segunda-feira, 6 de junho de 2011

vencedores, derrotados, surpresas e expectativas


Vencedores:

- Pedro Passos Coelho: Conquistou o voto pela personalidade simpática e autêntica, e por isso confiável. Tem alguma credibilidade mas também suscita algumas dúvidas pela novidade de certas ideias que traz pela primeira vez à política portuguesa. A sua margem de manobra está condicionada pelo cumprimento do acordo com a ajuda internacional e pela crise económica em que vivemos. Mas todo o vencedor tem direito a um "estado de graça", por mais curto que seja.

- PPD/PSD: Teve 38,6% dos votos e elegeu 105 a 108 deputados (falta atribuir os 4 deputados dos emigrantes, e o PSD conseguirá 2 ou 3 deles). Esteve perto da maioria absoluta, que se consegue com 116 dos 230 deputados da Assembleia da República. Será inequivocamente o partido líder do novo Governo.

- CDS/PP: Obteve a melhor votação dos últimos 28 anos, teve 11,7% dos votos e 24 deputados, tantos quanto a CDU mais o BE juntos. Terá 3 ou 4 ministros no novo Governo. Ganhou em tudo menos nas expectativas ainda maiores que ajudou a criar. Paulo Portas é um resistente, lidera o CDS desde 1998 (à excepção do período 2005/06). Terá o objectivo pessoal de ser Ministro dos Negócios Estrangeiros.

- CDU: Os únicos à esquerda que consolidaram os resultados de 2009. A CDU perdeu 5.322 votos, mas subiu ligeiramente a percentagem (graças à abstenção) e conseguiu mais um deputado (16). Ultrapassou também o BE e voltou a ser a 4ª maior força política em Portugal.


Derrotados:

- José Sócrates: Sai de cena pela porta pequena. Despedido pelos eleitores, rejeitado pelo partido e abandonado pelos amigos. A queda foi grande e com estrondo. Demorará tempo a recompor-se e durante a quarentena ninguém se chegará perto. Quando ganhou, todos estavam lá. Agora que perdeu, ninguém quer aparecer com ele na fotografia.

- PS: Teve o pior resultado eleitoral dos últimos 24 anos. Terá apenas 73 a 75 deputados, conforme ganhe mais 1 ou 2 lugares através do voto emigrante. Não soube renovar as ideias, nem as propostas, nem os candidatos, e fez um uso muito criticável da campanha negra. O partido não soube transmitir confiança nem renovação. O desgaste socialista é visível. Será interessante ver como o PS tentará renascer das cinzas e fazer as pazes com o país.

- BE: Perdeu metade dos deputados (de 16 para 8) e volta a ser a 5ª maior força política do país, com 5,2% dos votos. O BE perdeu a frescura, tornou-se previsível e deixou de ser ouvido. Costumava ter também a campanha mais criativa e fora do normal, mas não o foi nestas eleições. Há a sensação que a sua missão histórica foi cumprida, pois infelizmente conseguiu a liberalização do aborto, o casamento para homossexuais, o divórcio expresso, entre outras erosões que provocou na sociedade. Foi o partido que nos últimos anos governou em Portugal no campo dos valores (forçando o PS a ir atrás), e o resultado é a crise de valores que existe e que só não é mais notada por causa da crise económica. O BE continua com "causas fracturantes" para dar e vender, mas os eleitores foram sensatos em pôr-lhe um grande travão nestas suas batalhas.

- Empresas de Sondagens: Andaram todas muito longe da realidade, desde o insistente "empate técnico" anunciado, até às patéticas explicações que foram dando ao longo da campanha. Os métodos não foram claros, e quando foram mostravam falhas grandes. Por exemplo, as sondagens telefónicas que faziam ligando para telefones fixos, quando mais de 40% dos portugueses já não têm telefone fixo. E os portugueses que têm telefone fixo têm características especiais que enviesam a amostra. Lembro aqui o que escrevi sobre como "a melhor sondagem é a que não se publica". Mas nas próximas eleições lá estarão as televisões a dar novamente todo o crédito às sondagens. Podem errar muito, manipular, mas enfim... é o que há.


Surpresas:

- Discurso de Pedro Passos Coelho: sem grandes triunfalismos, prometeu trabalho e acabou cantando o Hino Nacional antes de responder às perguntas dos jornalistas. Tem de se esforçar mais para não ser tão aborrecido no discurso.

