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quarta-feira, 4 de janeiro de 2023

Obrigado, Ciganos!

(também publicado no Ingovernáveis)


“Então vais escrever um artigo a defender os ciganos? Não te metas nisso!” Pessoas próximas avisam-me, mesmo sabendo que um aviso destes costuma ser incentivo para eu avançar. Mostrei a alguém só este título, de resposta recebi uma exclamação: “que exagero!”. Avanço com ainda mais motivação, mas aviso desde já que o texto não vai ser curto. Dado o assunto em causa, sou apenas forçado a fazer um pequeno preâmbulo, e aproveito esta publicação para não ter de o fazer mais vezes. Preâmbulo: a lei é igual para todos, todos somos iguais diante da lei e a lei deve ser aplicada indiscriminadamente. “Ah, mas há problemas na comunidade cigana” – certo, mas há problemas em todas as comunidades, incluindo Portugal enquanto comunidade. Quem já estudou ou trabalhou na Europa Central e do Norte sabe como podem ser vistos os portugueses – e por vezes basta apenas lá passar de visita. Não é só o então presidente do Eurogrupo Dijsselbloem a dizer que os portugueses gastam o dinheiro em bebidas e mulheres, qualquer português sabe o que é ser agrupado num grupo de “PIGS”, ser entendido como porteiro ou pedreiro em França, ou ouvir de um nórdico que a gente do Sul é subsídio-dependente, preguiçosa e cheira a alho. Mesmo que os nossos governantes tenham mostrado incompetência crónica a gerir a nossa dívida pública, devemos nós aceitar calados este tipo de generalizações? “Ah, mas já viste os ciganos à porta do hospital? E já os viste em grandes grupos diante do tribunal?” – sim, já vi. E então, é proibido? “Mas sabes como eles são violentos, e não obedecem às leis, e vão de Mercedes buscar os subsídios, e tudo fazem impunes…” – não creio que assim seja, conheço muitas situações que mostram o contrário, mas em todo o caso repito que a lei é igual para todos, todos somos iguais diante da lei e a lei deve ser aplicada indiscriminadamente. “Pois, também há excepções, por acaso até conheço um cigano que é impecável, mas a comunidade…” – e quantos ciganos conheces? “Hummm… er… um.”  Todos temos iguais direitos e iguais deveres. Todos temos a mesma dignidade humana. Não conheço um cigano que defenda o contrário. No entanto, entristece-me dizer que conheço várias outras pessoas que sim. Essas pessoas não são apenas os militantes e simpatizantes de novas agremiações políticas, e tenho amigos que são. São muitas outras pessoas. Quem nunca reparou em sapos de barro numa montra de loja ou à porta dum café? Muitas pessoas sentem-se condicionadas por uma mitificação dos ciganos. No meu caso, normalmente só me tenta condicionar quem dos ciganos não gosta ou desconfia. Este pequeno preâmbulo parece-me elementar, mas é necessário fazê-lo. Continuemos.

É notório que o Presidente Marcelo Rebelo de Sousa (MRS) tem acusado algum cansaço na fase mais recente do seu mandato. Ninguém consegue estar imune a gaffes quando fala tanto e tantas vezes de improviso. Porém, neste último 1º de Dezembro, MRS voltou a ter uma intervenção relevante e de superior qualidade onde prestou homenagem aos heróis ciganos que tombaram por Portugal e contribuíram para a Restauração da nossa independência.

Nesta mensagem, MRS começa por evocar os 40 conjurados que conhecemos e todos aqueles que “aquém e além-mar” lutaram na recuperação da independência de Portugal. Esta não foi apenas uma vitória dos notáveis conjurados e do Rei D. João IV que os liderou, tratou-se também dum feito dos outros “muitos [que] se implicaram” e do “Povo Português”. Entre os muitos que souberam ser os bastantes, MRS destaca o cavaleiro fidalgo Jerónimo da Costa e 250 outros ciganos que combateram por Portugal. Lembramos o esforço hercúleo dos heróis da Restauração: após 60 anos de domínio filipino, a recuperação da independência foi iniciada a 1 de Dezembro de 1640 e defendida em vários campos de batalha ao longo de 27 anos, culminando com a paz do Tratado de Lisboa em 1668. Neste tratado, Espanha reconhece a Restauração da Independência de Portugal e devolve todos os prisioneiros e conquistas (Olivença incluída), com duas excepções: a aldeia raiana de Ermesende e a cidade de Ceuta, esta última que decidiu manter-se na coroa espanhola apesar de conservar até hoje no seu brasão as armas do nosso país. 

