sexta-feira, 3 de junho de 2011

os erros da máquina de campanha mais elogiada


A campanha do PS foi mal conduzida a vários níveis. Foi mal conduzida porque a única coisa de que se falou a respeito do PS nesta campanha, foi de como a sua máquina de propaganda era boa e profissional. Não se falou de propostas do PS para o futuro do país porque elas não existem. E apostou-se na capacidade de resistência de José Sócrates, quando há muitos meses ele já estava manifestamente gasto e sem qualquer capital político. Os pozinhos de perlimpimpim não aguentam a exposição 24h/dia durante uma campanha inteira, e nunca desta maneira.

Foi toda uma sucessão de erros da campanha do PS, que se dedicou unicamente a falar de Pedro Passos Coelho e do PSD, fazendo uso de uma agressiva campanha negra. A emoção que o PS mais explorou em campanha foi o medo, e até essa escolha foi ineficaz, pois o maior medo dos eleitores é que José Sócrates continue a governar.

O povo sabe desculpar erros, mas ninguém gosta de mentirosos compulsivos. Em 2009 as pessoas deram o benefício da dúvida a Sócrates, e com isso mais uma oportunidade de se redimir. O lema de Manuela Ferreira Leite e do PSD em 2009 era "Política de Verdade". Foi uma escolha precoce. Mas a ideia hoje reinante é que a falta de sinceridade de Sócrates é incorrigível. Pergunto-me se o lema "Política de Verdade", dois anos depois, não teria tido muito mais sucesso. Apesar disso, considero o "Mudar" melhor, porque implica acção e esperança. Não fizeram mal em pedi-lo emprestado a Obama.

José Sócrates vai perder as eleições no Domingo. O Governo socialista trouxe-nos a este precipício, o seu líder não tem mais credibilidade, e faltam ideias para o futuro do País.

E quando os homens dos bastidores de uma campanha são notícia, mesmo que aparentemente positiva, isso é mau sinal. Estes têm de ser discretos e deixar o palco para os candidatos brilharem. Se Sócrates não servia (e não serve, está gasto), então deviam ter dado visibilidade aos candidatos a deputados de cada círculo.

A campanha do PS, que a par do CDS/PP foi a mais elogiada pelo profissionalismo, pecou por vaidade e por falta de visão, e foi de longe a campanha que fez os erros mais grosseiros. Desde o princípio que observo isto e não vi ninguém dizê-lo. Digo-o somente agora - a escassos minutos do dia de reflexão começar - porque não queria de maneira alguma contribuir (por mais modestamente que fosse) para a perpetuação socialista no Governo de Portugal.

Dito isto, penso que o PSD vai ganhar com cerca de 37%. O PS ficará perto dos 32%. O CDS um pouco acima dos 10%. A CDU um pouco abaixo. O BE bastante abaixo. E dos partidos mais pequenos, pode haver ainda duas surpresas.

O MEP pode eleger Rui Marques por Lisboa, depois de ter conseguido (por decisão do tribunal) marcar presença no horário nobre dos 4 canais de televisão de sinal aberto, nos últimos 2 dias de campanha, quando os indecisos ainda eram entre 15 e 20%. Mesmo que não eleja o deputado, provavelmente ultrapassará o PCTP/MRPP como 6º partido mais votado, ou o maior dos mais pequenos. Trouxe frescura à campanha através de acções criativas como os comícios mais pequenos do mundo e uma boa presença na Internet. A mensagem é de esperança, palavra que integra o próprio acrónimo MEP.

A segunda surpresa pode ser José Manuel Coelho, candidato do PTP pelo círculo da Madeira. Para ser eleito basta-lhe capitalizar o descontentamento da oposição na Madeira, tirando votos ao PS e CDU, e ter metade da votação que conseguiu na Madeira nas presidenciais de há apenas 5 meses atrás.

Mas acabo como comecei, com a campanha socialista. Depois de uma campanha tão negra e cheia de mentiras e insinuações, depois de tanta emoção falsa e energias negativas, depois de tanto blame game... que estratégia adoptará o PS a partir da próxima 2ª feira para se reconciliar com os portugueses?

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Adenda:
  • vale a pena ler aqui os interessantes comentários a este post.
  • o consultor Renato Póvoas também escreve sobre a possibilidade de o MEP eleger Rui Marques e a curiosidade acerca do impacto dos seus debates na TV, no seu blog Relações Públicas Sem Croquete.
  • e como há imagens que valem mais que mil palavras, recomendo este cartoon do grande blog do cartoonista Henrique Monteiro, HenriCartoon.

11 comentários:

L disse...

