terça-feira, 26 de maio de 2026

Sobre a destruição de chá no Boston Tea Party

"Destruction of the Tea in Boston Harbor" (1856), de John Andrew

    Esta gravura faz parte da galeria de arte da Yale University e representa a destruição de chá de 16 de Dezembro de 1773, mais conhecida por "Boston Tea Party". Dezenas de colonos americanos disfarçaram-se de indígenas Mohawk e ao cair da noite abordaram no porto de Boston três navios ao serviço da East India Company, jogando 342 caixotes de carga no mar e assim destruindo 42 toneladas de chá no valor de mais de $2,2 milhões actuais. Este foi um acto de protesto contra os impostos britânicos sobre vários produtos, incluindo o chá. "No taxation without representation" era a palavra de ordem contra os vários impostos sobre os colonos americanos. Esta milícia chamava-se Sons of Liberty e os seus membros vestiam-se de Mohawk para mostrar a Londres que se identificavam como americanos.

    Nove dias depois, dia de Natal, outro navio aproxima-se de Filadélfia com 697 caixotes de chá e os Sons of Liberty encontram-se com o seu capitão explicando-lhe que nenhuma folha de chá deveria chegar a terra. Sabendo do que tinha acontecido em Boston, o capitão mandou abastecer o navio de mantimentos e regressou a Inglaterra com a mesma carga de chá. Foi a "Philadelphia Tea Party".
    Ainda em Boston, um outro navio tinha escapado ao ataque e soube-se que tinha descarregado o seu chá num armazém do porto. Em Março de 1774 os Sons of Liberty entraram nesse armazém e destruiram todo o chá que encontraram. Tinham tido a notícia que parte do chá já tinha sido vendido à loja de Davison, Newman and Co. e, no dia 7 de Março, uma vez mais vestidos de indígenas Mohawk, os Sons of Liberty entraram nessa loja, levaram as últimas parcelas de chá e deitaram-nas ao mar.
    O motivo político até podia ser de força maior, mas aquele chá tinha obrigação de ser muito bom. A destruição do chá sem a sua fruição não deixa de nos causar uma enorme pena.

A história da Migrant Mother

 

"Migrant Mother" (1936), de Dorothea Lange

    Esta fotografia foi captada em Nipomo, Califórnia, e é o grande símbolo da Grande Depressão americana. No entanto, ainda hoje as políticas do New Deal dividem os economistas: uns defendem que o New Deal foi o conjunto de medidas que relançaram o crescimento económico norte-americano, outros defendem que estas políticas apenas prolongaram e agravaram a crise. Como vemos pela data da fotografia, ela dá-se sete anos depois do crash da Bolsa de Nova Iorque e três anos depois do início das políticas do New Deal.

A história da Afghan Girl

“Afghan Girl” (1984), de Steve McCurry

    Foi a capa da National Geographic em Junho de 1985. Mostra Sharbat Gula, uma rapariga pashtun então com 12 anos, que vivia no campo de Nasir Bagh (Peshawar, Paquistão) entre cerca de 100 mil refugiados afegãos. Com a intervenção da NATO no Afeganistão e afastamento dos Taliban, Sharbat Gula e outros refugiados voltaram ao seu país e o campo onde viviam fechou em 2002. Em 2021 a NATO retirou as forças militares do Afeganistão e os Taliban retomaram o poder. Com o regresso dos Taliban, a vida de Sharbat Gula foi ameaçada e ela teve novamente de sair do país. Vive em Itália desde então, outra vez como refugiada. Passados quarenta anos desta fotografia, as raparigas e mulheres afegãs ainda vivem hoje com graves limitações no acesso à educação, ao mercado de trabalho, e à liberdade de uma vida digna.

