels as though no one lives only in the present; you see deep contrasts between the past and the future: traditional old souks and climatised shopping malls, the ancient treasures of the Museum of Islamic Art facing glass skyscrapers across Doha Bay... and old-fashioned hospitality served in a modern hotel.

Bangladesh: In Bengal, there is yet another tea culture. Most tea in Bangladesh comes from the northeastern plantations of Sylhet, near the famous Indian tea region of Assam. The tea there is very affordable and the average quality is good. I visited Bangladesh twice and travelled across the whole country, sometimes in climate and sanitary conditions that are better left undescribed. Occasionally, my overnight trips were in old buses that felt as though they might fall apart in the potholes of the mud roads. Whenever the bus stopped, day or night, it was time for black tea with milk and sugar. Sometimes spices were added to create a version of "chai." It is a warm, aromatic, and comforting drink. When tea is of high quality, it is a pity to add elements that mask its original flavour. On the other hand, I agree with the English: milk and sugar are very helpful for disguising the rougher edges of stronger teas!

Azores: Later, I married my lovely wife. We went to the Azores for our honeymoon and visited the idyllic tea plantations on São Miguel Island. Green and blue are the dominant colours of this landscape, with hilly cultivars stretching toward the Atlantic Ocean and a pale horizon stitching together the different blues of the sky and sea. Tea has existed in the Azores since the early 19th century, when local farmers asked Chinese tea experts to teach them how to grow, harvest, and process it. I have returned since, and I always like to sit in the Gorreana tea shop, sipping their Earl Grey while contemplating that small piece of paradise. For many years, these were the only tea plantations in Europe, though climate change and new technologies are now allowing other European countries to explore tea cultivation.


Anyway, my wife and I decided to try another very Portuguese approach to the tea business: going East to source the best teas directly from China and Japan! But that is a story for later. In my next posts, I will write about the teas I tasted in different regions of China and Japan. Thanks for reading!

sábado, 20 de dezembro de 2025

O que hoje significa ser-se cristão no Paquistão

(também publicado no Substack)

Meeting lawmakers at the Portuguese Parliament

These last days of Advent I have been following a delegation of Christians from Pakistan visiting Lisbon, Portugal. They represent the Peter John Sahotra Foundation, an institution of good courageous people that provides the Christian community with relief from the heavy burdens of poverty and religious persecution. The couple Sadaf and Joel Amir Sahotra have been meeting members of the Portuguese Parliament, civil society organisations, media, schools and universities. The purpose of this visit is to update the Portuguese society about the situation of Christians in Pakistan with key facts and to find new opportunities of cooperation on the issues of human rights and education.

Pakistan is a 240 million country with about 1% Christians living mainly in Punjab, but also in smaller communities in Sindh and Karachi. The majority of these 2.5 to 3 million people face poverty and all of them live under the stress of religious intolerance. It will be easy to find Christians in sanitation jobs, as domestic helpers or in the hard brick kiln production in Pakistan. These are all low-income jobs; the wages are earned in a daily basis and child labour is often involved.

Mr and Mrs Sahotra addressing a school audience in Portugal

As Mr. Sahotra informed, ‘even in government job advertisements, it is often stated that sweeper and janitorial posts are “only for non-Muslims.” This practice reinforces humiliation and exclusion. Educated Christians rarely find opportunities beyond menial jobs, regardless of qualifications.’However, the starkest picture is the condition of thousands of Christian families that are trapped in generational debt and are forced to work in brick kiln factories. Their living and working conditions are extremely hard. Clean water, healthcare and education are only mirages. The most fragile are more exposed to abuse: ‘young Christian women and girls are especially vulnerable to harassment and sexual abuse by kiln owners and supervisors, often without legal recourse or protection.’

Another problem is the Blasphemy Law. These laws continue to be the source of great injustices and fear. Many innocent Christians have been falsely accused and imprisoned for years. False accusations continue to trigger mob violence against Christians. Entire Christian neighbourhoods – houses and churches – were burned to the ground in tragic incidents such as Joseph Colony (Lahore, 2013) and Jaranwala (2023). In Sharia courts, non-Muslim lawyers are not allowed to represent its clients, restricting access to justice and minorities’ representation. Christians still face social exclusion, workplace bias, forced conversions and hate speech, particularly in rural areas.Long time ago, Muhammad Ali Jinnah said to the Pakistani people: ‘You are free; you are free to go to your temples, you are free to go to your mosques or to any other place or worship in this State of Pakistan. You may belong to any religion or caste or creed that has nothing to do with the business of the State. (…) We are starting in the days where there is no discrimination, no distinction between one community and another, no discrimination between one caste or creed and another. We are starting with this fundamental principle that we are all citizens and equal citizens of one State.’ This was Mr. Jinnah’s presidential address to the Constituent Assembly of Pakistan in the 11th of August 1947 – just three days before the formal Independence Day of Pakistan. The promise of Pakistan’s founding father remains only a dream for the Christians and other religious minorities’ peoples of this country.

