sexta-feira, 30 de junho de 2017

sobre o populismo

(Originalmente publicado no "Jacaré parado vira mala" no dia 30 de Junho de 2017)


Estive esta semana no Estoril Political Forum, que é um encontro de ciência política que o Instituto de Estudos Políticos da Universidade Católica Portuguesa organiza anualmente. O título do encontro que durou 3 dias era “Defending the western tradition of liberty under law” e nele participaram distintos académicos, políticos, diplomatas, jornalistas e interessados em geral. Não pude ir a todas as apresentações que queria, mas houve um debate sobre o populismo que esteve um pouco perdido entre conceitos e autores que pouco ajudavam ao esclarecimento. E quanto a mim, a resposta era muito simples, bastava voltar a olhar para o título do forum: “defender a tradição ocidental da liberdade num Estado de Direito”.

No entanto, o debate foi no sentido de definir o populismo como um ataque contra as instituições representativas e contra a diversidade cultural. Mas o populismo é um ataque a partir de onde? Quando questionamos a boa saúde de uma instituição, estamos a atacá-la? E desde quando é que a diversidade cultural e o multiculturalismo são coisas indiscutíveis e a identidade de um país um tabu? É legítimo fazer estas perguntas, e mais que legítimo é bom para a saúde da democracia e das suas instituições fazê-las. O problema não é questionar.

Diria que a primeira diferença entre um populista e outros intervenientes pode ser uma certa falta de educação e polimento, pois confunde a crítica ao “politicamente correcto” com a tentação de se ser simplesmente “incorrecto”, tanto nos modos grosseiros como na falta de honestidade intelectual. Preocupa-me que esta atitude irada seja tão atraente e charmosa para muitas pessoas que têm também os seus problemas pessoais e assim se sentem por momentos identificadas, tornando o populismo popular. Mas esta distinção não é suficiente. “Como” a questão é posta diz-nos mais acerca do populista, que parece questionar determinada instituição com desprezo existencial, seja essa instituição um dos ramos do poder (legislativo, executivo, judicial) ou uma instituição intermédia que compõe a sociedade civil, como as associações, as igrejas, as escolas, os bairros ou a família.

No meu entender, o populismo é uma atitude revolucionária contra o Estado de Direito, contra as leis e as disposições constitucionais que garantem não só a separação dos poderes como os freios e contrapesos (checks and balances) que nos protegem dum poder absoluto. Para pegar no primeiro e segundo lugares do esquecido concurso da RTP “Grandes Portugueses”, numa ditadura, podemos ter a sorte de ter um Salazar… mas o acaso não evita que a ele lhe suceda um Cunhal. Numa democracia liberal, um Salazar nunca poderia brilhar… nem um Cunhal. A grande desvantagem duma democracia liberal é a de limitar a liberdade criativa do governante, e a sua grande vantagem é precisamente a de limitar a liberdade criativa do governante. A democracia não nos leva necessariamente a eleger a melhor pessoa para o melhor lugar, mas justifica-se por nos permitir expulsar a pior pessoa desse mesmo lugar. É nesse espírito que leio as célebres palavras de Winston Churchill ditas na Câmara dos Comuns (11.11.1947):

Many forms of Government have been tried and will be tried in this world of sin and woe. No one pretends that democracy is perfect or all-wise. Indeed, it has been said that democracy is the worst form of government except all those other forms that have been tried from time to time.

Winston Churchill

Para além das instituições, há quem acuse o populista de “identificar os outros”. Mas não faz parte do debate identificar os outros e aquilo que defendem? Bem sei que não há comunistas tão maus como o comunismo nem cristãos tão perfeitos como Cristo, mas as ideias têm autores e devemos responsabilizar e questionar directamente as pessoas que as defendem. O que não está certo fazer é odiar os adversários e transformá-los em bodes expiatórios, como os nazis fizeram com judeus, ciganos e outras raças. O ódio e a destruição da experiência nazi comprometeu desde então até hoje a busca pelos povos da sua identidade. Mas a identidade, as fronteiras e os países continuam a ter uma razão de ser, razão essa que deve ser investigada e debatida sob pena de aumentarmos a crise de identidade que os povos ocidentais vivem nos dias de hoje e que os terroristas islâmicos e outros inimigos civilizacionais tão eficazmente têm sabido aproveitar.

Deixo a pergunta em aberto, não será “populista” uma palavra da moda para identificar o “revolucionário” - personagem bem mais antigo na história da política? Talvez não sejam exactamente a mesma pessoa, mas esta é a definição simples que mais se aproxima da ideia que tenho do populista. Apesar do tratamento mediático da política apontar noutro sentido, o populismo não é só de direita. Se pensarmos à esquerda, nomeadamente em Chávez, Maduro, Castro, Zapatero, Iglesias, Lula, Sócrates… não são eles excelentes exemplares deste fenómeno? O populismo não é uma ideologia, é uma atitude rude de se estar em público, que inclui uma estratégia de infiltração, conquista e concentração do poder à volta de uma só pessoa.

No fim do debate no Hotel Palácio do Estoril, houve uma aluna de doutoramento que não pode participar no debate por restrições de tempo. Ela estava zangada e achava que não a deixaram falar porque tinham medo daquilo que ela ia dizer. E como não o disse a todos, disse-o a mim: “eu considero-me populista, e acho muito bem que se seja populista! Abomino o politicamente correcto e por isso não me deixam falar. Não sou democrata, sou contra a imigração e digo-lhe mais… eu sou racista”! Enquanto me recompunha de tão desagradável declaração, tentei desviar a conversa para um tema mais simpático sem sucesso, pois fui cortado na palavra. Despedi-me cordialmente e deixei-a a praguejar com um americano contra o politicamente correcto. Penso que esta rapariga estava provavelmente certa em assumir-se como populista. Lamentavelmente, personificava a atitude que acima descrevo e que encontro também noutras pessoas.