A história do Roaring Lion

“The Roaring Lion” (1941), de Yousuf Karsh

    "The Roaring Lion" é uma célebre fotografia de Winston Churchill no Parlamento do Canadá, apenas três semanas depois do ataque japonês a Pearl Harbor. Depois do discurso “Some chicken, some neck” aos deputados canadianos, Churchill foi levado pelo Primeiro-Ministro anfitrião Mackenzie King até uma sala onde os esperava o fotógrafo Yousuf Karsh. Churchill não gostava nada de fotografias e estava aborrecido por ter sido apanhado naquela situação sem querer. Mais zangado ficou quando Karsh lhe pediu para pousar o charuto para que o fumo não interferisse com a imagem. O Primeiro-Ministro britânico recusou-se. Então, Karsh aproximou-se rapidamente de Churchill e tirou-lhe o charuto da boca enquanto dizia “forgive me, Sir” com toda a naturalidade. Quando voltou para trás da câmera, o fotógrafo observou que Churchill tinha uma cara de confronto e um olhar tão feroz, tão beligerante que quase o poderia devorar. Logo após tirar a fotografia, Churchill disse “tu até consegues fazer com que um leão que ruge fique quieto para a fotografia”. É por isso que esta fotografia ficou para a História conhecida por “The Roaring Lion”. Foi capa da revista Life e está – por enquanto – em todas as notas de 5£, além de ilustrar inúmeros selos, postais e canecas.

quarta-feira, 20 de maio de 2026

A Natureza e nós

 (também publicado no Substack)

Dia 8 de Dezembro de 1991, perto da fronteira da Bielorrússia com a Polónia.

A neve cai oblíqua, atravessando as nesgas do bosque denso e escuro. Longos uivos ecoam pela noite, não sabemos se de lobos ou pelo vento gélido passando por entre os carvalhos. E, por debaixo do fino manto branco, ainda adivinhamos a lama dos rodados deixados pelos carros na véspera. Três grupos de homens tinham chegado à dacha em segredo: uns vindos do Leste, outros do Norte e do Sul. Entraram, acomodaram-se e, depois da sauna e das massagens, do banquete e do descanso, só o novo dia revelou toda a gravidade da ocasião. Aquele refúgio de caça nas profundezas da enorme Floresta de Białowieża foi por algumas horas o centro do mundo. Um dos dois grandes blocos da ordem internacional caía com a neve e desfazia-se com o raiar do sol.

Limpemos com a manga do nosso casaco o vapor no vidro de uma daquelas velhas janelas embaciadas. Espreitemos por esse portal do tempo, imaginando os assessores de cada comitiva a riscar as últimas emendas a lápis, discutindo e movendo o fumo dos cigarros em círculos com gestos largos, e dando instruções às secretárias para que batessem à máquina uma nova versão final do documento. Numa outra sala mais calma, estão apenas três homens de pé, junto à lareira acesa, bebendo e falando dos prazeres da vida. Os sonhos e a ambição de cada um eram maiores ainda do que o medo de serem apanhados na conspiração. Leonid Kravchuk, Stanislav Shushkevich, e Boris Yeltsin são os presidentes da Ucrânia, da Bielorrússia e da Rússia. Kravchuk, eleito há apenas uma semana, tinha o mandato democrático para tentar a independência do seu país; Shushkevich, que era o anfitrião, foi apanhado desprevenido porque pensava que ia ali negociar apenas o fornecimento da energia para o Inverno; mas foi Yeltsin quem teve a ideia de propor o acordo que era a melhor forma de afastar Mikhail Gorbachov, o grande obstáculo ao exercício do seu poder em Moscovo.

Os representantes da Ucrânia, da Bielorrússia e da Rússia tinham fundado em 1922 – juntamente com a extinta Transcaucásia – a União das Repúblicas Soviéticas Socialistas (URSS). Agora, estes países tinham os seus presidentes a assinar às 3 da tarde do dia 8 de Dezembro de 1991 um acordo que começava assim: “A URSS, como realidade geopolítica, e enquanto sujeito de lei internacional – deixou de existir”. Tinham passado o Rubicão. Sem saber e num estalar de dedos, Gorbachov passou de poderoso líder mundial a chefe de uma entidade inexistente. Da chaminé da dacha saiu fumo branco e os três países fundadores voltavam a ser independentes.