Mr. Jinnah promising religious freedom in Pakistan, 1947.

The international community may help by funding Christian projects in Pakistan – such as schools – or offering scholarships and training opportunities abroad for young Christians. Surprisingly for some, Christianity in Pakistan is older than in parts of Europe. Saint Thomas the Apostle spread the word of Jesus Christ as far as the Bay of Bengal. Our common Christian heritage is also to be cherished in the small villages of Punjab and Sindh.

For more information about what means to be a Christian in Pakistan today, please visit the Peter John Sahotra Foundation’s website and check also the Aid to the Church in Need 2025 report on Pakistan.

Mr Joel Amir Sahotra being interviewed at Rádio Renascença

As a Portuguese Member of Parliament said some days ago, “this testimony puts our Christmas into a new perspective”. Those words resonated in my heart. Students in the schools of Lisboa also realised how lucky they are to live without fear of being persecuted because of their faith.

Thanks for your kind attention. Thanks dear friends Sadaf and Joel for your moving courage. And I wish a blessed Christmas to all of you.

domingo, 7 de dezembro de 2025

Fungos, musgos e líquenes

Uma das coisas mais fascinantes após as primeiras chuvas do Outono é o aparecimento de vários tipos de cogumelos, outros fungos, líquenes e musgos. Embora alguns não sejam para comer, todos são bons para fotografar. Aqui está uma pequena selecção:



sábado, 29 de novembro de 2025

O senhor que tratava bem a sua cadela

(também publicado no Substack)


Parece que o senhor AH tratava muito bem a sua cadela. O senhor AH alimentava-a, dava-lhe festas e levava-a a passear. Apenas com esta informação, simpatizamos com o senhor AH quase de imediato. Porém, tudo se esfuma se eu lhe disser que AH é Adolf Hitler. Ao ajuizarmos a vida e o legado de Hitler, a sua forma de tratar o animal passa a ser perfeitamente irrelevante. É irritante e até ofensivo se nos detivermos por mais um segundo nessa sua característica. Temos de nos focar no essencial. No entanto, caímos com frequência nestas distracções assessórias. O que de mais relevante resultou do pensamento de Karl Marx foi a inspiração política utópica de regimes comunistas responsáveis pela morte de milhões de pessoas. O pensamento de Carl Schmitt foi útil na sustentação intelectual do regime nazi em que participou sem arrependimento, mesmo depois do seu partido ser responsável pelo Holocausto, pelo Porajmos e por tantas outras atrocidades. É claro que Marx e Schmitt produziram muito pensamento, e que algumas das suas ideias mantêm o interesse. Nem que seja para compreender a História, é importante conhecê-los.

Nos últimos anos aumentaram naturalmente as críticas à ideia do “fim da História” de Francis Fukuyama, acusando-o de ingenuidade na defesa da democracia liberal ocidental como a “forma final do governo humano”. Essa crítica é compreensível face à actual crise das democracias. O problema é que entre as boas críticas a Fukuyama também há correntes da moda que reabilitam os autores que deram sustentação filosófica às ideologias que definitivamente foram derrotadas pelas democracias liberais: o nazismo e o comunismo. Do passado foram ressuscitados velhos fantasmas, seja Marx evocado por Thomas Piketty e pelas publicações da esquerda radical, ou a direita iliberal a colocar Carl Schmitt nas páginas da European Conservative e da Crítica XXI. A coerência é admirável, mas a teimosia nunca combinou bem com o erro.

Digeridos pelo tempo e pela História, Schmitt e Marx curiosamente encontram no actual Partido Comunista Chinês um denominador comum, com o influente académico Jiang Shigong a tentar compatibilizar as teorias políticas de ambos. Do filósofo nazi, Shigong aproveita as teorias sobre o poder autoritário e absoluto, o necessário uso da violência, o tratamento do adversário como inimigo. Ao filósofo comunista, vai buscar algumas ideias do materialismo histórico. Como fez Mao Zedong, Shigong dispõe dos aspectos teóricos que são úteis à manutenção da ditadura do partido comunista e adapta-os à realidade chinesa.