Os ciganos portugueses fizeram parte de todo este esforço, também a eles devemos a nossa independência. Em 1646, o procurador da coroa Thomé Pinheiro da Veiga escreve a D. João IV atestando que Jerónimo da Costa “serviu a V. Majestade três anos contínuos nas fronteiras do Alentejo, com suas armas, e cavalo, tudo à sua custa, sem levar soldo algum, franca, e fidalgamente: e relata-se mais em nome de V. Majestade, o valor e esforço [(…)d]as suas proezas, até que na Batalha do Campo de Montijo foi morto com muitas feridas, pelejando sempre mui esforçadamente. (…) Serviu valerosamente no Campo, até deixar a vida, aonde tantos infamemente fugiram, à vista dos que esforçadamente morreram, ou pelejaram”. Três anos depois, em 1649, D. João IV reconhece em alvará os “mais de duzentos e cinquenta [ciganos] em meu serviço desde o tempo de minha feliz aclamação alistados com zelo e valor, com que já foram muitos apremeados”, no entanto confirma no mesmo documento a sua ordem de prisão e degredo de ciganos para Angola e Cabo Verde e, a quem alugasse casas a ciganos ou os recolhesse, o Rei destina degredo para Castro Marim ou África conforme a gravidade e, no caso de serem fidalgos, a sua expulsão da Corte.

Jerónimo da Costa não é exemplo único e não é apenas isto que devemos aos ciganos. Infelizmente, também as duras leis contra os ciganos não são inéditas na História. Lembremos a Porajmos ou Devoração, o nome dado ao genocídio cigano às mãos dos nazis, com várias centenas de milhares de ciganos fuzilados e gaseados em campos de concentração. Estima-se que morreram 25% a 50% do total de ciganos europeus durante os 10 anos de poder de Hitler. Não posso deixar de ter profunda simpatia por um povo que, como os rohingyas, ou como os judeus até à formação do Estado de Israel, são em cada lugar tratados como estrangeiros. Mas não são, e lembro alguns nomes para mostrar que Portugal e o Mundo devem muito daquilo que têm de melhor à comunidade cigana.

Os ciganos e a sua admirável cultura contribuíram e contribuem muito para a nossa vida. Quem não admira a bela cigana Esmeralda, a única pessoa capaz de tratar Quasimodo com dignidade no romance de Victor Hugo? Quem, ao ler García Lorca, não quer acompanhar Antõnito El Camborio que caminha a pé com uma vara de marmeleiro, em direcção a Sevilha, para ver os toiros? Quem não se impressiona com a valentia do Beato Ceferino Giménez Malla “El Pelé”, catequista e patrono dos ciganos que na Guerra Civil Espanhola protegeu um padre das agressões e morreu fuzilado gritando “Viva Cristo Rey!”? Quem não tem curiosidade sobre a peregrinação dos ciganos a Saintes-Maries-de-la-Mer, na Camarga, com a linda procissão das santas acompanhadas por milhares de pessoas a pé, a cavalo e em barcos? E já que falámos de toiros, Hemingway menciona os ciganos e descreve-os como ninguém, muito direitos e olhando de frente os toiros na arena. E entre nós, lida hoje com muita alegria o talentoso cavaleiro cartaxense Parreirita Cigano. Essa ligação especial dos ciganos com os cavalos vê-se também no campo, nas estradas do Ribatejo e do Alentejo, até em Peaky Blinders, nos circos, nas feiras… e o que seriam os circos e as feiras sem os ciganos? Podemos pensar em flamenco e ouvir o purismo de Camarón de la Isla ou a rouquidão melódica de Diego el Cigala, hipnotizados pelas sevilhanas de vestidos às bolas rodopiando e rodando os folhos enquanto desenham poesias aéreas com os seus braços. Deixando essa arte para quem sabe, quem de nós nunca dançou ao som dos Gipsy Kings e das Azúcar Moreno? Quem nunca vibrou com o desempenho no grande ecrã de Bob Hoskins, Sir Michael Caine ou Sir Charlie Chaplin, todos eles de origem cigana?

