quarta-feira, 13 de junho de 2018

Retiro

(Originalmente publicado no "Jacaré parado vira mala" no dia 9 de Junho de 2018)

O dia-a-dia das grandes cidades absorve muito de nós. Quanto mais energia as cidades nos dão, mais no-la tiram. Luzes, chamadas, escolhas, impactos publicitários, tudo mediado por tecnologias, em doses cavalares e non-stop. Stop!

Vista do Monte Qingyuan 清源山 sobre Quanzhou 泉州, Fujian 福建, China

Quanzhou e Lisboa têm em comum uma riqueza rara que souberam manter: a montanha coberta de floresta e sobranceira à cidade. O monte Quingyuan ou a floresta de Monsanto convida-nos à valentia dum bom passeio a pé. As suas árvores purificam-nos os pulmões e abrigam-nos do sol e das chuvas. Ali podemos mergulhar no verde ou, olhando para trás, ver a cidade em perspectiva.

Neste retiro, encontramos a distância silente que nos permite relativizar os problemas e deixa evidenciar o que é, nesta vida, essencial. Caminhemos então, e deixemos por um par de horas o carro, o telemóvel e o relógio. Aproveitemos para reformular prioridades! Descansemos um pouco na paz de Deus...

No fim da volta, tornados à confusão da urbe, trazemos na memória uma moldura verde que tudo filtra e embeleza.

Eutanásia - carta a todos os deputados



Lisboa, dia 22 de Maio de 2018

Exmo. Senhor Deputado [NOME]
Assembleia da República Portuguesa


Senhor Deputado [NOME],

Chamo-me António Vieira da Cruz, sou portador do cartão do cidadão [--------] e voto em Lisboa. Escrevo porque sei que a Assembleia da República irá debater e votar nos próximos dias uma proposta de legalização da eutanásia.

Edvard Munch - A dança da vida (1899)

Já vivi em países onde a eutanásia está legalizada, como a Bélgica ou o Canadá, mas V.Exa. estará certamente a par do impacto desta práctica nesses países e dos números que confirmam o cenário da slippery slope, a tal “rampa deslizante” que vai afectando cada vez mais vidas. Para ilustrar este fenómeno, por exemplo, a Bélgica viu um aumento de 769% de eutanaziados nos primeiros 10 anos completos (2003-2013) depois da entrada da lei em vigor no ano de 2002. Na Holanda os casos de eutanásia têm aumentado cerca de 10% cada ano, com 6091 eutanásias em 2016 a representar mais de 4% das causas totais de morte nesse país. Vejo o Canadá caminhar na mesma direcção e os números relativos ao Luxemburgo e à Suíça são igualmente preocupantes.

Para além de uma cuidada análise dos números e daquilo que estes representam, esta questão exige de nós uma abordagem humana e socialmente responsável. Por isso é que eu, sendo parte de uma sociedade civil que também é chamada a reflectir sobre a eutanásia, convido V.Exa. a comigo pôr-se na pele:

- do Doente, que está frágil e vulnerável, com dores e em sofrimento, mas intacto em dignidade humana;
- da Família e outros Cuidadores, que acompanham o Doente naquele momento de grande fragilidade e vulnerabilidade, dando-lhe ânimo, paz e esperança para combater o sofrimento;
- do Médico, em quem o Doente confia para ser tratado, das dores aliviado e - se possível - curado;
- do Estado, que tem o dever de acudir pelo menos aos mais fragilizados da sociedade, dando um enquadramento legal que os protege e, se chamado, agindo como entidade de Bem;
- do Legislador, que legisla tendo em conta o Bem Comum.

Senhor Deputado, neste caso, o Bem Comum é realmente coincidente: o bem do Doente, da Família e outros Cuidadores, do Médico e do Estado é a protecção da vida humana. A hipótese da eutanásia destrói a relação de confiança entre o Doente e o seu Médico. A hipótese da eutanásia acrescenta ao Doente sofrimento e o peso da dúvida na altura em que está mais vulnerável. Se efectuada, a eutanásia não elimina o sofrimento, elimina sim uma vida e aumenta ainda mais o sofrimento de quem cá fica. A eutanásia é uma desistência de tratar, cuidar, acompanhar. E no entanto, os cuidados paliativos nunca foram tão eficazes e avançados como são hoje.

Infelizmente, nos últimos anos o Estado tem-nos falhado em várias áreas. Mas o Estado é feito de pessoas e errar é humano. O que não posso conceber é que o Estado se demita deliberadamente de uma obrigação fundamental sua, a de zelar pelo Bem Comum e a protecção legal dos mais fracos.

Espero de V.Exa. que legisle em prol do Bem Comum.

Obrigado pela atenção e os melhores cumprimentos,
António Vieira da Cruz, Português, 32 anos.

Não me estou nas tintas para o papel


(Originalmente publicado no "Jacaré parado vira mala" no dia 7 de Abril de 2018)

Há quem se sinta nu quando sai à rua sem relógio no pulso ou se vestiu as calças sem o cinto. Outros (tantos!) entram em curto-circuito se o telemóvel ficou esquecido algures. Eu há quatro coisas que trago sempre comigo: fio ao pescoço com medalhas e cruz ao peito, terço no bolso, caneta e bloco de notas A6 na mão. É assim há muitos anos, e mais recentemente trago também um pequeno canivete que a Margarida me deu. Ando, portanto, bem protegido com as armas da fé, pena e espada.

