segunda-feira, 20 de março de 2017

Impressões de uma viagem à província de Fujian 福建 (partes I, II, III e IV) - JPVM

(Textos originalmente publicados no "Jacaré parado vira mala" nos dias 18 e 19 de Fevereiro, e 05 e 13 de Março de 2017)


Sábado, dia 18 de Fevereiro de 2017
Lisboa

O meu dia começa com um toque de despertador às 3 da manhã. Já tinha tomado um banho na noite anterior para ir um pouco mais fresco nesta longa viagem ao extremo Oriente. Arrasto-me do quentinho de casa para o vento cortante da avenida com uma grande mala e uma mochila nas costas, adapto-me aos elementos da Natureza inspirado pela tartaruga e sua carapaça, e espero por um táxi que me leve ao aeroporto.

O avião da Xiamen Air 厦门航空 prestes a descolar de Amesterdão para Xiamen

Esta minha ida à China tem três propósitos: conhecer a província de Fujian e provar os seus chás mais emblemáticos; trocar ideias e mundividências com os meus amigos de lá; e treinar o meu Chinês Mandarim. Em casa ficam a minha querida mulher e filhos, que desta vez não podem vir comigo. Foi um sacrifício que teve importância ao longo dos dias, mas sem o qual esta aventura não teria sido possível.

O primeiro contacto com a China faz-se ainda em Amesterdão, após curta escala e mudança de avião nesse aeroporto. A companhia é a Xiamen Air e as hospedeiras, perfeitamente sincronizadas e vestidas de azul, fazem uma curta vénia com a cabeça antes de nos contar as instruções de segurança. Ainda passo os olhos pelas revistas Le Point Spectator, estico-me dando graças a Deus por ter três lugares vazios só para mim e, sem dar por ela, o peso da noite abate-se sobre mim na forma do segundo sono mais profundo.


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Domingo, dia 19 de Fevereiro de 2017
Xiamen 厦门

Chego a Xiamen no dia em que cumpro 31 anos de vida feliz. Os meus amigos asiáticos são os primeiros a dar-me os parabéns por virtude do fuso horário, mas são também os últimos parabéns que recebo por causa do bloqueio da China continental ao Facebook e à Google. Preferi não me deixar incomodar por essas restrições para aproveitar melhor o que a China tem para dar, e prometi também não tirar demasiadas fotografias com o meu iPhone novo (apesar da nitidez ser muito superior à do antigo), nem captar imagens sem primeiro contemplar aquilo que me despertou a atenção desprovido de quaisquer lentes ou ecrãs de intermedeio.

Como podem as pessoas dizer que visitaram um lugar quando na verdade não descolaram os seus olhos do telemóvel só para tirar umas centenas ou milhares de fotografias que em nada superam as que já se encontram na internet? Pondo o telefone no bolso, elevo o olhar e posso encarar as pessoas como deve ser - apesar de tantas estarem também absorvidas pelos mundos que aquela meia-dúzia de centímetros quadrados luminosos lhes oferece.

As praias da ilha e o seu mar vigiados pelas torres gémeas de Xiamen

Apesar de não ser a maior cidade (apenas 1,8 milhões de pessoas) nem a capital da província, a ilha de Xiamen é a sede comercial e financeira de Fujian. Antigamente conhecida no Ocidente por Amoy, Xiamen foi visitada por vários navegadores e viajantes, tendo os Portugueses sido os primeiros europeus a fazer a grande viagem marítima no ano de 1541. Em Chinês escrito, cada caractere ou ideograma corresponde a um significado que se exprime em Mandarim falado com apenas uma sílaba. Assim, Xiamen 厦门 é um nome composto por Xià 厦 (palácio ou mansão) e Men 门 (porta ou portal), e significa “porta do palácio”.

O hotel onde fiquei chama-se Millennium Harbourview Hotel Xiamen e pertence a uma cadeia hoteleira que já experimentei noutra viagem à China. Não se pode comparar este hotel citadino ao artístico Millennium Resort Hangzhou, que fica nas viçosas colinas que se desenvolvem desde o Lago Oeste de Hangzhou 杭州西湖e do Rio Qiantang 钱塘江em direcção à aldeia de Longjing 龙井, famosa pelo seu chá verde com o mesmo nome. Oh, que boas memórias dessa viagem também! Mas voltando a Xiamen, o hotel é bastante aceitável e está numa zona onde confluem a baixa da cidade com os seus arranha-céus típicos da finança, uma ruas de prédios de 3 andares em estilo colonial e com boas lojas nos rés-do-chãos, e um bairro de ruas mais apertadas com muita vida e variedade gastronómica. Lá, de noite, pude experimentar uns magníficos pescoços de patos picantes, que me deram num saco de plástico como se se tratassem de guloseimas. Protestei que era muito, que não conseguia comer tudo aquilo naquele momento. “Não se preocupe”, explicaram-me, “pode ir comendo ao longo dos próximos três dias, que isso aguenta bem”.

Canhão Krupp do século XIX, o maior do género, no forte Huli Shan 胡里山

Durante o dia passeei pela orla costeira, cheia de crianças e adultos que brincavam nas praias de areia clara. O clima e a flora são sub-tropicais, com palmeiras e coqueiros com côcos enormes e verdes. Fui a uma aldeia de pescadores onde comi tofu picante. Sabe menos mal que a pestilência do seu cheiro, mas de facto não é um alimento que me entusiasme. Valeu o picante que disfarçou aquele gosto desagradável do tofu e tornou suportável a sua consistência algo esponjosa. Mais adiante, pedi um côco com uma palhinha que me soube bem de refrescante que foi. E em pouco tempo estávamos no antigo forte Huli Shan 胡里山, agora transformado em museu da guerra, em especial dos canhões. Entre algumas dezenas de canhões de ferro das dinastias Ming 明朝(1368–1644) e Qing 清朝 (1644–1911), a principal atracção deste museu era um enorme canhão Krupp com cerca de 87.1 toneladas de peso, 13.9 metros de comprimento e um alcance de fogo na ordem dos 19.8 quilómetros. Considerado o maior canhão costeiro do mundo do século XIX ainda completo, esta peça de artilharia foi encomendada pela China à Alemanha, que recebeu alguns soldados na fábrica da Krupp em Essen para treino especializado com o novo brinquedo. Anos mais tarde, o canhão Krupp viria a afundar um navio japonês, facto muito celebrado no museu.