8 de Dezembro de 1991: assinatura dos Acordos de Belovezha

Só que, uma geração de líderes depois, a Rússia tem em Putin um presidente revisionista que classifica os Acordos de Belovezha (Białowieża) “a maior catástrofe geopolítica do século XX”, que mantém a custo uma ditadura vassala na Bielorrússia e que invadiu a Ucrânia. Fê-lo primeiro na Crimeia em 2014 e depois avançando até às portas de Kyiv no ano do primeiro centenário da formação da URSS. Diante da resistência ucraniana apoiada pelos países da NATO, a Rússia prolongou a guerra nos anos que se seguiram usando as próprias forças militares e também recorrendo a mercenários, milícias chechenas, tropas norte-coreanas, armamento iraniano e materiais chineses. Aqueles povos e territórios foram tendo vários avanços e recuos ao longo do tempo. Lembramos por exemplo a improvável aliança de otomanos, franceses, ingleses e sardos contra russos e gregos na Guerra da Crimeia entre 1853-56, em especial o relevante pensamento de Lord Palmerston. Numa carta enviada a Earl Clarendon no primeiro ano do conflito, Palmerston explica:

a política e práctica do Governo Russo sempre foi empurrar as suas invasões tão rápido e tão longe quanto a apatia ou firme vontade de outros Governos permita, mas sempre parando e retirando quando encontra uma resistência decidida, esperando então pela próxima oportunidade favorável para fazer uma nova investida sobre aquela vítima.

Apesar de estarmos a quatro mil quilómetros de distância, esta história também diz respeito a Portugal. Com a adesão à NATO em 1949 e à UE em 1986, esbateram-se as linhas de fronteira que tínhamos nos rios Minho, Caia e Guadiana; e ganhámos novas fronteiras nos mares Báltico, Negro e Mediterrâneo. Do Alasca à Ásia Menor, temos aliados com o dever de nos defender do sonho de Putin de uma Eurásia que vai “de Vladivostok até Lisboa”. E, até provas em contrário, esse dever é recíproco.

2022: exercício conjunto da NATO “Dynamic Manta”, no Mar Jónico

Deixemos por um momento os caminhos da política, da guerra e das relações internacionais. Ficam essas pontas soltas para atar mais tarde, e subamos agora ao miradouro da fé em busca de outra perspectiva. É que a fé não é apenas um assunto privado. Por demasiado tempo a fé esteve arredada do seu devido espaço no discurso público. Cada um de nós teve as suas experiências e tem as suas crenças que contribuem para uma filosofia política autêntica e própria. Essa visão pessoal das coisas – com todas as suas interrogações e contradições – traduzem-se numa forma mais ou menos cuidada de reflectir e agir. O discurso público é sempre um discurso moral: achamos que isto é melhor do que aquilo, que esta opção é menos má do que a outra, e temos o bem e o mal sempre em ponderação. Se aceitarmos que a fé é um assunto estritamente privado que só muito disfarçadamente pode constar no discurso público, os valores públicos passam a ser exclusivamente validados por ateus, agnósticos, laicistas, racionalistas, utilitaristas… e eu não estou disposto a ignorar que a matriz da nossa civilização ocidental é greco-romana, mas também judaico-cristã.

Quem tem fé não deve ser forçado a escondê-la. Por outro lado, devemos empreender todos os esforços na denúncia de discursos que distorcem e instrumentalizam a religião para fins políticos, estejamos nós falando de Bin Laden ou do Patriarca Kirill de Moscovo, de um Mahdi político ou de um político que diga que Deus lhe confiou uma determinada missão. Não pensemos que os guerreiros medievais gritando Deus lo vult! ou jihadistas modernos gritando Allahu akbar! antes de carregarem sobre o inimigo estivessem, como na música de Bob Dylan, with guns in their hands and God on their side (1963). Contudo, a reflexão religiosa é benéfica. Se acompanhada de razão, a fé não contradiz a ciência, antes lhe acrescenta verdade e sentido. É da natureza do discurso político que se busque o poder, e do discurso religioso que se busque a verdade. Assim, a fé do povo é uma óbvia ameaça ao poder absoluto. Este é o motivo pelo qual os piores regimes totalitários fizeram a apologia do ateísmo, promoveram a perseguição dos religiosos e proibiram as manifestações públicas de fé. Um dos livros mais tristes que tenho é “Godless Utopia” (2019), onde o jornalista Roland Elliot Brown expõe ao pormenor a propaganda anti-religiosa soviética, empenhada em exterminar a praga da religião. Ao aniquilar a possibilidade religiosa, o regime totalitário vê o caminho aberto e avança sobre todas as outras liberdades.