Conhecemos as consequências fatais do pensamento destes e outros autores que continuamos a ver ser difundidos por ambos os extremos do nosso espectro político. Num contexto em que as democracias liberais estão novamente sob pressão e a ser postas à prova, a reabilitação destes autores tem como evidente objectivo a fragilização das nossas instituições democráticas. O debate é sempre bem-vindo em democracia, mesmo até quando a põe em causa. Contudo, devemos estar bem cientes que invocar estes autores é um “abre-te sésamo” que nos permite aceder às maiores tragédias políticas do século XX, correndo o risco de reabrir a caixa de Pandora. O potencial destruidor dos autoritarismos do século XXI é agravado pelas novas tecnologias de controlo e manipulação das massas. E se hoje algumas críticas à democracia liberal são inspiradas pelos velhos Marx e Schmitt, nesse caso Churchill continua a ter razão que “a democracia é a pior forma de governo, à excepção de todas as outras”.

A maior parte das pessoas não conhece bem a vida e obra de Karl Marx, e muito menos a de Carl Schmitt. No entanto, podemos observar as nossas rotundas de Norte a Sul poluídas com cartazes exigindo coisas aos ricos, aos ciganos e aos imigrantes. A velha luta de classes e as novas lutas de classes mostram como o ódio dirigido a determinados grupos sociais faz com que os extremos se confundam. Mas há pessoas que conhecem muito bem a vida e a obra de Marx, bem como a de Schmitt. Eu não os conheço ao ponto de saber se estes autores tinham cães e se os tratavam bem. Mas estudei-os o suficiente para compreender o que procuram os autoritários de hoje quando os citam. Nós já vimos este filme.

quarta-feira, 27 de agosto de 2025

Dois filmes de Verão

(também publicado no Jacaré)

Na última semana fui ver dois filmes ao cinema. Quem quiser ver um grande filme de acção que dispõe bem, então não há que enganar: F1 merece ser visto diante do grande ecrã e com o som envolvente. Bem montado, transmite com eficácia o ambiente e a adrenalina das corridas de 24h Daytona, Baja 1000 e, principalmente, a Formula 1. A história é o arquétipo do velho herói (Brad Pitt) que volta para provar que ainda tem valor e o do jovem talento que está relutante em aprender mas que se deixa conquistar – como todos os outros cépticos – pelo génio do velho piloto. Uma história à moda antiga filmada com a mais recente tecnologia, tudo bem feito.

Ontem foi dia de voltar ao cinema. Não consegui convencer a minha querida que os filmes italianos são muito melhores do que os seus trailers. O meu argumento deu pouca luta porque logo encontrámos “Eddington”, num cartaz com Joaquin Phoenix debaixo dum chapéu de aba larga. “É de cowboys!”, animei-me, e ao pôr o trailer vimos que havia uma campanha eleitoral e ambos gostamos de tramas políticas. Com Emma Stone, Pedro Pascal e Austin Butler a completar o elenco, o filme prometia. Estava decidido. Eddington é o nome de uma pequena vila com um mayor, um xerife e os seus dois ajudantes. A história passa-se em 2020, no início da aplicação das medidas de saúde pública para combater o covid-19, nomeadamente a obrigatoriedade do uso de máscaras em supermercados e outros lugares de encontro. O xerife não concorda com o uso da máscara e outras medidas executadas pelo mayor, seu rival. Ao ajudar um velho a fazer as compras num supermercado que não o deixava entrar sem máscara, o velho tira uma fotografia com o xerife e publica-a nas redes sociais muito agradecido. E aí, aquele homem que parecia decente, não cabe em si de vaidade. Num impulso e sem consultar a mulher, publica nas redes um vídeo onde anuncia que será candidato a mayor nas próximas eleições. 

Este é o pecado original em Eddington. Ao pegarmos na Bíblia, lembramos que “a soberba precede a ruína, e a presunção precede a queda” (Pr 16,18). Em “Paradise Lost” (1667), John Milton diz que foi o seu “orgulho e a pior ambição” que precipitaram Satanás no inferno, para sua “infinita raiva e infinito desespero”. Resta-lhe tentar o “inocente e frágil homem” e nele infligir a sua perdição. E como escreve C.S. Lewis em “Mere Christianity” (1952), “o vício essencial, o maior mal, é o orgulho”. Aliás, “foi através do orgulho que o diabo se tornou diabo. O orgulho conduz-nos a todos os outros vícios”.