Michael Oakeshott

Se queremos combater o populismo, temos de estar aptos a discutir todo e qualquer tema (evitando tabus) importante com elevação, boa educação, respeito pelas opiniões diferentes, respeito pela história e pelas instituições, pacificamente, com espírito aberto e vontade de descobrir a verdade das coisas. Tanto os populistas como muitos dos seus críticos cabem bem na descrição crítica que Michael Oakeshott faz do racionalista:

(…) he is something also of an individualist, finding it difficult to believe that anyone who can think honestly and clearly will think differently from himself.

Não caia eu nesse erro.

12 podcasts que recomendo

(Originalmente publicados no "Jacaré parado vira mala" no dia 29 de Junho de 2017)



Há três ou quatro anos que aderi e considero-me um grande adepto de podcasts. Tal como o video on demand mudou decisivamente a forma como hoje vemos televisão sem estarmos presos a horários e a grelhas de programação, acho que os podcasts - conjugados com o iTunes e outras aplicações de música e conteúdos - são o futuro da rádio. Seja a fazer a barba de manhã na casa-de-banho ou a conduzir o carro para o trabalho, nestes dias em que já não há a oportunidade para ler bons jornais, os podcasts são uma forma muito interessante de acedermos a boas informações, a opiniões e a entretenimento. Aqui deixo 12 podcasts que vivamente recomendo:


Da Política,

- Conversas à Quinta
Periodicidade: Semanal, normalmente a cada Quinta-feira
Duração: 45 minutos
Jaime Gama e Jaime Nogueira Pinto preparam bem os temas (históricos e da actualidade) e conversam com elevação sobre eles a partir das suas experiências e perspectivas muito próprias e interessantes. Com estes dois senadores da nossa praça, um mais à esquerda e o outro mais à direita, temos acesso a abordagens informadas e pensadas sobre os assuntos em análise. A moderação é de José Manuel Fernandes e o podcast é produzido pelo Observador.

- TSF - Governo Sombra - Podcast
Periodicidade: Semanal, a cada Domingo de manhã
Duração: 55 minutos
Carlos Vaz Marques modera e distribui jogo entre Pedro Mexia, João Miguel Tavares e Ricardo Araújo Pereira. O mote é a política, mas o tratamento dos temas está ao nível das tertúlias de taberna. Carlos Vaz Marques tenta demonstrar uma imparcialidade bem humorada, embora por vezes lhe escape um ou outro comentário mais esquerdista. Pedro Mexia tenta ser ponderado e moderado, mas algo “centrão” e dá a impressão que não raras vezes acaba por se deixar seduzir pela moda e contém-se em demonstrar um pouco mais da sua cultura. João Miguel Tavares é um libertário (liberal na economia e nos valores) que se esforça muito por ter piada, normalmente com pouco sucesso. E Ricardo Araújo Pereira apenas leva a sério a forma humorística, muitas vezes em detrimento do conteúdo (tendencialmente da esquerda radical). Mas RAP brilha na defesa da liberdade de expressão, área em que é digno de aplauso. Normalmente pluralista, este programa encontra curiosos consensos: o benfiquismo dos intervenientes (que saúdo), a sua defesa das causas fracturantes (que lamento) e o ataque sistemático e muito veemente ao regime de Angola (que estranho). Este podcast produzido pela TVI e pela TSF já teve melhores dias, mas continua a merecer uma menção.

- Uncommon Knowledge
Periodicidade: Muito variável, em média quinzenal
Duração: Variável entre 30 e 45 minutos
Se ouvirmos Peter Robinson pela primeira vez e sem saber, a sua modéstia não nos permite descobrir que ele é o autor de um dos mais célebres discursos da História, aquele em que o Presidente Reagan se encontra na Berlim Ocidental de 1987 e remata com muita convicção “Mr. Gorbachev, tear down this wall”! 10 anos mais tarde, em 1997, começou o “Uncommon Knowledge”, um programa produzido pela Hoover Institution em que Peter Robinson entrevista demoradamente políticos, filósofos, empreendedores e outras pessoas interessantes, levando-os ao fundo das teses que defendem e tratando-os da forma mais cordial e respeituosa possível. Este ano o programa faz 20 anos com vários formatos e fases, mas a nível de conteúdos ainda não conheceu declínio.

- The Ricochet Podcast
Periodicidade: Semanal, a cada Sábado
Duração: Variável entre 1 hora e 1 hora e 30 minutos
Outro programa com Peter Robinson, agora acompanhado por amigos e num tom mais informal. Enquanto que em “Uncommon Knowledge” Peter Robinson se apaga para dar todo o protagonismo ao entrevistado, aqui podemos conhecer um pouco melhor a sua opinião e a do co-fundador Rob Long, bem como a dos convidados conservadores (mas de várias sensibilidades) que são ouvidos acerca dos assuntos que marcam a actualidade dos Estados Unidos.

- Face the Nation on the Radio
Periodicidade: Semanal, a cada Domingo
Duração: 50 minutos
“Face the Nation” é um dos programas mais antigos da televisão norte-americana, emitido todos os Domingos pela CBS News desde 1954. Apresentar o “Face the Nation” é um lugar de prestígio para qualquer jornalista. John Dickerson assume este papel desde 2015 e traz ao seu programa os mais importantes políticos e jornalistas para dar a sua perspectiva sobre a semana política que passou e a que há-de vir. John Dickerson é um jornalista refinado e mais correcto do que a média, embora por vezes não consiga disfarçar um pouco mais de dureza para com a direita do que para com a esquerda.