2019: alguma da propaganda ateia em Godless Utopia, de Roland Elliott Brown

Fica claro que o discurso religioso é essencial para a nossa liberdade política e a fé merece ter o seu espaço no discurso público. Recuemos então, agora até à Cova da Iria no dia 13 de Julho de 1917. A paisagem por onde os Pastorinhos levavam o rebanho a pastar é típica daquelas terras rubras perto da Serra de Aire, com afloramentos calcários, água nos buracos das pedras, muito mato, poucas pastagens e algumas oliveiras e azinheiras. Foi sobre uma azinheira que Nossa Senhora apareceu pela terceira vez aos Pastorinhos e revelou aquilo que veio a ser chamado o Segredo de Fátima, com três partes: a visão do inferno, a devoção ao Coração Imaculado de Maria e um convite à penitência. Na segunda parte do Segredo, Nossa Senhora pede explicitamente:

a consagração da Rússia a Meu Imaculado Coração e a Comunhão reparadora nos primeiros sábados. Se atenderem a Meus pedidos, a Rússia se converterá e terão paz; se não, espalhará seus erros pelo mundo, promovendo guerras e perseguições à Igreja. Os bons serão martirizados, o Santo Padre terá muito que sofrer, várias nações serão aniquiladas. Por fim, o Meu Imaculado Coração triunfará. O Santo Padre consagrar-Me-á a Rússia que se converterá e será concedido ao mundo algum tempo de paz.

Depois de vários momentos de consagração (1942, ‘52, ‘64, ’81 e ’82), a 25 de Março de 1984 o Papa São João Paulo II consagrou a Rússia ao Imaculado Coração de Maria em comunhão e coordenação com os Bispos Católicos de todo o mundo. Lúcia, a única Pastorinha viva, achou que finalmente tudo tinha acontecido da maneira que Nossa Senhora queria. A Irmã Lúcia confirmou a satisfação de Maria pela consagração em carta enviada ao Papa com data de dia 8 de Novembro de 1989, na precisa véspera da surpreendente queda do muro de Berlim. Dois anos depois, na Floresta de Białowieża, na Bielorrússia mas junto à Polónia natal do Santo Padre, dissolvia-se a URSS no dia de Nossa Senhora da Imaculada Conceição.

2024: funeral do herói Alexei Navalny

Podemos identificar na mensagem uma menção clara aos erros da Rússia. Não é que a Rússia viesse de ser santa, aliás esta mensagem é dada quase quatro meses antes da revolução bolchevique. Nem tampouco quer dizer que a Rússia caminhe hoje para a perfeição. Agora como então, há um poder autocrático e uma cúpula da igreja ortodoxa cúmplice, dando cobertura à corrupção, à guerra e às demais actividades criminosas dos dirigentes do Estado Russo. Pelo contrário, como vemos aquele “tempo de paz” que seria concedido ao mundo parece ter sido já esgotado. O regime soviético foi apenas mais incompetente na gestão económica e elevou a perseguição política e religiosa a níveis superiores de mortandade. Só por contraste e comparação relativista podemos ser tentados a olhar complacentemente para a actualidade política russa. Porém, na noite escura dos vários regimes, brilharam com esplendor estrelas como Tolstoy, Solzhenitsyn ou o mais recente mártir Alexei Navalny. Como qualquer outra nação, a Rússia sabe produzir homens bons, patriotas como estes, e tem um enorme património cultural por aproveitar. Permanece nos crentes a firme esperança de que, no fim, o Imaculado Coração de Maria triunfará.

E como podemos contribuir para que o Imaculado Coração de Maria triunfe? Voltamos à floresta. A ecologia é um dos assuntos onde é mais evidente o problema da ausência do discurso religioso. Estamos a falar da Criação, dos primeiros capítulos do livro do Génesis! Deus, vendo toda a sua obra, considerou-a muito boa (Gn 1:31). Se o autor é Deus e a obra muito boa, como não concluir daqui que devemos respeitar e conservar a Natureza o mais possível?