Antigas caixas de munições, agora canteiros para flores

Diante deste forte em Xiamen, a apenas 2 quilómetros de distância, está a ilha de Kinmen 金门 (ou Quemoy) que é administrada pela República da China 臺灣 (Taiwan). Qualquer chinês da República Popular da China chama a Taiwan de “a nossa Província de Taiwan” e o assunto continua a ser muito delicado e emotivo para eles. Para se ver um chinês triste, basta perguntar-lhe acerca de Taiwan. Em ambas as crises do Estreito de Taiwan nos anos 50 do século XX trocaram-se tiros de canhão de um lado para o outro, e com os restos de bala que encontravam na praia os habitantes de cada lado derretiam o metal para fazer facas que ainda hoje são vendidas nas lojas de recuerdos. E entretanto, grandes caracteres de um lado e do outro do canal fazem propaganda comunista ou nacionalista, consoante a ilha de que falamos. Os ânimos entre as duas partes continuam em ebulição.

O trânsito no Estreito de Taiwan: navios de recreio, pesca, comércio e guerra

Depois de me banquetear na cantina da Universidade de Xiamen, peço desculpa aos meus amigos e retiro-me para o hotel onde caio redondo na cama, com muito sono para acertar. Durmo bastante, na esperança de aguentar melhor o dia seguinte. O mais complicado destas viagens é lidar com o jet lag. Apenas acordo para jantar, dar uma volta ao quarteirão para ajudar à digestão, e voltar ao hotel para dormir o resto da noite, que o dia seguinte promete.


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2ª feira, dia 20 de Fevereiro de 2017
Gulang Yu 鼓浪屿

Acordei bem cedo para apanhar um ferry boat para Gulang Yu 鼓浪屿, uma pequena ilha diante de Xiamen 厦门que na primeira metade do século XIX chegou a ser considerada por “a milha quadrada mais rica do Mundo”. Na verdade, a ilha é tão pequena que não chega a uma milha quadrada, tendo apenas cerca de 2 quilómetros quadrados - talvez a tivessem medido na maré baixa! Nessa altura, os mercadores ingleses, de outros países europeus e do Japão usavam Xiamen como principal entreposto comercial com a China continental, onde construíram grandes fortunas à conta do chá, das sedas, do ópio, da prata e do ouro, e de tantos outros produtos que a China oferecia e procurava. Os mercadores ocidentais habitavam na pequena ilha de Gulang Yu, que era conveniente por ser mais pequena e oferecer um ambiente mais protegido para as suas famílias enquanto eles se deslocavam a Xiamen para os negócios do dia-a-dia. Gulang Yu foi importante até à Primeira Guerra do Ópio (1839-42), e perdeu a sua influência a partir do momento em que os ingleses se mudaram para Hong Kong mais a Sul e aí estabeleceram o seu novo centro de negócios com a China. Mas o encanto desta ilha permanece intacto.

Junto à praia, o antigo Consulado Britânico de Gulang Yu 鼓浪屿

Mal o barco aportou à ilha, cerca de três dezenas de pessoas esperavam os passageiros, exibindo certificados mais ou menos oficiais em como seriam bons guias turísticos para o périplo. No entanto, não lhes ouvi uma só palavra de Inglês. E olhando em redor, notei que o único ocidental (se é que esse adjectivo me pode assentar) era eu. Ao longo do dia fui ouvindo os vários transeuntes a advinhar de onde é que eu seria: Yīngguó rén 英国人 (inglês)?; Mĕiguó rén 美国人 (americano)?; Èluósī rén 俄罗斯人 (russo)? Quando me apetecia, respondia que não, que era um Pútáoyá rén 葡萄牙人 (português) e ríamos juntos; e noutras vezes deixei-os estar a especular e ríamos cada um para seu lado.

Um dos padrões típicos das fachadas nesta zona da China

A primeira coisa que se faz numa ilha é subir ao seu monte mais alto para avistar os seus contornos geográficos e fazer um plano de exploração. Foi o que fiz. Atravessei várias ruas de boas casas em tijolo pintado com riscas pretas a fazer padrões muito interessantes e decorativos; falei com vendedores de rua que mostravam as suas flautas de cerâmica, peças ornamentais feitas de ossos de animais e imensas pérolas de todos os feitios e cores; e fui ao alto do monte chamado de Sunlight Rock 日光岩, onde se tem uma belíssima panorâmica sobre toda a ilha. Se se tiver o dia inteiro para dedicar a este lugar, o esforço da subida é sem dúvida bem recompensado.

As casas históricas de Gulang Yu 鼓浪屿 perante os arranha-céus de Xiamen 厦门

Para além da extraordinária beleza de Gulang Yu 鼓浪屿 (cujo significado literal é “ilhéu das ondas”), com suas praias de areia dourada, exuberante vegetação sub-tropical e numerosos palacetes de arquitectura colonial, algo não batia muito certo neste lugar tão turístico. Depois de percorrer a ilha toda a passo e de me deparar com interessantes particularidades como a arte de aproveitar espinhas de peixe para elaborar quadros decorativos, ou como um museu à beira-mar com os fantásticos pianos que um mercador de Taiwan coleccionou ao longo da sua vida, eu continuava sem perceber o que faltava ali naquele quadro idílico. Prestava atenção aos pequenos pormenores das acções do Homem e da Natureza, e escapava-me aquela diferença tão elementar que só reparei ao dirigir-me para o cais dos barcos: Gulang Yu é uma ilha sem carros. E de facto, não só deles não precisa como, pela dimensão que tem, ganha em não os ter.