Da História,

- Slate's Whistlestop
Periodicidade: Quinzenal, normalmente numa Quarta-feira
Duração: Variável entre 35 e 50 minutos
Outro programa de John Dickerson, neste caso um “one-man-show” sem convidados, em que ele demonstra o excelente trabalho de investigação jornalística e histórica que faz. Na maior parte dos casos, o programa trata de comparar presidentes dos EUA ou membros das suas equipas governativas sobre determinadas políticas, estratégias e atitudes. Para isso, recorre a abundantes fontes primárias e secundárias. É um programa produzido pela Slate Magazine, com temas bem investigados por John Dickerson e por ele tratados com rigor.

- Falar de Memória - Histórias de Macau
Periodicidade: Semanal, a cada Quinta-feira
Duração: Variável entre 6 e 11 minutos
Hugo Pinto introduz e João Guedes discorre sobre acontecimentos, personagens e curiosidades da História de Macau. Transmitido pela Rádio Macau em língua Portuguesa, este programa conta com a experiência e investigação do jornalista João Guedes, que desvenda alguns episódios históricos que aconteceram em Macau. Ficam-se a conhecer factos muito interessantes sobre Macau e a presença de Portugal no Extremo Oriente, embora se tenha de dar um grande desconto aos preconceitos que o investigador não resiste em manifestar contra a Igreja e as tradições, ao mesmo tempo que elogia as alegadas virtudes históricas de certa esquerda progressista, dos liberais e dos maçons. Ainda assim, e separando trigo do joio, podemos aproveitar muitas curiosidades deste podcast. É de salientar também a música oriental do genérico, que ainda não me cansei de ouvir.

- Talking Tea
Periodicidade: Muito variável, em média mensal
Duração: Variável entre 25 e 50 minutos
Ken Cohen é um actor norte-americano que se apaixonou pelo chá. Neste podcast apresentado e produzido pelo próprio, podemos ter acesso a conversas com especialistas, autores, comerciantes e empresários, sempre à volta da história do chá, da sua produção, tipos, geografia e cultura. Para quem se interessa por chá, este é um podcast a ter em conta.


E do Humor,

- Aleixo FM
Periodicidade: Semanal, a cada Quarta-feira
Duração: 4 minutos
João Moreira e Pedro Santo dão voz a mais um programa de Bruno Aleixo, um cão de peluche muito irritável, manipulador e mandão nascido em Coimbra e com afinidades à Mealhada e ao Brasil, acompanhado por dois dos seus habituais companheiros, o Busto (de Napoleão Bonaparte) que se leva intelectualmente muito a sério e o Renato Alexandre (um monstro marinho) que tem a personalidade dum jovem estudante que até tenta ser boa pessoa mas que tem os maneirismos e o intelecto de quem fritou parte dos seus miolos em demasiadas saídas à noite e outros excessos derivados.

- Aleixopédia
Periodicidade: Semanal, a cada Segunda-feira
Duração: 4 minutos
Dos mesmos autores de Aleixo FM, o ponto de partida deste programa é música. Mas o ponto de chegada pode ser qualquer outro tema. Tal como no Aleixo FM e outros programas do delirante universo de Bruno Aleixo, o seu humor é muito diferente de tudo o que já vi. Combinando o nonsense com uma série de preconceitos deliciosos e com expressões geniais, Bruno Aleixo forma um fio condutor de disparates sem malícia que entretém muito. Ambos os podcasts são produzidos pela rádio Antena 3.

- Linha Avançada
Periodicidade: 2 vezes por dia, uma de manhã e outra à tarde
Duração: Variável, entre 4 e 7 minutos
José Nunes é um comentador de futebol que participa com conhecimento num dos inúmeros programas de televisão dedicados ao assunto, mas que há vários anos faz na rádio um apanhado humorístico das principais notícias do futebol Português, intercalando os comentários com músicas divertidas e adequadas a cada tema. Podcast produzido pela rádio Antena 3 com boa disposição.

- Cidade - Quem Nunca?
Periodicidade: Semanal, a cada Quarta-feira
Duração: 30 minutos
Carlos Coutinho Vilhena é um comediante da nova geração, com 24 anos. Tem este programa novo na rádio Cidade, onde recebe 2 comediantes diferentes para fazerem uma caricatura de personagens e aspectos cómicos da vida. O dialecto usado nestes sketches, aparentado com a Língua Portuguesa, contém as expressões que podemos ouvir aos indígenas adolescentes do nosso país. É uma actualização da gramática e vocabulário dos Morangos com Açúcar, e a sua piada depende do rumo da conversa e dos comediantes convidados. Os primeiros programas tiveram altos e baixos, e só o tempo dirá se CCV tem talento para se aguentar neste top 12. Podcast produzido pela rádio Cidade.

As Cortes na República

(Originalmente publicado no "Jacaré parado vira mala" no dia 1 de Junho de 2017)

Vejo várias vantagens na monarquia. Mas o que eu menos gosto nas monarquias é da Corte no seu pior sentido, entendendo-a como aquele conjunto de pessoas que rodeiam o monarca para obter privilégios e poder sobre os demais. Ossnobs, sem nobreza, ostentam títulos e buscam outras formas de poder como um fim em si mesmo; já os nobres, mesmo quando sem título, reconhecem que o poder de que dispõem não é verdadeiramente seu e que deve ser posto ao serviço do Bem Comum em geral e do próximo em concreto.

Cortes Constituintes Vintistas (1820)

Custa-me ver que tantas repúblicas e republicanos convictos acabaram com tantas tradições boas e úteis da realeza ao mesmo tempo que reforçaram o seu pior defeito: a Corte. No posto dos pequeninos aduladores passámos a ter lugar cativo para vários grupos de pressão muito mais brutos, num esquema clientelista mais ou menos legalizado, com uma gigantesca porta giratória a marcar o ritmo dos movimentos de rotação e translação destes autênticos satélites do poder.