António, mais uma vez concordo plenamente com o que dizes. No entanto, lanço-te aqui um desafio: efectuar a mesma análise detalhada da campanha do PSD. Gostava de saber qual o teu ponto de vista da forma como a campanha foi estruturada, independentemente das políticas propostas, etc...

De qualquer das formas, obrigado pelo já longo legado da Conspiração!

Um forte Abraço

Luís Bessa Monteiro

António Vieira da Cruz disse...

Caro Luís,

Obrigado pelo teu comentário.

Vou tentar responder ao teu desafio. Há algumas questões grandes na campanha do PSD.

A primeira é que a campanha do PSD foi muito criticada por fora e por dentro do partido. Algumas dessas críticas foram feitas por ex-consultores do PSD que, penso eu, gostariam de ter sido eles a fazer esta campanha. Será que essas críticas favoreceram Passos Coelho e o PSD, do ponto de vista das expectativas? Com expectativas baixas é mais fácil brilhar, e isso aconteceu no debate com Sócrates.

Claro que houve erros, há sempre, mas não houve erros grosseiros. Por outro lado, também não podemos dizer que a campanha do PSD tenha tido grandes rasgos de criatividade. Não arriscaram, jogaram pelo seguro e tentaram manter a autenticidade do candidato: muito dialogante e explicativo.

As qualidades pessoais de Passos Coelho (mais que as propostas políticas) permitiram-lhe ser a solução do "bom senso" para os problemas que os portugueses atravessam. A realidade e o bom senso em contraste com os líderes dos partidos que podem disputar eleitorado com ele. Tanto Sócrates como Portas representam personagens que já há muito descolaram da realidade. A vantagem de Portas em relação a Sócrates é a ideia que o CDS trabalhou no duro no Parlamento, e o PS está cansado e mais desgastado. Passos Coelho passa a imagem de que está mais fresco e ao mesmo tempo com os pés mais assentes na realidade.

Há uma questão importante tem que ver com o foco da campanha. Se as campanhas dantes eram mais centradas nos partidos, hoje são mais centradas nos candidatos. Mas a tendência é para que o centro da campanha se desloque do partido para o candidato, e do candidato para o votante, e nesse aspecto ainda estamos bastante atrasados em Portugal. Ainda estamos muito na encruzilhada entre o partido e o candidato.

Claro que é preciso arranjar equilíbrios, mas o centro da campanha do PS foi o PSD, e o centro da campanha do PSD foi Passos Coelho. A certa altura falou-se um bocado dos 700.000 desempregados, mas não insistiram demasiado nesse filão.

O PSD podia ter feito uma melhor campanha, podia ter arriscado mais, mas foi conservador na antiga maneira de fazer campanha e isso também não lhe correu nada mal. Parece-me que a campanha que tentou ser mais criativa dentro da responsabilidade, e que centrou a mensagem mais no votante, foi a do MEP.

A tendência das campanhas do futuro tem de ser essa. Entre os principais 5 partidos, a campanha não foi muito emocionante, e só através da emoção se pode conquistar novos votantes, tanto entre os que votam pela primeira vez, como entre aqueles que normalmente se abstêm. Os 5 maiores partidos contentaram-se com o tabuleiro de jogo que já tinham em 2009, e pouco ou nada se dirigiram aos jovens e aos abstencionistas.

O que te parece? Gostava de saber a tua opinião também sobre a campanha do PSD e as outras.

Grande abraço,

AVC

António Vieira da Cruz disse...

Houve aqui uma ponta que ficou solta. As emoções servem para chamar a atenção do votante, mas depois claro que é preciso dar razões para o voto. Só que a emoção tem de vir primeiro, senão estamos a falar para o boneco.

AVC

jg disse...

Caros António e Luís

Não podia estar mais de acordo quanto às análises das campanhas. O PS espremeu o que ainda havia de José Sócrates, jogou com o medo e aproveitou-se de quem pouco ou quase nada tem para "dar corpo" a comícios. Foi uma campanha de bluff, como alguns animais que, quando ameaçados, incham para parecerem maiores e levar os predadores a pensar duas vezes. Muito vistosa mas com pouco ou nenhum conteúdo.

Já a campanha do PSD, apesar de tanta coisa que me poderia afastar, teve, como bem disseste António, na pessoa do seu candidato, o grande trunfo que acabou por me conquistar. Confesso que não fui o seguidor mais atento, mas quando ouvi passos coelho falar, de pouco discordei. Um facto curioso é que a maioria dessas discordâncias estiveram no princípio da campanha (até em pré-campanha). Seria por ser um período ainda experimental, de ajustes com o que o eleitorado gostaria de ouvir? Deixo a questão.