Atrás da Catedral Católica de Gulang Yu, várias noivas maquilham-se para sessão fotográfica

No fim do dia, volto à muito maior ilha de Xiamen, olhando a partir do barco a bela ilha de Gulang Yu a ficar mais longe e a acender luzes enquanto o céu escurece camada a camada. Vou jantar com um amigo perto do meu hotel, num cruzamento de ruas muito movimentadas. Instalamo-nos numa varanda sem grades de um rés-do-chão alto, sentados em frágeis cadeiras de plástico, enquanto o dono do restaurante nos traz a comida, os pauzinhos e um rolo de papel higiénico para irmos limpando as mãos quando necessário. Olho para a rua e vejo aqui e acolá mulheres a bater palmas. A quem estariam a aplaudir? Será que avistaram algum famoso que admiram? “Não”, explicou-me o amigo local, “estão apenas a chamar a atenção das pessoas para os seus restaurantes”.

Antiga casa colonial, hoje uma livraria

Estes relatos escritos e fotográficos só não são capazes de transmitir determinadas sensações que apenas lá estando podemos entender, como os barulhos especiais daquelas ruas, cheiros como aquele perfume do tabaco indonésio a ser fumado ali ao lado, ou o prazer de chegar ao hotel para descansar os músculos das pernas depois de um dia de caminhada que me proporcionou vistas tão ricas e interessantes.

Adeus Gulang Yu 鼓浪屿, até à próxima!


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3ª feira, dia 21 de Fevereiro de 2017
Anxi 安溪

Levantei-me cedo para tomar o pequeno-almoço e fazer o check-out do hotel, onde aproveito para deixar alguma bagagem que não vou precisar nos próximos dias, e saio de Xiamen 厦门 bem cedo no comboio. A próxima paragem é Quanzhou 泉州, que é uma cidade maior que Xiamen, apesar de hoje em dia ser bastante menos internacional. Com efeito, durante os dias em que lá estive não me cruzei com um único ocidental. A viagem de 90 quilómetros fez-se rapidamente, num comboio confortável que apanhei após passar em vários controlos de segurança. Mal cheguei, fui direito ao hotel da Xiamen Air para fazer o check-in e deixar bagagens. O sítio é bastante conveniente por ficar localizado numa das avenidas centrais de Quanzhou. Desfiz as malas e descansei cerca de 20 minutos antes de abandonar de novo a cidade, apanhando um pequeno autocarro para Anxi 安溪, conhecida por Zhōngguó chá dōu 中国茶都 - a Capital Chinesa do Chá. Em abono da verdade, devo dizer que não considerei o mercado de chá de Anxi propriamente mais importante do que os mercados que já havia visitado noutras ocasiões em Hangzhou 杭州 na província de Zhejiang 浙江 ou em Kunming 昆明 na província de Yunnan 云南.

O mercado de Anxi 安溪, com a venda de chá Tieguan Yin 铁观音

Os chineses chamam de “aldeia” a Anxi, terra que tem prédios de 20 andares e aproximadamente a mesma população que Viseu. Anxi é especialmente conhecida por um chá Oolong 乌龙茶 chamado de Tieguan Yin 铁观音 e pelo chá branco 白茶 de muito boa qualidade. No que toca ao chá, uma moda mais recente na China é o chamado Chén Pí Chá 陈皮茶, que consiste em encher uma pequena casca de tangerina desidratada com chá branco 白茶 ou com chá Pu’er 普洱. A tangerina recheada de chá vai direita para o bule e confere as estes chás um aroma cítrico suave e levemente adocicado. Esta ligação entre os citrinos e o chá é antiga e muito popular na cultura inglesa por exemplo através do tradicional Earl Grey, que consiste em chá - normalmente preto, mas não necessariamente - aromatizado com os óleos essenciais da bergamota ou com a flor da laranjeira. Apesar de reconhecer que tais chás aromatizados podem ser muito agradáveis, eu tendo a preferir perder-me na imensidão de aromas que um bom chá puro nos pode oferecer por si só.

A tangerina Chén Pí 陈皮, neste caso recheada de chá branco 白茶

Mas tento não ser dogmático e gosto de provar tudo o que seja bem feito, com autenticidade e bons sabores. Após cheirar, tocar e provar dezenas de chás, depois de contactar vários produtores e aprender tanto acerca dos seus processos muito especiais, fiz algumas compras e trouxe amostras para provar mais tarde com a minha querida mulher em Portugal. Voltei a Quanzhou com o cair da noite, deixei as minhas compras no hotel, e decidi ir jantar à zona mais antiga da cidade. No caminho é inevitável reparar nas inúmeras lojas de roupa, tecnologia, jóias e decoração que cobrem ambas as margens das ruas. Lojas bem apresentadas e de marcas boas, que por momentos nos iludem que estamos em Paris ou em Londres até realizarmos que nesta terra ninguém fala outra língua para além do Mandarim ou os demais dialectos chineses.


Rua de Quanzhou à noite, com silhueta do Templo de Kaiyuan 开元寺

A dado momento, decidi entrar numa livraria à procura do “Clássico do Chá” 茶经 (chá jīng) de Lu Yu 陆羽. Não havia, mas encontrei outros livros que me interessaram, desde obras sobre chá e pintura a livros belissimamente ilustrados para os meus queridos filhos. Somo os preços de capa e preparo-me para pagar 175 RMB à saída (cerca de 23 EUR), onde para meu espanto a senhora que me atendia pegou nos livros e os pesou numa balança, cobrando-me afinal apenas 58 RMB (uns 8 EUR). Nunca antes eu tinha pago por literatura a peso! E tão boa, e tão barata... confesso que desejei ter mais uma mala de viagem para encher daqueles livros, e mais uma estante em casa para os acolher condignamente. Continuo a caminhada, vou andando e comendo uma coisa aqui, outra acolá, escolhendo à vista e sem ideia do que seja aquilo que os vendedores expõem na rua. À luz da lua e dos candeeiros, Quanzhou 泉州 parece ser uma cidade encantadora. E é com esse pensamento que volto para o hotel e descanso, com vontade de a poder ver melhor no dia seguinte, à luz do sol.