Para encontrar exemplos deste clientelismo, não precisamos de ir muito longe. É um exercício arrepiante se pensarmos nos políticos que marcaram as nossas últimas décadas em Portugal e nos respectivos membros das suas Cortes:

Mário Soares – Almeida Santos, António Arnaut, Carlos Melancia
Cavaco Silva – Dias Loureiro, Duarte Lima, Oliveira e Costa
António Guterres – Jorge Coelho, José Sócrates, Armando Vara, Pina Moura
Durão Barroso – José Luís Arnaut, Isaltino Morais, Santana Lopes
Santana Lopes – Aguiar Branco, Gomes da Silva, António Mexia
José Sócrates – Manuel Pinho, Mário Lino, José Lello, Jaime Silva
Passos Coelho – Miguel Relvas, Luís Montenegro, Marco António Costa
António Costa – Pedro Nuno Santos, Rocha Andrade, Ana Catarina Mendes, Carlos César...

Quantos destes não estão ou estiveram a braços com a justiça? Quantos destes são um exemplo de virtudes? Com quantos destes seríamos capazes de deixar os nossos filhos por meia hora que fosse? E eu até acho que Cavaco Silva ou António Guterres, por exemplo, serão pessoas com bom fundo. Mas isso não significa que se tenham rodeado dos melhores conselheiros, antes pelo contrário. Claro que em todos estes governos também houve boas pessoas que eu não mencionei. No entanto, há muitos aproveitadores a chegar aos lugares-chave da administração pública.

Sultão Solimão I, o Magnífico (1494-1566)

Noutros países republicanos também encontramos os piores vícios da Corte, com dinastias políticas a rodearem-se dos mais cúmplices cortesãos. Nos EUA, por exemplo, após Trump ter derrotado o candidato da dinastia Bush nas primárias e a candidata da dinastia Clinton na eleição geral, vemos este Presidente a inventar um poderoso posto de Primeira Filha e a nomear o seu genro para Senior AdvisorComo lembra Philip Mansel na Spectator, também na Turquia o Presidente Erdogan nomeou o seu genro para Ministro da Energia e Recursos Naturais. Em França, o Presidente Macron esboçou um governo de centrão e rodeou-se dos mais importantes empresários e políticos que o apoiaram nas eleições e que, à esquerda e à direita, o aclamam qual Rei Sol. Em Espanha, os dois partidos que suportaram os últimos governos de Zapatero (PSOE) e de Rajoy (PP) e que permitiram tanta corrupção moral e financeira no Estado central e nas autarquias, lá se aguentaram por mais uns tempos no poder após o susto da crise eleitoral que recentemente viveram. Na Rússia, só vinga nos negócios quem está politicamente próximo do Kremlin de Putin. E tal como Putin não esconde a sua inspiração nos Czares, também Erdogan construiu um palácio presidencial maior do que os de outros Sultões Otomanos e Macron faz um uso cénico da política que faz lembrar um certo esplendor (embora decadente) de Versailles. Talvez por prudência ou por feitio, Angela Merkel é mais comedida nas maneiras, mas toda a gente sabe que quem controla a União Europeia é Berlim e que Bruxelas é uma espécie de Brasília ou de Otava, que serve para contentar Rio de Janeiro e São Paulo, ou Toronto e Montreal, ou, neste caso, Paris e Berlim. Angela Merkel é uma Imperatriz que se contenta em exercer o seu poder sem grandes alaridos mediáticos – imagine-se o que será desta Europa quando a senhora for sucedida por um alemão mais espalhafatoso que, dando nas vistas, nos faça ver a triste realidade da nossa condição!

Conselho de Estado com Presidente Marcelo Rebelo de Sousa


Cá em Portugal, o Presidente Marcelo conscientemente prescindiu de promover uma Primeira Dama, invocando que essa figura respeitável é mais própria de uma monarquia que de uma república. Ele lá saberá. No seu caso, por tão afectuoso e popular que é, até ver ninguém se queixa. Mas frequentemente se reúne com a sua Corte, perdão, Conselho de Estado, que é como sempre composto por políticos, magistrados e amigos.

Todo o dirigente precisa de bons conselheiros para pensar nas várias vertentes do problema com que se depara e tomar a melhor decisão possível. Mas estes republicanos de que vos falei, todos eles, assimilaram as Cortes e elevaram este vício do sistema a um patamar superior de corrupção e clientelismo. Com tudo isto, só um Estado mais pequeno e constitucionalmente limitado pode conter a fome dos actuais devoristas. Tal como recentemente dizia Pedro Feytor Pinto, "quase não devia haver governos".

13 de Maio de 2017

(Originalmente publicados no "Jacaré parado vira mala" no dia 14 de Maio de 2017)
---



Não posso deixar de assinalar este 13 de Maio de 2017. Foi um dia riquíssimo e que será recordado por muitos anos no nosso país. Provavelmente nem todos os Portugueses terão tido 3 alegrias como eu. Mas qualquer destes acontecimentos é notável.

Fátima
O Papa Francisco veio a Fátima pela primeira vez na sua vida, neste centenário das aparições, e assumiu vir como peregrino. Rezou aos pés de Nossa Senhora juntamente com mais de um milhão de pessoas, riu, ensinou, e canonizou os mais jovens santos não-mártires da Igreja: os irmãos videntes de Aljustrel, São Francisco e Santa Jacinta. É muito bom para os meus sobrinhos e filhos terem crianças que, com as suas idades, são exemplo de oração, de sacrifício, de bondade, de amizade com Nossa Senhora e com Deus e, enfim, de santidade. “Cantemos, alegres, a uma só voz: Francisco e Jacinta rogai por nós!”