Houve em Portugal um tempo em que a ecologia não foi um monopólio da esquerda. As ideias de Gonçalo Ribeiro Telles, Henrique Barrilaro Ruas e outros ilustres deixaram valiosa obra, mas infelizmente não deixaram continuadores relevantes. A Juventude Agrária Católica, o Centro Nacional de Cultura, a Comissão Eleitoral Monárquica e a Convergência Monárquica foram algumas das plataformas da sua oposição activa à ditadura. Um mês depois da Revolução de 1974 fundam o PPM e em 1979 constroem com o PPD/PSD de Francisco Sá Carneiro e o CDS de Diogo Freitas do Amaral a Aliança Democrática (AD). Gonçalo Ribeiro Telles integraria o VIII Governo Constitucional que fez aprovar a importante Revisão Constitucional de 1982, passo essencial para pôr fim à revolução ao diminuir a carga ideológica da Constituição e flexibilizar o sistema económico, extinguindo o Conselho da Revolução e criando o Tribunal Constitucional. Enquanto Ministro de Estado e da Qualidade de Vida, Gonçalo Ribeiro Telles criou a RAN — Reserva Agrícola Nacional, e a REN — Reserva Ecológica Nacional, que são dois marcos fundamentais da História do Ambiente em Portugal. Ao longo dos anos seguintes seria ainda responsável pelas propostas da Lei de Bases do Ambiente, da Lei da Regionalização, da Lei Condicionante da Plantação de Eucaliptos, da Lei dos Baldios, da Lei da Caça, e da Lei do Impacte Ambiental. No município de Lisboa podemos apreciar o Corredor Verde que liga o centro histórico da cidade à Natureza, indo da Baixa pela Avenida da Liberdade até ao Alto do Parque Eduardo VII, e daí desce por Campolide até ao Parque Florestal de Monsanto.

2025: um banco de madeira na Floresta de Monsanto, em Lisboa

Um pequeno parêntesis: Ambiente, Ecologia, Natureza… pensemos por um pouco nestes termos. O Ambiente é o meio onde nos inserimos, mas há nesta formulação o perigo de coisificarmos os elementos naturais e de os transformarmos em meros adornos mais ou menos agradáveis à vista. Aceitando este termo, o Papa São Paulo VI escreveu em 1972 aos participantes da Conferência das Nações Unidas sobre o Meio Ambiente que “o ambiente condiciona essencialmente a vida e o desenvolvimento do homem; este, por sua vez, aperfeiçoa e enobrece seu ambiente com a sua presença, o seu trabalho, a sua contemplação”. Já no termo Ecologia, como estudo dos seres vivos e do meio ambiente, corremos o risco de olhar para essa realidade como se estivéssemos de fora, excluídos da equação, esquecendo que dela somos parte. Mas Ecologia vem da aglutinação dos termos gregos oikos e logos. Trata-se do estudo da casa, da nossa casa comum. A encíclica Laudato Si’ (2015) do Papa Francisco é mesmo “sobre o cuidado da casa comum”. Já o Papa João Paulo II tinha introduzido o conceito de “ecologia humana” na encíclica Centesimus Annus (1991), muito bem aprofundada na encíclica Caritas in Veritate (2009) pelo Papa Bento XVI:

Se não é respeitado o direito à vida e à morte natural, se se tornam artificiais a concepção, a gestação e o nascimento do homem, se são sacrificados embriões humanos na pesquisa, a consciência comum acaba por perder o conceito de ecologia humana e, com ele, o de ecologia ambiental. É uma contradição pedir às novas gerações o respeito do ambiente natural, quando a educação e as leis não as ajudam a respeitar-se a si mesmas. O livro da natureza é uno e indivisível, tanto sobre a vertente do ambiente como sobre a vertente da vida, da sexualidade, do matrimónio, da família, das relações sociais, numa palavra, do desenvolvimento humano integral. Os deveres que temos para com o ambiente estão ligados com os deveres que temos para com a pessoa considerada em si mesma e em relação com os outros; não se podem exigir uns e espezinhar os outros. Esta é uma grave antinomia da mentalidade e do costume actual, que avilta a pessoa, transtorna o ambiente e prejudica a sociedade.