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(continua...)

a moeda (resposta ao LBM) - JPVM

(Texto originalmente publicado no "Jacaré parado vira mala" no dia 13.02.2017, em resposta a este texto de dia 01.02.2017 de Luís Bessa Monteiro, também publicado no "Jacaré parado vira mala")


Venho desta forma responder ao comentário muito interessante do meu caro amigo Luís BM. E deixem-me dizer desde já que é por isto que gosto de escrever ao seu lado e do João MP, pois assim posso aprender e ter o prazer das boas conversas.

Se o Luís diz não ser especialista em matéria de políticas monetárias, certamente por modéstia, eu então devo afirmar com toda a frontalidade que muito menos especialista serei. Mas como bom ignorante que sou, não deixo de exprimir alguns pensamentos e dúvidas que tenho.

Concordo que enfrentaremos várias dificuldades ao sair do euro. A primeira dificuldade de todas é que estamos há mais de 15 anos sem a experiência política e até pessoal de lidar com uma moeda própria que esteja talhada à medida da nossa realidade. E digo à medida da nossa realidade e não das nossas necessidades, porque as necessidades se devem adaptar à realidade e não o contrário. Quando relegamos a realidade para segundo plano,Pandora trata do resto. Pandora - a que dá tudo - é a Eva da mitologia Grega, que de Zeus recebe um grande jarro como presente de casamento, e com ele a advertência de que nunca o deverá abrir. Mas como seria de apostar, Pandora não resiste à curiosidade e abre esse jarro, comummente conhecido por "a caixa de Pandora", saindo dali para o mundo coisas tão terríveis como a morte, a doença, o desespero, a maldade, a velhice, o ódio, a violência, a guerra e os demais males que vagueiam pelo mundo. Acrescenta Sir Roger Scruton em "As vantagens do pessimismo" (Quetzal Editores 2011) que Pandora fechou imediatamente a caixa, e ficou lá dentro uma prenda - a prenda da esperança: o único remédio, mas também o flagelo final. A esperança, quando bem entendida, é o único remédio; mas facilmente se torna no pior dos males. Ora, a esperança deve não só ir bem acompanhada pela Fé e pela Caridade, como também ser muito bem dirigida para Aquele que realmente nos salva e que nunca nos irá deixar ficar mal. Mas quando pomos esperança na ilusória perfeição das soluções humanas, este triste engano acaba por perpetuar em nós as tormentas dos outros males que saíram da caixa de Pandora, potenciando desse modo o seu impacto destruidor.

Assim, a nova moeda nacional só poderá ser boa se alicerçada na realidade de Portugal, da sua economia e reservas. Devemos fugir da utopia do euro e protegermo-nos das utopias de futuras políticas monetárias, sejam elas keynesianas ou de outra estirpe. E as reservas que dão maior garantia, apesar de tudo, continuam a ser as de ouro. Segundo o World Gold Council, Portugal tem cerca de 382,5 toneladas de ouro, sendo o 12º país com maiores reservas de ouro no mundo. Seria muito bom que pudéssemos voltar a crescer economicamente, a diminuir a nossa dívida pública e a reforçar o nosso tesouro, pois essas são as melhores (senão únicas) garantias internacionais que temos. O dinheiro em Portugal - a nova moeda - deveria depender destes três factores e ser constitucionalmente muito bem protegido das tentações políticas, por forma a atingir credibilidade junto de nós e dos estrangeiros. A partir do momento em que o Governo começa desenfreadamente a brincar às políticas monetárias, a imprimir mais moeda e a mexer nas taxas de juro, tudo está estragado. Os objectivos podem ser os melhores, por exemplo os de fomentar o investimento ou o consumo... mas e quem poupa uma vida toda para ter uma boa velhice e deixar uma boa herança aos seus? O que lhes dizer quando o dinheiro que amealharam com tanto custo passa a valer menos?

Tenho a noção que estou a entrar em território Comanche, pois aqui também há perigos que devem ser acautelados para evitar a concentração de poder em agiotas e usurários tão bem representados por Shakespeare na personagem de Shylock n'O Mercador de Veneza. É por isso talvez necessário encontrar uma via média, pouco intervencionista mas suficientemente atenta para agir quando necessário. Os Gregos Antigos descobriram que um pouco de dívida pode aumentar a riqueza: o devedor fica mais rico porque usa uma propriedade que não tinha; e o credor fica mais rico porque irá colher juros sobre o empréstimo sem perder essa sua propriedade. Mas por outro lado, demasiada dívida torna-se insustentável: o devedor fica mais pobre porque se endividou a um ponto que não consegue pagar e tem de penhorar os seus bens; e o credor fica mais pobre porque não consegue cobrar o que lhe é devido. O clássico problema político é definir o que aqui é "pouco", "muito" e "demasiado", e encontrar uma boa solução para estas situações.