Cidade de Samarcanda
Agora estou a ver se gasto o meu actual bloco de notas, que não é grande espingarda pois absorve demasiado a tinta permanente e a sua aderência torna a minha letra desarmoniosa. Para as refinadas civilizações do Extremo Oriente que apreciam a arte da caligrafia, como a Chinesa e a Japonesa, o calibre do papel importa tanto como a qualidade da tinta. Também para as gentes da Ásia Central e do Médio Oriente, que durante tantos séculos viram as suas terras serem atravessadas pelas rotas da seda, o papel é um produto apreciado. No século XV, auge das antigas rotas comerciais terrestres, o Bibliotecário de Mashad (Pérsia) Simi Nishapuri dizia que o melhor papel para a caligrafia era produzido em Damasco (hoje na Síria), Samarcanda (hoje no Uzbequistão), Bagdade (hoje no Iraque) e Amol (hoje no Irão). Segundo ele, o papel de outros lugares seria por regra “grosseiro, poroso e impermanente”.

Este saber só me traz inquietação, pois não dá jeito ir a esses lugares tão instáveis buscar papel como deve ser e hoje em dia a rota da seda parece estar mais concentrada em oleodutos e na captação de investimento chinês para infraestruturas do seu império em plena expansão. As rotas da seda, muito por culpa dos nossos antepassados navegadores, passaram a ser mais marítimas do que terrestres. Grande parte destas cidades históricas da Ásia Central entraram em decadência e nunca recuperaram o esplendor daqueles dias.

Mas lá por não conseguir o papel de Samarcanda, não vou deixar de passar a estar mais atento aos blocos e resmas que compro. Não quero que a pobre qualidade do papel prejudique a forma ou até o conteúdo de uma carta que escrevi. Se sou tão exigente com o vinho, o chá ou o tabaco, não vejo razão para não querer bom papel, tintas e canetas para dar à escrita a importância que ela merece e que me retribui com tanto prazer!

sábado, 3 de fevereiro de 2018

Tal como Atenas na Liga de Delos, a UE castiga quem sai

(Originalmente publicado no "Jacaré parado vira mala" no dia 3 de Fevereiro de 2018)

Como Tasso ou Naxos na Grécia Antiga, o Reino Unido deve ser punido pelo Brexit
por Peter Jones

Nota prévia: sou leitor assíduo da revista “The Spectator”, uma publicação inglesa de grande qualidade e fundada em 1828. A revista tem uma visão tendencialmente liberal-conservadora, é aberta ao diálogo, e versa principalmente sobre política, arte, cultura, filosofia e actualidade. Uma das colunas que leio sempre é “Ancient and Modern”, do classicista Peter Jones, e na edição de dia 9 de Dezembro saiu o seguinte texto que traduzo livremente para Português.

Naxos, ilha de Naxos, Grécia

Like Thasos or Naxos in ancient Greece, Brexit Britain must be punished

A União Europeia não quer que o Reino Unido saia e irá fazer tudo para o impedir. Cada dia que passa, fica mais claro que os Brexiteers não poderão mais esperar um acordo de saída benéfico ou até remotamente satisfatório.

Tal como a UE, os Atenienses sabiam como tratar os “desistentes”. Depois de expulsar os poderosos Persas em 479 a.C., os Atenienses propuseram a todas as cidades-estado gregas que se unissem para impedir que os Persas voltassem novamente. O meio de o conseguir seria uma força naval pan-Helénica que patrulhasse o Mar Egeu constantemente. Essa força seria liderada por Atenas, pois esta era a principal potência marítima da Grécia Antiga.

Para que tal acontecesse, foi acordado que as cidades-estado contribuíssem anualmente com uma soma de dinheiro ou com navios e Atenas ficava incumbida da tarefa de construir uma armada que garantisse a segurança dos gregos na região. O historiador contemporâneo Tucídides relatou que o primeiro membro da Liga a revoltar-se foi a ilha de Naxos, cerca de 468 a.C.. Não quis ou não pôde arranjar o dinheiro ou os barcos requeridos, mas “os Atenienses insistiram que as obrigações tinham de ser estritamente cumpridas”.

Uma vez que muitas das cidades-estado preferiam dar dinheiro em vez de serviço militar na forma de homens e navios,  Atenas pôde alargar a sua própria frota e assim intimidar quem quer que se revoltasse. Naxos foi atacada e forçada a reentrar na Liga. Em 365 a.C. o mesmo destino esperava a ilha de Tasso: as suas muralhas defensivas foram destruídas, a sua marinha rendeu-se, uma indemnização foi imposta e perderam o controlo sobre as suas minas de ouro.

A análise de Tucídides sobre a situação é que, os estados em posição de poder, usam-no em qualquer situação por três razões — status, medo e interesse próprio. E isso foi o que conduziu Atenas a agir desta maneira. Até Péricles admitiu que o império era “como uma tirania”.