Contemplemos por um momento Charlie Chaplin. Dele dizia Pablo Neruda “Carlos Chaplin, el último padre de la ternura en el mundo”. Não se sabe ao certo onde Charlie Chaplin nasceu, mas poderá ter sido num acampamento cigano em Black Patch, Birmingham. Quem viu Peaky Blinders sabe do que se trata. Ser cigano não era um assunto, mas Chaplin deu pistas e escreveu “preferia ser cigano a actor de cinema”. Talvez aí esteja a chave para entendermos Charlot, a sua figura cinematográfica. Em “Charles Chaplin, o Self-Made-Myth”, José-Augusto França diz que “para Charlot, o tipo de vida ideal, aquela que, por assim dizer, admite como oficial a sua vagabundagem, é a do cigano – ausência de obrigações cívicas, alheamento ao progresso mecânico, apartamento de qualquer geografia política, uma vida meio selvagem, vivida na surpresa aventurosa do dia a dia, da curva das estradas que vão ter a um sítio que é sempre outro, e onde a sua manha pode desencantar a subsistência necessária. Se Charlot fosse alguma coisa (é-o frequentemente nos seus filmes – dentista, bombeiro, criado de café, polícia, operário, varredor, caixeiro, desempregado), a essa coisa preferiria ser cigano e a partida em vagabundagem, é a conclusão de muitos filmes em que se apresentara como trabalhador; é sempre a sua conclusão lógica…”. Num outro texto, José-Augusto França vai mais longe e chama Charlot de “(ousarei dizê-lo aqui? – talvez brincando, talvez não…) uma espécie de Zé Povinho universal!”

Por falar em Zé Povinho, é escusado lembrar que somos os campeões europeus de futebol em 2016 com Ricardo Quaresma, e que não o seríamos sem ele. Mas eu não quero ser resultadista, o que seria da magia do futebol sem as trivelas daquele que ficou conhecido como o Harry Potter do futebol? Tenho de referir também a música portuguesa dos Ciganos d’Ouro, de Diego el Gavi e Nininho Vaz Maia, cada um no seu registo, com imensa qualidade e sucesso. Mas se falamos de cultura portuguesa, o fado é incontornável. E que seria do fado sem a mítica Severa? Nascida em 1820 na Madragoa, esta cigana viveu na Mouraria, na Rua do Capelão em tantos fados cantada. Ali, Amália Rodrigues descerrou uma placa que diz “Nesta casa viveu Maria Severa Onofriana / Considerada na época a expressão sublime do Fado / Faleceu em 30-11-1846 com 26 anos de idade / Lisboa 3-6-1989”. Júlio Dantas escreveu “A Severa” em 1901, o primeiro filme sonoro português tem o mesmo nome e foi realizado por Leitão de Barros 30 anos depois, muitos fados e homenagens a referem e, mais recentemente, centenas de milhares de pessoas puderam ver o musical “Severa” de Filipe La Féria. Outro apontamento que nos faz encontrar a forte influência cigana no fado é o belíssimo Fado da Sina cantado por Hermínia Silva no filme “Um Homem do Ribatejo” (1946) e que foi um dos maiores sucessos do seu repertório. Assim, a cultura cigana não são só é portuguesa, como a arte destes ciganos nos ajuda a sermos melhores pessoas e melhores portugueses.

Não devia fazer o que acabo de fazer, que é citar tão por alto tantos nomes maiores, ciganos que marcaram indelevelmente a nossa cultura, em tão poucas linhas. Mas, para efeitos de publicação deste artigo que já vai longo, é necessário tentar meter o Rossio na Betesga. Penso que não é preciso citar mais nomes para provar o meu ponto. São tantos os que conheço que ficam de fora... mas tantos mais são aqueles a quem muito devemos e não sabemos que são ciganos!

Por contacto directo, acho também importante referir o trabalho de campo da Pastoral dos Ciganos, instituição católica preocupada com a promoção e integração social do povo cigano, com total respeito pelos seus valores culturais. É assim que deve ser. Pude ver como agem com amor e eficácia em bairros sociais onde, sem qualquer tipo de dúvida posso afirmar que a raiz de todos os problemas é o mau urbanismo. Vi-o com os meus olhos em dois bairros na periferia de Lisboa, num dos casos era uma pequena e antiga aldeia tradicional que de repente recebeu um grande bairro de prédios sociais para realojar pessoas que viviam onde se fez a Expo 98. As pessoas foram realojadas por zonas: os ciganos na parte Norte, os africanos num lado e os brancos noutro lado. Já viram a insensibilidade social do decisor político? Os males sociais desse bairro estavam bem repartidos por todas as comunidades. Um dia, vi uma mãe cigana sair do autocarro com o filho bebé às costas. Os meninos de outra comunidade, crianças de 7-8 anos que jogavam futebol na rua, pararam a bola e pegaram em pedras. Alguma das pedras acertou no grande manto preto da cigana, mas ela seguiu caminho e nem olhou. Ali, naquele momento, a realidade foi tão crua quanto n’O Senhor das Moscas de William Golding. O problema ali não eram os ciganos. Não eram as outras comunidades. Naquele caso, como em tantos outros, a raiz de todos os problemas é tão somente o mau urbanismo.