Papa Francisco na Procissão das Velas - Fátima 12.05.2017
Futebol
Ao derrotar o Vitória de Guimarães por 5-0 em Lisboa na penúltima jornada, o S.L. Benfica conquistou o seu 36º título nacional, ou seja mais 9 que o F.C. Porto e o dobro que os 18 do Sporting C.P., seus grandes rivais. A temporada foi pautada por muita tensão, acusações e falta de fair play. O ambiente neste desporto está irrespirável, e para isso contribuem dirigentes, claques, jornalistas e comentadores dos vários clubes. Valeram dois golos de elevada nota artística (Raúl Jiménez e Jonas) e que me fizeram lembrar porque gosto de futebol. E os jogadores do meu clube são tetracampeões pela primeira vez na História do clube. “Que nos campos a vibrar, são papoilas saltitantes!”

Música
Desta vez, no Festival Eurovisão da Canção, ganhou uma bonita música (Amar pelos dois) interpretada por um grande artista chamado Salvador Sobral. Ele tem as suas críticas a fazer a este tipo de concursos, e talvez tenha alguma razão nesses reparos, mas não esqueça que é graças a esses certames que o conhecemos. E Portugal ganhou pela primeira vez este concurso, depois de ter tentado por dezenas de vezes, sendo que nos últimos anos as canções que levámos não tiveram a qualidade de outrora. “Talvez devagarinho possas voltar a aprender…”

Gostava ainda de chamar a atenção para outra canção que me tocou, não tanto pela melodia (normal) mas pela sua mensagem. A música Italiana “Occidentali’s Karma”, interpretada por Francesco Gabbani, faz uma crítica muito interessante da sociedade europeia contemporânea, sublinhando as contradições do relativismo, da cultura da internet, da superficialidade de quem se acha muito cosmopolita e polivalente mas que no fim de contas é apenas mais um macaco no meio de outros. “Namasté, allez!”


Outros assuntos a ter debaixo d'olho
- O ataque informático a várias empresas estratégicas, tanto em Portugal como lá fora. Ainda ninguém explicou que tipo de informação é que os piratas têm em sua posse, mas pode ser um grande abre olhos para os consumidores e clientes. Esta semana, por exemplo, soube que a MEO tem uma ficha de cliente sobre mim, onde vai apontando o conteúdo das minhas interacções com a empresa (contas, consumos, queixas, etc.). A essa ficha sobre mim têm acesso todos os trabalhadores da MEO, mas eu não. Pedi-lhes uma transcrição de todo o conteúdo, que ainda estou à espera de receber. E se eu não gosto que uma empresa faça uma ficha sobre mim, ainda menos me agrada que esse tipo de informação circule pela internet e seja transaccionada.

- O estranhíssimo despedimento do Director do FBI James Comey pelo Presidente Donald Trump. Lembremos que a única vez que um Presidente dos EUA despediu um Director do FBI foi Richard Nixon antes de rebentar o escândalo de Watergate, que o conduziu à demissão forçada da presidência.

- Por falar no Presidente Trump, voltemos ao Papa Francisco que o vai receber no Vaticano no próximo dia 24 de Maio e à saída de Fátima disse que tenta não julgar ninguém sem o conhecer pessoalmente primeiro e que o seu encontro será de grande sinceridade. Também em Portugal se encontrou com Marcelo Rebelo de Sousa e com António Costa. O que lhes terá dito?

Para o Papa, Fátima é um lugar de Paz. E talvez a principal mensagem da sua vinda é que, em Nossa Senhora, “temos Mãe”! Assim seja.

Já Portugal, faz lembrar o Reino Unido dos anos 90, na sua fase Cool Britannia. Portugal está na moda: o turismo continua a crescer, a economia aparentemente também, o Secretário-Geral da ONU é Português, o Presidente da República é muito popular, a Selecção Nacional é campeã da Europa, os melhores jogadores de futebol, futsal e futebol de praia do mundo são Portugueses, temos bons treinadores, agora o vencedor do Festival Eurovisão da Canção é Português, e o Papa Francisco esteve em Fátima. Talvez estejamos perante uma Cool Lusitania. A questão é saber como aproveitarmos esta onda da melhor maneira.

Impressões de uma viagem à província de Fujian 福建 - (V)

(Originalmente publicados no "Jacaré parado vira mala" no dia 20 de Março de 2017)

Padrões e texturas das paredes em Quanzhou 泉州, Fujian 福建, China 中国.

segunda-feira, 20 de março de 2017

Impressões de uma viagem à província de Fujian 福建 (partes I, II, III e IV) - JPVM

(Textos originalmente publicados no "Jacaré parado vira mala" nos dias 18 e 19 de Fevereiro, e 05 e 13 de Março de 2017)


Sábado, dia 18 de Fevereiro de 2017
Lisboa

O meu dia começa com um toque de despertador às 3 da manhã. Já tinha tomado um banho na noite anterior para ir um pouco mais fresco nesta longa viagem ao extremo Oriente. Arrasto-me do quentinho de casa para o vento cortante da avenida com uma grande mala e uma mochila nas costas, adapto-me aos elementos da Natureza inspirado pela tartaruga e sua carapaça, e espero por um táxi que me leve ao aeroporto.

O avião da Xiamen Air 厦门航空 prestes a descolar de Amesterdão para Xiamen

Esta minha ida à China tem três propósitos: conhecer a província de Fujian e provar os seus chás mais emblemáticos; trocar ideias e mundividências com os meus amigos de lá; e treinar o meu Chinês Mandarim. Em casa ficam a minha querida mulher e filhos, que desta vez não podem vir comigo. Foi um sacrifício que teve importância ao longo dos dias, mas sem o qual esta aventura não teria sido possível.