A União Europeia não é uma tirania, mas a sua motivação é idêntica. Mais, tal como Atenas, a UE tem a vantagem do seu lado. Por esta razão é que recusa negociar tudo o que não esteja nos seus próprios termos. Porque haveria de fazer de outra forma? Tal como os Atenienses, a UE tem o dever de proteger os seus próprios interesses. Não tem nada que proteger os nossos.

terça-feira, 23 de janeiro de 2018

As minhas viagens pelo chá

(Originalmente publicado no "Chás Andorinha Blog" no dia 6 de Dezembro de 2017)
(com republicação editada na "Alameda Digital" no dia 22 de Dezembro de 2017)


As primeiras foram da sala para a copa e da copa para a sala, era eu criança e ficava a ver a Mãe a escaldar o bule e a preparar as chávenas, o pão e os scones, as bolachas de água e sal, a manteiga, o doce de tomate e o mel. Um pouco mais crescido, já com alguns escudos no bolso, a viagem era já fora de casa mas ainda dentro de Lisboa, e acompanhando os Pais e os irmãos ia à Casa Pereira na Rua Garrett e comprava chá para no Natal dar às tias. Passou a ser o meu presente para as minhas tias cada ano, não sei se as tias deram conta no meio de tantos presentes e sobrinhos…

Casa Pereira – R. Garrett 38, Chiado
Portugal: sempre gostei de chá, chá a sério, e não tanto das infusões de outras plantas aromáticas. Em casa cresci a tomá-lo sem açúcar, muito raramente com um farrapinho de leite para o arrefecer e, de vez em quando, a garganta doía-me e eu juntava ao chá uma colherinha de mel e uma lasquinha da casca do limão. Mas o chá que na altura encontrávamos em Portugal, mesmo se em folhas soltas para fugir à sem-saboria das saquetas, era todo muito igual: pretos e verdes, parecidos entre si e de qualidade mediana.

Qatar: o primeiro contacto que tive com uma cultura de chá diferente foi há uns anos no Qatar, onde fui recebido logo no hotel com um copo de prata gravada com motivos árabes que continha um chá quente e ao mesmo tempo refrescante, tal como é hábito nestes países onde as pessoas se socorrem da menta para momentaneamente esquecer todo aquele calor. Assim se faz aquele que por nós é chamado de “chá marroquino”: chá verde (1/5 a 1/3) e menta (2/3 a 4/5). Esta bebida pode ser encontrada no Norte de África, no Médio Oriente e em zonas da Ásia, sendo comum no mundo árabe. A mistura é muito simples e pode facilmente ser replicada em sua casa.

Igreja do Santo Rosário, Dhaka
Bangladesh: em Bengala encontrei outra cultura do chá. No Bangladesh o chá que se consome é sobretudo produzido na região de Sylhet, no nordeste do país, perto do Assam (Índia) que tem chás parecidos e muito interessantes. Fui ao Bangladesh mais que uma vez e percorri-o de lés a lés, viajando em condições climatéricas e sanitárias que não ouso promenorizar diante de pessoas mais impressionáveis. Muitas vezes fui de noite em autocarros velhos que quase se desconjuntavam a cada buraco que a estrada de lama nos oferecia… e a todo o momento, em cada paragem nocturna ou diurna, o chá preto de Sylhet com leite e açúcar era presença constante, e por vezes também lhe juntavam especiarias para ficar uma espécie de “chai”. É uma bebida quentinha, muito aromática e reconfortante. Só que, quando o chá é bom, faz pena juntar-lhe outros sabores que lhe tapam o aroma original.  Mas concordo que muitas vezes o chá não é lá grande coisa, e aí então faça-se como os ingleses ensinaram e ponha-se leite e açúcar para disfarçar todos os seus defeitos!

Açores: mais tarde, casei com a minha querida mulher. De lua-de-mel passámos por São Miguel, nos Açores, uma ilha idílica onde estão os campos ondulados de onde se abastecem marcas como a Gorreana, o Porto Formoso e o Chá Canto. Lá visitámos as plantações, lindas, com os azuis do mar e do céu a costurar o horizonte com as fiadas de arbustos de chá verdinhos… Vale bem a pena visitar estas plantações e casas, e tomar um chá a olhar para aquele pequeno pedaço de paraíso. Também no Minho houve experiências com a cultura do chá no século XIX, entretanto extintas, e penso que é importantíssimo para o património cultural de Portugal que nos Açores se continue a plantar, colher, processar e comercializar chá.

No entanto, não sendo açorianos, a minha mulher e eu decidimos experimentar outra forma muito portuguesa de comercializar o chá: cruzar mares e oceanos para os ir buscar às melhores plantações que há do outro lado do mundo!

Casa de chá com vista, Longjing
China: mais tarde, por razões de trabalho, comecei a ter que ir à China com bastante frequência. Mas que choque, mas que diferença! Os chás que lá provei eram uma completa novidade para mim, e não tinham quase nada a ver com os que sempre encontrei nas lojas de Lisboa. Como é possível que a partir das mesmas folhas de Camellia sinensis se façam chás de aromas tão diversos sem lhes juntar nenhum outro elemento? E porque é que estes chás nos foram vedados no “ocidente”? Se era assim em Hong Kong e Macau, como seria nas regiões produtoras? Eu estava muito impressionado com estes chás e tinha que tirar a limpo todas estas questões. Para investigar as respostas, visitei várias regiões do Sul da China onde se produzem chás muito especiais. Cada um desses sítios daria (e dará!) um artigo, e este já vai longo. Mas aqui fica um pequeno apontamento sobre algumas regiões que me marcaram:

Plantação de chá, Longjing
Zhejiang: o único Museu Nacional do Chá na China, com selo oficial, fica nos campos de Longjing, província de Zhejiang. Cruzando o famoso Lago Oeste da cidade imperial de Hangzhou, um pouco mais adiante, numa planície rodeada de lindas montanhas, está o museu em plena plantação de chá atravessada por um pitoresco ribeiro. É um museu muito completo que vale bem a visita, tem bastante informação, boas lojas, livraria e casas de chá para experimentar o ex-libris deste lugar: Longjing é um chá verde delicadíssimo, feito com pequenas folhas inteiras e espalmadas, e muito tenras após a infusão. A partir destas folhas também se faz o molho de um dos pratos típicos regionais: os suculentos camarões em molho de chá verde. Vale a pena visitar as aldeias de Longjing 龙井, Mei Jia Wu 梅家, as inúmeras estátuas budistas das grutas de Fei Lai Feng 飞来峰, o Lago Oeste 西湖com os seus imponentes pagodes e a cidade de Hangzhou 杭州市.

Caixas de munições ou canteiros?
Fujian: desta província chegavam quase todos os (poucos) chás da China que se podiam encontrar numa loja especializada de Lisboa nos anos 90. Em Fujian, há duas zonas especialmente conhecidas pela produção de chá: a região do Monte Wuyi 武夷山 de onde provêm bons chás oolong e conhecidos chás pretos como o Da Hong Pao e o fumado Lapsang Souchong, chás estes que estariam entre os que foram atirados ao mar na revolta do Boston Tea Party em 1773; e a região de Anxi 安溪, que se intitula de “capital chinesa do chá” por produzir excelentes chás brancos (a par de Fuding 福鼎, mais a Norte) e por ser a origem do extraordinário chá oolong Tie Guan Yin, um dos meus favoritos. Para além destes lugares, tenho saudosas memórias de Xiamen 门市 (ou Amoy) e da pequena ilha de Gulangyu 鼓浪屿 em frente, com as velhas moradias de mercadores e diplomatas e que outrora foi chamada de “a milha quadrada mais rica do mundo” tal era o volume de negócios que ali se fazia entre chineses e ocidentais. Uma palavra especial para Quanzhou 泉州 (a que nós, portugueses, antigamente chamávamos de Chincheu), onde se terá inventado o cetim e onde começava uma das mais célebres rotas da seda. Hoje é uma cidade portuária com cerca de 7 milhões de pessoas, moderna mas cheia de História e de património. Estive 4 dias nesta cidade, visitei monumentos e templos de várias religiões, pedalei vários quilómetros de bicicleta, subi ao Monte Qingyuan 清源山 com belas vistas sobre a cidade, não parei de me surpreender com a cultura daquela cidade milenar e fiz bons amigos. Hei-de voltar.  
Estátua de Lao Zi, Quanzhou

Plantação de chá, Yunnan
Yunnan: nas bordas dos Himalaias, a província montanhosa do Yunnan é onde tudo começou no que toca ao chá. Diz a lenda que a nossa bebida preferida foi descoberta em 2737 a.C. nesta região pelo Imperador Chinês Shen Nong. Por aqui passou a mítica “Antiga Rota do Chá e dos Cavalos”, que levava aos tibetanos chá da China e trocava-o por cavalos do Tibete segundo as necessidades chinesas. O chá mais conhecido do Yunnan é o Pu’er (temos 2), que se pode apresentar em folhas soltas ou prensado em discos ou pequenos tijolos para facilitar o transporte, e envolvido em papel que não raras vezes é artisticamente decorado. Trata-se de um chá escuro, fermentado, que se pode guardar como se vinho de cave se tratasse, pois por vezes aperfeiçoa os seus sabores com o tempo, ganhando suavidade e uma maior elegância de aromas. Os chás de Menghai e Xishuangbanna西双版 têm boa fama, mas é a terra de Pu’er 普洱市que dá o nome ao chá. As plantações dos nossos chás Pu’er ficam num lugar de difícil acesso, um pouco mais a Norte, a uma hora de Eshan 峨山 e a cerca de 2300m de altitude. Numa próxima oportunidade quero visitar os lugares históricos de Lincang 临沧市, Dali 大理 e Lijiang 丽江市, que são sítios dos quais ouvi falar muito bem. Mas marcou-me pela beleza natural quando visitei Shilin 石林, a “floresta de pedra” impressionante, não muito longe da capital de província Kunming 昆明. Seja no campo ou na cidade, fica também na memória a quantidade de pessoas que, de minorias étnicas e falando línguas próprias, vão na rua vestidas com coloridos trajes foclóricos.


Junco à noite, Hong Kong
Macau e Hong Kong: Já perdi a conta das vezes visitei Hong Kong e Macau, foi certamente mais que uma mão cheia delas. São lugares diferentes mas próximos e em constante relação. Por serem economias abertas ao mundo, aqui podem provar-se os melhores chás da China e de outros lugares como a Índia, o Ceilão, a Formosa, o Japão… são cidades onde os melhores produtos encontram as merecidas montras para serem expostos. As casas de chá na região de Cantão merecem profunda análise sociológica, pois ali se podem observar as interacções entre gerações, as hierarquias sociais, os costumes, a hospitalidade e a etiqueta. Todo o bom português deve visitar Macau e Hong Kong pelo menos uma vez na vida. Mas se gostar de chá, para além de procurar boas lojas e casas de chá, vale a pena visitar a Casa Cultural de Chá em Macau e a Flagstaff House Museum of Tea Ware em Hong Kong, que mostra ao visitante peças excepcionais como bules, xícaras e demais instrumentos e obras de arte relacionadas com a cultura do chá.