Voltando à mensagem do 1º de Dezembro, qual é o alcance das palavras do Presidente? Muito imediatamente, são palavras presidenciais com enorme ressonância mediática durante dias e permanência nos algoritmos dos motores de busca sempre que alguém no nosso país procurar por “ciganos”. E sobretudo, a maior importância destas palavras de MRS está indicada no fim do seu texto: “Este dever de memória é de elementar Justiça e rompe com tanto esquecimento e discriminação de que os ciganos têm, infelizmente, sido alvo no nosso País”. Já o discurso de MRS no 25 de Abril de 2021 tinha sido extraordinário por compreender e integrar as várias facções em confronto na nossa História recente, reconhecendo bons argumentos a uns e a outros. Voltou a ser importantíssima esta intervenção de MRS no 1º de Dezembro de 2022, no seguimento de ter sido o primeiro Presidente a estar presente nas comemorações do Dia Internacional do Povo Cigano, na Maia, em 2018. Espero que MRS consiga limitar os seus momentos de improviso e possa oferecer-nos mais intervenções como estas.

Por estas razões, falou por mim o Presidente quando declarou que “Portugal lembra-os, presta-lhes homenagem e exprime a sua gratidão.” Faço também coro das palavras do Papa Francisco falando aos ciganos durante a sua viagem apostólica à Roménia em 2019: “Em nome da Igreja, peço perdão, ao Senhor e a vocês, por todas as vezes que, ao longo da história os discriminamos, maltratamos ou os consideramos de forma errada, com o olhar de Caim em vez do de Abel, e não fomos capazes de os reconhecer, apreciar e defender na sua peculiaridade”.

Jerónimo da Costa, herói e mártir da Restauração da Independência de Portugal, merece ter o seu nome gravado em bonitas ruas e praças deste Alentejo que defendeu. Por tudo isto e mais ainda: Obrigado, Ciganos!

segunda-feira, 4 de maio de 2009

como morre um bravo

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Ceferino Giménez Malla foi domador de cavalos e cesteiro (fazia cestos artesanalmente), era espanhol, leigo da Ordem Franciscana Secular, e casado com a sua prima direita Teresa Giménez. Com 75 anos de idade, morreu fuzilado em plena guerra civil espanhola, em 1936, por tentar proteger um sacerdote que estava sendo ferozmente espancado por milicianos republicanos – rojos. Dizem os relatos que El Pelé, como era chamado, morreu de rosário na mão gritando: "Viva Cristo Rei!". Este acto de heroísmo é apenas uma amostra da vida santa que El Pelé levou. Por isso, este mártir foi beatificado por João Paulo II faz hoje 12 anos.
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Dedico este pequeno postal biográfico a todos aqueles que dizem que não são racistas, a menos que se fale de ciganos. É que o bravo São Ceferino era cigano com muita honra em sê-lo, procurando sempre todos os pretextos para estabelecer pontes entre as nossas culturas.
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São Ceferino, rogai por nós!
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segunda-feira, 13 de abril de 2009