O primeiro contacto com a China faz-se ainda em Amesterdão, após curta escala e mudança de avião nesse aeroporto. A companhia é a Xiamen Air e as hospedeiras, perfeitamente sincronizadas e vestidas de azul, fazem uma curta vénia com a cabeça antes de nos contar as instruções de segurança. Ainda passo os olhos pelas revistas Le Point Spectator, estico-me dando graças a Deus por ter três lugares vazios só para mim e, sem dar por ela, o peso da noite abate-se sobre mim na forma do segundo sono mais profundo.


---


Domingo, dia 19 de Fevereiro de 2017
Xiamen 厦门

Chego a Xiamen no dia em que cumpro 31 anos de vida feliz. Os meus amigos asiáticos são os primeiros a dar-me os parabéns por virtude do fuso horário, mas são também os últimos parabéns que recebo por causa do bloqueio da China continental ao Facebook e à Google. Preferi não me deixar incomodar por essas restrições para aproveitar melhor o que a China tem para dar, e prometi também não tirar demasiadas fotografias com o meu iPhone novo (apesar da nitidez ser muito superior à do antigo), nem captar imagens sem primeiro contemplar aquilo que me despertou a atenção desprovido de quaisquer lentes ou ecrãs de intermedeio.

Como podem as pessoas dizer que visitaram um lugar quando na verdade não descolaram os seus olhos do telemóvel só para tirar umas centenas ou milhares de fotografias que em nada superam as que já se encontram na internet? Pondo o telefone no bolso, elevo o olhar e posso encarar as pessoas como deve ser - apesar de tantas estarem também absorvidas pelos mundos que aquela meia-dúzia de centímetros quadrados luminosos lhes oferece.

As praias da ilha e o seu mar vigiados pelas torres gémeas de Xiamen

Apesar de não ser a maior cidade (apenas 1,8 milhões de pessoas) nem a capital da província, a ilha de Xiamen é a sede comercial e financeira de Fujian. Antigamente conhecida no Ocidente por Amoy, Xiamen foi visitada por vários navegadores e viajantes, tendo os Portugueses sido os primeiros europeus a fazer a grande viagem marítima no ano de 1541. Em Chinês escrito, cada caractere ou ideograma corresponde a um significado que se exprime em Mandarim falado com apenas uma sílaba. Assim, Xiamen 厦门 é um nome composto por Xià 厦 (palácio ou mansão) e Men 门 (porta ou portal), e significa “porta do palácio”.

O hotel onde fiquei chama-se Millennium Harbourview Hotel Xiamen e pertence a uma cadeia hoteleira que já experimentei noutra viagem à China. Não se pode comparar este hotel citadino ao artístico Millennium Resort Hangzhou, que fica nas viçosas colinas que se desenvolvem desde o Lago Oeste de Hangzhou 杭州西湖e do Rio Qiantang 钱塘江em direcção à aldeia de Longjing 龙井, famosa pelo seu chá verde com o mesmo nome. Oh, que boas memórias dessa viagem também! Mas voltando a Xiamen, o hotel é bastante aceitável e está numa zona onde confluem a baixa da cidade com os seus arranha-céus típicos da finança, uma ruas de prédios de 3 andares em estilo colonial e com boas lojas nos rés-do-chãos, e um bairro de ruas mais apertadas com muita vida e variedade gastronómica. Lá, de noite, pude experimentar uns magníficos pescoços de patos picantes, que me deram num saco de plástico como se se tratassem de guloseimas. Protestei que era muito, que não conseguia comer tudo aquilo naquele momento. “Não se preocupe”, explicaram-me, “pode ir comendo ao longo dos próximos três dias, que isso aguenta bem”.

Canhão Krupp do século XIX, o maior do género, no forte Huli Shan 胡里山

Durante o dia passeei pela orla costeira, cheia de crianças e adultos que brincavam nas praias de areia clara. O clima e a flora são sub-tropicais, com palmeiras e coqueiros com côcos enormes e verdes. Fui a uma aldeia de pescadores onde comi tofu picante. Sabe menos mal que a pestilência do seu cheiro, mas de facto não é um alimento que me entusiasme. Valeu o picante que disfarçou aquele gosto desagradável do tofu e tornou suportável a sua consistência algo esponjosa. Mais adiante, pedi um côco com uma palhinha que me soube bem de refrescante que foi. E em pouco tempo estávamos no antigo forte Huli Shan 胡里山, agora transformado em museu da guerra, em especial dos canhões. Entre algumas dezenas de canhões de ferro das dinastias Ming 明朝(1368–1644) e Qing 清朝 (1644–1911), a principal atracção deste museu era um enorme canhão Krupp com cerca de 87.1 toneladas de peso, 13.9 metros de comprimento e um alcance de fogo na ordem dos 19.8 quilómetros. Considerado o maior canhão costeiro do mundo do século XIX ainda completo, esta peça de artilharia foi encomendada pela China à Alemanha, que recebeu alguns soldados na fábrica da Krupp em Essen para treino especializado com o novo brinquedo. Anos mais tarde, o canhão Krupp viria a afundar um navio japonês, facto muito celebrado no museu.