Casa de Nagatani Soen, Uji
Japão: o Japão é uma história diferente. Este povo, talvez pela sua condição insular, teve tempo e a oportunidade de olhar para si com mais cuidado e meditou durante séculos sobre as coisas de que dispunham. Não encontro outra razão que explique como a cultura do chá foi ritualizada e elevada a um estado artístico cuja estética não encontra entre nós rival. A cerimónia do chá é a imagem mais óbvia, mas o cultivo, a colheita, o processamento, tudo é feito com sabedoria e beleza. A leitura de Wenceslau de Moraes e laços de amizade já existentes precipitaram o destino: tínhamos de trazer também para Portugal os chás especiais do Japão.

Quioto: escrevia em 1905 o Cônsul de Portugal em Kobe acerca das plantações de chá em Uji 宇治que “mercê da riqueza do torrão, que de então até hoje o chá daquele sítio tem sido celebrado como o melhor de todo o Império; dele exclusivamente se serve o imperador” (Wenceslau de Moraes, in “O Culto do Chá”). Este chá tinha de estar em Portugal! Visitei as plantações de Uji, perto de Quioto, e mandei-o vir.

Aprendendo em Umegashima
Shizuoka: fui igualmente a outras plantações e fábricas extraordinárias, nomeadamente na região de Shizuoka 静岡県. Não é qualquer marca que vos pode apresentar um “sencha” do Monte Fuji tão bom como o nosso; ou que arrisque uma experiência como o Aires, um chá preto fumado como o chinês Lapsang Souchong, mas feito no Japão e substituindo a agressividade do pinho pela elegância da madeira de cerejeira… Mas o meu preferido é o chá verde da mais alta plantação do Japão: Umegashima 梅ケ島, a 1000m de altitude. Não voltarei a subestimar a capacidade de um chá me emocionar. Eu já provei muitos, mas este mexeu realmente comigo e cometemos a loucura de o trazer também. Temos todo o Japão numa xícara.

Mundo: também sei de vários sítios onde se planta bom chá e ainda não fui. Sonho por exemplo em ir a Uva na Ilha do Ceilão (Sri Lanka) conhecer suas plantações e provar aquele chá preto local tão consistente e elegante, ou a Darjeeling (Índia) para ver os seus famosos jardins de chá, e conto também um dia visitar as montanhas da Ilha Formosa (Taiwan) onde se produzem chás oolong extraordinários. No que toca a chá a minha curiosidade não tem fim, mas sinto-me privilegiado por tudo o que já pude ver.

Um óptimo presente de Natal
As histórias do chá são para mim roteiros de viagens, nem seja ao final do dia quando me sento no conforto da sala e visito uma memória antiga, que surge qual D. Sebastião por entre o nevoeiro e os aromas que se libertam da xícara de chá que elevo. O chá, como os livros, leva-nos a correr mundo sem serem necessárias as inconveniências de descolar e aterrar num avião. Daí o lema que nos acompanha:

Chás Andorinha – viaje pelo requinte!

Os nossos Chás Andorinha são mais que simples chás, cada um tem uma história e uma origem especial. Sugerimos assim que neste Natal dê chá, que é um presente tão bom! Para saber mais acerca da história de cada chá, por favor consulte: http://chasandorinha.pt/#chas

O vau



(Originalmente publicado no "Jacaré parado vira mala" no dia 22 de Janeiro de 2018)

Há uns meses que o meu carro de família é um Ford. Gosto dos EUA, tenho os automóveis americanos em boa conta, e a caligrafia no logotipo da Ford transporta-me para tempos mais antigos em que Henry Ford fundou a sua empresa e introduziu novas prácticas industriais que fizeram escola até hoje. E já que ando num Ford, pensei que devia ir à procura do significado deste apelido. Claro que fui deixando essa tarefa para mais tarde, mas o nome saltava-me à vista de vez em quando. Com o mesmo apelido, apareceram-me outros notáveis como o 38º Presidente dos EUA Gerald Ford, os realizadores John Ford e Francis Ford Coppola, o actor Harrison Ford e outros. E com um nome mais composto, o elemento “ford” também aparecia em Robert Redford ou no nosso Marquês de Campo Maior, também conhecido por William Carr, Visconde de Beresford.

Dinsford - "Os 101 Dálmatas"

Vendo os antigos desenhos animados dos 101 Dálmatas, a certa altura a acção passa por uma aldeia fictícia chamada Dinsford, e foi aí que despertei para os “fords” enquanto toponímia. É claro que há vários sítios: Dunsford, Beresford, Bedford, Redford… e outros mais conhecidos como Stratford-upon-Avon (a terra de Shakespeare), e lugares universitários como Stanford (Califórnia, EUA) e Oxford (Inglaterra). Oxford é o vau (ford) onde passavam os bois (ox). Já Cambridge, a universidade britânica que rivaliza com Oxford há mais de 800 anos, não tem vau mas uma ponte (bridge) para atravessar o rio Cam. Ambas têm uma relação profunda com a água, como se vê na corrida anual de barcos a remo que disputam entre si na categoria “Eights”.