- Discurso de José Sócrates: assumiu e aceitou a derrota, retira-se da política partidária activa. Teve um impressionante bom perder, e agradeceu a todos os que o apoiaram, apesar de na sala estarem poucas dessas pessoas. Foi um bom discurso, emotivo, que perdeu muito em ser lido no teleponto. Não se fala dos filhos e de sentimentos como o seu amor a Portugal a ler o que diz o teleponto.

- Elevada abstenção: 42,1% é uma taxa elevadíssima de abstenção dada a encruzilhada muito grande em que Portugal estava e está. Significa que 4 em cada 10 eleitores preferiu não exercer o seu direito de voto e escolher o melhor possível para nos governar. É triste e sintomático. Também é verdade que as campanhas não falaram muito para os novos eleitores e para os habituais abstencionistas. Mas este dado merece uma maior reflexão.

- PAN: Um partido novo e desconhecido que teve uma boa primeira votação graças ao nome "Partido pelos Animais e pela Natureza" e terá capitalizado o descontentamento de certas pessoas desencantadas com o BE, apesar do PAN estar bastante mais ao centro. Não deixa de ser preocupante que o partido se defina por ser pelos animais, e não pelas pessoas.

- MEP: Apesar de ter conseguido uma boa presença na internet e uma grande exposição na TV, os resultados ficaram muito aquém do esperado graças ao voto útil no PSD e no CDS.


Onde "A Conspiração das Teorias" acertou:

- PSD com cerca de 37%: teve 38,6%. As previsões públicas ultrapassavam os 40%.

- CDS um pouco acima dos 10%: teve 11,7%. As previsões públicas andavam pelos 14%.

- CDU um pouco abaixo dos 10%: teve 7,9%.

- BE muito abaixo dos 10%: teve 5,2%.


Onde "A Conspiração das Teorias" errou:

- PS estaria perto dos 32%: teve 28,1%.

- MEP ultrapassaria o PCTP/MRPP: não só não o fez, como ainda ficou atrás do PAN e do MPT.


Expectativas:

- Que o PSD e o CDS se entendam rapidamente para formar um Governo equilibrado e pronto para trabalhar no duro e dar resposta às necessidades do país.

- Que o PSD cumpra o seu programa de fazer "mais e melhor com menos", de cortar as gorduras do Estado, de libertar certos sectores da economia da asfixia estatal e torná-la mais competitiva, de não se esquecer de quem mais precisa.

- Que Paulo Portas e o CDS saibam ser, desta vez, um factor de estabilidade e não o contrário. Que dêem também profundidade de valores ao liberalismo do PSD, dentro da linha que se espera dum partido como o CDS.

- PS deve virar à esquerda e fazer a sua oposição na rua, através de manifestações e greves contra as medidas de austeridade do novo Governo e contra o acordo com a troika que eles próprios assinaram. Oxalá não seja assim, mas é o mais natural de acontecer para um partido reduzido a 73-75 deputados (talvez ganhe mais 1 ou 2 na contagem dos votos emigrantes), com presença nos sindicatos da UGT e com a oportunidade de surfar uma crescente onda de descontentamento social.

- A situação não está fácil e o estado de graça de Passos Coelho e do PSD deve durar menos que o costume. É importante que Passos Coelho concilie a sua capacidade de diálogo com mais convicção e liderança, que ponha ordem na casa e saiba formar um Governo bom e coeso, senão corre o risco de - como diz um amigo meu - se tornar "o António Guterres do PSD". Ou seja, uma boa pessoa mal rodeada.

- Finalmente, espera-se do próximo Ministro das Finanças que seja competente, mas que para além disso saiba inspirar confiança e fomentar valores, como na sua altura fez Ernâni Lopes.


Cumprir os compromissos assumidos. Mas principalmente pensar estrategicamente no futuro de Portugal a médio e longo prazo, com educação, com trabalho e com valores.

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3 comentários:

jg disse...

Nem mais, nem menos, vai-se tornando uma referencia a análise aqui feita!

L disse...

Mais uma vez, brilhante análise. Parabéns!
Subscrevo as palavras do JG.
Grande abraço para os 2!

António Vieira da Cruz disse...

Obrigado caríssimos JG e L.
A análise mais importante está nas palavras do Prof. Ernâni Lopes. Vale mesmo a pena ouvi-lo e guardar este vídeo para voltar a vê-lo de vez em quando.

Abraços aos 2,

AVC