Quanto à decisão final, acho que a aparente humanidade, sinceridade, ponderação e bom senso que Passos Coelho transmitiu, a par com um discurso de futuro e esperança através da verdade, serão o que poderá levar mais gente ao voto no PSD.

Grande Abraço a ambos

JG

António Vieira da Cruz disse...

Caro JG,

Obrigado pelo teu comentário.

O bom senso estabelece uma ligação de confiança entre o candidato e os eleitores. Pedro Passos Coelho nem sempre disse coisas com que concordo, mas um dos seus grandes trunfos é a autenticidade. Ou seja, comunica com aquilo que é e a sua mensagem bate certo com a personalidade. Sócrates e Portas são personagens que já ganharam vida própria além de si mesmos, e como que "escravizam" essas pessoas que lhes dão carne.

Nem tudo neste circo mediático é controlável, e os candidatos muitas vezes acabam por ser vítimas de si próprios. Só com humildade Passos Coelho pode defender este seu grande activo que é a autenticidade, e retardar a sua quase inevitável degradação.

Foi nesse sentido o conselho que Marcelo Rebelo de Sousa lhe deu, e sobre o qual este cartoon faz paródia:

http://henricartoon.blogs.sapo.pt/363810.html

Um abraço,

AVC

Anónimo disse...

Caro António, para começar muitos parabéns pelo blog.
Não percebi o que queres dizer com "Tanto Sócrates como Portas representam personagens que já há muito descolaram da realidade." e com "A campanha do PS, que a par do CDS/PP (...) foi de longe a campanha que fez os erros mais grosseiros." podes-me explicar, sff? Abraço Tomás Torre do Valle

António Vieira da Cruz disse...

Caro Tomás,

Obrigado pelo teu comentário.

Começo pelo fim. Não fui se calhar muito claro quando escrevi isto:

"A campanha do PS, que a par do CDS/PP foi a mais elogiada pelo profissionalismo, pecou por vaidade e por falta de visão, e foi de longe a campanha que fez os erros mais grosseiros."

Por outras palavras, o que eu quis dizer foi que:
1. As duas campanhas mais elogiadas foram a do PS e a do CDS/PP.
2. A campanha do PS foi arrogante e não mediu bem o terreno, e a partir daí fez uma série de erros grandes, alguns dos quais eu tentei expôr.

A campanha do CDS/PP também foi muito elogiada mas quanto a mim, ao contrário da do PS, não fez grandes erros. Antes pelo contrário, acho que foi uma das melhores campanhas e os elogios que teve são merecidos. Apesar de que, como também disse, é mau sinal quando os profissionais da campanha são notícia. Porque isso rouba espaço mediático aos candidatos, que é quem deve brilhar.

Um outro problema tem a ver com as expectativas que cresceram muito, e que faziam esperar que o CDS/PP ia ter cerca de 14%, quando acabou por ter 11,74%. Este é um grande resultado para o CDS/PP, histórico, o melhor dos últimos 28 anos. Mas as expectativas exageradas e não correspondidas que criou junto dos media, tiraram algum brilho mediático aos seus excelentes resultados. A certa altura, o deslumbramento foi tal que Paulo Portas disse que era candidato a Primeiro-Ministro. A minha opinião é que a campanha do CDS/PP devia ter sido mais prudente e fazer uma melhor gestão das expectativas. Mas repito, o CDS/PP fez uma das melhores campanhas destas eleições.

Quanto ao Paulo Portas, ele é um dos melhores "campaigners" portugueses, tem um bom discurso e, talvez pelo seu passado jornalístico, faz uma coisa melhor que qualquer outro político em Portugal: as palavras que diz fazem os títulos das notícias nos jornais do dia seguinte. É o mestre do "sound bite".

(continua...)

António Vieira da Cruz disse...

(...continuação)

Mas Paulo Portas é também o líder político há mais anos na ribalta. É dirigente do CDS/PP desde os anos 90, e líder desde 1998 (só com dois anos de descanso pelo meio). Ao longo desses anos todos, ele foi projectando uma imagem que se foi afastando da proximidade que ele tinha com o português comum. No princípio ele era conhecido como o "Paulinho das Feiras", que sabia o preço do pão e do bilhete de autocarro. Depois, caso a caso e ano após ano foi-se afastando dessa imagem. Primeiro foi o caso da Universidade Moderna, antro maçom que acabou fechado e com várias prisões. Paulo Portas dirigia o centro de sondagens dessa universidade, e por causa disso, foi apanhado a mentir, dizendo que um célebre Jaguar lhe tinha sido oferecido pela sua mãe. Depois disso foi Ministro, assumiu uma pose e um discurso muito estadista, talvez mais adequado às suas funções, mas incompreensível para quem antes o conhecia como o "Paulinho das Feiras". Como Ministro assinou a polémica compra milionária de submarinos velhos, coisa que ainda hoje lhe tira votos e suscita muitas dúvidas. E ao deixar o Ministério da Defesa, Paulo Portas nunca explicou bem porque tirou mais de 60 mil páginas de fotocópias de documentos do Ministério, nem convenceu que esses documentos não continham segredos de Estado.