Podemos usar os termos Ambiente e Ecologia sem problema, embora cientes das suas limitações. Mas se olharmos para o meio ambiente como Criação, o lugar onde o Homem se pode encontrar na História do Mundo, então temos a Natureza. O Homem não é um intruso na Natureza, como pretende certa esquerda ambientalista, nem a Natureza é um manancial inesgotável para se explorar sem preocupações de sustentabilidade, como por vezes vemos certa direita avançar. O Homem faz parte da Natureza e esta existe para si, geração após geração. Tal como um Estado não deve onerar as gerações futuras com uma dívida pública insuportável, também o Homem não deve esgotar os recursos naturais e privar as gerações futuras da sua fruição. A conservação da Natureza é um dever de cuidar da Criação, de honrar os nossos pais que no-la entregaram e de amor pelos nossos filhos que a receberão. Este cuidado pela casa comum terá necessariamente de encontrar um equilíbrio sustentável entre o homem, a habitação, a economia, a floresta, a agricultura, a pastorícia, a pecuária, os animais selvagens, a caça, a pesca, os rios e os mares, toda a biodiversidade e a sua beleza. Já vamos percebendo onde se situa o justo meio das políticas da Natureza: o Homem está na Natureza e ela é parte inalienável da sua qualidade de vida.

2017: a cidade de Quanzhou 泉州 vista do Monte Qinyuan 清源山, na China

O dia-a-dia das grandes cidades absorve muito de nós. Quanto mais energia as cidades nos dão, mais no-la tiram. Luzes, chamadas, escolhas, impactos publicitários, tudo mediado por tecnologias que nos agridem a vista e cansam a cabeça. Quanzhou 泉州 e Lisboa têm em comum uma riqueza rara que souberam manter: a montanha coberta de floresta e sobranceira à cidade. O Monte Qingyuan 清源山 e a Floresta de Monsanto convidam-nos à valentia dum bom passeio a pé. As suas árvores purificam-nos os pulmões e abrigam-nos do sol e das chuvas. Ali podemos mergulhar no verde ou, olhando para trás, ver a cidade em perspectiva. Neste retiro, encontramos a distância silente que nos permite enquadrar os problemas e deixa evidenciar o que é, nesta vida, verdadeiramente essencial. Caminhemos então, e deixemos por um par de horas o carro, o telemóvel e o relógio. Aproveitemos para reformular prioridades. No caminho, pequenas surpresas irão premiar o nosso esforço: um riacho que corre, um pássaro que nunca vimos, as pegadas delicadas de uma raposa. Descansemos um pouco na paz de Deus. E no fim da volta, tornados à confusão da urbe, trazemos na memória uma moldura verde que tudo filtra e embeleza. Na impossibilidade de ir tão longe, a cidade dispõe de bons parques e igrejas. Sim, é que aquelas colunas, arcadas e abóbadas imitam com arte os troncos e copas das árvores do bosque. Dizia Edmund Burke em An Appeal from the New to the Old Whigs (1791) que “a arte é a natureza do homem”. Nas velhas igrejas vemos a arte do Homem inspirada na Natureza que é a arte de Deus e, no seu seio, encontramos a presença real de Cristo.

A Natureza tem uma ordem que não é racional, mas ainda assim ensina-nos lições e deslumbra. Não foi por acaso que o racionalismo utópico da URSS se desfez em Białowieża. Já não compensava o esforço daquela construção que em teoria aparentava ser perfeita, entretanto transformada num pesadelo real. Na floresta, três homens foram impelidos a deixar cair o que não fazia sentido e a reconhecer a ordem natural das coisas. Não consta que acreditassem em Deus, mas foi aquele pedaço de intocada Criação e o dia de Nossa Senhora da Imaculada Conceição o sítio e o momento certo para tomarem a melhor decisão. Por vezes, é no mundo natural que somos tocados pelo sobrenatural.