ensaio para uma reabilitação da raça

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As palavras têm vida própria. Surgem da necessidade de definir uma coisa ou de expressar uma ideia ou sentimento. Podem constituir-se de sons que têm foneticamente a ver com a coisa expressa (como o c’ÃO, que lembra o seu ladrar), ou podem ser construídas de forma mais lógica e racional. Uma coisa é certa, quando a palavra se forma parece ser esse o seu momento mais representativo da realidade que pretende ilustrar. E a partir daí, a palavra entra numa espiral descendente e sem retorno, em que não mais pára de se corromper, até ficar tão distante do objecto que é pelas gentes abandonada e cai em desuso. Se não morre, a expressão fica no mínimo moribunda, aguardando que alguém dela se recorde e a recupere.
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Uma das velhinhas palavras que parece estar pela hora da morte é “raça”. Pudemos diagnosticar um sintoma dessa fatalidade no ano passado, no dia de Portugal e de São Camões. No seu discurso, o Presidente da República tentou reabilitar o termo e invocou o “dia da Raça”, como outrora havia sido chamado. Todavia, ao invés de “raça” ter voltado à ribalta, todos caíram em cima do Primeiro-Damo por fruição tão reaccionária e imprópria da linguagem, tendo a expressão saído desta peripécia ainda mais escavacada.
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Por culpa de uma memória colectiva acerca da História do Racismo, da dominação e subjugação de raças por outras raças, por culpa do medo e da culpa que as gerações actuais receberam de herança pelos erros de alguns antepassados (a. de sangue ou meramente culturais), por culpa do desejo de igualdade cada vez mais impregnado no ADN das gentes modernas, por culpa de todos estes factores e mais alguns, pouca gente quer falar de “raça”. Se tiverem mesmo de falar de alguma coisa, preferem usar o termo “etnia”, que é mais virgem e não está ainda tão contaminado pela História e pelas pessoas.
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O racismo acontece porque há uma diferença de pele. Mas fará sentido falarmos de raças, se está cientificamente provado que a diferença do ADN entre dois brancos pode ser maior que a diferença entre o ADN de um branco e um preto? A cor significa pouco, à-dê-énicamente falando. E a nível de estética, há cores de pele tão belas e que não são as nossas...
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O racismo acontece também porque há uma diferença de cheiro. Mas fará sentido ter o próximo em menor conta por causa do seu odor diferente? Uma das coisas que os nórdicos notam de diferente em relação a nós, mediterrânicos, é precisamente o nosso cheiro peculiar. Os chineses também o notam, tal como notamos em relação a eles. O suor ucraniano, moldavo ou romeno, quem não estranhou a sua intensidade? E a tão conhecida catinga? E o cheiro de caril? Nós, porque somos nós, pensamos que não temos cheiro distintivo, e temos. É uma questão de educação aprendermos a conviver e a gostar destes e outros cheiros de pessoas. Amar a diferença. É o mesmo que eles fazem connosco...
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O racismo acontece por razões culturais. Mas, em Portugal? Nós, que por vocação somos um povo aberto ao mundo? Não, essa não pega. A nossa cultura existe porque nos globalizámos, mais, fomos os mentores da primeira grande globalização, e se assim não tivesse sido, a nossa cultura seria muito mais moura, inglesa, espanhola, ou americana do que é hoje. É neste espírito de abertura que podemos continuar a sobreviver como cultura.
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O racismo acontece ainda por causa de traumas históricos herdados dos nossos antepassados, tenham eles sido os dominadores, os dominados, ou simplesmente conformistas e cooperantes. Mas fará sentido guardar esta herança como barreira que nos impede de nos darmos mais e melhor uns aos outros? Ou não valerá mais a pena tê-la apenas como uma infelicidade que devemos recordar na exacta medida em que nos salvar de cometer novamente semelhantes erros?
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Os portugueses são historicamente um povo de generosidade e aventura, de qualidades humanas que nos permitiram encontrar a amizade e o amor noutras raças e culturas. Deus criou o homem, e o português criou o mulato e o mestiço – diz a anedota, como que nos caracterizando, e bem. Os portugueses têm o jeito que Eminem ou Michael Jackson não tiveram para se integrarem e para se meterem na pele do próximo. O branco Eminem, que canta, fala, veste, tudo faz para ser preto, ou Jackson que aclara a pele que tinha para tentar ser branco, nem um nem outro têm sido bem acolhidos pela sociedade. Porquê? Espera-se de um branco que saiba nascer branco e de um preto que saiba nascer preto. Se o branco se quer aproximar de preto (ou vice-versa), que o faça por amor ao próximo e ao seu modo de estar na vida, mas sem negar as suas origens.
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Há um ensinamento cristão que o português compreendeu bem ao longo da História, e que é muito valioso para este caso: “Ama o próximo como a ti mesmo”. Não sou sincero no amor ao próximo se renego as minhas origens, de onde venho. Não vou ser bem sucedido naquilo que quero ser enquanto rejeitar aquilo que fui e sou. Penso que é isto que Jackson e Eminem ainda não perceberam, e que podiam aprender connosco.
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Afinal, parece que Cavaco estava certo: precisamos de um dia da raça. Contudo, tal só faz sentido se reconhecermos que a Raça Portuguesa não tem cor de pele, mas cor na alma... a cor do amor a Deus, ou pelo menos do amor ao próximo como a nós mesmos!
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domingo, 25 de janeiro de 2009

pedido de tolerância aos discriminados desta vida

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Às senhoras: não me levem a mal por vos oferecer a prioridade ao passar uma porta. Não é machismo, é consideração!
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Aos homossexuais: não se ofendam com o debate sobre o casamento. Não é homofobia, é zelo pela família!
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Aos africanos: não nos julguem pelo mal que alguns antepassados desta Pátria fizeram aos seus. Não é esquecer o passado, é construir uma irmandade com futuro!
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Aos pobres: não condenem todos os poderosos pela exploração realizada por alguns. Não é luta de classes, é igualdade perante a justiça!
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A todos, a minha oração, respeito e amizade. Não só tolerância, mas amizade.
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