Eddington é apenas o nome deste lugar fictício no Novo México, o que nos diz pouco. Com mais justiça, o filme podia chamar-se Pandora. Ao destapar o vaso, dali saíram em imparável cadência todos os males sociais do ocidente contemporâneo. O catálogo é bastante exaustivo: a indiferença face à fragilidade de um sem-abrigo concreto; a hiper-sensibilidade face a problemas externos àquela comunidade, como a morte de George Floyd no longínquo Minnesota; o marxismo do Black Lives Matter; o terrorismo dos Antifa; o populismo proliferante; o racismo; a inveja laboral; as teorias da conspiração sobre vacinas, os abusos sexuais, a classe política, etc.; a depressão, a dependência dos ecrãs, a cultura da fama e dos influencers; a falta de informação e os boatos; o poder de manipulação dos algoritmos; os problemas ambientais e energéticos; novas seitas religiosas; a violência desproporcional e a facilidade de arranjar armas de guerra; a falta de reconhecimento do valor da vida humana; a manipulação fácil das massas e o discurso de ódio; a anarquia; o abuso da força de um poder sem freios; os extremos que se tocam e as pessoas que rapidamente passam de um extremo para o outro; o espectáculo degradante das novelas da vida real; a pobreza moral dos novos protagonistas; e o triunfo dos menos capazes. 

Não recomendo Eddington, que é pesado e desconcertante. São conflitos com origem inesperada, que crescem num ápice, e sem esperança de resolução. Mas é importante saber que existe esta crítica muito pertinente aos perigos do novo ambiente político em que vivemos. Entretanto, F1 ainda está nas salas. Aí, os problemas ainda são resolvidos à boa moda antiga. Não perca a oportunidade de ver F1 em grande plano, o filme merece!

terça-feira, 3 de junho de 2025

A esperança em The Great Dictator


    Continua a mexer connosco The Great Dictator, um clássico de Charlie Chaplin estreado em 1940, um ano após o início da Segunda Guerra Mundial. Este fim-de-semana o filme foi projectado no auditório do Teatro Camões com música tocada ao vivo pela Orquestra Sinfónica Portuguesa do Teatro Nacional de São Carlos e conduzida pelo maestro Timothy Brock.

    Já não terá sido fácil um actor ajustar o ritmo dos seus movimentos à música da banda sonora do filme, mesmo se composta por si. Empresa mais difícil é uma grande orquestra acertar a música com o ritmo dos movimentos de Charlot. O maestro e a orquestra transmitiram as emoções certas em cada nota da banda sonora, na alegria da Dança Húngara n.º 5 de Brahms na cena do barbeiro com o cliente, ou no encantamento delicado do Prelúdio de Lohengrin de Wagner, na cena da dança do globo terrestre e na do discurso final.

    Como acontece em outros filmes, Charlie Chaplin fez quase tudo: produziu, realizou, actuou e, à excepção das mencionadas obras de Brahms e Wagner, compôs com Meredith Wilson a banda sonora. A história começa na Primeira Guerra Mundial, onde Charlie Chaplin representa um barbeiro alemão e judeu, que se fez herói ao combater pelo seu país e ao salvar a vida de Schultz, um comandante piloto que se torna importante no novo regime. Charlie Chaplin interpreta este barbeiro judeu do gueto e também o ditador antissemita em ascensão, fisicamente confundível com o barbeiro. Na narrativa, Adolf Hitler é chamado de Adenoid Hynkel, Goebbels de Garbitsch, Göring de Herring, Benito Mussolini de Benzino Napaloni, a Alemanha de Tomainia, a Itália de Bacteria e a Áustria de Osterlich. São evidentes as parecenças, mas este uso de nomes imaginários ajuda-nos mais facilmente a encontrar hoje outras ligações para cada personagem e acontecimentos.

    Após um terrível discurso do ditador às massas, Hynkel pergunta a Garbitsch o que achou do discurso. Ele responde que foi muito bom, embora a referência aos judeus pudesse ter sido mais violenta. Com frieza e o olhar vazio, o Ministro da Propaganda acrescenta que a violência contra os judeus seria útil para excitar a ira das pessoas de forma a esquecerem a sua própria fome. Aqui está, o fenómeno do bode expiatório bem explicado em tão breves palavras!