Vem a propósito lembrarmos a história de Sólon e da primeira bolha do crédito de que há memória. Em 594 a.C. Atenas estava à beira duma guerra civil entre credores e devedores por causa de uma situação em que o pagamento das dívidas se tornou insustentável. Chamaram Sólon para apresentar uma solução e a sua proposta terá sido a de imprimir mais moeda e desvalorizar o dracma em cerca de 27%. Esta proposta aliviou os devedores, que ficaram com mais liquidez para pagar as dívidas, e os credores que receberam os pagamentos - apesar de estes valerem menos. E se olharmos para bolhas do crédito mais recentes como a Grande Depressão ou a actual crise (desde 2007 até hoje), vemos que o padrão se repete: desvalorização da moeda e redistribuição da propriedade (riqueza). E depois há uma variável que depende do tipo de pessoas que está no governo nessa altura: ou se deixa os credores abrirem falência e os devedores ficam com a dívida parcial ou totalmente perdoada (mas com menos uma entidade a quem pedir dinheiro no futuro); ou se protege os credores e o Estado paga-lhes essa dívida, seja subindo os impostos ou contraindo mais dívida pública, atirando o desta forma os problemas para o futuro.

A partir daqui, compreendemos que muita dívida é uma catástrofe; e que um pouco de dívida bem pode aumentar a riqueza, mas também não aumenta o dinheiro. Ou seja, a qualidade de vida aumenta porque se consumiu mais, o dinheiro circulou mais e por mais gente, e fizeram-se coisas que de outra forma não seria possível. No entanto, o dinheiro é um bem escasso que não se reproduz pela circulação. Reproduz-se pela emissão de mais moeda que, se não for feito com extremo cuidado e uma inquebrável dependência da realidade produtiva e económica do país, traduz-se numa desvalorização da moeda que perde credibilidade e força a par das poupanças. Se não tivermos cuidado e esta realidade não for tida em conta, geram-se as bolhas especulativas que invariavelmente causam impacto negativo na economia real, ou seja, na vida das pessoas. A estabilidade dos preços, a criação de emprego e o incentivo ao consumo bem podem ser causas nobres, mas a natureza da moeda tem de estar ligada à realidade das reservas e bem blindada à prova de preferências políticas do momento. E uma reserva credível deverá rica em ouro, o metal cujo valor é historicamente do mais estável que podemos encontrar. Não terá sido por outra razão que a Alemanha deu ordem para que se repatriasse mais rapidamente do que planeado boa parte das reservas de ouro que tem em Nova Iorque e Paris, tal como foi noticiado na passada semana. E se a Alemanha prepara uma eventual saída do euro, não será prudente que nos preparemos também?

Voltando às reservas, desta forma a nossa nova moeda teria real valor. Não teria porventura o valor que desejamos a cada momento. Mas teria o valor que qualquer pessoa lhe reconhece. Talvez não fosse a melhor moeda para as políticas socialistas que nos fazem viver às custas dos nossos filhos. Mas talvez por isso fosse uma âncora de realidade que nos permite evitar mais sacrifícios vãos.

Finalmente, o Luís toca no tema dos sistemas eleitorais. É um tema belíssimo que tem tudo a ver com esta concepção de moeda por se tratar de uma aproximação da política às pessoas e por visar a devolução de poder às mesmas. Mas este texto já vai longo e vejo vantagem em prosseguir esse debate num outro post.

sacrifícios vãos - JPVM

(Texto originalmente publicado no "Jacaré parado vira mala" no dia 27.01.2017)


Antes de 1974 sacrificou-se a democracia para se manter o império.
Depois de 1974 sacrificou-se o império para se ganhar a democracia.
A partir de 1986 sacrificou-se a independência para se aceder à Europa.
Desde 2002 sacrificou-se a moeda própria para se atingir a prosperidade.

Em 2017 não temos império, nem democracia, nem independência, nem Europa, nem moeda, nem prosperidade. Temos apenas um conjunto de más decisões baseadas em premissas falaciosas. Temos um país endividado e pessoas com uma carga fiscal insuportável. Trocámos a nossa realidade por utopias e ficámos practicamente sem nada.

Disto tudo que perdemos, o que podemos recuperar? Do império, apenas os laços culturais e comerciais. Da democracia, devolver a Lisboa a capacidade legislativa que foi transferida para os deputados estrangeiros em Bruxelas e Estrasburgo, e que produzem a esmagadora maioria das leis aplicadas em Portugal. Também ajuda à democracia o bom-senso de reconhecer quem ganha as eleições e, já agora, a rejeição intransigente do comunismo e das suas diversas metástases anti-liberais. Da independência, analisar com prudência e aproveitar o que se puder da oportunidade aberta pela saída do Reino Unido da União Europeia. Da Europa, uma relação mais saudável, comercial e nada subserviente com a União Europeia, rejeitando a mentalidade de alunos da Alemanha e França. Da moeda, um novo escudo forte e ligado à realidade da nossa economia e património - Frankfurt fica lá longe, a mais de 2 mil quilómetros daqui. A prosperidade recupera-se caso a caso, família a família, empresa a empresa, com as decisões pessoais de cada um, com menor e melhor intervenção do Estado e um considerável alívio da carga fiscal.

a imoralidade da dívida pública - JPVM



(Texto originalmente publicado no "Jacaré parado vira mala" no dia 04.01.2017)


Se Deus quiser, o meu segundo filho há-de nascer em Maio ou Junho deste ano. Cá em casa estamos muito contentes, a sua Mãe, Pai e Irmã mais velha. No entanto, li anteontem uma notícia que me inquietou: apesar de uma redução que é de saudar embora seja pontual, a dívida pública do Estado ainda anda na ordem dos 241,8 mil milhões de euros - dados relativos a Novembro de 2016. Vamos ter esse valor em conta mesmo sabendo que o contador da dívida pública Portuguesa não cessa de aumentar. Sabendo que somos 10,5 milhões de Portugueses para pagar a conta, isto bem dividido entre todos dá cerca de 23 mil euros a cada um. Mesmo o meu querido filho que não tem culpa alguma nesta conta, já tem a responsabilidade de a pagar. Graças aos sucessivos governos de esquerda e de direita, muitas vezes até arvorados em patriotas, o meu filho nascerá não com um mas dois pecados originais: o herdado de Adão e Eva; e o de mim só pelo facto de ser Português.