Mas o que quer dizer ford? Ford é um vau, que segundo o Lello Universal (Lello & Irmãos) se define da seguinte maneira:

Vau, s. m. (lat. vadu). Sítio de um curso de água onde se pode passar a pé ou a cavalo: “Passar um rio a vau”. Baixio, parcel. Ensejo, oportunidade: “Ter vau para falar a alguém”. “Madeira a vau”, madeira em jangada. Pl. Naút. Traves em que assenta a coberta dos navios. Paus cruzados nas gáveas.

"Le Gué" - Claesz Pietersz Berchem (1650) - Museu do Louvre


Também em Portugal há lugares com este nome, por exemplo a Freguesia do Vau que abrange toda a margem sudoeste da Lagoa de Óbidos, ou a Praia do Vau em Portimão e outra praia com o mesmo nome no Rio Paiva, Concelho de Arouca. E esta semana que passou, no Canhão da Nazaré, um português chamado Hugo Vau conseguiu a proeza de surfar uma onda com cerca de 35 metros de altura, provavelmente batendo o record do seu amigo Garrett McNamara.

Esta investigação não podia esperar, avancei um pouco mais. Se “vau” em latim se diz vadu, será que a capital do Principado do Liechtenstein (Vaduz) tem essa etimologia? Procurei, abri livros e sites, mas não cheguei a qualquer conclusão. O Rio Reno corre ali perto, com um caudal já considerável, e pode ser que venha daí pois é insignificante a dimensão dos outros ribeiros que correm da montanha do castelo em direcção ao Reno. Um pouco mais adiante, depois de delimitar as fronteiras da Suíça com o Liechtenstein e com a Áustria, e após passar a bela Constança (Konstanz) na Alemanha, o Reno volta a entrar na Suíça e encontra um vau em Feuerthalen. Feuer?

Se vau em inglês é ford, também é interessante ver como será noutras línguas e se tem a mesma influência nos nomes das terras. Talvez o castelhano tenha preservado melhor o latim vadu, chamando-lhe “vado”. Quem já estacionou o carro em Espanha certamente já reparou que nos sinais para não estacionar defronte a uma garagem está a explicação “vado permanente”. Aqui, vado não será propriamente um baixio ou banco de areia num rio, mas deverá ser entendido como passagem – o que faz todo o sentido. Em francês diz-se “gué”, em italiano “guado”, em alemão “furt”. Furt? Frankfurt am Main! Francoforte é “o vau dos Francos sobre o rio Meno”. Da mesma forma, em flamengo e holandês temos “voorde” e “foort” a compôr os nomes de Vilvoorde (Bélgica), Amersfoort (Holanda) e tantos outros. Nessas línguas podemos encontrar outras palavras acabadas em -tricht, -trecht, -drecht (do latim traiectum) que indica um trajecto ou passagem em forma de vau. Maastricht é “o vau sobre o rio Mosa” (Meuse em francês, Maas em Holandês), e também Ultrecht e Dordrecht são vaus.

"Fox hunting crossing the ford" - George Wright (1860-1942)

Um pouco mais abaixo, na Alemanha próxima do Luxemburgo, temos a cidade de Tréveris com a sua imponente Porta Nigra e que nos acrescenta mais qualquer coisa a esta história dos vaus. Tréveris (Trier em alemão, Trèves em francês, Augusta Treverorum em latim) era habitada pelos Tréveros, um povo belga que mais tarde foi expulso para Norte pelos Francos. Os Tréveros ajudavam os viajantes a atravessar o Rio Mosela e tinham por deusa Ritona, a deusa celta que protegia... os vaus!

Sobre a simbologia do vau e Ritona, transcrevo o que diz o Dicionário dos Símbolos de Jean Chevalier e Alain Gheerbrant (Ed. Teorema):

Vau. O vau, em todos os textos célticos, é o lugar obrigatório dos combates singulares e é nos vaus que Cùchulainn mata a maior parte dos guerreiros que os irlandeses enviam contra eles. O vau é, portanto, acima de tudo, um ponto de encontro ou um limite. Muitas localidades da Irlanda são vaus, a começar pela capital actual Dublim, Baile Atha Cliath, a cidade do vau das caniçadas (WINI, 5, passim).

As descobertas arqueológicas trouxeram frequentemente à luz do dia armas afundadas nos vaus, o que leva a provar que o costume irlandês do combate a vau, em celta continental e britânico, se liga ao da passagem e da corrida. Existiu uma deusa Ritona, atestada pela epigrafia da época romana, que chegou a ser considerada como a especialista e padroeira dos combates de vaus. O herói irlandês Cùchulainn está num combate num vau quando a deusa da guerra se vem enrolar na sua perna sob a forma de uma enguia (LOUP, 186).

O vau simboliza o combate por uma passagem difícil, de um mundo para o outro, ou de um estado interior para outro estado. Reúne o simbolismo da água (lugar dos renascimentos) e das margens opostas (lugar das contradições, das travessias, das passagens perigosas).

A propósito de combates em vaus, a primeira memória que me surge é a de Robin dos Bosques a lutar com João Pequeno num vau. “Robin Hood: Prince of Thieves” não é o meu filme preferido sobre o Robin dos Bosques, mas esta cena ficou-me.



E outro duelo de vau que recordo é o de Rambo - First Blood.