    Nos momentos do filme em que o barbeiro interpretado por Chaplin está mais abatido e desanimado, o tema musical é “Zigeuner”, que em alemão significa “cigano”. Ele mesmo com família cigana, Charlie Chaplin identifica-se com a perseguição dos judeus naqueles anos 30 e 40. Sem ainda conhecer todos os horrores do nazismo, este corajoso retrato do Grande Ditador é certeiro na denúncia do pensamento político que irá gerar mais anos de guerra total, toda a sua destruição, os vários milhões de mortos, o genocídio dos judeus entre nós chamado de Holocausto e o genocídio menos conhecido dos ciganos, o Porajmos.

    Em tão desolador contexto, este é um filme de esperança. Prova disso é outro tema musical de superior beleza intitulado “Hope Springs Eternal”. A obra tem vários momentos de ternura, mostra o humor físico de Charlot, reflecte sobre a ambição humana e a graça do absurdo, e tem as situações de injustiça e crueldade que são autênticos murros no nosso estômago. Existe um ténue fio condutor: o amor frágil e belo entre Hannah e o Barbeiro. No entanto, todas estas cenas vão somando uma tensão crescente que só podia pontificar no grande discurso final do Barbeiro. O Barbeiro toma acidentalmente o lugar do Ditador e mostra que a democracia nos oferece sempre a hipótese de uma alternativa: ainda podemos ser livres, humanos e decentes.

segunda-feira, 26 de maio de 2025

Um momento de temple

(originalmente publicado no Jacaré)

Tempo

Preso num horário e nas investidas arrítmicas das pessoas e dos acontecimentos na vida, arranjo espaço para templar.

 

Templar

É mais do que o tempero e a temperatura do tempo. É mais do que seasoning. Templar é moderar a vertigem do tempo e apreciar o que passa em câmara lenta. Não se trata de pôr um frame no pause, mas de admirar devagar a sucessão dos acontecimentos, descobrindo a beleza dos pormenores, a verdade de pequenos aspectos, os traços de bondade das suas lições. Podemos templar na acção como na admiração. Templar é provar, sentir, aprender e guardar na memória. Templar é uma arte.

 

Peregrinação

Nada nos dá maior temple do que a oração, caminhando pela natureza, notando as maravilhas da criação na companhia de pessoas que admiramos mais a cada passo que passa.

 

Eucaristia

O altar onde nos encontramos com o Criador que encarnou para nos salvar, unidos ao seu sacrifício e Palavra.

 

Animais

Bodeguero, o segundo toiro que Morante de la Puebla lidou em Sevilha no primeiro dia de Maio, com capotazos memoráveis e cheios de temple. Um cão deslumbrado com o eco do seu ladrar num parque de Miraflores. Um pombo-correio perdido, ao qual dei de beber no Ribatejo. A mesma situação com um melro recém-nascido em pátio de Lisboa. O efusivo encontro com o agaponi que sempre nos espera. A borboleta que voa mais alto que as altas copas das árvores altas. A águia que sobe uma montanha de ar e leva uma cobra que se retorce no bico. A gaivota poisada junto à chaminé da Capela Sistina.

 

Fumo

O charuto de Morante e o cachimbo do poeta: o fumo da arte.

A central do Carregado que voltou a queimar: o fumo da energia.

Os incêndios que se anunciam em Portugal – o fumo da morte.

As bombas em Gaza, na Ucrânia e em Cachemira – o fumo da guerra.

O fumo branco que anuncia a chegada de Leão XIV – o fumo da paz.

 

Encontros

O apressar para a reunião; uma despedida mais demorada; o vagar de uma boa conversa; o despachar atabalhoado quando não apetece; a desilusão; o corte; o comboio que se foi; o semáforo que caiu; as acções em queda livre; as acções em recuperação lenta; uma carta que chegou; duas cartas que se enviou; a lembrança do amigo que se esqueceu; a irmã que telefonou; o irmão que quis saber; a árvore derrubada pelo vendaval; a confissão; e os pais no coração.

 

Família

Mulher e filhos, tão bons. Um sonho! O que posso querer mais?

 

Tempo

Toca o despertador, acabo o parágrafo e fecho o livro. Meto-me a caminho, levanta-se o pó e esfuma-se o fumo. Muda o ritmo, adapto o temple. Dou graças a Deus e peço-Lhe dias melhores.