Qualquer bebé que nasça no nosso país, nasce já endividado até à ponta dos cabelos que ainda não tem. E os políticos que se deixaram seduzir pela máxima de John Maynard Keynes ("no longo prazo todos estaremos mortos") são aqueles que se esquecem que depois de nós vêm outros como nós, e por isso sentiram-se à vontade para delapidar as riquezas do país e montar esquemas socialistas de dependência das pessoas em relação aos inúmeros subsídios estatais. Se a isso juntarmos um conjunto de obras públicas megalómanas e contratos ruinosos para o bem público, e se considerarmos as vezes em que os Governos decidiram ir além do seu papel, chegamos a um estado de coisas em que o Estado e nós vivemos já não à custa dos nossos pais, mas à custa dos nossos filhos. Sobre eles recairá o encargo de pagar por todas estas escolhas que se fizeram e continuarão alegremente a fazer enquanto houver quem nos empreste mais dinheiro.

Trata-se de um optimismo descontrolado, fazendo fé de que tudo se resolverá no futuro, naquele longo prazo em que todos estaremos mortos. Mas essa crença tem-se vindo a revelar muito imprudente e de uma irresponsabilidade histórica atroz, com consequências já à vista. Logicamente, a geração dos meus filhos não será a primeira a acartar com os sacrifícios. Penso que as pessoas que estão na casa dos 20 a 40 anos - e que portanto têm mais de metade da sua vida profissional contributiva pela frente - não irão receber reforma. O dinheiro que emprestaram ao Estado gastou-se todo, e os nossos poucos filhos (cada vez menos numa sociedade com a pirâmide demográfica invertida) irão talvez ter capacidade de pagar um pouco mais da dívida pública e a subsistência de alguns serviços mínimos do Estado nas áreas da Justiça, Saúde, Educação e Administração Interna. Mas de qualquer forma estou convicto que não pagarão as nossas reformas, seja porque não podem ou porque legitimamente não querem.

Eu assumo sem problemas que não irei receber qualquer reforma, e a ideia é poupar a contar com essa realidade, se possível. Mas por favor, senhores, não façam com que esse esforço seja vão. Temos de adoptar medidas fortes, inclusivamente protecções a nível constitucional, que obriguem os governos futuros a reduzirem a dívida pública todos os anos, proibindo-os de agravar a dívida e os juros ainda mais. Não podemos continuar a eleger aqueles que se limitam a empatar jogos, iludindo os espectadores que se pode ganhar só com alívios toscos da defesa quando a bola nos chega à grande área. E assim tem sido a alternância governativa em Portugal nos últimos anos: governos estáveis, duradouros, que de vez em quando são substituídos por outros governos igualmente keynesianos.

A grande imoralidade da dívida pública é que nos torna cada vez mais dependentes dos credores, fazendo de Portugal um país menos independente e que caminha para um estado agravado de insignificância. Os Portugueses são pessoas que a curto e médio prazo terão gravíssimos problemas de solidariedade intergeracional com a falência do Estado social e as famílias mais frágeis que nunca.

No meu entender, a dívida pública é o nó górdio dos nossos tempos. Ainda hoje o Ministro dos Negócios Estrangeiros disse que "é incontornável a Europa debater o endividamento excessivo que penaliza tantas economias", no entanto considerou que "falta momento e impulso político para discutir as propostas". É sem dúvida incontornável debater o endividamento excessivo senhor Ministro, mas por favor não espere pela Europa para o fazer, nem tão pouco se desculpe com a suposta falta de momento e impulso político. De que nos serve que o senhor ocupe essa cadeira se não é sequer capaz de tomar essa iniciativa? E não é só a difusa economia que a dívida pública "penaliza", esta situação vitima pessoas muito concretas e hipoteca o futuro do nosso país, o nosso e o da nossa descendência. Mas enfim, já é qualquer coisa que o senhor traga este assunto para cima da mesa.

Antes disso, pareceu-me bastante mais completa a proposta que Rui Rio apresentou no passado mês de Dezembro, no sentido de fazer um novo imposto que serveria apenas para pagar a dívida pública mas que não significasse um aumento da carga fiscal. Este tipo de informação permitiria que as pessoas ganhassem maior consciência de quanto devemos enquanto País e quanto cabe a cada um pagar, fiscalizando melhor os políticos e a carestia das suas ideias. Agora urge é debruçarmo-nos sobre esta questão para a tentar resolver de uma vez por todas.

Insisto! - JPVM

(Texto originalmente publicado no "Jacaré parado vira mala" no dia 31.12.2016)


Pela parte que me toca, este blogue corre o risco de virar mala. A probabilidade existe de facto e é forte. Não creio que este exercício venha a ter um impacto enorme, e se o tiver é depois de longos meses de árduo trabalho e um pouco de sorte. Olho para 2017 e o ano que aí vem desenha-se cheio de desafios a todos os níveis: familiar, pessoal, cultural e profissional. Ademais, tenho uma personalidade que tende para o conforto. Há motivos de sobra para esmorecer.

E no entanto, insisto: vamos começar este blogue! Insisto, primeiro que nada, por causa dos meus companheiros desta aventura. O Luís Bessa Monteiro e o João Gonçalo Moreira Pires são velhos amigos, velhos no sentido da azinheira cuja madeira é rija como os seus valores, suas antigas raízes estão bem presas à realidade do chão e seus ramos bem espraiados em direcção a sonhos generosamente banhados pelo sol e por vezes também por alguma chuva. Insisto porque todos os dias me deparo com injustiças, barbaridades que se dizem e fazem e – factor decisivo – que invadem a minha esfera de privacidade para a diminuir ou mudar sem o meu consentimento, beliscando ou até ferindo a liberdade com que eu e os meus fomos concebidos. Insisto porque alguém deve olhar para certas euforias utópicas dos nossos políticos e dizer: “o rei vai nú!”