Antigas caixas de munições, agora canteiros para flores

Diante deste forte em Xiamen, a apenas 2 quilómetros de distância, está a ilha de Kinmen 金门 (ou Quemoy) que é administrada pela República da China 臺灣 (Taiwan). Qualquer chinês da República Popular da China chama a Taiwan de “a nossa Província de Taiwan” e o assunto continua a ser muito delicado e emotivo para eles. Para se ver um chinês triste, basta perguntar-lhe acerca de Taiwan. Em ambas as crises do Estreito de Taiwan nos anos 50 do século XX trocaram-se tiros de canhão de um lado para o outro, e com os restos de bala que encontravam na praia os habitantes de cada lado derretiam o metal para fazer facas que ainda hoje são vendidas nas lojas de recuerdos. E entretanto, grandes caracteres de um lado e do outro do canal fazem propaganda comunista ou nacionalista, consoante a ilha de que falamos. Os ânimos entre as duas partes continuam em ebulição.

O trânsito no Estreito de Taiwan: navios de recreio, pesca, comércio e guerra

Depois de me banquetear na cantina da Universidade de Xiamen, peço desculpa aos meus amigos e retiro-me para o hotel onde caio redondo na cama, com muito sono para acertar. Durmo bastante, na esperança de aguentar melhor o dia seguinte. O mais complicado destas viagens é lidar com o jet lag. Apenas acordo para jantar, dar uma volta ao quarteirão para ajudar à digestão, e voltar ao hotel para dormir o resto da noite, que o dia seguinte promete.


---


2ª feira, dia 20 de Fevereiro de 2017
Gulang Yu 鼓浪屿

Acordei bem cedo para apanhar um ferry boat para Gulang Yu 鼓浪屿, uma pequena ilha diante de Xiamen 厦门que na primeira metade do século XIX chegou a ser considerada por “a milha quadrada mais rica do Mundo”. Na verdade, a ilha é tão pequena que não chega a uma milha quadrada, tendo apenas cerca de 2 quilómetros quadrados - talvez a tivessem medido na maré baixa! Nessa altura, os mercadores ingleses, de outros países europeus e do Japão usavam Xiamen como principal entreposto comercial com a China continental, onde construíram grandes fortunas à conta do chá, das sedas, do ópio, da prata e do ouro, e de tantos outros produtos que a China oferecia e procurava. Os mercadores ocidentais habitavam na pequena ilha de Gulang Yu, que era conveniente por ser mais pequena e oferecer um ambiente mais protegido para as suas famílias enquanto eles se deslocavam a Xiamen para os negócios do dia-a-dia. Gulang Yu foi importante até à Primeira Guerra do Ópio (1839-42), e perdeu a sua influência a partir do momento em que os ingleses se mudaram para Hong Kong mais a Sul e aí estabeleceram o seu novo centro de negócios com a China. Mas o encanto desta ilha permanece intacto.

Junto à praia, o antigo Consulado Britânico de Gulang Yu 鼓浪屿

Mal o barco aportou à ilha, cerca de três dezenas de pessoas esperavam os passageiros, exibindo certificados mais ou menos oficiais em como seriam bons guias turísticos para o périplo. No entanto, não lhes ouvi uma só palavra de Inglês. E olhando em redor, notei que o único ocidental (se é que esse adjectivo me pode assentar) era eu. Ao longo do dia fui ouvindo os vários transeuntes a advinhar de onde é que eu seria: Yīngguó rén 英国人 (inglês)?; Mĕiguó rén 美国人 (americano)?; Èluósī rén 俄罗斯人 (russo)? Quando me apetecia, respondia que não, que era um Pútáoyá rén 葡萄牙人 (português) e ríamos juntos; e noutras vezes deixei-os estar a especular e ríamos cada um para seu lado.

Um dos padrões típicos das fachadas nesta zona da China

A primeira coisa que se faz numa ilha é subir ao seu monte mais alto para avistar os seus contornos geográficos e fazer um plano de exploração. Foi o que fiz. Atravessei várias ruas de boas casas em tijolo pintado com riscas pretas a fazer padrões muito interessantes e decorativos; falei com vendedores de rua que mostravam as suas flautas de cerâmica, peças ornamentais feitas de ossos de animais e imensas pérolas de todos os feitios e cores; e fui ao alto do monte chamado de Sunlight Rock 日光岩, onde se tem uma belíssima panorâmica sobre toda a ilha. Se se tiver o dia inteiro para dedicar a este lugar, o esforço da subida é sem dúvida bem recompensado.

As casas históricas de Gulang Yu 鼓浪屿 perante os arranha-céus de Xiamen 厦门

Para além da extraordinária beleza de Gulang Yu 鼓浪屿 (cujo significado literal é “ilhéu das ondas”), com suas praias de areia dourada, exuberante vegetação sub-tropical e numerosos palacetes de arquitectura colonial, algo não batia muito certo neste lugar tão turístico. Depois de percorrer a ilha toda a passo e de me deparar com interessantes particularidades como a arte de aproveitar espinhas de peixe para elaborar quadros decorativos, ou como um museu à beira-mar com os fantásticos pianos que um mercador de Taiwan coleccionou ao longo da sua vida, eu continuava sem perceber o que faltava ali naquele quadro idílico. Prestava atenção aos pequenos pormenores das acções do Homem e da Natureza, e escapava-me aquela diferença tão elementar que só reparei ao dirigir-me para o cais dos barcos: Gulang Yu é uma ilha sem carros. E de facto, não só deles não precisa como, pela dimensão que tem, ganha em não os ter.

Atrás da Catedral Católica de Gulang Yu, várias noivas maquilham-se para sessão fotográfica

No fim do dia, volto à muito maior ilha de Xiamen, olhando a partir do barco a bela ilha de Gulang Yu a ficar mais longe e a acender luzes enquanto o céu escurece camada a camada. Vou jantar com um amigo perto do meu hotel, num cruzamento de ruas muito movimentadas. Instalamo-nos numa varanda sem grades de um rés-do-chão alto, sentados em frágeis cadeiras de plástico, enquanto o dono do restaurante nos traz a comida, os pauzinhos e um rolo de papel higiénico para irmos limpando as mãos quando necessário. Olho para a rua e vejo aqui e acolá mulheres a bater palmas. A quem estariam a aplaudir? Será que avistaram algum famoso que admiram? “Não”, explicou-me o amigo local, “estão apenas a chamar a atenção das pessoas para os seus restaurantes”.