Voltando às etimologias, não consta que Roma, Florença ou Verona tenham o elemento “guado” (vau) no nome. Mas é sabido que Roma foi construída num vau do Tibre, Florença num vau do Arno e Verona e Trento em vaus do Rio Ádige. Ou seja, a importância dos vaus é mais que toponímica ou do mais que possa parecer. Há uma história dos vaus que está por contar.

Por fim, bem pudemos ver que a etimologia é como qualquer vau: uma passagem que dá acesso à outra margem, de onde se ganha nova perspectiva sobre as coisas. E também os perigos da etimologia são idênticos aos do vau: se a corrente é forte, não nos livramos de ir parar a sítios que não prevíamos. Mas para quem tem curiosidade sobre o desconhecido, arriscar não é problema.

domingo, 21 de janeiro de 2018

No meu tempo...

(Originalmente publicado no "Jacaré parado vira mala" no dia 14 de Janeiro de 2018)


"No meu tempo..." - será que dizem todos a mesma coisa, os velhos? "No meu tempo é que era viver"; "no meu tempo é que era amar"; "que sabeis vós do que é a vida?" - à primeira vista, tudo lugares comuns. É um engano: embora pareça que os velhos dizem todos a mesma coisa, a única coisa que se repete é aquilo que os novos dizem sobre o que dizem os velhos!

É que "no meu tempo" não é para se interpretar à letra e, mesmo que fosse, teriam dado conta que o tempo de que se fala não são os anos '40, '70 ou '90, pelos quais determinada geração de pessoas passou em jovem, mas sim o tempo em que aquela pessoa concreta viveu momentos extraordinários que recorda... Trata-se do "seu tempo", e não "o tempo deles"!

Mas, ao viver agora, este tempo não é "seu" também? Bom, poderíamos concordar que sim só por respeito à coerência do pensamento. Mas "no meu tempo" é uma fórmula poética que remete para memórias que só quem narra conhece, e apenas ele saberá caso entretanto avalie que o revirar de olhos do jovem que o ouve não merece mais escuta.

E vou ser um pouco mais inconveniente ainda: o tempo nem sequer a nós pertence. Quando usamos relógio, podemos ter a ilusão que o controlamos, mas não é por parar o relógio que o tempo deixa de escapar na sua cadência própria, indiferente às nossas vontades de o apressar, retardar, parar, reviver ou saltar. Nesse aspecto, a vida é mais simples na sua complexidade que o simplismo complicado de uma box de televisão, onde tudo se soluciona e comanda pressionando os símbolos:


O tempo a Deus pertence. Aulo Gélio dizia que a verdade é filha do tempo - veritas filia temporis -, talvez  como quem diz que a verdade virá ao de cima como o azeite na água. Mas a verdade já o era antes do tempo passar e, quanto muito, o tempo apenas permitiu que a verdade fosse conhecida. Pelo contrário, o tempo é filho d'Aquele que é a Verdade, bem como o Caminho e a Vida. Deus é o único Senhor dos tempos, nós só fazemos o que podemos no tempo de que dispomos.

"No meu tempo" é, assim, a tal forma poética que indica não um tempo que me pertenceu, mas os fragmentos da memória dum tempo extraordinário que vivi e que guardo e cuido no cofre do meu coração.

"No meu tempo..." - dirão todos a mesma coisa, os velhos? Nada disso, antes pelo contrário! Cada velhinho está a dizer uma coisa bem diferente, muito valiosa e, mais que rara, única. Se porventura duvidardes, "voltamos a falar daqui por uns tempos"...

Balanço de 2017

(Originalmente publicado no "Jacaré parado vira mala" no dia 7 de Janeiro de 2018)



Fantasia 2000



(Originalmente publicado no "Jacaré parado vira mala" no dia 15 de Novembro de 2017)

Pais deste mundo:

Venho contar-vos uma grande descoberta que fiz apenas recentemente. Chama-se Fantasia 2000 e é uma animação da Disney que foi lançada há já 18 anos. Eu sabia que estes desenhos existiam, mas nunca lhes dei muita importância. Há meses atrás estava numa loja e a minha filha mais velha chamou a atenção para o Rato Mickey que estava na capa dum DVD. Peguei na caixa, li a contracapa que prometia combinar imagens animadas e boa música, e resolvi comprá-lo. Foi uma das notas encarnadas mais bem gastas de sempre.

Donald e Margarida em Fantasia 2000

A música que acompanha o DVD é de Ludwig van Beethoven, Ottorino Respighi, George Gershwin, Dmitri Shostakovich, Camille Saint-Saëns, Paul Dukas, Edward Elgar e Igor Stravinsky. A interpretação é da Chicago Symphony Orchestra e da Philharmonia Orchestra. E os desenhos são de vários artistas que a Walt Disney convidou, pondo as animações ao serviço da música, acompanhando-a com ritmo e histórias bem contadas.

O DVD de Fantasia 2000

Uma das minhas peças favoritas é “Rhapsody in Blue”. Passa-se em Nova Iorque com música de Gershwininterpretada pela Philharmonia Orchestra e com desenhos de Al Hirschfeld que cruza com maestria as histórias de várias pessoas à procura do seu lugar na cidade e no mundo. Aqui está:


Experimentem pôr estes desenhos aos vossos filhos e verão como é bom para todos. A arte é intemporal, os vossos filhos irão encantar-se com as animações e é belíssima a música que vos entrará em casa. Podem ver este entretido filme com eles ou ganhar esse precioso tempo para tomar um chá e ler um livro em paz.