Insisto porque, como crente que sou, sei que só Deus é perfeito e tenho verdadeira esperança na vida eterna; e por isso mesmo tenho muita cautela com os recorrentes optimismos exacerbados acerca da vida terrena, principalmente com aqueles que nos prometem mundos e fundos em troca de votos e que invariavelmente nos deixam a correr atrás do prejuízo. Insisto porque sei melhor que o Estado o que fazer com a minha vida e com o dinheiro que tenho e ganho. Insisto porque concordo com o Presidente Coolidge que dizia ser “mais importante bloquear as leis más do que passar as boas”. Insisto porque os princípios da vida não devem ser postos em causa e há valores que não são para serem postos à margem da sociedade. Insisto porque a arte deve continuar a ser bela. Insisto porque o dinheiro deve ser real, pois só assim pode servir o Homem. Insisto porque gosto de falar dos prazeres do dia-a-dia.

Em suma, insisto porque me apetece e vejo utilidade em deixá-lo escrito. Porque insisto em transmitir aos meus Filhos o testemunho que recebo de meus Pais. E nesse entretanto, demos vida ao Jacaré!

segunda-feira, 7 de novembro de 2016

Lusophone opportunities in the Indian Ocean

O artigo em baixo foi inicialmente publicado na revista The Brussels Europe Press Club Magazine nº5, de Novembro de 2015.



Lusophone opportunities in the Indian Ocean
by António Vieira da Cruz

Por mares nunca de antes navegados
Passaram ainda além da Taprobana
(Luís Vaz de Camões, “Os Lusíadas”, Canto I)

Portuguese presence in the Indian Ocean
Portuguese is the 6th largest language in the world by number of native speakers and it is spoken by around 250 million people in the five continents. [1] But we might say that Portuguese culture is a tale of three oceans: the Atlantic, the Indian and the Pacific. Most of the times we hear news in Portuguese from Atlantic Brazil, Angola or Portugal; we may also think of Macau and Portuguese interactions with Pacific China or Japan; instead, I chose to write here about our relation with the Indian Ocean. By travelling through this ocean you will certainly face many people with Portuguese surnames, find Portuguese fortresses and churches, or even taste Portuguese cuisine influence in local gastronomy. There is a strong link between those people, those places and Portuguese culture. This is the intangible value of lusophony. But we can go forward – as Portuguese sailors did in the past – and find also very tangible ways to connect people and produce wealth.

Today, 90% of international trade and two thirds of all petroleum supplies travel by sea. Around 70% of the world traffic of petroleum products passes through the Indian Ocean. [2] What happens in the Indian Ocean always had repercussions in other regions. Two proverbs from the 15th century are significant: one says “if the world were an egg, Hormuz would be its yolk”; the other said “whoever is lord of Malacca has his hand on the throat of Venice”. [3] Well, the Portuguese conquered both Hormuz (1507) and Malacca (1511). When the Portuguese conquered Malacca, Ming China’s economy suffered. [4] Former President Hu Jintao recognized China’s “Malacca Dilemma”, by which the country is still dependent on the strait for over 25% of its exports and 15% of its imports. [5] Moreover, “40% of world trade passes through the Strait of Malacca and 40% of all traded crude oil passes through the Strait of Hormuz.” [6]

From the early 16th century until mid 17th century we may say Portugal dominated trade in the Indian Ocean by setting up forts at the important straits and ports along the coasts of Africa and Asia. Like Homer’s Odyssey and Virgil’s Aeneid draw maps to sail in the Mediterranean Sea, we could use The Thousand and One Nights’ Sindbad the Sailor story or Camões’s The Lusiads to sail in the Indian Ocean. From Camões we will find some clues to understand the importance of the Indian Ocean to Portugal and vice-versa. Inspired by the poet I would like to enumerate some key places for the lusophony, starting by South Africa and going through three continents by the ocean’s coastline until the end in Australia.

Cape Town, South Africa
The first European to cross the cape was Bartolomeu Dias in 1488. Until then the cape was called “Cape of Storms” (Cabo das Tormentas), but it was renamed by King John II of Portugal as “Cape of Good Hope” (Cabo da Boa Esperança), revealing his optimism to find a sea route to India. Camões writes about Adamastor, a terrible monster that sunk many ships and tells how the heroic Portuguese sailors overcame this obstacle. [7] The main exports of Cape Town are wine, petroleum products, grapes, apples, pears and quinces. It is also worthy to mention the growing tourism industry and the relevant financial, business services and real estate sectors.

Mozambique
Mozambique is the biggest Portuguese-speaking country in the Indian Ocean. Gas reserves are estimated to be the fourth largest in the world. [8] Mining and quarrying sectors accounted for 1.5% of the economy and energy accounted for 5%. However these sectors were expected to expand by more than 10% per year due to increased output of coal and gas. Important mineral extracted in the country are aluminum (2% of world’s production), beryllium (5%) and tantalum (6%). There is also a significant extraction of marble and production of cement. The main agricultural products in Mozambique are cotton, sugar cane, cashew, copra and cassava.

Zanzibar, Tanzania
Vasco da Gama passed in Zanzibar in 1498 and the island became a Portuguese possession for almost two centuries (1503-1698). Zanzibar's main industries are spices (cloves, nutmeg, cinnamon and black pepper), raffia, and tourism. The island where Freddie Mercury was born also exports seaweed. It is relatively autonomous from mainland Tanzania and Saul Bernard Cohen points out the island’s geopolitical potential: “the durability of the union of Zanzibar and Tanganika is increasingly in doubt. Should Zanzibar become independent, it could benefit from its location to become a gateway state linking East Africa to South Asia and Middle Eastern areas oriented to the Indian Ocean.” [9]

Mombasa, Kenya
Vasco da Gama was not well received by the King of Mombasa, who tried to ambush his units. With 1.3 million people, Mombasa is now the 2nd largest city of Kenya and it was part of the Portuguese Empire for more than 100 years (1593-1698 and 1728-1729). Mombasa has the largest port of Kenya and exports refined oil and cement. Tourism is its main industry.