Antiga casa colonial, hoje uma livraria

Estes relatos escritos e fotográficos só não são capazes de transmitir determinadas sensações que apenas lá estando podemos entender, como os barulhos especiais daquelas ruas, cheiros como aquele perfume do tabaco indonésio a ser fumado ali ao lado, ou o prazer de chegar ao hotel para descansar os músculos das pernas depois de um dia de caminhada que me proporcionou vistas tão ricas e interessantes.

Adeus Gulang Yu 鼓浪屿, até à próxima!


---


3ª feira, dia 21 de Fevereiro de 2017
Anxi 安溪

Levantei-me cedo para tomar o pequeno-almoço e fazer o check-out do hotel, onde aproveito para deixar alguma bagagem que não vou precisar nos próximos dias, e saio de Xiamen 厦门 bem cedo no comboio. A próxima paragem é Quanzhou 泉州, que é uma cidade maior que Xiamen, apesar de hoje em dia ser bastante menos internacional. Com efeito, durante os dias em que lá estive não me cruzei com um único ocidental. A viagem de 90 quilómetros fez-se rapidamente, num comboio confortável que apanhei após passar em vários controlos de segurança. Mal cheguei, fui direito ao hotel da Xiamen Air para fazer o check-in e deixar bagagens. O sítio é bastante conveniente por ficar localizado numa das avenidas centrais de Quanzhou. Desfiz as malas e descansei cerca de 20 minutos antes de abandonar de novo a cidade, apanhando um pequeno autocarro para Anxi 安溪, conhecida por Zhōngguó chá dōu 中国茶都 - a Capital Chinesa do Chá. Em abono da verdade, devo dizer que não considerei o mercado de chá de Anxi propriamente mais importante do que os mercados que já havia visitado noutras ocasiões em Hangzhou 杭州 na província de Zhejiang 浙江 ou em Kunming 昆明 na província de Yunnan 云南.

O mercado de Anxi 安溪, com a venda de chá Tieguan Yin 铁观音

Os chineses chamam de “aldeia” a Anxi, terra que tem prédios de 20 andares e aproximadamente a mesma população que Viseu. Anxi é especialmente conhecida por um chá Oolong 乌龙茶 chamado de Tieguan Yin 铁观音 e pelo chá branco 白茶 de muito boa qualidade. No que toca ao chá, uma moda mais recente na China é o chamado Chén Pí Chá 陈皮茶, que consiste em encher uma pequena casca de tangerina desidratada com chá branco 白茶 ou com chá Pu’er 普洱. A tangerina recheada de chá vai direita para o bule e confere as estes chás um aroma cítrico suave e levemente adocicado. Esta ligação entre os citrinos e o chá é antiga e muito popular na cultura inglesa por exemplo através do tradicional Earl Grey, que consiste em chá - normalmente preto, mas não necessariamente - aromatizado com os óleos essenciais da bergamota ou com a flor da laranjeira. Apesar de reconhecer que tais chás aromatizados podem ser muito agradáveis, eu tendo a preferir perder-me na imensidão de aromas que um bom chá puro nos pode oferecer por si só.

A tangerina Chén Pí 陈皮, neste caso recheada de chá branco 白茶

Mas tento não ser dogmático e gosto de provar tudo o que seja bem feito, com autenticidade e bons sabores. Após cheirar, tocar e provar dezenas de chás, depois de contactar vários produtores e aprender tanto acerca dos seus processos muito especiais, fiz algumas compras e trouxe amostras para provar mais tarde com a minha querida mulher em Portugal. Voltei a Quanzhou com o cair da noite, deixei as minhas compras no hotel, e decidi ir jantar à zona mais antiga da cidade. No caminho é inevitável reparar nas inúmeras lojas de roupa, tecnologia, jóias e decoração que cobrem ambas as margens das ruas. Lojas bem apresentadas e de marcas boas, que por momentos nos iludem que estamos em Paris ou em Londres até realizarmos que nesta terra ninguém fala outra língua para além do Mandarim ou os demais dialectos chineses.


Rua de Quanzhou à noite, com silhueta do Templo de Kaiyuan 开元寺

A dado momento, decidi entrar numa livraria à procura do “Clássico do Chá” 茶经 (chá jīng) de Lu Yu 陆羽. Não havia, mas encontrei outros livros que me interessaram, desde obras sobre chá e pintura a livros belissimamente ilustrados para os meus queridos filhos. Somo os preços de capa e preparo-me para pagar 175 RMB à saída (cerca de 23 EUR), onde para meu espanto a senhora que me atendia pegou nos livros e os pesou numa balança, cobrando-me afinal apenas 58 RMB (uns 8 EUR). Nunca antes eu tinha pago por literatura a peso! E tão boa, e tão barata... confesso que desejei ter mais uma mala de viagem para encher daqueles livros, e mais uma estante em casa para os acolher condignamente. Continuo a caminhada, vou andando e comendo uma coisa aqui, outra acolá, escolhendo à vista e sem ideia do que seja aquilo que os vendedores expõem na rua. À luz da lua e dos candeeiros, Quanzhou 泉州 parece ser uma cidade encantadora. E é com esse pensamento que volto para o hotel e descanso, com vontade de a poder ver melhor no dia seguinte, à luz do sol.


---


(continua...)