O que fica da semana que passou



(Originalmente publicado no "Jacaré parado vira mala" no dia 12 de Novembro de 2017)


O Presidente dos EUA Donald Trump está a terminar uma longa viagem ao Extremo Oriente, onde pôde visitar tanto o recém-reeleito Primeiro-Ministro do Japão Shinzo Abe como o recém-renomeado Presidente da R.P. China Xi Jinping. Embora todos convirjam na preocupação que é uma Coreia do Norte nuclear, os desafios domésticos que enfrentam são muito diferentes. Com a militarização do Japão e o sucesso da Abenomics, com a concentração do poder imperial em Xi Jinping e o avanço da iniciativa “uma faixa, uma rota”, com os testes balísticos e provocações constantes da Coreia do Norte, com todos a crescer, teme-se pelo choque. Kim Jong-un terá chamado Trump de “velho”, ao que este ripostou no twitter que o norte-coreano seria “baixo e gordo”. O actual presidente não é da mesma escola de Reagan, que quando igualmente confrontado com a sua idade avançada defendeu-se de forma bem mais graciosa respondendo “I will not make age an issue of this campaign. I am not going to exploit, for political purposes, my opponent's youth and inexperience.” Outros tempos!
 
Shinzo Abe, desde 2012 o Primeiro-Ministro do Japão

Por falar noutros tempos, acompanho com moderado interesse o recente rol de acusações de assédio e abusos sexuais em meios como o do cinema e da política. Mas ao acender a TV verifico que os filmes que passam são quase todos violentos ou sexualmente explícitos. Grande parte dos filmes que saem de Hollywood só podem ter sido concebidos por tarados. Qual é o espanto? Mas ainda não vi ninguém falar de Bruxelas e Estrasburgo, onde as assessoras, assistentes e estagiárias são escolhidas a dedo. Da mesma forma, lobistas, jornalistas e diplomatas têm instruções para aproveitar os pontos fracos dos políticos e burocratas que querem influenciar, corrompendo-os com dinheiro, promessas, sedução, álcool, drogas, ou chantagem. No assédio sexual há uma espécie de coação explícita ou até implícita, que se manifesta através uma relação desigual de poder. Mas o poder não está sempre onde é mais óbvio. Além do mais, e por muito que custe às feministas ouvir, o decoro na forma de vestir e de estar ajuda a evitar ambiguidades e é a primeira protecção contra os abusadores. As feministas queimadoras de soutiens são tão filhas da revolução sexual dos anos 60 como os machistas daPlayboy, e juntos quiseram abolir todas as barreiras morais e sociais que impediam os depravados de andar de rédea solta. Seria interessante que estes casos servissem para pensarmos na urgência de recuperarmos os valores da castidade, do decoro e do cavalheirismo.
 
Amadis de Gaula, exemplo de cavalheirismo

Aqui em Portugal, houve um acordo de governo entre o PS e o BE para a Câmara Municipal de Lisboa: por assim dizer, o PS fica com o dinheiro e o BE com os valores. Uma vez mais, o BE imporá a todos a sua agenda fracturante a partir de uma base eleitoral mínima. Também vai aquecendo o duelo de Rio e Santana no seio do PSD, duelo esse que é de ideias e de personalidades: Santana é instável e despesista, mas é patriota e cristão; Rio é bom de contas e sério, mas é a favor da regionalização e de algumas causas fracturantes. A Web Summit é uma anedota, mas em compensação os organizadores serão assombrados pelos nossos melhores fantasmas. Falando de fantasmas, fui ver ao cinema a “Peregrinação” de Fernão Mendes Pinto e realizada por João Botelho. Não estava mal para o curto orçamento e limitações técnicas que o cinema português tem, mas não gosto destas histórias contadas com imensos flashbacks e flashforwards, cansa-me. De facto, adormeci. As façanhas na “Peregrinação” são tão extraordinárias que se contava a velha piada do “Fernão, mentes? Minto.” Fernão Mendes Pinto é um grande herói português e é plausível que alguns daqueles acontecimentos sejam verdadeiros. Não sejamos como Fernando Rosas, para quem Portugal nada tem na sua História que seja digno do nosso orgulho, menorizando os grandes feitos ou colocando-os em dúvida. A “Peregrinação” diz tanto sobre nós quanto a sua recepção. Não estará tudo perdido se entre exagerados e cépticos se salvar alguma coisa.

Cláudio da Silva é Fernão Mendes Pinto em "Peregrinação"

Por fim, dei por mim a fazer uma lista de algumas personalidades sub-40 que já são importantes no mundo quotidiano e sê-lo-ão ainda mais nas próximas décadas: Emmanuel Macron (França, 39 anos), Jared Kushner(EUA, 36 anos), Ivanka Trump (EUA, 36 anos), Príncipe William (Reino Unido, 35 anos), Kate Middleton (Reino Unido, 35 anos), Mark Zuckerberg (EUA, 33 anos), Kevin Systrom (EUA, 33 anos), Príncipe Mohammad bin Salman (Arábia Saudita, 32 anos), Sebastian Kurz (Áustria, 31 anos), Hugh Grovesnor (Reino Unido, 26 anos), e os Jacarés (Portugal, 29-30-31 anos).