Tudo isto, injustamente ou não, faz com que a imagem de Paulo Portas não seja fácil de comunicar com autenticidade. Há coisas nele que simplesmente não pegam. E curiosamente, no debate com José Sócrates, ele não olhou para Sócrates quando se dirigia a ele, nem para a câmara quando se dirigiu a nós. Falou com os olhos pregados ora no chão, ora no infinito. Sentiu-se o seu desconforto, e é pena porque a linguagem não-verbal representa mais de 70% da impressão total que um espectador faz do candidato.

Ao longo da campanha Paulo Portas foi recuperando como pôde, e o CDS/PP fez uma campanha boa, no sentido de passar a mensagem verdadeira de que o partido trabalhou muito no Parlamento e merecia crescer.

No fim tiveram um grande resultado e espero que façam uma boa coligação estável de Governo com o PSD. O CDS/PP representa certos valores que deviam estar muito mais presentes nas decisões de Governo.

Grande Tomás, já escrevi demais. Gostava de saber também as tuas opiniões sobre a campanha e os resultados. Um grande abraço e obrigado,

AVC

L disse...

Olá António!

O que me parece desta campanha eleitoral é que quase nunca se falaram de propostas para o país (pelo menos foi essa a mensagem transmitida pelos meios de comunicação social).

Quanto ao PSD, apenas tenho a dizer que muitas vezes a calma e tranquilidade de Pedro Passos Coelho (PPC) foi muitas vezes contrária ao teor do seus discurso. Nunca fui apologista de ataques pessoais em campanha e isso, a meu ver, foi o ponto mais negativo.

E agora? Novo governo com coligação, Portas com a pasta dos Negócios Estrangeiros, resta saber quem vai pegar na pasta das Finanças e da Economia (pode ser que na óptica de PPC, estes dois ministérios se possam fundir). E, para mim, o próximo ministro das finanças vai ser o elemento chave do país na resposta à crise.

A curiosidade é muita. Não acredito que seja Catroga. Está desgastado e a idade começa a pesar. É preciso alguém novo com "sangue na guelra"!

Quais as tuas sugestões?

Grande Abraço.

LBM

António Vieira da Cruz disse...

Grande Luís,

Obrigado pelo teu comentário.

Concordo com o que dizes, ninguém gosta de campanhas negativas. No entanto, são necessárias.

Apesar de tudo, podemos fazer uma distinção importante: uma coisa são campanhas negativas, outra coisa diferente são campanhas negras, e ainda outra são as campanhas sujas.

Uma campanha negativa expõe os pontos fracos do adversário. A campanha negra baseia-se no medo. E a campanha suja inventa, distorce, mente, lança suspeitas e boatos.

É necessário expor os pontos fracos do adversário e contrastá-los com os pontos fortes do nosso candidato. Para isto acontecer, é preciso fazer-se campanha negativa.

Normalmente, em Portugal há poucos indecisos para convencer. Então, os objectivos de qualquer campanha são dois: levar os nossos a votar e convencer os outros a ficar em casa. Os nossos precisam de ter razões positivas para nos escolher. Os outros não vão votar em nós, se votarem é só no outro. Então, faz-se a campanha negativa para tentar que fiquem em casa.

Uma parte da grande abstenção das últimas eleições poderá ser explicada pela excessiva negatividade desta campanha.

Mas concordo com aquilo que disseste.

Ainda não tenho uma ideia sobre quem deve ser o próximo Ministro das Finanças, mas acho que tu a tens. Qual é?

Penso apenas que deve ser competente para cumprir os objectivos a curto-prazo e definir uma estratégia para o médio-longo prazo. Deve ter e inspirar valores.

E depois das corrosivas declarações da Ana Gomes, não tenho a certeza que Paulo Portas será o próximo MNE.

Um abraço,

AVC

L disse...

António,

Não tenho nenhuma "proposta" para a pasta das Finanças. Apenas defendo imparcialidade política e alguém numa faixa etária que consiga ter: Experiência, fundamental para qualquer ministério e, capacidade de trabalho e liderar com stress. Assim, acho que existe um factor chave que é a idade dessa próxima pessoa. Tenho as minhas preferências que te direi quando oportuno.

Forte Abraço,

LBM