Malindi (Melinde), Kenya
Pillar of Vasco da Gama in Melinde
Contrasting with the hostile reception south in Mombasa, Vasco da Gama was very well received by the Sheik of Malindi. This is where in The Lusiads the hero Vasco da Gama narrates a part of Portugal’s History. That is already a good reason to visit the place. In reality they signed a trade agreement and the Portuguese explorer hired a Muslim sailor– probably Ahmad ibn Mājid El-Melindi – to guide him through the Indian Ocean water until India. Then, the main exports of Malindi were ivory, rhino horns and agricultural products such as coconuts, oranges, millet and rice. In 1499 the Portuguese established a trading post in Malindi that served as a resting stop on the way to and from India. Malindi remained the center of Portuguese activity in the Eastern Africa until 1593 when the main base was moved to Mombasa. Nowadays the main industries in the region are tourism, cement and cashew.

Adding to the previous mentioned conquests of Hormuz and Malacca, we must ackowledge other strategic places that the Portuguese conquered, such as Socotra Island (Yemen) and Aden (Yemen) to control the entry of the Red Sea; Muscat (Oman), Sohar (Oman), Khor Fakkan (United Arab Emirates), Bahrain, Qeshm (Iran) and Bandar Abbas (Iran) to – with the help of Hormuz (Iran) – control the Persian Gulf.

India and Ceylon
The Portuguese presence in India is well known and lasted for 450 years. I will not take long about this here. Places like Goa, Daman, Dadra and Nagar Aveli, Diu, Kochi, Cannanore or Calecut were part of the Portuguese Empire. Also Mumbai was Portuguese for 127 years (1534-1661) and it was given to the British as a wedding dowry when Portuguese Queen Catherine of Braganza married King Charles II of England. This Portuguese queen was the one who introduced in English society the culture of tea and the use of a fork at the dining table. And today, Mumbai is the largest city in India and one of the world’s biggest with more than 12 million inhabitants. Spices and tea were the main imports from Portuguese India and Ceylon. Ceylon was Portuguese for 153 years (1505-1658), until it was conquered by the Dutch. Nevertheless, there are still many lusophone elements in current Sri Lanka and many people still bear their Portuguese names. Besides tea, Sri Lanka is rich in rubber, coconut and graphite. It is also important to note Sri Lanka’s tourism growing industry and its indisputable centrality in the Indian Ocean.

Chittagong, Bangladesh; and Bago, Myanmar
Also known by Portuguese as Chatigão or Porto Grande de Bengala, Chittagong has now a population of 7 million people and it is the second largest in Bangladesh. In 1598 there were around 2500 Portuguese in Chittagong. In 1616 Chittagong and the island of Sundiva were conquered and the remaining Portuguese people dedicated themselves to piracy. There are many descendents from Portuguese in that area and I met some Christians with Portuguese surnames still. Main industries nowadays are shipping, tea, consumer foods, textiles, cement, real estate and tourism. Chittagong is also central in the BCIM international commercial corridor, which will link Kunming (China) to Mandalay (Myanmar), Chittagong (Bangladesh), Dhaka (Bangladesh) and Kolkata (India). Likewise, other Portuguese adventurers went south to Myanmar and installed themselves in the Kingdom of Pegu (now Bago). Two of them were even acclaimed as kings: Salvador Ribeiro de Sousa and Filipe de Brito e Nicote. Unfortunately, that history did not end well. Brito e Nicote was impaled, his troops were made prisoners for life. Their descendents are still Christians, have Portuguese names and faces and can be found in rural areas in Ava and Bago areas. They are known as the “Bayingyi”. [10]

East Timor
Finally, and leaving many lusophone places to name, we must consider a country that has Portugal’s best support: East Timor. Where the Indian Ocean ends and the Pacific Ocean starts, the eastern part of the island of Timor was governed by the Portuguese and it is a Portuguese-speaking country on the other side of the world. Timor has been developing a partnership with Australia for the extraction of petroleum and natural gas resources in the waters southeast of East Timor. Regarding Australia, some theorists say that the first Europeans to reach Australia were Portuguese. But what we know for sure is that there is a large hardworking Portuguese community in Australia nowadays. [11]

Conclusion
Like the Portuguese, other great nations explored the Indian Ocean. The Ottomans, the Omanis, other Arabs and Persians, the Chinese, the Dutch, the French, the English, and now the Americans, the Indians and the Chinese again, all of them had different experiences on the region. But as we see the Portuguese experience is especially rich. If we dare to rediscover the lusophone Indian Ocean and reconnect with its people, we may find a very interesting advantage for trade and investments. For that, we must embrace lusophone values like the courage to turn a Cape of Storms into a Cape of Good Hope; or to partner with valuable people to achieve better results, like Vasco da Gama and Ahmad ibn Mājid did in Melinde; to think strategically like Afonso de Albuquerque did; and to conquer the hearts of native people, like St. Francis Xavier did in Goa and Malacca where he is venerated still today. So, the remaining question is… when will you start your lusophone enterprise?


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References

[3] KAPLAN, Robert D., in “Monsoon”, p. 7, Random House Trade Paperbacks, New York 2011.
[4] KAPLAN, Robert D., in “Monsoon”, p. 10, Random House Trade Paperbacks, New York 2011.
[7] CAMÕES, Luís Vaz de, in “Os Lusíadas”
[9] COHEN, Saul Bernard, in “Geopolitics of the World system”, p. 376, Rowman and Littlefield Publishers, Oxford 2003